EntreContos

Literatura que desafia.

A Herança (Oscar Velho)

Quando o pai de Thomas estacionou a caminhonete em frente da casa, um garoto olhava pela janela do seu quarto, no segundo andar.

Thomas assoprava no vidro e sua respiração embaçava-o, fazendo um círculo no qual ele desenhava pequenos pênis, rindo e apagando-os rapidamente, com o coração dando fortes saltos.

Assim que o pai descarregou o embrulho, o menino tentou adivinhar o que seria aquilo, talvez uma tevê gigante, para assistir às finais do Campeonato Estadual, ou uma geladeira nova, daquelas que aparecem nos comerciais, onde adolescentes sorridentes demais enchem copos e mais copos do gelo que sai da porta.

Quando o objeto foi desembrulhado, Thomas fungou desapontado. Era apenas um guarda-roupa.

Ele viu o pai carregar a mobília para dentro. Ouviu seus passos subindo as escadas e franziu o cenho quando ele entrou no seu quarto.

— Pai? — disse, relutante. — O que é isso? Esse trambolho não vai ficar aqui, vai?

— Em primeiro lugar — disse o pai, — esse trambolho é herança do seu avô, seu último desejo foi de que o guardássemos bem. — Ele colocou o móvel no chão e continuou. — Em segundo, ainda mando nessa casa e esse armário vai ficar onde eu deixar.

— Mas… essa coisa vai ficar aqui? Deve estar lotado de cupins. Eu vou ter pesadelos de noite.

— Seja homem, Thomas. — retrucou o pai — pare de choramingar. Você nem vai dar conta de que ele está aqui. É só um guarda-roupa.

O garoto abaixou a cabeça, contrariado.

— Não quero essa coisa aqui. — Insistiu.

— Eu já disse. Droga! — gritou o pai. — É herança da família e vai ficar aqui. Venha me ajudar com isso agora.

Depois que eles colocaram o guarda-roupa no lugar, Thomas olhou para o móvel. Era velho, mas também parecia mais do que isso. As formas desenhadas nas portas eram diferentes de tudo o que ele já havia visto. Os desenhos que contornavam a madeira pareciam caóticos e sem sentido aos olhos do menino. Como se a pessoa que os fez estivesse sentindo uma dor insuportável.  Thomas também percebeu alguns arranhões na lateral do móvel. Eram profundos e tinham pelo menos uns trinta centímetros.

Ele olhou novamente para o guarda-roupa e ele pareceu crescer aos seus olhos. Se agigantando diante da sua presença ridícula, pronto para engoli-lo

A verdade era que Thomas sentia que o guarda-roupa era uma coisa que não era uma coisa. Algo estranho e fora do contexto da realidade que a qualquer momento falaria com ele em uma língua antiga e esquecida.

Na primeira noite, seguindo o conselho do pai, Thomas se absteve da preocupação com o novo companheiro de quarto.

No outro dia, vendo que nada o havia atacado, nenhum cupim geneticamente modificado ou qualquer outra coisa, resolveu colocar nele algumas roupas que faziam volume no “antigo” guarda-roupa.

Ele abriu as portas e puxou uma das gavetas para averiguar se as roupas caberiam ali. Achou estranho que o tamanho da gaveta não batesse com a profundidade do guarda-roupa.

— Que coisa — disse para si mesmo. — Por que tem esse espaço todo?

Decidiu retirar o tampo que ficava por cima das gavetas. Procurou algo para usar como alavanca e encontrou uma régua de metal, que usava em seus trabalhos de arte.

Thomas enfiou a régua entre o tampo e a parte de trás do móvel, depois forçou para baixo e ouviu um TREC quando a madeira cedeu.

Um cheiro estranho subiu no ar e Thomas se afastou, tossindo. Lembrava muito carniça, mas tinha algo mais misturado àquilo, algo ardido, como gengibre.

O local estava completamente escuro e Thomas ficou com medo de colocar as mãos ali. E se tivesse um animal morto? Ou pior, uma pessoa morta? Toda coberta de gengibre, temperada por canibais antes de virar churrasco?

O garoto pegou uma lanterna e se aproximou, devagar. Havia colocado um pedaço de pano na frente do rosto, por causa do cheiro desagradável.

Quando iluminou o interior do buraco, viu algo enrolado num tipo de papel.

Ele pegou o pacote e o desembrulhou, mas não encontrou uma caixa de jóias. Encontrou um livro.

Era um objeto bastante peculiar. A capa era amarela e não havia nada escrito. Ele abriu e leu em voz alta a palavra no topo da contracapa:

IOCUS

Sem entender, folheou mais e viu diversas imagens de pessoas com cabeças de animais saltando algum tipo de brincadeira de amarelinha.

Cada página parecia mostrar uma etapa diferente da brincadeira. Na primeira, um ser com cabeça de cavalo desenhava triângulos no chão. Na página seguinte, um homem com cabeça de uma águia desenhava figuras dentro desses triângulos: uma faca, uma cruz, uma estrela, um inseto que parecia um besouro, um círculo com um corte feito um pedaço de pizza, três ondas e, por último, um tridente.

Nas demais páginas, outras pessoas-animais apresentavam um passo a passo da brincadeira. Tudo aquilo pareceu incrível para a mente jovem de Thomas.

— Preciso mostrar isso para Sofia. — concluiu, fechando o livro e guardando-o embaixo do colchão.

No outro dia, depois do café e das reclamações do garoto sobre o cheiro da mobília, o pai de Thomas deu-lhe um aromatizador de ar. Ele borrifou o conteúdo dentro da gaveta. Depois pegou o livro debaixo da cama e o abriu novamente.

Todas as criaturas estavam lá, pulando em cima daqueles triângulos.

— O que será que significa isso? — Ele olhava para o desenho, tentando decifrar seu significado.

Thomas pegou uma caneta piloto preta e olhou novamente para o desenho da página. Desenrolou o carpete e começou a desenhar os triângulos no chão. Depois, desenhou como podia cada símbolo dentro deles e, no fim, se deparou com algo muito parecido com o desenho do livro, apesar das imperfeições:

Ele ficou olhando para sua obra e depois abriu o livro novamente. Analisou as figuras e percebeu que os homens-animais realmente pulavam os triângulos como uma amarelinha.

Thomas vasculhou os bolsos atrás de alguma coisa para jogar e encontrou moeda uma de vinte e cinco centavos.

— Bem, — disse em voz alta — se for desse jeito, é só jogar a moeda na casa que eu quiser e depois pular até lá.

Ele se preparou. Mirou na estrela e, quando ia soltá-la, ouviu um barulho e parou. Era um rangido na madeira, como algo se arrastando na madeira. O som parecia vir de dentro do guarda-roupa.

Thomas caminhou até o móvel. O barulho ficou mais alto e mais rápido. Ele olhou para o vão de onde tinha tirado o livro. Só escuridão. Não conseguiu ver nada, só ouvir, cada vez mais alto, o barulho de algo se arrastando na madeira.

Esticou a mão dentro do vão — a curiosidade cegando-o de qualquer perigo — e quando parte do antebraço estava tomado pela escuridão, o barulho parou e ele ficou ali, imóvel, apenas sentindo o silêncio pulsar forte em cada batida do seu coração.

Então, algo saltou de dentro da escuridão e avançou nele. Voou em seu ombro e escorregou para o chão, coleando pelo quarto e sibilando, até encontrar um buraco e desaparecer.

 Thomas estava tremendo, dos pés a cabeça, ele sentia o suor frio escorrer pela sua nuca e pôs as mãos trêmulas na cabeça.

— Não posso fazer isso sozinho. — disse alto, para tentar afastar o medo.

Quase uma hora depois, a campainha da casa tocou e uma garota entrou no quarto. Thomas estava com o livro nas mãos.

— Encontrei dentro do guarda-roupa, Sofia — disse Thomas. — Parece ser um livro de brincadeiras antigas.

— Que tipo de brincadeira é essa em que você desenha uma faca dentro de um triângulo? — Perguntou Sofia, apontando para os símbolos.

— Então… ao que parece — continuou Thomas. — É um tipo de ritual.

— Igual aquele filme das crianças que ficam presas dentro de um jogo de tabuleiro?

— Acho que está mais para aquele do espírito que persegue a menina que brincou com um jogo de tabuleiro satânico.

Sofia olhou para Thomas, depois olhou novamente para o desenho.

— Legal. — disse entusiasmada.

— Pois é. Eu desenhei a coisa e tudo. Mas não sei se quero mais brincar disso — confessou o menino.

Sofia foi até Thomas, sem conter o riso.

— Vai me dizer que você está com medinho? — perguntou.

Thomas se lembrou da coisa rastejando pelo quarto, e do medo implacável que sentiu quando ele saltou sobre ele.

— É lógico que estou com medo. Olha esse livro. — Ele apontou para o livro em cima da cama. — Parece que a capa foi feita com pele de algum animal. De que século é esse negócio?

— Pelo que parece, — interrompeu Sofia, já sentada na cama com o livro aberto nas mãos. — essas figuras aqui mostram como se brinca.

— Acho melhor a gente deixar isso pra lá. — disse Thomas.

— Thomas, minha nossa. Para de ser mais maricas do que você já é. — disse Sofia, colocando o livro de lado. — É só um livro velho… e se você não quer fazer nada, porque me chamou, então?

— Eu… fiquei com medo. — disse, envergonhado.

— E daí me chamou… — Sofia disse isso desenhando um enorme ponto de interrogação no ar. — P-O-R Q-U-Ê?

— Eu precisava mostrar isso pra alguém e você… você é minha única amiga. — confessou Thomas, envergonhado.

Sofia olhou para o menino e não conseguiu deixar de sentir pena dele. Ela o abraçou. Depois o olhou nos olhos e disse:

— Eu não sou sua amiga. Sou sua melhor amiga, seu cabeção.

Thomas sorriu.

—Ok, — continuou a menina — essa coisa é só um livro. E sabemos que esse negócio de demônios com cabeça de crocodilo que comem gente não existe, certo?

— Er… certo?

— Lógico que sim, caramba. E vamos provar isso agora.

— Vamos… Vamos? Como? — perguntou Thomas.

Sofia revirou os olhos.

— Como, bobalhão? Brincando desse troço, oras.

— Mas, Sofia. Eu não sei…

Ela o puxou para frente do desenho.

— Não seja tolo — disse. — Você mesmo desenhou isso e não aconteceu nada, não é? A gente faz como os desenhos ensinam e acabamos logo com isso. Daí eu posso ir pra casa em paz e você pode dormir sem molhar as calças.

Ela segurou forte na mão de Thomas e mostrou seu melhor sorriso encantador.

— Ok. — declarou Thomas, mais para si mesmo do que para Sofia. — Vamos lá. Superar nossos medos. É assim que temos que agir para alcançar todo e qualquer objetivo, certo?

Sofia riu daquilo.

— É isso aí, Augusto Cury saído do armário. — disse a menina, ainda rindo. — Talvez você esteja lendo autoajuda demais, mas é melhor do que tremer na base. Vamos começar logo e ver o que acontece.

— Eu começo — disse Thomas dando um passo à frente.

Sofia olhou para ele, impressionada.

— O que foi? — surpreendeu o menino. — Você mesma disse que era só um livro velho.  

A menina deu de ombros e Thomas pegou a moeda.

— Temos que fazer exatamente o que as figuras fazem. — explicou Sofia. — Você joga a moeda no triângulo que você quer e salta até ele. Daí o próximo faz a mesma coisa.

Thomas olhou para os desenhos e começou a considerar sua jogada. Olhou o besouro. Depois olhou para as curvas que pareciam ondas. Pensou em jogar ali, mas olhou mais acima e viu o círculo fatiado.

Ficou olhando aquele desenho. A parte cortada fazia duas pontas e o contorno do círculo abaixo o fez imaginar a face de um animal com orelhas pontudas. Pensar aquilo lhe deu calafrios e ele resolveu jogar a moeda o mais longe possível daquela figura. Então, soltou-a sem esforço e ela caiu sobre a faca.

Ele deu um passo para dentro do triângulo e ficou parado, esperando algo acontecer.

A janela estava entreaberta e ouvia-se o barulho dos carros na rua. Havia começado a chover e os pneus faziam um barulho alto quando passavam no asfalto molhado.

Thomas deu um sorriso sem graça e disse.

— Bem, parece que nenhum demônio roubou minha alma.

Os dois começavam a rir quando a trava da janela se soltou e ela bateu com força, fazendo um estrondo que ecoou no quarto todo.

Thomas e Sofia deram um salto, ela se jogou para trás protegendo o rosto. Thomas só conseguiu arregalar os olhos, sem se mexer.

O som da rua ficou abafado e distante. Depois de alguns segundos assustadores, Sofia quebrou o silêncio.

— Bem — disse. — minha vez.

Ela pegou a moeda ao lado de Thomas, estava pegajosa de suor. Olhou para ele, que estava visivelmente aterrorizado, e deu uma piscadela.

“Que boba eu sou.” — pensou. — “quem é que tem medo de fantasmas?”

Ela virou-se de costas, fechou os olhos e jogou a moeda, sem cerimônias.

O objeto fez um arco no ar e caiu sem quicar no último triângulo, com o tridente. Sofia se virou e começou a saltar cantarolando. Parou, pegou a moeda do chão e levantou o braço.

— Venci, seus fantasmas trouxas. — disse, por fim. — Todos vocês vão queimar no inferno agora.

Sofia pulava fazendo vês de vitória e Thomas começou a rir. Depois ele olhou para todo o quarto. Para o desenho no chão e para o tapete jogado no canto.

— Isso foi bem se graça, no fim das contas. — disse arrependido.

— O pior ainda está por vir. Quando seu pai descobrir que você rabiscou o chão do quarto com uma caneta piloto, vai te matar. — Disse Sofia, gargalhando.

Thomas pegou o tapete e desenrolou sobre o desenho. Cruzou os braços e olhou com orgulho para Sofia. Era como se nada tivesse acontecido.

— É como se nada tivesse acontecido. — disse Sofia, não sem um pouco de desânimo.

Sofia se foi e Thomas ficou no quarto. O pai, com sua natural falta de tato, disse que sairia por algumas horas.

— Voltarei antes das onze — disse. —Tem comida no microondas. Lasanha. Dois minutos apenas. Não coloque mais do que isso ou ela vai tostar.

Sozinho na casa, Thomas abriu o livro novamente. Todas as figuras estavam lá, mas havia algo estranho. Em uma página que ele não tinha visto antes havia um homem-animal com a cabeça de uma cobra, mas seu corpo parecia opaco, apagado. Como se alguém tivesse passado uma borracha no desenho.

Ele analisou aquilo por um instante e acabou adormecendo com o livro nos braços.

Acordou no dia seguinte com uma forte dor de cabeça. Levantou devagar e viu o livro em cima da escrivaninha. Tentou lembrar como adormecera, mas não conseguiu. Acabou descendo para tomar café.

Não encontrou o pai, mas havia um bilhete na mesa:

“Estarei fora o dia todo. A lasanha ainda está no microondas.”

Ele comeu rápido e pegou a bicicleta que estava na garagem. Eram sete da manhã. Thomas gostava de pedalar naquele horário, quando não havia ninguém na rua. Ele andou por três quarteirões e dobrou uma esquina, no fim dela havia um terreno baldio.

Ao chegar em frente ao terreno, parou para amarrar os cadarços. Dava para ver mato alto por trás do muro, balançando leve ao toque do vento. Ainda abaixado, ele ouviu uma voz chamar seu nome. Parecia um sussurro, algo contido, como se alguém estivesse sufocando e pedindo ajuda.

Thomas se levantou e se aproximou do muro. O chamado continuava tão sufocante quanto antes.

Intrigado, quis ver o que havia do outro lado e começou a escalar. O muro era alto, pelo menos três metros. Quando Thomas chegou ao topo, viu um matagal que se estendia até uma enorme parede, uns 20 metros de distância de onde estava. Pés de mamona encobriam o lugar, junto com entulho e mato, mesmo assim algumas caixas de madeira jogadas chamaram sua atenção.

— Da mesma cor do guarda-roupa do vovô — pensou.

Não havia ninguém ali, e isso o deixou mais curioso. Tinha certeza que ouvira uma voz chamá-lo.

Ele sentou no topo do muro e se preparou para voltar. De repente, algo se moveu fora do seu campo de visão e ele desviou o olhar rapidamente. O mato balançou, mas ele não viu nada.

Então, algo bateu contra a mureta e tudo tremeu, fazendo Thomas perder o equilíbrio. Num reflexo rápido, ele conseguiu agarrar no cimento e ficar com os braços apoiados.

O muro balançava como se um terremoto estivesse acontecendo e Thomas balançava junto, sendo lançado de um lado para o outro. Ele ia cair, não conseguia mais segurar.

Antes de perder a força nos braços e cair, um vulto passou entre os pés de mamona e Thomas viu algo rastejando pelo manto. A sombra serpenteou pelo terreno e sumiu embaixo de um pedaço de madeira.

Thomas caiu para o lado da rua — o que poderia ser considerado sorte — e se estatelou em cima da bicicleta, torcendo o tornozelo e ralando a bacia e as pernas.

Ele voltou para casa e não disse ao pai o que havia acontecido.

Durante o resto da semana, não conseguiu dormir direito, um pouco por causa das dores no corpo e um pouco por causa da criatura que nitidamente aparecia em sua mente toda vez que fechava os olhos.

No outro fim de semana, estava pedalando no parque estadual. Ele contornava o lago quando encontrou Sofia sentada na grama. Ela olhava para os lados e parecia temer alguma coisa.

Thomas parou ao lado dela.

— Está tudo bem? — perguntou, soltando a bicicleta de lado.

Sofia deu um grito de susto.

— Meu Deus do céu. — disse. — Você quer me matar do coração?

— Liguei na sua casa e ninguém atendeu. — disse Thomas naturalmente. — Ia te chamar para virmos no parque.

Sofia jogou o cabelo de lado e não disse nada. Thomas sentou ao lado dela.

— O que foi? — perguntou. — Você está estranha.

— Não é nada… — disse Sofia. Depois fez um sinal com a cabeça e continuou. — Não… tem sim. Thomas, tem alguma coisa acontecendo. Eu tive uns sonhos estranhos.

— Como assim? Que tipo de sonhos? — perguntou Thomas.

Ela olhou para ele e suspirou.

— Desde aquele dia na sua casa, toda noite… — Ela cruzou os braços e olhou para baixo. — O sonho começa comigo brincando sozinha naquilo. Eu pulo nos triângulos sobre um chão totalmente negro. É como se os desenhos estivessem suspensos num céu escuro. E quando eu salto sobre o último, ele simplesmente desaparece.

Thomas olhava para Sofia intrigado e um pouco aliviado por saber que não era o único que havia presenciado coisas estranhas.

— Então, eu caio. — continuou Sofia. — Eu começo a cair e de alguma forma eu sei que é um sonho, mas não consigo acordar.

— Eu já senti isso uma vez. Você sabe que está sonhando, tenta acordar, gritar. Mas nada acontece e você continua naquele pesadelo. É horrível.

— É. Mas isso não é o pior. — Sofia pegou no braço de Thomas e olhou nos olhos dele. — Enquanto eu caio, eu ouço vozes. Muitas Vozes. Todas chamando meu nome. No começo são como sussurros, mas depois começam a aumentar, até ficarem insuportáveis.

Thomas lembrou-se da voz que o chamou naquele terreno, lembrou também da sombra que serpenteava o matagal e um calafrio subiu gelado pela sua espinha.

— E mesmo assim… — continuou Sofia. — Eu não acordo. Eu só caio e ouço esses gritos insuportáveis me chamando. E depois do que parecia ser muito tempo, eu finalmente desperto, toda suada.

— Bizarro. — disse Thomas. — Mas são só sonhos, Sofia. Não passam de coisa da nossa imaginação. Você mesma disse isso.

— Tem mais. — continuou ela. — Agora eu ouço essas vozes mesmo quando estou acordada. Elas me chamam em todo lugar. Parecem vir da gaveta de meias, de trás de uma porta semiaberta. Elas sussurram no meu ouvido enquanto eu digito no computador, enquanto leio um livro. As vozes… eu sei… eu… de alguma forma eu sei que são das criaturas que estavam desenhadas naquele livro, Thomas. Será que eu estou ficando louca?

Thomas preferiu não falar sobre a experiência dele no muro do terreno.

— Precisamos voltar para o seu quarto. — disse Sofia. — Acabar com aquele livro.

Thomas ponderou se aquela era a melhor saída. Talvez se falassem com seu pai, ele poderia ajudar. Depois, considerou todo o tempo em que escondeu o que estava acontecendo e ficou com medo das represálias diante de suas atitudes.

— Tem razão — disse. — vamos destruir aquele livro.

Os dois voltaram para o quarto e Thomas retirou o livro de baixo do colchão.

— E agora? — perguntou.

— Temos que nos livrar dele. — respondeu Sofia.

— Vou jogar no lixo. — disse Thomas. Depois, pensando um pouco, discordou de si mesmo. — Não… já sei, vamos queimá-lo.

— Thomas — disse Sofia, — antes de fazermos isso. Vamos dar uma última olhada nesse negócio.

— Eu não quero abrir isso, Sofia — reclamou Thomas.  — Sei lá o que pode acontecer com a gente.

— Sinceramente — disse a menina, — na situação que estamos, acho que não vai fazer muita diferença.

Thomas colocou o livro no chão e começou a folhear as páginas até Sofia o interromper.

— Pare um pouco. — disse ela. — você viu aquilo? Volta uma página.

Ele voltou para a página anterior.

— Tem algo errado com eles, não tem? — disse Thomas. — Com os homens com cara de bicho?

As criaturas pareciam diferentes de como Thomas havia visto da primeira vez. Agora elas pareciam gritar. Seus olhos demonstravam puro terror, como se estivessem sendo obrigadas a estar ali de alguma forma.

Thomas voltou a folhear o livro e em uma das páginas, encontrou uma anotação que não havia notado.

— Isso não estava aqui antes. — disse ele.

O garoto e leu o que estava escrito:

“Socorro. Eles estão atrás de mim. Não consigo parar de ouvir e ver. Eles gritam no meu cérebro… Estou…“

E depois disso, diversos garranchos incompreensíveis.

— Que estranho. — disse Sofia pegando o livro das mãos de Thomas. — Parece até alguém pedindo ajuda.

— Vamos acabar logo com isso — declarou Thomas, tirando do bolso um isqueiro Zippo — Achei isso lá embaixo. Acho que era da época em que meu pai fumava charutos.

Ele abriu a tampa do isqueiro e riscou o tambor. Aproximou o fogo do livro, sentindo o calor que saia da chama.

Quando estava prestes a tacar fogo nas páginas, um estrondo ressoou tão alto no quarto que o tapete ondulou junto com as luzes. Thomas e Sofia se olharam, mas não houve tempo de dizerem nada. Tudo ficou escuro.

O barulho de passos e sussurros incompreensíveis tomou conta do lugar. A menina gritou balançou os braços na escuridão procurando uma parede para se apoiar. Thomas se agachou e tateou o chão em busca do isqueiro, que havia caído e se apagado, mas a cada passo cego que dava, o menino sentia alguma coisa próxima dele, respirando pesado em seus ouvidos, o desespero tomando conta daquela criança perdida na escuridão.

Depois de um tempo, o silêncio imperou, mais aterrorizante do que nunca. Até que Sofia o quebrou.

— Thomas — disse assustada.

Thomas não respondeu.

— Thomas? — gritou a menina. — Você está aí?

Quando Sofia começou a chorar, a luz voltou e ela se viu de joelhos no meio do quarto.

Thomas não estava mais ali. O livro estava fechado, intacto, e soltava uma fumaça com cheiro desagradável.

Ela olhou em volta e chamou por Thomas de novo. Nenhuma resposta.

A porta do quarto se abriu e uma pessoa entrou. Quando Sofia viu o pai de Thomas começou a chorar mais ainda.

— Senhor V. — disse, aos soluços. — Eu não sei o que aconteceu. Tudo ficou escuro e…

O Senhor V. fez um movimento afirmativo com a cabeça e caminhou até o livro no meio do quarto. Ele o pegou e bateu as cinzas que o cobriam. Abriu-o e fez um TESC com a língua.

Diversos homens-animais apareciam na página, mas um havia um novo personagem agora. Um novo bicho saltava entre os triângulos, ele tinha a cabeça de uma cobra e o corpo pequeno, como o de uma criança.

— Fui estúpido em não tê-lo alertado. — disse o homem. — Meu pai era um conservador, sabe? Ele não permitia que ficássemos sabendo, porque acreditava que o ritual era uma iniciação da família. Perdi meus dois irmãos mais velhos na época.

— O quê? Do que o senhor está falando, senhor V.?

— No fim das contas, o medo é a chave. Se você não sentir medo quando brincar, não é levado. — Senhor V. disse como se estivesse falando sozinho. Depois olhou para Sofia — Esse livro passou de geração em geração, você entende? É um coletor de almas e… bem, você não deve ter ideia do que seja isso. Mas, mesmo assim, você sobreviveu. Não teve medo. Já meu filho… — ele olhou para o livro. — eu devia ter alertado o garoto.

— Senhor V. — disse a garota, ainda com lágrimas nos olhos. — eu… eu sinto muito.

O senhor V. sorriu.

— Minha esposa morreu quando Thomas era muito jovem. — declarou. — Eu nunca disse a ele o que aconteceu, mas a verdade é que ela não aguentou ter que ver o filho se submeter a isso algum dia e tentou destruir o livro. Ela tentou rasgá-lo, tentou queimá-lo, mas acabou morta por ele.

— O quê? Como assim? — Sofia não conseguia entender o que pai de Thomas dizia.

— Meu filho era a única esperança da família continuar seu legado. — continuou senhor V. — Somos os únicos que sobraram.

Então, o pai de Thomas abriu novamente o livro e o colocou no chão.

— Existem formas de trazer um recém caído de volta. Meu pai tentou com meus irmãos, mas não conseguiu salvá-los. Ele tentou trazê-los de volta sacrificando alguns animais, como em um processo inverso de transformação, mas não deu certo.

Sofia olhava para o Sr. V., perplexa e curiosa.

— Ele matou animais para tentar revivê-los? — Perguntou Sofia, ingenuamente.

— Inúmeros. Mas nenhum deu resultado — ele disse isso enquanto desenha novos símbolos no chão, em volta do livro. Sofia se aproximou do homem que, abaixado, desenha coisas em volta do livro antigo.

— O senhor pode trazer o Thomas de volta, então?

— Eu fiz alguns experimentos, — disse senhor V. — durante o tempo em que o livro estava em meu poder. Descobri que só um tipo de animal funciona como moeda de troca para esse livro.

— Sério? Qual?

— Um ser humano. — disse olhando para ela.

Sofia só caiu em si quando o senhor V. levantou e a olhou profundamente.

— Você é minha única esperança.  — disse ele sem emoção na voz. — Me desculpe.

Antes que Sofia dissesse algo, o senhor V. avançou. A menina correu e passou pela porta do quarto. O corredor da parte de cima fazia um L entre a casa, mas Sofia foi para o lado errado. A escada estava na outra ponta dele.

Ela se encolheu na parede e o Sr. V. se aproximou rápido, agarrou-a pelo pescoço e começou a arrastá-la de volta ao quarto. Ela gritou e ele a golpeou com força sua boca. Seus lábios incharam e ela sentiu o gosto metálico do sangue.

Ele a puxou pelos pés e estava passando pela porta quando ela se segurou em um dos batentes. Senhor V. parou e deu puxão forte. Uma ripa de madeira soltou em sua mão e ela a segurou com força, os fiapos entrando fundo na pele, como agulhas grossas.

O homem virou-se para puxá-la pelos braços e soltou suas pernas por tempo suficiente para que ela virasse o pedaço de madeira com a ponta para frente.

Senhor V. agarrou seu pescoço de novo e a levantou do chão. Deixando-a suspensa.

— Pare de tentar evitar o inevitável. — Disse ele com uma voz doce, quase relutante. — Você pediu por isso. Não pediu? Ou acha que eu não sei que você o incentivou?

Quase sem forças para respirar, Sofia fincou a madeira no pescoço do pai de Thomas. A ripa entrou por baixo do queixo, atravessando sua garganta e ela conseguiu ver os fiapos de madeira por dentro da sua boca aberta.

Ele apertou mais ainda a mão no seu pescoço e ela teve certeza de que iria desmaiar.

Então, tudo ficou escuro.

EPÍLOGO

Um terreno baldio em uma esquina esquecida de um bairro de periferia é famoso e temido pela vizinhança devido a alguns relatos estranhos. Vizinhos e passantes do lugar insistem em afirmar que algo acontece ali. Muitos já disseram terem visto um vulto negro se arrastando pelas paredes do muro que protege o terreno. Outros confessaram que ouviam vozes de crianças gritando e dizendo coisas incompreensíveis sempre que passavam do lado do terreno.

Uma mulher disse, certa vez, que ouvia a voz do filho, que morrera depois de um surto psicótico. Ela dizia que o filho sofria de problemas mentais, algum trauma da escola, bullyng por ser diferente dos outros meninos, e que ele cortou a própria garganta, mas não sem antes talhar no corpo desenhos bizarros de triângulos com facas e outras coisas dentro.

No muro, desenharam diversos desses triângulos, eles cobrem toda a sua extensão. Ninguém sabe ao certo quem fez essas figuras, mas ninguém parece ter coragem de apagá-las.

Uma garota, indo contra toda a lógica sensata do pessoal dali, está parada em frente ao muro. Na sua cabeça, vozes gritam sem parar, vozes conhecidas, inclusive. E ela sabe que vai ouvir essas vozes por toda a sua vida.

Ela carrega um pacote nas mãos. Algo embrulhado em papel pardo. Ela tira a mochila que leva nas costas e de dentro dela retira um isqueiro Zippo. Acende e aproxima o fogo do pacote. O calor envolve todo o embrulho e ele começa a queimar. Ela o pega sem medo. As mãos envoltas nas chamas ardem de dor. Ela chora, mas não por causa das queimaduras.

As vozes em sua cabeça ficam mais altas e ela arremessa o pacote com toda a força, ele faz um arco por cima do muro e cai do outro lado. Os gritos parecem estar dentro da sua cabeça, reverberando agudos e a ensurdecendo. Sangue escorre da sua orelha até o seu queixo. Uma fumaça negra e espessa começa a subir de dentro do terreno, mas ninguém percebe, ou parece não perceber.

Mais tarde, algumas pessoas comentaram ter visto uma menina na frente no terreno. Outros, menos céticos, disseram que era um dos fantasmas que rondava o lugar, gritando por socorro. Disseram também que a fumaça era um sinal de que ele finalmente teria passado para o outro plano e, durante muito tempo, nada mais foi visto ou ouvido por ali.

Anúncios

16 comentários em “A Herança (Oscar Velho)

  1. angst447
    21 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Também me lembrei do filme Jumanji. O estilo do conto tem uma pegada de terror juvenil.

    R (revisão) – Alguns erros passaram, como os já citados pelos colegas.

    R (ritmo) – O ritmo é bom, agilizado pelos diálogos. O final “ralenta” um pouco, mas acho que foi para dar um pouco mais de impacto ao desfecho. No geral, a leitura flui bem.

    O (óbvio ou não) – Apesar de me fazer lembrar do filme Jumanji, não achei a trama óbvia. Houve algumas surpresas, como a malvadeza do pai, o Sr. V. Aliás, o nome V ficou meio solto, só consegui ligar a imagem de um V a um triângulo incompleto.

    R (restou) – Algumas pontas soltas clamando por uma costura. Um pavor ao tentar descobrir o que teria acontecido com a menina, que teve as mãos queimadas e os neurônios detonados pelo joguinho do mal.

    Boa sorte!

  2. mariasantino1
    20 de outubro de 2017

    Olá, boa tarde!

    Muito bom o jogo coletor de almas. É bizarro e super instigante. Seu conto tem uma boa apresentação e um conflito instigante, porém o clímax e, sobretudo o desfecho, deixam a desejar. Queria muito ter gostado mais do texto, porque até a parte em que o pai do Thomas volta pra casa, tudo corre sem grandes percalços(a propósito, por que Senhor V?, não ficou natural). Acredito que o que mais pesa é a ausência de sinalização de uma história anterior, por trás, e isso faz as coisas parecerem bruscas. Acho que se você trocar o lance de herança de família por algo relacionado a um antiquário, acaba a necessidade dessa explicação corrida e mecânica do pai do menino. Poderia ser somente um jogo antigo que o Thomas encontrou. Outro ponto que merecia alguma sinalização era a amizade das crianças, ou pelo menos uma frase que mostrasse que o menino telefonou para sua amiga e adiantou o assunto, assim quando a Sofia entrasse em cena, o leitor não sentiria que perdeu alguma coisa, devido a esse fato ser rápido (ela entra rápido na trama).
    O pai do menino carregou o guarda roupa sozinho e já montado?, porque me pareceu ser algo grande e antigo (o móvel), que precisava de mais pessoas para ser carregado.
    Observe a mudança de tempo verbal no clímax e no desfecho, o ideal seria narrar tudo em um tempo só (se passado, passado. Se presente, presente e não misturar).

    Peço que você desconsidere o meu comentário se achá-lo sem nexo ou mesmo se não achar algo que possa auxiliá-lo em alguma coisa.

    Gostei do texto mais queria muito poder gostar mais.

    Boa sorte no desafio.

  3. Luis Guilherme
    20 de outubro de 2017

    Olá, amigo, tudo bem?

    Como tenho dito, estava bastante ansioso por este desafio, portanto estou lendo os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu:

    Gostei! O enredo é muito bom, instigante. Fiquei colado na tela lendo e nem percebi o conto passar, tanto que tomei um susto quando vi o epílogo.

    A construção do suspense é excelente. O conto tem um tom misterioso que casa bem com o enredo. Gostei MUITO da imagem inserida no desenrolar do conto, casou super bem.

    Os personagens, por outro lado, achei um pouco bobinhos, principalmente o pai do garoto.

    O terror tá super presente no conto, que utiliza habilmente de elementos do terror pra prender a atenção e gerar curiosidade.

    Só gostaria que o jogo tivesse sido mais explorado, pois é muito curioso. Você podia ter explorado melhor as outras formas, os homens-animas, e talvez introduzido mais elementos de tortura psicológica nos garotos após o jogo. Eles podiam ter sido mais perseguidos, e talvez descrever esses momentos de angústia frente ao desconhecido teria deixado ainda mais legal.

    Não posso deixar de comentar algumas inverossimilhanças, mesmo que essa parte seja bem chata. O que mais me incomodou foi o pai ter levado o armário e não percebido que havia um compartimento secreto tão explícito, ainda mais sabendo que a maldição existia. Outra coisa: o menino caiu de um muro de 3 metros em cima da bike, devia ter acabado ali mesmo a maldição aahahahuahua.

    Entenda que isso não desvaloriza o conto. Só quis apontar pq acho que vale a pena você voltar a esse conto e dar um ajuste fino, tem muito potencial e tá muito bom.

    Boa sorte e parabéns!

  4. Fheluany Nogueira
    20 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Objetos-portais (guarda-roupa e livro) malignos, um jogo ritual, cenas bastante assustadoras (como a abertura da gaveta), a curiosidade, o suspense e o ritmo ágil, bons diálogos e descrições críveis, — elementos não faltaram para uma trama bem amarrada. De outro lado, a confusão entre uma “caixa” de TV, geladeira ou guarda-roupas, a indefinição sobre a idade dos protagonistas, a variação do foco narrativo, as explicações do pai, o paradoxo de comportamento (de omisso, pretendia se tornar assassino, para salvar o filho), e o epílogo equivocado criaram distorções da verossimilhança.

    Terror e emoção – Todas essas pontas soltas quebraram o impacto, não permitiram que se criasse empatia com os personagens. Todas as ações ficaram muito fortuitas.

    Escrita e revisão – No geral, o texto está bem escrito, com pequenos deslizes de pontuação, digitação, acentos, crases, mas que não entravaram a leitura ou a interpretação.

    Parabéns. Abraços.

  5. werneck2017
    20 de outubro de 2017

    Olá,

    Seu texto traz uma história instigante que contém as premissas de todo bom conto de terror, maldições, livros antigos, rituais e um demônio que bem poderia ser o pai do protagonista. Protagonista que se altera, a bem da verdade. O foco começa no menino e muda para a menina ao logo da narrativa, transformando-a na heroína. Há referências à Jumanji, sim. Há referências ao tabuleiro Ouija. Muito bom. Escrita fácil, permitindo que a leitura flua e que o leitor se aprofunde na história.
    Minha ressalva é quanto à constituição dos personagens, algumas incongruências que aparecem quanto ao pai, um tanto negligente quando sabe pesar uma tradição/maldição sobre a família e também quanto ao menino, que não distingue o formato de geladeira, tv, guarda-roupa. Ou que desenha pênis e traz um cinzeiro Zippo no bolso. Coisas que podem ser acertadas posteriormente numa outra revisão. No mais,muito bom. Parabéns.

  6. Antonio Stegues Batista
    19 de outubro de 2017

    ENREDO: Achei fraco na medida em que surgem ao longo do texto, ações ingênuas e simples, principalmente a parte do terreno baldio, que pouco deu valor à trama.

    PERSONAGENS: Não entendi por que chamar o pai de Thomas de senhor V?Seria a inicial de alguma entidade infernal, ou o autor está apenas imitando alguns autores clássicos? Thomas às vezes age como uma criança de seis anos em outras parece adolescente. reconhece o perigo e no momento seguinte o despreza. Uma criatura sai do armário e ele simplesmente o ignora.

    ESCRITA: Boa. Só precisa ter ideias mais originais e tramar conexões de ações lógicas e claras, pois logo que iniciei a leitura, achei que havia dois meninos no primeiro parágrafo; “Quando o pai de Thomas estacionou a caminhonete em frente da casa, um garoto olhava pela janela do seu quarto no segundo andar”. Não dá para saber que o garoto é Thomas, ou que o Senhor V está chegando na casa dele, senhor V. ou que garoto que olha pela janela é o filho dele. Essas são as conexões que me referi.

    TERROR: Algumas partes ficou legal, outras não, de qualquer forma, dentro do tema. Boa sorte.

  7. Nelson Freiria
    18 de outubro de 2017

    Sabe aquele provérbio “O Diabo mora nos detalhes”? Foi justamente nisso que pensei após a leitura, pois o conto tem mtas qualidades que pareceram precisar apenas de um toque a mais de cuidado para se tornar uma leitura super agradável. Me refiro aos detalhes espalhados pelo enredo, como tornar mais fácil ao leitor perceber a idade próxima dos personagens. De início achei que eram crianças de 8 anos, depois, adolescentes de 13, então novamente pensei que eram crianças…

    O conto me pareceu ser dirigido para um público mais jovem pela forma como algumas coisas se apresentam, a principal delas é a tomada de decisão do protagonista e de sua amiga, em especial no momento que resolvem que o correto a se fazer é queimar o livro, ainda que não tenham a mínima ideia do que realmente estejam acontecendo com eles. Além, é claro, da maneira como age o Pai. Não sei se essa era a intenção do autor(a), mas isso deu um certo ar de terror ‘teen’ ao conto, mas não digo isso como algo negativo ao texto, pois nesse sentido, achei que ficou mto bem elaborado.

    Me senti incomodado com o epílogo, a mudança de tempo verbal, a história do menino suicida, a confusa descrição do que a menina sente e as fofocas dos vizinhos em nada acrescentam ao conto. Gostei da parede pichada e das pessoas ouvirem coisas por ali, isso demonstra o poder da maldição, mas isso poderia ser acrescentado ao final do texto sem essa separação de epílogo.

    O personagem do Pai ficou inverossímil, parece ter sido usado apenas para fazer andar a história após Thomas ser tragado para dentro do livro. Não gostei desse negócio de “senhor V.”, ninguém se refere assim a outra pessoa, isso acaba tirando a atenção da leitura num momento crucial.

    Tem uns tantos errinhos por aqui e ali, mas acho que a última leva de contos enviados ao site não tiveram tempo para revisão. Chamo a atenção em especial para os diálogos, onde vírgulas e pontos fugiram ou apareceram de onde deveriam estar.

  8. Rafael Soler
    18 de outubro de 2017

    Achei a premissa do conto muito interessante, o que me cativou logo no início. A estruturação do texto me fez achar que o(a) autor(a) não é viajante de primeira viagem. O ritmo também é bem interessante, tornando o conto de fácil leitura.

    Apesar de ter gostado da história, não gostei da mudança do protagonismo que ocorre no meio do conto, passando do menino para a menina. E a revelação do mistério do livro me pareceu artificial, se isso fosse mais trabalhado desde o início, com algumas pistas aqui e ali, acho que a coisa teria funcionado melhor.
    Outro ponto a ser melhorado é a descrição dos personagens, fiquei confuso principalmente quanto a idade deles.

    Bom trabalho, mas pode melhorar.

    🙂

  9. Ana Maria Monteiro
    17 de outubro de 2017

    Olá, Oscar. Há qualquer coisa no seu conto que não me permitiu “mergulhar” nele. Difícil dizer o que seja: o embrulho? não se transportam eletrodomésticos de grande volume em embrulhos,mas sim em caixas; o menino? ele tem coisas de menino,mas também de adolescente, tanto na descrição quanto nos seus comportamentos; Sofia? a mesma coisa. Não sei, a amizade deles é infantil, sem dúvida, mas muitos outros aspetos não o são, por exemplo, crianças não lêem livros de auto-ajuda, não é?
    Há um ou outro problema de concordância entre passado e futuro nos diálogos,como este: “Eu só caio e ouço esses gritos insuportáveis me chamando. E depois do que parecia”, o “caio” no tempo presente indica o relato, antes confirmado, de que se trata de sonhos repetitivos e o “parecia”, logo em seguida, aponta para um único sonho.
    Não é tanto a questão gramatical aquilo sobre que me debruço aqui,mas sim a quebra de verosimilhança.
    Estes pequenos pormenores impediram o tal “mergulho”.
    Também notei algumas repetições fonéticas e de palavras, algo que não seria grave mas, no contexto, não ajudou, como quando o embrulho é desembrulhado, o menino vê uma anotação que não havia notado, ou até o ninguém duas vezes em dez palavras,aqui: “Ninguém sabe ao certo quem fez essas figuras, mas ninguém”.
    O comportamento do pai também peca por falta de rigor. O homem sabia! Não fez nada para evitar? ainda vá, mas quer remediar a situação? ficou claro que lhe seria indiferente. Aliás, todo o seu comportamento perante a morte e/ou desaparecimento do filho revelam essa indiferença.
    Falta dar uma volta à história, definir melhor a faixa etária dos protagonistas, o caráter do pai. Pequenos ajustes farão toda a diferença.
    Não sei. Gostei da ideia, mas penso que não foi trabalhada de forma adequada, perdendo um pouco nisso. A escrita vai bem, basta uma pequena revisão crítica para melhorá-la e está adequada ao tema proposto.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  10. Fabio Baptista
    14 de outubro de 2017

    É um bom conto, com uma boa premissa e narrativa ágil. Mas não me cativou.

    A parte técnica revela um autor já experimentado – as descrições são bastante claras, os diálogos naturais, a leitura flui sem entraves.
    Mas alguns pontos dão a entender que faltou tempo/cuidado para uma revisão mais apurada.

    — Preciso mostrar isso para Sofia. — concluiu
    >>> Essa marcação de diálogo começando com minúscula depois do ponto é errada. Ou tira o ponto, ou começa o “concluiu” com maiúscula.

    – encontrou moeda uma de vinte
    >>> uma moeda

    – Era um rangido na madeira, como algo se arrastando na madeira.
    >>> repetição próxima de “madeira”.

    – dos pés a cabeça
    >>> à cabeça. Logo abaixo a palavra cabeça aparece novamente.

    – Augusto Cury saído do armário
    >>> Talvez eu tenha perdido uma referência mais direta à idade dos protagonistas, mas fiquei com a impressão de que eram crianças. Assim, essa tirada pareceu deslocada.

    – bem se graça
    >>> sem

    – algo rastejando pelo manto.
    >>> mato

    – O garoto e leu o que estava escrito:
    >>> sobrou um “e”

    – mas um havia um novo personagem agora
    >>> sobrou um “um”

    – ele disse isso enquanto desenha novos símbolos no chão
    >>> mistura de tempos verbais. Aliás, não entendi a opção de partir para a narrativa no presente no final.

    A princípio, pensei que a trama seguiria algo do tipo “Nárnia do mal”, mas logo percebemos que o tal guarda-roupa era somente uma desculpa para obtenção do livro.
    A inclusão da imagem no meio do texto foi interessante (eu até teria feito algo do tipo se conseguisse terminar meu conto, mas seria algo mais na linha “jump scare” huahuaa), mas acabou sendo mal aproveitada. Pensei que haveria ali algum tipo de quebra-cabeça, mas foi só para ilustrar a amarelinha do inferno mesmo.

    O ponto alto, na minha opinião, foi a amizade dos protagonistas – ficou muito natural, apesar da dúvida quanto à idade, como já comentei.

    Na parte final, não me convenci muito sobre a explicação do pai a respeito da maldição da família. Se ele estava preocupado com o filho a ponto de sacrificar a menina para tê-lo de volta, poderia muito bem ter evitado a situação (pelo que ele falou, nada o impedia de ter avisado o menino).

    Esse epílogo foi bem desnecessário.

    Abraço!

  11. Paula Giannini
    14 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Jumanji! Não há como não pensar nesse filme que adoro. 😉

    O ponto alto de seu conto é a própria premissa. A primeira coisa que fazemos ao escrever um texto, a ideia original.

    Não é preciso ser um grande conhecedor de terror para saber que livros são, dentro dos arquétipos do gênero, imaginados muitas vezes como uma espécie de portal para o mundo do mal. Porta de passagem igualmente, para vários seres extraordinários e execráveis em busca de luz, de vida, de vingança, enfim. E a ideia de mesclar livro e jogo é muito boa.

    No entanto, confesso que senti um certo estranhamento quanto a suas escolhas no que toca o ponto de vista da narrativa. O autor dá início à trama, conduzida em terceira pessoa, mas, ainda assim, apresentada ao leitor sob o ponto de vista do menino. Acompanhamos o pequeno em sua descoberta do armário, depois o seguimos no descortinar do livro e seus mistérios, e assim seguimos com ele, até o momento em que este encontra a amiga em uma praça. A partir desse instante o foco se desloca para ela e passamos a “assistir” a história sob a ótica da garota. Entendo que o menino foi sugado pelo livro, bem como que a menina tem um protagonismos bem forte na trama, porém, sinto que de certa forma, o leitor se sente órfão do menino ao começar a seguir a história dela e não a dele.

    Ainda que existam técnicas utilizando-se inúmeros pontos de vista em um só texto, deixo aqui a questão para o(a) autor(a). Afinal, estamos aqui para aprender uns com os outros.

    Outra coisa que gostaria de dizer, se ainda me permite, é sobre a verossimilhança do pai saber do perigo que o filho estava correndo e se comportar quanto a isso de forma tão natural. Eu sei que o destino da família estava nas mãos do menino, mas não sei se essa solução apresentada para a indiferença do pais foi suficiente. Talvez por falta de tempo do(a) autor(a), devido ao prazo do desafio, essa lacuna tenha ficado um pouquinho vaga.

    Se formos falar em cena impactante de terror, para mim, foi o momento em que se vê as lascas da maneira de dentro da garganta do pai do menino. Sofro de tripofobia e isso me deu uma agonia terrível. Também gostei muito do momento da abertura da gaveta, com alusão aos odores e tudo o mais. Puro terror.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  12. Andre Brizola
    14 de outubro de 2017

    Salve, Oscar!

    Gosto muito de contos de terror que apostam em elementos clássicos do estilo. Símbolos antigos, maldições ou tradições familiares, livros amaldiçoados, entre outras características. Dito isso, é impossível não ter encontrado diversos desses aspectos em seu texto e ter ficado satisfeito. Achei, inclusive, a opção do armário, como a fonte do mal que se aplacou sobre o garoto, muito legal. Uma espécie de contraponto ao armário que poderia leva-lo a mundos maravilhosos.
    Mas achei que o final do conto ficou um pouco aquém daquilo que prometia. Fiquei esperando uma grande revelação e um confronto entre o garoto e o ser maligno (que acabou interpretado pela figura do pai), que acabou não vindo. Sofia assumiu o papel de protagonista no final, mas não consegui enxerga-la como protagonista.
    De qualquer maneira, o enredo é muito interessante e, como já apontei, traz esses elementos clássicos que deixam tudo muito legal.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  13. Regina Ruth Rincon Caires
    13 de outubro de 2017

    Caro autor, fico alegre quando encontro um companheirinho de sonhos, alguém ainda tão jovem, dentro de uma carreira embrionária, fazendo muito esforço para criar um texto, adaptar-se às regras de um desafio. É isso, companheirinho, adiante, vamos juntos. A escrita pode ser incipiente, tudo narrado de modo raso, apressado. Resultado próprio da ânsia de produzir, de contar, de transmitir. É assim mesmo, com o tempo e a prática tudo vai ocupando o seu devido lugar, e tudo fica lindo. E que lindo enfoque você deu à sua história! Brincar com um jogo de terror, não há nada mais atual! O enredo, se um pouco mais trabalhado, tem muito valor. É muito interessante.

    Boa sorte, Oscar Velho, estamos juntos!

    Abraços…

  14. Olisomar Pires
    13 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: médio.

    Narrativa/enredo: livro familiar amaldiçoado que se apodera daqueles que brincam determinado jogo.

    Escrita: boa, simples e direta, bem adaptada ao enredo.

    Construção: os personagens, especialmente o garoto, me pareceram deslocados a princípio. Talvez seja exatamente essa definição “garoto” para descrever o jovem que tenha extirpado um pouco o impacto. “garoto” lembra menino, criança, mas depois ele discute com o pai e age como um jovem mais velho, pois recebe visitas de amigas. Enfim, isso não ajudou.

    Outra coisa meio forçada foi o pai saber da maldição e “esquecer” de avisar ao filho, depois querer matar uma pessoa para salvá-lo.

    Mas é uma boa idéia e nota-se criatividade do autor. Os diálogos estão bem estruturados e deram agilidade ao conto.

    O epílogo veio para misturar tudo.

  15. Fernando.
    13 de outubro de 2017

    Olá, Oscar, interessante essa sua ideia de propor um jogo como mote da sua história. Um garoto e uma garota envoltos em um jogo maligno, criado a partir do inocente jogo da amarelinha e que lhes foi proposto pelo livro achado nos fundos do guarda-roupas, herança de família que veio para o quarto de Thomas. Realmente um tema interessante, mas que senti que não obteve o resultado que se esperava dele. É, Oscar, que senti as coisas um tanto forçadas, sabe? Desse jeito não teve jeito de me enfiar de cabeça na história. Achei que algumas pontas não tinham sido suficientemente amarradas. Ficaram meio soltas, ou frouxas. Um exemplo: dá a impressão que o pai sabia que o livro estava naquele armário. Se o sabia, por que não o tirou antes, ou tomou alguma precaução a respeito. Outro: O muro que balança, como se estivesse acontecendo um terremoto… Foram cenas que me fizeram escapar do meio da história, sabe? Também, amigo, a idade dos dois protagonistas me pareceu meio estranha. Devem ter idades similares, mas qual seria ela? Tem horas que eles agem como se fossem mais adultos, em outras fazem coisas como se ainda crianças… Bem, esses são comentários de alguém que nada entende de contos de terror. De repente, outros entenderão A Herança de maneira diferente e serei eu que não soube fazer a leitura correta da narrativa. Então, melhor relevar, desde já, esse meu comentário. Ah, nada que atrapalhasse a leitura, mas valerá a pena dar uma revisada básica no texto. Abraços, Fernando.

  16. Angelo Rodrigues
    13 de outubro de 2017

    Caro Oscar Velho,

    Acho que a ideia do conto é muito boa. Um livro com figuras nas mãos de dois adolescentes (?) se transforma em um jogo, um ritual, não sei. Acho que isso ficaria muito legal num game board.
    Mas vamos às críticas, por que são elas que ajudam a melhorar a escrita.
    O conto me pareceu alongado demais. A trama não se desenvolve. Recomendaria maior objetividade condutiva no desenvolvimento da ideia-objeto do conto.
    Acho que o conto, mais bem trabalhado, teria um resultado bem legal. Ouso fazer algumas recomendações, se me permite:
    – Senti algum desconforto com a idade do menino que ficava desenhando pênis no bafo da janela e tinha um isqueiro Zippo no bolso.
    – Não achei apropriado alguém confundir um embrulho em que poderia caber, ao mesmo tempo, um televisor (ainda que grande), uma geladeira ou um guarda-roupas. Acredito que esses três objetos tenham formas bem diversas uns do outros.
    – “…o guarda-roupa era uma coisa que não era uma coisa…”
    – “…o medo implacável que sentiu quando ele saltou sobre ele…”
    – “-É isso aí, Augusto Cury saído do armário…” Nesse ponto confesso que senti medo, mas… por outro motivo.
    – Ok, encontrei no seu conto um “gargalhando”, mas era uma gargalhada de alguém vivo. Tudo bem, então.
    Acredito que a cena do pai (aliás, que pai é esse, meu caro Oscar, o Demo?) dando a dica de que iria sacrificar a menina poderia dar um rumo bem legal ao conto, onde a menina reverte o desenvolvimento da trama e sacrifica o pai, salvando o menino. Mais que merecido ao senhor V., um tremendo desalmado. Ele perdeu dois irmãos, perdeu o filho e ainda queria passar a perna na Sofia? Ora, ora… que diabinho…
    Vejo assim (a história é sua, mas estou eu aqui metendo o dedo fura bolo): a Sofia subverte tudo, aprende a salvar o Thomas, manda o senhor V. para junto dos irmãos e depois queima o livro. Esqueça o epílogo. Tudo já havia sido dito com esse final. Mas isso é um delírio abelhudo meu.
    E não esqueça que a ideia pode render um excelente board game.

    Grande abraço, Oscar, e obrigado por deixar conhecer o seu texto.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 13 de outubro de 2017 por em Terror.