EntreContos

Literatura que desafia.

O Homem (Agnes Sacramento)

Abriu os olhos e viu o mesmo de sempre: nada, apenas as paredes mofadas, sem cor, o armário velho, com a madeira descascando. No canto ao lado o criado mudo, com uma moringa vazia e um copo embaçado, sujo, com marcas de dedos.

No teto, teias de aranha e um ventilador que não funcionava há um bom tempo, mas servia para iluminar um pouco aquele pequeno quarto.

Fechou os olhos novamente. Tentou dormir. Rezou, pensou nos cinco comprimidos que tomara, na esperança de apagar, pelo menos por uma noite.

Estava exausta, massacrada pelas madrugadas a fio que passava de olhos abertos, olhando para aquelas mesmas paredes, paredes nuas e cínicas – ela sabia -, que só esperavam que ela fechasse os olhos para tudo recomeçar.

Débora já não lembrava exatamente de quando tudo havia começado, pensava mesmo que desde que se entendia por gente vinha sendo atormentada por “ele”, o habitante daquele quarto, da casa onde ela nascera e vivia, há exatos trinta e um anos.

Chegava a sentir saudade do tempo em que pensava que aquele homem, a mulher velha, o moço na cadeira de rodas e a menina, de uns quatro anos eram apenas (era o que os adultos diziam), amigos imaginários.

Hoje ela torcia para que fossem todos mesmo imaginários, ainda que inimigos.

Sim. Imaginários, como lhe explicara o psiquiatra do hospital onde esteve, numa de suas inúmeras internações. Aquela sensação tão conhecida, misto de alívio pelo torpor provocado pelas drogas (pelo menos dormia e não via, nem sentia o que “faziam” com ela), e uma sensação de fracasso, de ser a eterna doente que via o que ninguém mais via, ouvia o que não estava lá.

“- Imaginários – dissera o doutor – apenas imaginários. Você sofre de esquizofrenia, Débora. Vamos iniciar o tratamento e certamente a melhora será notada. Talvez você consiga ter uma vida útil, produtiva. Mas não poderá mais ficar sem medicação.”

E foi isso. Débora, a menina que via coisas que ninguém mais via, que ouvia vozes que não existiam, era esquizofrênica, era o diagnóstico.

Tinha vinte e oito anos na época e a família ficou até aliviada, principalmente porque ela passou uns seis meses internada, e fez de tudo para acreditar, sim, que a doença era a causa dos móveis pesados que mudavam de lugar, dos arranhões pelo corpo de Débora, em locais que ela não alcançaria, sim, era a doença, claro, que certa vez havia feito a moça levitar, na frente dos pais – assombrados, incrédulos e desesperados.

Lembrava do primeiro contato com o “Homem”.

Era assim que ela se referia ao que parecia o chefe daquela turma.

Um homem grande, estranhamente grande, sempre vestido com um sobretudo preto e usando um chapéu que ocultava seus olhos e nariz, deixando apenas a boca de lábios finos e repuxados à mostra.

Quando ele sorria, cinicamente, mostrava os dentes pontiagudos, que oscilavam entre o podre e o brilhante (ela achava isso bonito, quando criança), e sempre falava com uma voz rouca, numa linguagem ininteligível, uma espécie de código, que só os dois compreendiam. Viajou no tempo e lembrou de quando tudo começou, uma lágrima desceu pelo seu rosto, sabendo que estava muito perto de resolver tudo aquilo…

Certo dia estava brincando, no quintal de casa, quando escutou alguém chamando:

“Débora, venha cá, venha falar comigo…”

Inocente, e um pouco assustada, a criança circulou toda a frente da casa, lentamente, sabendo que a voz partia dos fundos.

É. Só podia ter vindo de lá, logo o canto mais escuro e abandonado da casa, onde o pai tinha feito uma espécie de quartinho de ferramentas, e sempre se encontrava de tudo, de ferramentas à poeira, aranhas e coisas que só ela, Débora, podia ver.

O quarto. O lugar que ela havia sido proibida de ir, mas a voz era insistente, parecia conhecê-la tão bem, melhor que ela mesma se conhecia.

E ela seguia, como que hipnotizada, ao encontro da voz gutural, chamando cada vez mais alto o seu nome.

De repente todo o pátio escureceu e uma ventania vinda não se sabe de onde levou as roupas do varal, fez voar folhas, sacudiu fantasmagoricamente os galhos das árvores, que pareciam braços finos e retorcidos, querendo arrastá-la.

A menina, aturdida e lutando contra o vento, levantou os olhos e olhou para o quartinho: vinha de lá uma estranha luz, uma luz que não iluminava, não brilhava. Somente aquecia. E estranho: ela suava frio.

Parou em frente à porta, pensando se entraria mesmo lá, trêmula, e a voz, cada vez mais imperativa, exigindo que entrasse.

Então, sentindo o sangue gelar, fixou o olhar, viu as pernas: compridas e finas dentro de uma calça preta, os sapatos marrons de bico fino, batendo no chão com uma paciência calculada, devia ter mais de 2 metros, pois quase alcançava o teto – notou apavorada.

Débora resolve dar meia volta e correr para casa, chamar a mãe, dizer que um intruso estava na casa.

Mal pensou em fazer isso e sentiu, de costas para o quarto, a mão gelada nos seus pequenos ombros. Paralisada de medo não conseguiu emitir nenhum som, ou correr, queria desmaiar, acordar, quem sabe era um pesadelo? Mas não, o homem a levou para dentro da pequena oficina, seus pés debatendo-se, num esforço inútil para libertar-se.

A menina podia sentir o bafo quente do Homem, um cheiro estranho que ela não conseguia definir -cheiro de morte -, de algo de muito longe e além do tempo e espaço, que ela não vivera, mas que, num misto de pavor e entrega, ansiava para descobrir, e ao mesmo tempo, fugir.

Lembrou daquela boca imensa e fétida aproximando-se da sua, enquanto o Homem inspirava como se estivesse roubando sua alma. Foi tudo o que conseguiu perceber, antes de desmaiar.

Acordou sem saber quanto tempo havia decorrido, se aquilo fora sonho, ou realidade. Olhou em volta e viu somente os objetos de seu pai, o quartinho de ferramentas de sempre.

Correu e se escondeu em casa, contou para a mãe, que não acreditou, pensou que fosse brincadeira de criança.

O tempo passou. Débora cresceu, saiu de casa, fez faculdade, correu o mundo e voltou.

Nunca se recuperou completamente do que aconteceu naquela distante tarde de sua infância. Vivia.

Um dia estava lendo na sala de casa, quando começou a ouvir uma voz chamando seu nome.

Vinha da oficina. A oficina que não saía de sua memória, a mesma oficina e o pesadelo que ela vivia tentando banir de suas lembranças.

Caminhou até os fundos. Débora chorava assustada, tentando lembrar-se de alguma oração, mas não!, Não conseguia pensar, não podia balbuciar uma palavra sequer, os próprios pensamentos perdiam-se no abismo causado pelo imenso pavor, o frio gélido da oficina amortecendo pouco a pouco seus reflexos, pensava na mãe, nas histórias de horror que tinha ouvido até então, tentava compreender o que estava vendo e sentindo, se estava “realmente’’ vendo.

Lembrou do que vivera, aos quatro anos de idade.

“Débora é louca…” – ouvira certa vez a professora da escolinha dizendo para a mãe de um coleguinha.

Parou em frente ao quarto, tensa, acendeu a luz e entrou. Débora riu de si mesma, não havia nada ali, é claro – pensou.

De repente a lâmpada estourou e foi agarrada pela mão áspera como couro gasto, um pouco escorregadia, como pele de sapo. Tentou virar a cabeça em direção ao ser pavoroso que tocava seu queixo, foi erguendo seu rosto, vagarosamente.

Tomada pelo pânico viu o sorriso podre, os dentes afiados e grunhiu: “Olá, Débora. Como tem passado?”.

Débora perdeu o chão, perdeu o controle, perdeu a pulsação por alguns instantes, e usando de toda a força de vontade que podia ter, gritou pela mãe.

E sem forças, foi ao chão, vendo a figura horripilante, os braços com aspecto de cobras, e as mãos imensas e unhas afiadas, em cima dela, o bafo repugnante no pescoço, gritos alucinantes vindos de um canto escuro no quarto tornando tudo ainda mais apavorante.

Débora sentiu que estava sendo possuída pela bizarra criatura, sentiu nas entranhas a dor lancinante, quando foi penetrada.

Tudo foi perdendo o foco. Desmaiou. Acordou no quarto.

Olhou em volta e o que viu foi a mãe, chorando, ao seu lado, de pé, um médico, dizendo que “estava tudo bem, que a moça estava acordada, provavelmente desmaiara por falta de vitaminas, nada mais”.

E foi embora. A mãe abraçou Débora, tentou se enganar, buscar algum alívio, nas palavras do sábio doutor.

Débora, em pânico, não conseguiu falar, não conseguiu pedir à mãe que ficasse ali, com ela, porque no canto do quarto, ao lado do guarda roupas, estava o mesmo ser horripilante, que a sodomizara na oficina, horas antes.

O mesmo homem, de anos atrás, quando era ainda uma menina, aquele homem com aspecto de cobra e olhar de quem era seu dono, ameaçador e confiante, como se a conhecesse de outros tempos.

O demônio, Débora pensou, enquanto seu olhar vazio e esmagado pelo terror encarava a criatura.

E ela fazia com o indicador um cínico pedido de silêncio em direção à jovem, pálida e cada vez mais sem forças, mais apavorada.

A mãe trouxe um copo de leite, que Débora bebeu, forçando-se a fechar os olhos, para não ver a figura demoníaca que agora estava de pé ao seu lado, e ao lado da mãe.

Finalmente os pais acharam que estava tudo sob controle, e resolveram que aquela era hora de dormir. Sua mãe se levantou, apagou a luz do abajur, passou a mão pela sua cabeça, dizendo que tudo ficaria bem, que ela descansaria e amanhã seria tudo diferente, estaria tudo normal.

A mãe – é claro -, não viu, mas o Homem acenou para ela, e deu um sorrindo em direção à Débora, que tremia, sob os lençóis.

A jovem não sabia mais o que pensar ou fazer, mas dessa vez o Homem não estava sozinho, outros seres infernais passeavam por todo seu quarto, falando coisas desconexas e fazendo ameaças silenciosas.

Tentou falar, tentou gritar para os pais que enquanto ela estava ali, na cama, figuras grotescas passeavam pelo teto, rindo e mostrando a língua, sumindo e reaparecendo nas cobertas, bem perto dela. Mais perto, mais perto, podia sentir o hálito horrível que vinha da boca daquelas coisas inomináveis.

E estranho, ouviu a mãe dizer “boa noite, amor!”, e enquanto ela fechava a porta, na semi- escuridão do quarto, parado atrás da porta, estava o homem, agora corpo inteiro, com aquele sorriso horripilante, brilhante no escuro, um brilho esverdeado, que não iluminava.

Tentou gritar, a voz não saía. A mãe, sorridente (do que a mãe ria? – pensou), fechou a porta, enquanto a criatura que ela apelidara de “O Homem” pedia silêncio, sempre silêncio – indicador sobre os lábios, lábios que ela não podia divisar, em meio aquele tanto de carnes putrefatas, asquerosas.

Rezava para que tudo não passasse de um terrível, o mais terrível pesadelo que alguém já tivera… mas não, podia sentir pelas batidas do coração que estava muito bem desperta, e que todas aquelas criaturas iriam finalmente realizar as maldades que há tempos – ela intuía – vinham planejando.

Agitou-se na cama, e na agitação olhou para o lado: na penteadeira a figura de uma senhora de seus oitenta anos, vestida de preto.

Sim, ela trajava um vestido preto de renda, com um broche cor de rosa bem forte, preso ao peito, parecia alheia a tudo.

A tal senhora parecia não se dar conta da presença de Débora, e penteava lentamente os cabelos.

Sentindo-se observada, girou lentamente o corpo na direção da moça, que apavorada, esperava pelo pior.

A velha a encarou durante um tempo que Débora não pode, nunca, precisar, mas ela não teve medo, olhava espantada aquele rosto sem olhos, sem nariz e boca, somente uma superfície brilhante e nada – cabelos muito lisos e brancos, presos com um grampo de strass, braços muito enrugados, mãos trêmulas e terrivelmente finas. Olhava fixamente para Débora, e esta para o homem, parado no mesmo lugar, ao lado da porta, rindo, gargalhando cada vez mais alto.

 

Em meio à loucura a senhora sentada na penteadeira começou a gritar. Um grito aterrador, estridente, que vinha das entranhas e parecia querer arrebentar os nervos abalados da garota, que pensava, aturdida e apavorada, como é que a mãe e o pai não escutavam nada.

Ninguém escutava ou via nada, só ela, Débora, precisava passar por aquela situação, que parecia não ter fim. Por quê? “Deus, Jesus” – tentou balbuciar.

O quarto parecia tomado por labaredas e a velha senhora sem rosto continuava gritando, o homem, o primeiro a aparecer, rodopiava pelo quarto como se estivesse num baile, e as criaturas amorfas, apavorantes, passeavam pela cama, pelo tapete, pelas paredes.

Débora tentou levantar. Caiu. E no chão, ao levantar a cabeça, viu sandálias de couro, viu pés inumanos, pés de lagarto calçando sandálias, empurrou a cabeça entre os ombros, pedindo, voz quase inaudível: “Não, não, por favor…”.

Ouviu uma pancada na janela, sons de vidros quebrando, sentiu que os espelhos da penteadeira quebravam também, chegou a sentir os cacos caindo sobre seu corpo, sentiu a vibração e ouviu todos os vidros possíveis sendo quebrados.

Por um segundo o tempo parou. Olhou a janela, o espelho da penteadeira, tudo em ordem, tudo inteiro, mas ali, bem na sua frente, um jovem numa cadeira de rodas gesticulava, como se estivesse implorando por socorro, tentando dizer algo que a mente de Débora, confusa, não conseguia, não podia compreender.

Ela só queria, nesse instante, sumir, simplesmente. Implorava aos céus para que alguém entrasse no quarto, e se fosse um sonho que o barulho a acordasse – enfim, e tudo estivesse igual: levantar, tomar banho, caminhar pelas redondezas, viver: mas não, o pesadelo não terminava, nunca.

Com muito esforço agarrou-se nos lençóis, sacudindo as mãos, que tocavam os seres infernais na cama, levantou tateando as paredes procurando pela porta do quarto, mas essa não estava lá, não era possível, mas o quarto estava todo lacrado, não havia mais porta e entre soluços e gemidos, conseguiu finalmente voltar para a cama, passando bem perto do moço na cadeira de rodas, que a olhava de um jeito estranho, entre curioso e ameaçador, como se ela fosse culpada. De quê, ela não sabia.

Escondeu-se debaixo dos lençóis. E esperou. Esperou. Desesperou.

Silêncio. Apenas o tiquetaquear do relógio era ouvido, de vez em quando o cachorro do vizinho latia, confirmando que ela não estava louca, nem dormindo.

Quanto tempo passou Débora não sabia mensurar, mas tentou se apegar aos últimos resquícios de coragem, e pouco a pouco foi abaixando o lençol.

Silêncio. Esperou os olhos acostumarem-se com o escuro, fixou e olhou em volta: nada.

Nada de errado, nenhuma criatura rastejante sobre a cama, nada de homem, velha ou moço na cadeira de rodas. Respirou, fechou os olhos, convenceu-se de que tudo não passara de um pesadelo. Só isso: um pesadelo.

Levantou e foi até o interruptor, e no mesmo instante sentiu todo o seu corpo se arrepiar, sentiu um roçar de barba no pescoço, a voz, aquela voz maligna, ali, junto ao seu ouvido, dizendo seu nome: “- Débora…”.

Apavorada, virou-se rápido, e o homem estava ao seu lado. Olhou para a penteadeira, a velha sem rosto estava lá, quieta e distante, penteando os cabelos.

E o moço na cadeira de rodas berrava palavrões, enquanto girava a cadeira, sem parar. O abajur acendia e apagava, acendia e apagava, até explodir.

Débora estava absolutamente paralisada, mais uma vez era incapaz de balbuciar, pedindo socorro.

Correu, tropeçando nos próprios pés, em direção à cama, escorregou no tapete e pode ouvir o homem rindo alto, enquanto puxava suas pernas, mordendo seus tornozelos, com seus dentes pavorosos.

Agitou-se e liberta daquelas mãos subiu, desesperada e arfando, na cama.

Em meio ao desespero, olhou para o lado – e lá estava ela: ela mesma, a então menina de seus quatro anos, Débora, sorrindo candidamente e cantarolando a mesma canção do dia em que vira pela primeira vez o homem nefasto, no quartinho que servia de oficina para o pai.

Sentiu tudo rodar, olhou para o homem, sentado na cama, para a velha, para o moço enlouquecido na cadeira de rodas, que não parava de girar, buscou o crucifixo na parede e num espanto percebeu que ele estava de cabeça para baixo.

Tremia, tomada pelo mais puro pavor, horrorizada, imaginando que talvez tivesse enlouquecido, ou quem sabe, morrido? Quem sabe, afinal, o que nos espera depois dessa vida que julgamos conhecer?

Todo tipo de pensamento ocorreu à jovem, que, prostrada pelo medo, ouviu a menininha, que era ninguém mais, ninguém menos que ela mesma, aos quatro anos, dizer: “Débora, não tenha tanto medo… agora nós seremos seus amigos para sempre. e você não tem como fugir, docinho…”.

Mas a doce voz de criança desapareceu, dando lugar a um brado vindo das profundezas, como se todas as vozes daquelas criaturas naquele quarto gritassem a um só tempo: “Nem tente, sua puta!”

Débora só viu de relance o homem se jogando sobre ela, e puxando sua camisola, penetrando-lhe brutalmente, grunhindo, pesando sobre ela, aquela forma animalesca… – desmaiou.

A partir daquele dia Débora não saiu mais do quarto, fazia tudo por ali mesmo, olhos distantes, aparência de um corpo que foi abandonado pela alma, cada vez mais magra, cada vez mais frágil. Irreconhecível. Profundas olheiras e marcas de arranhões e cortes por todo o corpo.

Cortes que ela mesma provocava -, dissera o psiquiatra à família.

Ela simplesmente transitava entre o pânico e a ausência, dopada pela imensa quantidade de remédios que tomava, desde aquele dia.

Após a última internação Débora chegou a tomar choques elétricos e vivia dormindo, mas quando acordava, era sempre visitada, aterrorizada e violentada pelo terrível grupo, até que recebeu alta, e voltou para casa.

A mãe preparou o quarto, colocou flores, pintou as paredes, arrumou um pequeno altar num cantinho, enfim, a mãe ainda esperava que a filha se recuperasse do que ela acreditava ser uma doença.

“Filha, fique tranquila, descanse. Nada de mau vai te acontecer”.

Débora, cabeça rapada, olhos fundos, um esqueleto ambulante, olhou para a mãe quase com dó, e tudo o que pode dizer foi: “Obrigada.”

Deitou na cama, dormiu. Dormiu. Acordou quando a mãe trouxe um chá com torradas, que ela mal tocou, voltou a dormir. Dormiu…

Às 3 horas da manhã abriu os olhos, e a primeira coisa que viu foi o altar. O altar, arrumado pela mãe com muito carinho, e nenhuma fé: a cruz, ao contrário, e na frente do altar, mãos unidas, como se orasse, o homem.

Débora entrou em pânico. Como podia ver aquilo, com tantos remédios na cabeça? Não, por favor, não… aquilo não podia estar acontecendo.

Gritou pela mãe, quando tudo no quarto começou a voar, os lençóis, os objetos, tudo sendo arremessado por mãos invisíveis contra as paredes, a cruz, girando sem parar, enquanto o homem ria, transformando-se num verdadeiro demônio, que, por sua vez, transformava-se na menina, na velha, no moço da cadeira de rodas…e novamente no homem.

Os pais, no corredor, ouviam os gritos e o barulho, e não conseguiam abrir a porta, por mais esforço que fizessem.

O pai esmurrava a porta, enquanto a mãe, com as mãos no rosto, chorava e balbuciava alguma oração, que ela nem sabia que conhecia.

De repente, tudo silenciou. Um clique e a porta se abriu, sozinha, rangendo… os pais entraram no quarto e se depararam com a filha levitando, no teto, e nas paredes algo que era muito semelhante a sangue, com as palavras ela é nossa, não adianta lutar, malditos.

O silêncio durou poucos minutos e tudo recomeçou, a ventania, os objetos sendo jogados nas paredes, gritos horripilantes vindos do nada, e a moça, sendo arremessada da cama para o teto repetidamente.

A cruz, que girava sem parar na parede, soltou-se e atingiu em cheio o rosto do pai de Débora, fazendo-lhe perder os sentidos, enquanto sua mãe tentava desesperadamente agarrar o corpo da filha, que já não sabia se vivia, tal era a violência das pancadas, quando subia e descia, batendo violentamente no teto.

Chorou, gritando desesperada, tentando chamar o marido, que recobrava aos poucos a consciência.

Descobrindo-se impotentes, os dois sentaram-se num canto e choraram juntos, assistindo àquele espetáculo macabro. Inacreditável.

Enfim, Débora caiu pesadamente sobre a cama, e tudo silenciou.

A mãe correu para a filha, e entre lágrimas, verificou que a filha estava viva, respirava.

Apertou o corpo magro e exausto da moça entre os braços e ficou ali, como se ninasse um bebê, enquanto o pai chorava alto, encostado no armário.

Naquela mesma noite foram visitados por um padre.

O padre Nilo tinha muito boa vontade, é verdade, mas foi muito honesto ao expor seu ponto de vista: Débora precisava de um exorcismo, porém seu estado de saúde era tão delicado, que ela, provavelmente, não aguentaria todo o ritual.

Porém – frisou – “sua alma estaria nas mãos de Deus, ao contrário do que se passava agora, em que um corpo cansado era continuamente torturado por algozes espirituais e a alma padecia, na antessala do inferno”.

Os pais entreolharam-se, sem saber o que fazer, pediram um tempo para pensar, agradeceram muito ao representante de Deus, que se retirou, deixando os pais e a moça, presos no desespero.

Subiram as escadas, foram até o quarto da filha, estava tudo calmo e a moça dormia, tranquila, sob efeito dos sedativos.

Foram para o quarto, dormiram bem naquela madrugada, como há muito não dormiam.

No dia seguinte, a mãe foi ao quarto de Débora, empurrou a porta lentamente, não viu a filha na cama.

Caminhou até a penteadeira e encontrou um bilhete, onde se lia: “Eu sempre fui todos. Eu sempre serei todos eles. Somos um só. E estarei com eles para sempre. Adeus”.

Caminhou apreensiva até a janela, e o que viu se transformou em um grito, de pavor, que ecoou por toda a casa: no jardim o corpo de Débora, morta, trajando um vestido preto de renda, ao lado de uma cadeira de rodas, jazia, olhos abertos para a imensidão do céu, vendo o que somente ela vira, durante toda a vida.

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29 comentários em “O Homem (Agnes Sacramento)

  1. Luis Guilherme
    19 de outubro de 2017

    Boa noitee.. Td bao?

    Como tenho dito, esperei ansiosamente por este desafio, pois amo o genero. Assim, tenho lido os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu:

    Gostei!

    Ufa, q ritmo! Correria total, sem tempo pra enrolaçoes nem descriçoes inuteis, vc focou totalmente no terror, o que caiu bem. A oscilação entre loucura e sobrenatural ficou boa, deixando em aberto: tudo isso aconteceu, ou foi so na mente dela? (há, afinal, alguma diferença? Heheh)

    Poucos contos no desafio ate agora trabalharam tao bem o terror quanto o seu. Na parte tecnica, devo dizer q tem outros melhores. Acho que principalmentr a pontuaçao me incomodou um pouco, um excesso e mal posicionamento de virgulas.

    Porem, o terror eh tao presente q acabei deixando de lado a tecnica. Ou seja, seu conto me causou aquela boa vontade, sabe? Me envolveu de modo q nao percebi muita coisa.

    O enredo eh bem fechado, mas acho que tem potencial pra ser ainda melhor. Eu recomendo muito que voce continue trabalhando nesse conto apos o desafio, e pode contar comigo como primeiro leitor. Parabens, belo trabalho!

  2. Fheluany Nogueira
    19 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Amigos imaginários, fantasmas-demônios, violência, tortura, doença, exorcismo — um desfile e tanto de clássicos aterrorizantes. A narrativa mostra o trauma que arrasta toda uma família, apresenta, na maior parte cenas do tormento vivido pela protagonista. Senti, assim, que algumas pontas ficaram soltas: os motivos para o sobrenatural, quem era Débora, ela foi assassinada ou suicidou? A cadeira e o vestido negro existiam na realidade?

    Terror e emoção – Fiquei com a impressão de que a personagem era esquizofrênica mesmo, daí o sobrenatural sumiu. Faltou um conjunto de condições, circunstâncias, antecedentes que sustentassem a trama.

    Escrita e revisão – Ritmo agilíssimo, estilo próximo da fala, leitura prazerosa alimentada pela boa dose de suspense e pela imagética bem construída. Gostei muito de alguns jogos de palavras, como “Escondeu-se debaixo dos lençóis. E esperou. Esperou. Desesperou”. O texto merece de uma pequena revisão gramatical como no caso do pronome LHE usado como objeto direto (“penetrando-lhe/A”, “fazendo-lhe/A perder os sentidos” e outros já comentados. Nada que prejudique a fluência ou o entendimento.

    Parabéns. Abraços.

  3. werneck2017
    19 de outubro de 2017

    Olá,
    A autora tem uma capacidade imagética incrível ao recriar cenas alucinantes de puro terror, com todos os ingredientes que lhe é natural. Fantasma, tortura, demônio, abuso etc
    O texto tem uma leitura agradável, mas necessita revisão. Um bom material a ser lapidado. Ao fim e ao cabo, tudo pode ser atribuído à protagonista: foi abusada? Possuída? Sofre de esquizofrenia? Cabe ao leitor se decidir.
    Só encafifei com a história da cadeira de rodas, o que me pareceu destoar um pouco, o que pede alguma explicação que eu fui incapaz de encontrar.
    No mais, tudo fluiu bem.
    Boa sorte no desafio.

  4. Antonio Stegues Batista
    18 de outubro de 2017

    ENREDO: Da a entender que Débora foi abusada sexualmente na infância e desenvolveu uma paranoia, esquizofrenia, é o diagnóstico do médico que trata dela. O enredo não é ruim, mas a história se resume apenas naquilo que se passa na cabeça dela, ou seja, alucinações. Então, não se sabe a causa. mas parece que há uma sugestão, um indício.

    PERSONAGENS: Não há muito que falar sobre eles, pois o principal é Débora e sua doença, pouco se sabe dela e muito das alucinações.

    ESCRITA: Simples e direta. Alguns trechos do texto por demais compridos, circulando num mesmo ponto para preencher espaço.

    TERROR: O terror está na cabeça de Débora e é só. As descrições do monstro são boas, aliás, homem que abusou dela, pois esse é o título. O resto foi imaginação e por conta disso, o final não surpreendeu. Acho que o erro foi revelar que ela estava doente mentalmente, deveria ter deixado para o fim. Boa sorte.

  5. Rafael Soler
    17 de outubro de 2017

    Acho que esse foi o conto com o melhor ritmo desse desafio, as coisas vão acontecendo com um andamento tão frenético que é difícil até de respirar.
    Outro ponto que gostei muito foi o modo como a descrição das cenas foi feita de maneira cinematográfica. Foi muito fácil visualizar toda a loucura que se passava no quarto da protagonista.

    O final me deixou confuso sobre o que havia acontecido de fato na história, se era uma possessão ou problema psicológico. Se o intuito era fazer um fim aberto, deu certo. Se esse não era o plano, acho que poderia ser um pouco mais desenvolvido.

    No geral, um bom conto.

    😀

  6. Nelson Freiria
    16 de outubro de 2017

    Um primeiro parágrafo que consegue prender o leitor é sempre agradável. Acho que o(a) autor(a) quase conseguiu isso, e digo quase, pq achei estranho essa questão de ou não haver nada, ou haver o mesmo de sempre. Talvez eliminando o “nada” essa confusão se dissiparia.

    Não é a primeira vez que vejo um narrador nesse desafio dizendo “Personagem X já não lembrava exatamente de quando tudo havia começado…” para revelar posteriormente que o personagem sabia sim. Nesse caso, desde sempre.

    Dá para perceber que o autor(a) não teve tempo para revisar o texto. Isso prejudicou um pouco a transmissão dos horrores relatados, por exemplo nesse parágrafo que começa com “Tinha vinte e oito anos…” que tem mtas vírgulas, mas que em alguns momentos me pareceram pedir pausas mais longas, além de três adjetivos enfileirados para dizer algo que o texto já havia deixado claro. Erros de digitação também saltam aos olhos.

    O conto tem um clima pesado devido a condição de Débora. Achei que seria mais uma daquelas histórias em que não se sabe o que é real e o que é fruto da esquizofrenia da personagem, mas o conto se definiu rapidamente ao explorar elementos sobrenaturais. Da metade para frente, o(a) autor(a) teve bastante dedicação em relatar o sofrimento de Jéssica, o que caiu mto bem num desafio de terror. Senti falta de consideração sobre quaisquer aspectos da vida da personagem que não fosse a possessão, pois acredito que isso teria passado um sentimento maior de apego do leitor.

    • Nelson Freiria
      16 de outubro de 2017

      kkkk ignore esse “Jéssica”, algum evento sobrenatural, talvez provocado pelo ‘O Homem’, alterou o nome de Débora aqui quando digitei.

  7. Ana Maria Monteiro
    16 de outubro de 2017

    Olá, Agnes. Pseudónimo feminino,mas creio que autor masculino. Ao menos sobre isso vamos ter a certeza, pois quanto ao seu conto, você deixa ao nosso critério. Já agora: qual foi o seu? ela é doente, ou está possuída? Acho que possuída, a cena final é incompatível com doença.
    Sempre foi fácil colocar rótulos no incompreensível – e cada vez há mais rótulos disponíveis no mercado, é só escolher.
    Bem, dito isto, esclareço que não acredito em possessões – não dessas, pelo menos, pois pessoas que se alimentam de outras é o que mais há.
    Mas não é o caso aqui. Aqui estamos claramente no domínio ficcional – e muito bem.
    Acredito até que, para que acredite nessas coisas, o conto possa ter gerado terror pessoal ao ler.
    Notei duas ou três falhas, creio, mas estava tão entretida a ler que me esqueci de anotar (ponto a seu favor). Outros o fizeram ou farão.
    Para mim, você fez algo que é muito comum os autores fazerem: mesclou realidade com imaginário. E o seu conto revela isso. Na realidade essa história (tal e qual como está narrada) seria impossível, mas não no domínio da ficção, onde tudo é permitido, desde que apresentado de forma credível, como foi o caso.
    O aclamadíssimo “O exorcista” (que detestei, diga-se de passagem) fica muito aquém do seu realismo. Desculpe, aliás, ter comparado, mas a cena do padre trouxe-me à memória um dos pouquíssimos filmes que vi dentro do género.
    E lá está, mais uma vantagem sua: este é dos poucos contos do desafio que prefiro ler a ver, pois por muito bons que fossem o realizador e os atores o filme ia cheirar a falso por todos os lados. E assim não, digere-se bem.
    Então vamos lá: Adequação ao tema – total; leitura – fácil e agradável; escrita – muito boa; enredo – muito bom; autor – bom.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  8. Marco Aurélio Saraiva
    15 de outubro de 2017

    ====ENREDO====

    O conto não poderia ser mais direto: o caso de uma garota que está sendo atormentada por uma entidade maléfica (engraçado como são sempre garotas que são as possessas…). O conto narra não apenas o trauma da menina / mulher, como também da sua família.

    Você dedicou boa parte do conto na narrativa dos acontecimentos sobrenaturais que ocorrem com Débora. Uma parte considerável do conto é uma verdadeira viagem ruim de ácido: uma série de imagens perturbadoras dentro do quarto de Débora, sem nenhuma delas tocá-la ou afetá-la de alguma forma, apenas atormentando-a psicologicamente.

    Senti falta de motivo. O conto inteiro roda ao redor de Débora e o espírito que a atormenta (ou espíritoS), mas não há motivação. Isso acaba afastando um pouco o leitor dos personagens: a tormenta de Débora é gratuita, aleatória, sem um background mais complexo ou um desafio que ela tenha que superar para findar o seu sofrimento.

    O final do conto, assim como muitas histórias de terror, é o triunfo do bem sobre o mal.

    Achei o enredo simples, mas que cumpre o que promete: imagens perturbadoras, tortura psicológica e brincadeiras com o imaginário do leitor. Há uma quantia significante de clichês, apesar de terem sido aplicados da forma correta.

    ====TÉCNICA====

    A sua técnica é um pouco insegura. Você escreve de forma quase instintiva, como se deixasse as palavras fluirem por suas mãos sem se importar muito com o resultado final. Isso geralmente culmina em uma narrativa coloquial, que foi o que aconteceu no seu conto. Dá para notar a sua inspiração e sua empolgação na narrativa dos acontecimentos na vida de Débora, mas muito do que foi escrito parece não ter sido revisado. Há certa ingenuidade na construção das frases. Muitas delas poderiam ser repensadas ou completamente reescritas em uma segunda leitura.

    Há também certa confusão no tempo verbal do texto, assim como na pontuação.

    Acho que o seu texto é o clássico caso do diamante não lapidado. Há muita coisa boa aqui, mas você precisa parar, respirar, deixar o texto marinando na sua mente e depois revisitá-lo, prestando atenção em onde poderia fazer melhor.

    • Agnes
      15 de outubro de 2017

      Marco, meu caro, tudo bem?
      Leio com muita atenção seu comentário, e posso dizer que vc acertou em cheio. Assim que enviei e reli senti a falta da revisão, essa narrativa intuitiva, como vc bem colocou, é característica minha, preciso lapidar mesmo.
      fico contente por ter cumprido a promessa, no caso, contar uma história de terror.
      Sobre as meninas/mulheres serem as mais atingidas pela (suposta) possessão tem explicação bioquímica, mas há casos raros de possessão em indivíduos do sexo masculino.
      Eu estudei um pouquinho esse assunto, na vida, mas ñ posso falar mto, tenho medo hahaha
      ObrigadX pela leitura, abraço!

      • Marco Aurélio Saraiva
        17 de outubro de 2017

        Eita! Só o fato de você ter medo de falar sobre o assunto já me deixou com medo também! Hahahahah

        Obrigado pelo conto, de qualquer forma! rs rs rs

  9. Paula Giannini
    14 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Um conto de puro terror, ao menos é o que achei.

    Esquizofrenia é uma doença que conheço de perto. Tenho um primo que é portador da doença, além de uma amiga que tem 11 tios nessa condição. O(a) autor(a), claramente, é conhecedor do tema, visto a idade em que a menina é diagnosticada (a idade na qual a maioria dos portadores de esquizofrenia são diagnosticados varia ente os 18 e os 38 anos).

    É interessante notar o modo como o autor foi construindo o texto. Claramente, também, alguém com intimidade no gênero, as cenas vão-se revelando aos poucos, uma gota de cada vez, apertando lentamente o parafuso do terror, e, consequentemente daquilo que a protagonista sofre.

    O primeiro contato da menina com o homem é o primeiro ponto a se notar no trabalho. A narrativa aqui, e construída de modo a conduzir o leitor até a garagem, como alguém que espia o que há com medo de olhar, como quem espia através de uma fresta.

    Outro ponto que me chamou a atenção foi a capacidade imagética do(a) escritor(a), assim, as cenas criadas no papel, são recriada na mente do leitor de forma vívida e detalhada, sem que a imagem se pareça com algo estático. Ao contrário, as cenas são dinâmica. Cheguei a enxergar a aparição de cada uma das entidades, com uma espécie de efeito com strobbo (também estou muito contaminada pelo que costumamos ver no cinema. rsrsrs).

    Sobre aquilo que visita a protagonista, é interessante notar que não necessariamente tudo precise ser explicado. Desse modo, o sobrenatural se torna mais crível, visto que pouco se sabe dele, bem como respeita-se aqui o ponto de vista da narrativa, a partir da própria protagonista, ainda que em terceira pessoa.

    Gostei, igualmente a visão de si mesma, ainda criança, sob a cama. Talvez uma pequena homenagem a um microconto de terror que circulou na internet. Talvez não. Porém, essa passagem, além de assustadora, certamente me inspirou para novos trabalhos.

    Parabéns

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    • Agnes
      15 de outubro de 2017

      Paula Giannini, como vai?
      Muito generoso seu comentário, sua leitura é atenta, realmente a personagem apresentou os sintomas na idade em que normalmente é feito o diagnóstico, e justamente a faixa etária em que os casos tem prognóstico mais graves.
      Deixei um espaço para interpretação do leitor, seria Débora louca, ou estava msm possuída, ou ambas as coisas?
      Sobre a intimidade com o gênero que vc falou, fico deveras contente, é meu primeiro conto de terror.
      Obrigado e um grande abç!

      • Paula Giannini
        16 de outubro de 2017

        Oi, Agnes, se é o primeiro, melhor você agarrá-lo com as duas mãos e investir no gênero. Mas… Não sei não… kkkk

  10. Fabio Baptista
    14 de outubro de 2017

    Acho que esse foi o conto mais “terror raiz” até agora. Entidades demoníacas, violência física, psicológica, torturas, loucura, perseguição, exorcismo… todos os ingredientes estão aí, numa narrativa com ritmo frenético sem pausas para alívios cômicos.

    A parte técnica é muito boa. Tenho impressão de que não é o primeiro conto de terror escrito pelo(a) autor(a), devido à familiaridade com os adjetivos comuns à esse tipo de história.

    – Abriu os olhos e viu o mesmo de sempre: nada, apenas as paredes mofadas, sem cor, o armário velho, com a madeira descascando. No canto ao lado o criado mudo, com uma moringa vazia e um copo embaçado, sujo, com marcas de dedos.
    >>> Comecei com uma má impressão do texto. Não curti essa coisa de “viu [pressupomos que quem vê, vê alguma coisa]: *nada*… [e logo em seguida fala uma lista de coisas]”. Um vírgula também seria muito bem-vinda após “ao lado”.

    – Débora resolve dar meia volta e correr para casa, chamar a mãe, dizer que um intruso estava na casa.
    >>> esse trecho ficou confuso

    – Tomada pelo pânico viu o sorriso podre, os dentes afiados e grunhiu: “Olá, Débora. Como tem passado?”
    >>> aqui dá impressão que foi Débora quem grunhiu

    – mas o Homem acenou para ela, e deu um sorrindo em direção à Débora
    >>>acredito que era “deu um sorriso indo em direção”

    – amigos para sempre
    >>> ouvi dizer que tem uma coletãnea de contos de terror com esse nome. Mas não sei se é lá muito boa.

    – tal era a violência das pancadas, quando subia e descia, batendo violentamente
    >>> noza, pra que tanta violênzia? 😀

    A trama tem um ritmo frenético, como já mencionei. Isso serviu para o bem e para o mal: por um lado, prende o leitor o tempo todo, sempre com uma nova diabrura se desdobrando. Por outro, tira o impacto das tais novas diabruras, pecando pelo excesso.
    A protagonista acaba não despertando empatia, servindo como um mero fantoche nas mãos dos obsessores, tomando pancada de tudo quanto é lado, sem pausa nem chance.

    Nesse ponto, senti falta de algum elemento no enredo que pudesse criar mais expectativa, mais tensão, me fizesse torcer mais pela Débora. no final, ficou a dúvida: de onde surgiu essa cadeira de rodas, meu Deus do céu??? Débora usava cadeira de rodas o tempo todo ou o espírito a materializou de alguma forma?

    No saldo geral, gostei!

    Abraço.

    • Agnes
      15 de outubro de 2017

      Fala, Fábio!
      Tudo que vc apontou está guardado aqui, e numa releitura, já tinha percebido.
      É a falta de esperar, ler e reler antes de enviar o conto.
      Sobre o conto, bom, esse é o meu primeiro de terror, mas certamente meu assunto preferido.
      A questão da cadeira é fácil de explicar.
      Débora estava sim (na minha visão de autor) possuída, há dias dentro de um quarto.
      é claro que os tais inimigos sabem e utilizam contra a vítima (no caso, Débora) td q está ao seu redor, inclusive fatos da vida, objetos, etc.
      Débora estaria utlizando uma cadeira de rodas, devido à fraqueza?
      Débora estaria desorientada e usando a roupa preta da velha?
      E os demônios apareciam valendo-se de tais objetos?
      Ou quem sabe ela estaria mesmo doente?
      É isso, vlw pelo comentário!
      Abç

  11. Andre Brizola
    13 de outubro de 2017

    Salve, Agnes!

    Credo, foi difícil respirar durante a leitura do seu conto. Não só porque a pobre Débora foi assolada do começo ao fim, mas porque a quantidade de agruras era tão grande que eu não conseguia ver outro fim senão a extinção total da garota. E, quando se acha que nada pode piorar, pronto, piora.
    Embora o ritmo tenha sido frenético (argumento que pode funcionar muito bem num conto de terror), achei que ele foi o principal problema aqui. Não consegui tempo dentro do texto pra conseguir simpatizar com a personagem, de modo que me pareceu que ela era uma espécie de ferramenta para o desfile de torturas que os “amigos imaginários” eram capazes de realizar. Fiquei com mais dó do pai golpeado pela cruz do que de Débora, pois sabia que ela estava ali para isso mesmo.
    Por outro lado, algumas das cenas contidas aqui estão entre as mais aterrorizantes do desafio. Você foi muito feliz nas escolhas de palavras, e a combinação dos tipos dos “amigos imaginários” ficou tétrica. A cena da garota no gramado, com a cadeira de rodas, ficou particularmente legal. Muito bom mesmo.

    É isso! Boa sorte no desafio!

    • Agnes
      15 de outubro de 2017

      Oi André!
      ObrigadX pela leitura e pelas colocações, relendo também tive essa sensação, acho que poderia ter falado um pouco mais sobre Débora, e nessa parte ter diminuído o ritmo, ficaria mais empática a sua figura.
      mas da forma que escrevi, ficou.
      Vou anotar aqui suas dicas.
      abraço!

  12. Fernando.
    13 de outubro de 2017

    Olá, Agnes,
    Seu conto me fez recordar um dos poucos filmes de terror que já assisti e ainda era criança. Nele, uma típica produção de quarta, ou quinta categoria, também uma garota era possuída pelo mal. Quero lhe dizer, amiga, que você domina a arte da escrita para assustar. Sabe escolher as palavras mais tétricas e descrever as cenas de tal forma que fiquem totalmente focadas em provocar asco, ou pavor. Sei que algumas meninas, quando próximas à menarca, tornam-se capazes de gerar no seu entorno alguns desses fenômenos que relata. Só que, no caso da sua história, eles continuaram por muito tempo depois, o que não seria mais uma questão de adolescência. Mas que besteira a minha de ficar buscando razões para a possessão. Apague isto que acabei de escrever. Terror é terror e ponto, não é? Teve uma hora que seu conto me gerou um certo desconforto no entendimento. Pode uma entidade ter um ato sexual, sodomizar alguém? Trata-se aqui de dúvida de um cara que nada entende do assunto, viu? Você usa das repetições das palavras de uma forma que fica bacana. Alguns deslizes de redação, ou de teclado. Uma leve revisão será capaz de solucionar esses probleminhas. Receba o meu abraço, Fernando.

    • Agnes
      15 de outubro de 2017

      Oi, Fernando!
      Cara, rachei qdo li que o conto lembrava um filme de quarta ou quinta categoria que vc assistiu qdo era criança hahaha, sério, ri alto, achei bacana, esses filmes sempre conseguem assustar.
      E logo depois vc diz “Quero lhe dizer, amiga, que você domina a arte da escrita para assustar.”, o que me animou, esse é meu primeiro conto de terror, embora seja um dos meus preferidos.
      Sobre o estupro, infelizmente há relatos sim, não posso me estender muito para que os que me “conhecem” não descubram minha identidade.
      O mal, ou a má sintonia mental, há que se separar muito bem os problemas, é gravíssimo quando invade um ser.
      Deslizes de redaçã e/ou digitação, sempre tenho deixado passar, mas para o próximo, tomarei o triplo de cuidado.
      ObrigadX e abração!

  13. Regina Ruth Rincon Caires
    13 de outubro de 2017

    Conto de terror muito bem construído, narrativa que gira em torno de possessão. Estrutura perfeita, enredo bem costurado, suspense crescente ao longo do relato. Propicia leitura fluente, não vou dizer prazerosa. É aflitiva. Os sintomas dos transtornos mentais e os comportamentos apavorantes da protagonista são descritos com tanto brilhantismo que enlaça o leitor. A descrição minuciosa transporta o leitor, por vezes, dá nojo dos cheiros… O terror está presente em todo o texto. Há loucura, possessão, fantasmas, sofrimento extremo, estupro, figuras horripilantes. Perfeito. O autor tem certa familiaridade com a escrita, consegue transmitir, com muita propriedade, os sentimentos, as aflições.

    Gostei muito do texto.

    Parabéns, Agnes Sacramento!

    • Agnes
      15 de outubro de 2017

      Muito obrigado, Ruth!

  14. Olisomar Pires
    13 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: alto.

    Narrativa/enredo: garota enxerga e é aterrorizada por seres sobrenaturais.

    Escrita: boa, algumas vírgulas que faltam ou sobram em alguns locais, Nada grave para a leitura. Uma lapidada no estilo também e ficaria muito bom.

    Construção: conto clássico de terror. Possessão, tribulação, família envolvida e testemunha de eventos paranormais. Ponto alto nas cenas do quarto.

    A questão do “estupro” poderia ter sido relevada, pois tira um pouco da sensação fantasmagórica e busca muito a realidade não auxiliando o texto.

    Ótima sacada a coisa com a cadeira de rodas no pátio ao lado do corpo.

    Salvo engano, até o momento é o primeiro texto realmente 100% Terror, incluindo o meu que está por aí, mas que contém um enfoque menos objetivo.

    Parabéns.

    • Agnes
      13 de outubro de 2017

      Oi, Olisomar!
      ObrigadX pela leitura e pelo comentário.
      Confesso que fiquei muito contente.
      Estou realmente tentando lapidar o estilo, é algo que me desagrada e venho repetindo, mas um dia (espero que em breve), chego lá.
      Abraço

      • Olisomar Pires
        13 de outubro de 2017

        Se me permite a ousadia, vou colocar um exemplo do que poderia ser lapidado na minha análise. Você escreveu assim:

        “A mãe trouxe um copo de leite, que Débora bebeu, forçando-se a fechar os olhos, para não ver a figura demoníaca que agora estava de pé ao seu lado, e ao lado da mãe.”

        Para:

        “Com os olhos quase fechados, para ocultar em parte a figura demoníaca que as rodeava imitando o gesto de oferecimento de sua mãe, Débora bebeu o copo de leite trazido.”

        Claro que é uma releitura específica do trecho no intuito único de ofertar uma alternativa e é bem mais fácil depois do texto pronto.

        Tenho feito isso com meus escritos e os resultados tem sido razoavelmente bons.

        Um abraço e boa sorte !

  15. Agnes
    13 de outubro de 2017

    Oi, Angelo Rodrigues!
    ObrigadX pela leitura e comentário, ambos frutos de uma análise bastante atenta.
    Gostaria apenas de fazer um esclarecimento: não há, em parte alguma, descrição de que Débora era portadora de necessidades especiais, ou paralítica, como queira.
    A cadeira de rodas era de um dos personagens que faziam parte de seu terror/doença/ delírio, ou mais um caso de possessão, não sabemos, mas assim como a velha, a menina que era a própria Débora, o ser reptiliano e o rapaz na cadeira de rodas (daí a cadeira).
    “Ok, rodou o mundo numa cadeira de rodas?”
    Angelo, mais fácil rodar o mundo civilizado numa cadeira de rodas do que ir, andando, a qualquer canto, num país que não respeita os chamados “normais”, quanto mais os PNE’s. Concorda?
    A minha intenção foi deixar realmente a dúvida. Será que ela era louca, ou houve a materialização dos instrumentos dos personagens (fato que a parapsicologia estuda)?
    ObrigadX!

    • Angelo Rodrigues
      13 de outubro de 2017

      Oi, Agnes,

      Não fiz crítica alguma à questão da cadeira de rodas. Veja o que eu disse:

      “Estava ela ao lado de uma cadeira de rodas. Era ela uma menina paralítica? Ou apenas a cadeira teria sobrado do mundo do terror, ficando junto a Débora. Não vi sinais disso durante o conto, dado que “rodou o mundo” após fazer universidade. Ok, rodou o mundo numa cadeira de rodas?”

      Todas as minhas questões estavam em busca de alguma verossimilhança, uma dica que fosse, em torno da presença da cadeira de rodas junto ao corpo de Débora caído da janela.
      Ok, ela poderia haver rodado o mundo com ou sem cadeira de rodas. Não haveria problema com isso. Nem estava interessado em sua capacidade de locomoção. Isso não foi posto por mim como questão. O que coloquei, e coloquei como dúvida, foi se a cadeira era real ou materializada após sua morte. Apenas isto. Pelo que li, e foi isso que eu quis dizer, não compreendi se ela tinha ou não, no mundo real, uma cadeira de rodas.
      Mas tudo bem se ela tinha ou não uma cadeira de rodas. Essa era minha dúvida.

      • Agnes
        13 de outubro de 2017

        Oi, Angelo!
        Entendi sua dúvida, e faz muito sentido.
        só queria esclarecer que a cadeira, assim como o vestido, foram materializados (na minha intenção de escritor).
        Meu muito obrigadX!

  16. Angelo Rodrigues
    13 de outubro de 2017

    Cara Agnes Sacramento,

    Não sei o que senti com seu conto, sinceramente. Tem um final legal, embora confuso. Confesso que não consegui identificar efetivamente quem era a Débora, nem real nem imaginária.
    Estava ela ao lado de uma cadeira de rodas. Era ela uma menina paralítica? Ou apenas a cadeira teria sobrado do mundo do terror, ficando junto a Débora. Não vi sinais disso durante o conto, dado que “rodou o mundo” após fazer universidade. Ok, rodou o mundo numa cadeira de rodas?
    Me pareceu que o conto foi alongado. Com menos palavras ele estaria resolvido e foi crescendo como um bolo.
    Notei alguns deslizes de escrita, mas nada que dificultasse a compreensão, por isso não comento nada sobre isso.
    Achei que, por um longo tempo houve o uso de palavras arquetípicas (relativas a um conto de terror) tentando fazer “grudar” no ambiente cênico um verdadeiro sentido de medo, o que não se transferiu para mim. Não vi terror (mas pode ser um problema apenas meu).
    De novo vi monstros gargalhando, infelizmente. Não acho que ajude ao escritor dar verossimilhança ao seu trabalho tais monstros gargalhando. Não acho que os monstros queiram continuar gargalhando em parte alguma, querem dizer coisas, representar suas cenas com mais proficiência.
    Acho que o texto flui bem, sem problemas, embora ache que essa coisa de possessão diabólica com cópulas que não se explicam ou justificam também não ajudem a melhorar o texto. Torci para que o monstro não estuprasse a menininha. Seria mais uma vez nesses tantos contos. Felizmente isso só aconteceu na maior idade.

    Boa sorte, Agnes, e obrigado por nos deixar conhecer seu conto.

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Publicado em 12 de outubro de 2017 por em Terror.