EntreContos

Literatura que desafia.

A Morte nas Alturas (Ordep Sotam)

O desaparecimento de Deusdete Serafim, funcionário público, casado, quarenta e cinco anos de idade, residente do edifício Beira Rio, em São Paulo, deixou o bairro de Vila Maria em polvorosa. Não pelo desaparecimento propriamente dito, mas pelas circunstâncias que o envolveram.

A princípio, acreditou-se que ele houvesse morrido: seu apartamento, no 12º andar estava fechado por dentro, a trinco e a chave. Policiais arrombaram a porta. A janela da frente que dava para o Rio Tietê estava aberta, a cortina, de cor marrom pardo, esvoaçando, mas não havia ninguém no apartamento. Os lençóis da cama ligeiramente amarrotados onde se via perfeitamente a marca do corpo, e os chinelos sob a cama ao alcance dos pés, como era de se imaginar. Dava a impressão de que ele estava ali deitado. Invisível.

A esposa e as filhas constataram não faltar nada: suas roupas, as poucas e surradas gravatas, os dois pares de sapato, o relógio de pulso. Nada faltava, estava tudo certo.

Supor que um homem com sua idade e não afeito a exercícios físicos pudesse ter descido por uma corda, de tão grande altura, era um absurdo. E com que finalidade ele faria isto? E onde estava a corda?

A suspeita de que tudo fora um golpe de publicidade, organizado pela imobiliária, foi logo abandonada. Quase todos, porém, se mostraram inclinados, depois de observar nos jornais a planta dos apartamentos e as condições especialíssimas em que este se encontrava a hipótese, bem a gosto dos supersticiosos, de que o infeliz funcionário público fora arrebatado da cama, em pijama e descalço por algum poder desconhecido.

Muito se falou a respeito. E Deusdete, que adquirira, em razão dos fatos que precederam certa notoriedade triste, foi por semanas assunto obrigatório em rodas de conversas. No entanto seis meses atrás, era um funcionário correto, pacato e desconhecido, mas aparentemente feliz.

 

*****

A vida é curta, para morrer basta estar vivo. – Repetia a mulher para o marido. – Morreu mais um no 7º andar deste bloco.

Num sobressalto, quase que assustado, Deusdete indagou:

– Hoje?…

– Ontem, enterraram hoje de manhã. Quarenta e cinco anos, a tua idade. É por isso que eu digo: temos que aproveitar a vida enquanto estamos vivos, meu caro!… Se não oh, bau, bau!…

Deusdete levantou-se, ficou de pé diante à janela.

– Morreu de que?

– Ninguém sabe…

– Não se sabe?…

– Não.

– Como todos os outros…

Lá fora a ventania era forte. O tempo estava pra chuva. O vento açoitava as cortinas com certa violência. – Seis mortes em um mês – conjeturava Deusdete – e todas inexplicáveis. O que estava acontecendo?

Clotilde, sua mulher, se foi para o quarto. Há tempos que lhe afetava um cansaço inexplicável à hora de dormir e ao acordar pela manhã. Forma oblíqua de atingi-lo, não mais o amava, pois não enriquecera. E também um modo de fazê-lo sentir-se culpado pela sua incompetência e falta de ousadia. Seu aprendizado não passava de pequenos conhecimentos rudimentares, o suficiente para fazê-lo um trivial funcionário público. O que ela quer? Que eu me corrompa? Na verdade a corrupção nunca me beijou os pés. Nunca fui tão importante para alterar alguma coisa. Alteraram-me… Mas sempre fui hóspede de mim mesmo. Fechou o vidro da janela e encostou a cabeça, ainda ensimesmado. Contemplou as luzes da cidade ao longe, as silhuetas cinzentas dos grandes edifícios.

Na manhã do dia 16 de julho, véspera de seu aniversário, soube no elevador, da morte de mais um homem na madrugada, no 11º andar do seu bloco, um andar abaixo ao seu. Da repartição ligou para o velho amigo, o Domingos. Lembrando-o de seu aniversário, como sempre fazia há anos, não se esquecer do jantar em sua casa.

Após o expediente foi às compras: – “Queijo, vinho, patês, pães… Ah, e um paliteiro decente”. Memorizou Deusdete. O fim de tarde estava ensolarado. Deusdete sentia-se disposto. Mesmo assim, não escondia certa tristeza. A estonteante impressão de que a morte procurava-o. A sensação era de que ela, a morte, esqueceu seu endereço e põe-se, impaciente e aleatoriamente a bater de porta em porta à sua procura. E que, por vingança ou frustração, pela viagem perdida levava o primeiro que topasse em casa.

Feita as compras para o jantar decidiu-se a comprar uma gravata. Era um presente que lhe daria, pois a mulher e a filha nunca nenhum mimo lhe fizeram, mesmo que fosse com seu dinheiro. Era só abraços e congratulações de felicidades. Diante à vitrine, admirava as gravatas de vários feitios e cores, lisas, de listas, de seda, pretas, azuis, verdes, vermelhas, amarelas… Quando sentiu, de repente, o sangue esquentar-lhe as veias, ao pressentir uma bela jovem de dentro da loja, por trás da vitrine, a beleza de seu expressivo rosto, que mais parecia uma flor dentro de um aquário, ao lado dos peixinhos, a boiar sobre as alegres gravatas, a observá-lo.

A beleza daquele rosto juvenil, de uma majestade dócil e tranquila, como que purificada. Aqueles olhos banhavam-no e Deusdete sentiu o peso de seus anos diluírem-se; transformou-se ante aquela vitrine num rapaz de vinte anos. O coração pulsou como um arco distendido. Como um tigre à espreita. Tudo foi vago e intenso. Espécie de alucinação indefinida, como sonhos seus cumprindo-se naquele instante único. Não quero que a morte me encontre agora. Pensou resignado.

Era sábado, dia de seu aniversário. O jantar transcorreu diferente dos outros anos. Domingos e a mulher, alegres enquanto sóbrios, mais alegres com as bebidas. Dona Clotilde também muito alegre; as meninas riam a se desmanchar. Enquanto Deusdete pensava naquele assunto, não mencionado, que Domingos ignorava e a família esquecera-se, das sucessivas mortes ocorridas no Beira Rio. Quando a porta do elevador se fechou após o último aceno de adeus da família amiga, Deusdete ficou de pé, sozinho, lembrando-se da jovem da loja e da gravata que não comprou. Certo de que não voltaria a encontrá-la e desejando que a morte não o descobrisse em meio à multidão, que ocupava os dois blocos gêmeos do edifício.

 

*****

Até o fim de julho deu-se mais três óbitos. O zelador do prédio, alegando dor nas costas após ajudar a transportar os defuntos pelo elevador, pediu demissão.

Alguém teve a ideia de se convocar uma assembléia de inquilinos e condôminos, para debater o assunto que começava a alarmar os moradores. A reunião foi na garagem do bloco A, uma mal iluminada sala abaixo do nível da rua, contudo espaçosa e abrigada dos ventos que assolavam o prédio. Atestando o temor de que todos estavam dominados, só alguns poucos não foram. Deusdete não conhecia a todos, sendo que muitos nem se lembrava de nunca tê-los visto. Certo sargento da polícia, não se sabe quem o elegeu, assumiu a presidência, prometendo que seria breve e direto na sua exposição, e que ouviria com o máximo interesse quem quer que tivesse algo importante a dizer. E soube-se, o que a maioria ignorava ainda, que os médicos legistas estavam embaraçados, que não tinham mínima ideia do que haviam morrido todas aquelas pessoas, aliás, moradores em diferentes andares, cujas mortes apresentaram com uma assustadora uniformidade, as mesmas circunstâncias: todos gozavam saúde, tinham falecido dormindo, inclusive um aposentado durante a sesta, e apresentavam pelo corpo, principalmente no tronco, manchas vermelham arroxeadas.

Houve um momento de silêncio e logo começaram as perguntas. Não se registravam mortes semelhantes em outros pontos da cidade? Não haveria, no edifício quem se dedicasse a exercícios termonucleares? Não estaria poluída a água? O militar falou impávido, numa pompa invejável: não, já mandei investigar a minha caixa e nada constou. Houve então quem indagasse: não teriam aquelas pessoas sido vítimas dos resíduos letais trazidos pelos ventos tão ferozes de ultimamente, visto o rio Tietê, de águas tão poluídas, estar tão próximo de nós? Um sujeito de aspecto musculoso, do tipo saradão, num episódio drolático, provocou exclamações e risos, ao perguntar se não podia ser assassinato, se as mortes não seriam causadas por uma espécie de vampiro de Londres. Ao que se respondeu, judiciosamente, que um vampiro de Londres só poderia existir em Londres. Do outro extremo da sala surgiu um tipo de cabelos vermelho e dentes de carnívoro, saiu da sombra dirigindo-se para o centro da sala. Parou e olhou acintosamente para todos em volta e falou alto e em bom tom: comunico aos senhores que vou tomar a única medida sensata. Mudar-me-ei quanto antes. Amanhã, se puder. Alguém lançou um “mas” indeciso, logo cortado por ele: Não moro mais aqui. Boa noite.

Essa impetuosa fala deu por encerrada a assembleia. Dois dias depois, dez famílias já haviam se mudado. E mais dois cadáveres autopsiados, e nada de relevante encontrado, senão as mesmas manchas vermelhas arroxeados.

Promoveu-se outra reunião, com um comparecimento bem menor ao da primeira; fato notável, no qual se acrescentou nesta segunda assembleia, o desejo manifesto e unânime de que mortes semelhantes fossem noticiadas em outros pontos, para dissipar a impressão presente em todos, de habitarem num lugar agourento, atacado por seres invisíveis. Suspeita cuja impiedosa realidade fez-se mais clara na manhã seguinte, quando ocorreu a notícia de que haviam amanhecido mortos o eficiente e destemido sargento e uma jovem, notável por sua beleza estonteante.

*****

O edifício tremeu, abalado por uma espécie de pânico. Vizinhos que jamais trocaram cumprimentos visitavam-se constantemente para trocarem comentários, murmuravam-se pelos corredores, soavam campainhas, telefones tocavam dia e noite em todos os andares. Todos lutavam contra o medo. Visto a possibilidade de que, em cada fresta, em cada recanto sombrio, parecia esconder-se, com seus olhos frios e sua língua partida, uma serpente.

O dia para Deusdete foi tristíssimo. Triste e exasperador. Os jornais estampavam a fotografia da moça, e outra do edifício Beira Rio com matérias enumerando as mortes ali acontecidas nos últimos três meses. A lista completa e mais a insinuação de que faltavam nomes, pois as mortes já acontecidas foram tantas, que perderam as contas, alegavam os jornalistas. Na rua, caminhões estacionados, aguardavam os móveis descerem dos elevadores, congestionados de pessoas, móveis e utensílios, causando certo tumulto, e até algumas desavenças, entre os que antes foram vizinhos. Todos querendo prioridades. Carregadores trabalhavam sem pausa.

Em meio ao cafarnaum de pessoas e o trânsito das mobílias, em frente à portaria do prédio, um rabecão do IML estacionado. Um pequeno cortejo atravessou a calçada carregando uma caixa de lata em direção à viatura. Era mais um defunto. Dona Clotilde assistia a tudo do alto de sua janela. Foi à gota d’água. Quando, numa atitude intempestiva, voltou-se para dentro da casa e perguntou com altivez para Deusdete se iam ficar ali mesmo, esperando a morte chegar. Sem titubear, Deusdete respondeu que era insensatez fugir da morte. E que, além do mais, empregara, contra a sua vontade, a bem da verdade, as economias juntas em mais de quinze anos, que seria impossível pagar as prestações do apartamento e o aluguel de uma casa para onde teriam que mudar.

As filhas pressionavam, argumentando que ele falava assim porque não era jovem como elas, com a vida inteira pela frente. Em contrapartida Deusdete respondia que elas estavam certas, que ele era velho e sem futuro, sem ambições. Mas disse enérgico:

– Não posso abandonar o apartamento. Os inquilinos podem simplesmente ir embora, não tem compromisso com promissórias, eu não, tenho que seguir até o fim, dê no que der.

– Você não tem amor a sua família.

– Não se trata disso. Eu assumi responsabilidades mais altas do que devia. Assinei promissórias, estou enforcado.

– Que valem mais as promissórias ou nossas vidas? Não pague mais e pronto!

– Irão me por em protesto, posso perder meu emprego. Vocês não entendem?!

– Pois o senhor pode fazer o que quiser – disse a filha mais velha – amanhã mesmo vou morar com uma amiga, ela me convidou.

– Vou também! – Disse a mais nova.

Deusdete sentiu nos gestos das filhas o sentimento do desprezo, que o feriu. Aqueles rostos juvenis perderam sua delicadeza. Imagine 14 e 16 anos e já destilando empáfias. Engoliu seco Deusdete.

Sozinho na sala ouvia a voz da mulher encolerizada, dizendo impropérios, dentro do quarto.

*****

A polícia, mais de uma vez, compareceu ao edifício fazendo interrogatórios inúteis. Também esteve, em conseqüência da morte do sargento, uma comissão da polícia. O Secretário da Saúde, acompanhado de médicos também estiveram inspecionando os apartamentos vazios. Deusdete deu entrevistas e foi fotografado. Os jornais davam notícias diuturnamente.

“Era absolutamente desconhecida as causas que vitimavam os moradores do Beira Rio”

“Morador resiste em ficar, diz que não abandonará seu apartamento em hipótese nenhuma”.

“Humanamente impossível assegurar que o misterioso mal não atinja, dentro em breve, outros pontos da capital”

“O mal do Beira Rio se manifesta, sistematicamente, como uma epidemia em curso”.

Na volta do trabalho, ao chegar em casa, Deusdete encontrou o apartamento apagado e um bilhete sobre a mesa:

“Meu caro, resolvi junto com as meninas, ir para a casa dos meus pais, se quiser ir também, lá estarei. Mas não vá nos pedir para voltar, vai perder seu tempo. É melhor nem ir”.

Agora, sempre que voltava pra casa ao fim do trabalho, duas coisas o afligiam: o número crescente de janelas apagadas no prédio e o ar de humilhação, de vítima resignada, com que sua mulher e as filhas lhes impingiram.

O edifício parecia agonizar em silêncio. Começara a exalar um cheiro indefinível, de recinto fechado, onde murchavam flores. Mesmo assim, Deusdete, nessa noite sentiu uma alegria meio perversa. Era o sabor da liberdade. Que alívio, não ver antes de apagar a luz o olhar que a mulher lhe atirava, olhar cortante e amargo. Ligou o som. Era setembro. Escutou maravilhado a “Primavera”, de Vivaldi. Debruçou-se na amurada da janela e apreciou os reflexos das luzes nas águas sujas do Rio Tietê.

 

*****

Uma semana depois ao voltar à noite, vindo pela rua, recusou a acreditar no que via: o prédio estava às escuras. Somente no térreo, clareando o hall e a calçada, com o vigia sentado num banquinho, junto à porta de vidro, um minguado foco de luz. Desta vez pensou seriamente na possibilidade de também ir embora, pois já estava achando que estava dando muita sorte para o azar. Entrando em casa, estirou-se no sofá, ficou a meditar. Nesse ínterim tocou a campainha, insistentemente três vezes. Surpreendido e um tanto assustado, levantou-se num impulso.

Abriu a porta e leu, nos três pares de olhos à sua frente, um misto de avidez, perplexidade e comiseração. Conhecia-os. Eram os homens da imobiliária. Vinham-lhe fazer uma proposta. A conversa foi longa, mas tudo pôde se resumir nisto: receberia de papel passado o apartamento totalmente quitado, se permanecesse nele, vivo, até que seu exemplo desmentisse o medo de todos os que haviam fugido.

– Mas isto vai ser invadido por toda sorte de bichos. Os ratos vão subir do rio e fazer morada aqui. E os morcegos e as baratas? O edifício vai ficar como uma dessas casas mal-assombradas, porém, cem vezes maior.

– Nós zelaremos, daremos toda a assistência, faremos o possível e o impossível para tornar agradável a sua moradia.

– Os senhores vão precisar de um exército, para manter limpo este monstro.

– Que vista magnífica! – Disse um dos visitantes, olhando através da janela.

O outro perguntou: – Então, senhor Deusdete, vamos assinar o acerto? A coisa é séria.

*****

No outro dia foi visitar a família. Num tom o mais indiferente possível comunicou a conversa da véspera com o pessoal da imobiliária. Todas se alegraram quando lhes disse que obteve a quitação do apartamento por conta que se mantivesse morando no prédio. Era flagrante em seus semblantes a felicidade estampada no brilho dos olhos. Era uma alegria só. Largos sorrisos no rosto de todas. Sua mulher então, nem se fala de tanto contentamento. A alegria delas também o deixou muito feliz.

Porém, quando já recolhido de volta ao apartamento e meditabundo, achou sua mulher impiedosa e até sarcástica em algum momento. E admirou-se da própria ingenuidade. Arriscava sua vida e curtia o isolamento, bastando que isso representasse um ato de coragem e causar na família uma satisfação que chegava a ser cruel. Não me degradei, eu mesmo, trocando a minha vida por dinheiro? Vendi uma aparência de coragem ou de obstinação. Não fosse isso e eu, Deusdete Serafim fugiria, me arruinaria, mais iria embora fosse para onde fosse. E o pior é que não vencerei a luta, não usufruirei do apartamento pago: a morte, aqui escondida, mais dia menos dia me encontrará.

Vieram repórteres, fotografaram-no, mal perguntaram seu nome. Publicaram, pagos pelos donos do Beira Rio, uma entrevista falsa, com sua fotografia na janela da sala, contemplando a paisagem. Ele era o homem sem medo, que não receava a morte e o mistério, o que preservava o edifício do abandono, sendo também um símbolo de fé. – Tenho fé em Deus -, dissera aquele desconhecido da fotografia, em sua janela, de rosto semelhante ao seu. Mas eu não creio em Deus, não diria isso, há anos que nem lembro d’Ele… Desmentiu para si Deusdete.

Soube que seus três algozes haviam oferecido dinheiro a algumas pessoas, para morarem uns meses no prédio. As respostas de não, foram unânimes.

Deusdete passou a não mais visitar a família, no aguardo que elas viessem até ele. Não vinham. As filhas passavam na repartição para pedir-lhe dinheiro. E só. Passou a viver um tormento. Teria ele sido abandonado por todos, inclusive seu amigo Domingos, que sempre arrumava desculpas esfarrapadas, para não mais tomar uma cervejinha com ele após o expediente.

Comprou um pássaro, uma gaiola, alpiste e maxixe.  Deu-lhe o nome de Tico-Tico Surubico, mesmo sabendo ser um periquito.  Levou pra casa, quem sabe esse bichinho não o distraia por alguns momentos. Faria acrobacias. Cantaria.  Enquanto ele falaria da solidão. Da sua infância. Da vida que ainda o esperava. Talvez Aplacasse um pouco sua angústia e o terror dessa sinistra morte e sua foice invisível? E assim foi. Ficaram até tarde da noite, frente a frente, o periquito saltando e ele estalando os dedos e assoviando. Por fim num gesto de ternura, que não pôde encontrar outra expressão, pôs, antes de dormir, um alvo lenço de cambraia cobrindo a gaiola.

Pela madrugada, despertando, sentiu uma pontada de terror. Mas lembrou-se do pássaro e acalmousse. Enrolou-se, tranquilo no lençol, mas não conseguiu dormir. Começou a pensar naqueles doze andares, naqueles apartamentos fechados, segregando mofo.

Ficou de pé. Não mais toleraria. Nem um minuto a mais, aquele silêncio de aço e concreto, aquela solidão constrangedora. Quem ouviria o seu grito, se tivesse uma dor, se corresse um perigo? Um perigo?… E veio-lhe premente, o desejo de falar, como fizera à noite com  seu Tico-Tico. Saiu do quarto, ligou o interruptor e viu que o pássaro estava morto. Compreendeu então que iria enlouquecer e decidiu sumir, imiscuir-se, por um artifício que teria de inventar, naquela espécie de mistério em que se vira embotado.

 

*****

Sua providência inicial foi comprar calça, paletó e uma corda. Em seguida, criar uma rotina que gerasse um álibi verossímil. No sábado, fez compras, trouxe comestíveis e avisou ao porteiro que, tendo necessidade de descanso, ficaria em casa todo o fim de semana, mas que não estaria pra ninguém. No sábado seguinte fez o mesmo. Antes, porém, e a pretexto de ter perdido sua chave, pedira ao porteiro as sobressalentes, este para livrar-se, o quanto antes do incômodo, deu-lhe todo o molho de chaves, ele que quebrasse a cabeça para encontrar a sua. Experimentou-as uma a uma na porta do apartamento logo abaixo do seu, até abri-lo. Roubou a duplicata e devolveu às outras.

No outro sábado, conferiu. Tinha tudo: roupa e sapatos desconhecido da família, dinheiro, a corda, a chave de baixo, a esperança. O resto dependia de seus punhos e de um gato, dos muitos que vagavam pelos arredores. Então começaria vida nova. O futuro contava, mas não agora; o que importava era deixar a carapaça inútil, aquela vida velha e sem amor.  

Avisou mais uma vez ao porteiro que passaria o fim de semana sem sair, mas que não estava pra ninguém, precisava descansar. A madrugada era de lua cheia, noite limpíssima, brilhante. Melhor não poderia ser. Como havia planejado. O gato bebia leite em sua tigela. Fez tudo como se dormir fosse. Fez a barba, tomou banho, escovou os dentes, vestiu o pijama; ficando os chinelos ao pé da cama, e na mesa de cabeceira, o relógio de pulso. Meteu o gato num saco e deixou-o, juntamente com a roupa, os sapatos e o dinheiro no apartamento de baixo, abrindo a janela da frente. De volta, trancou-se por dentro. Deixando as chaves na fechadura. Tudo certo.

Ergueu a vidraça da janela. A lua já iniciara sua descida. Num dos varões da amurada passou a corda, de modo que as duas pontas se tocassem na janela de baixo, deu um nó no meio. Agora mais firme do que nunca em sua decisão, iniciou a descida. Após algumas poucas dificuldades, concluiu seu intento, caindo dentro na sala do outro apartamento. Foi um sucesso. O único som que ouviu foram os do vento e o reboliço do gato dentro do saco. Vestiu-se. Desceu às escadas descalço e às cegas. Era imprescindível o silêncio e a escuridão. Depois de muito esforço, com muito tato e precauções chegou ao térreo. Sentou-se no último degrau. Exausto. O corpo como que esvaziado. O portão de aço e vidro estava fechado. O vigia, com medo da morte, preferia passar a noite do lado de fora, enrolado num capote, sentado em seu banquinho, quase ao relento, a ficar naquele monstruoso túmulo.

Deusdete dirigiu-se para o depósito de lixo com o gato no saco e o enfiou lá dentro. Voltando para o seu esconderijo. Enquanto o gato saltava da prisão com seus grunhidos de desespero. Os miados ensurdeceram a madrugada e, principalmente, o vigia, que entre assustado e apavorado abriu o portão de entrada num estrondo, atravessando o saguão exasperado, seguindo para os fundos da garagem. Deusdete furtivamente ganhou a rua e respirou o ar da liberdade. Passou a correr, ainda com os sapatos na mão e a corda no pescoço, gritando para dentro de si mesmo: hoje é domingo, porque ontem foi sábado… Hoje é domingo!… Domingo!

Ao passar pela ponte sobre o Rio Tietê, jogou a corda e as chaves em suas densas águas. Calçou os sapatos e andou, andou, andou…

 

*****

O edifício Beira Rio passou a ser habitado novamente. Com a diferença de que agora pertencia ao Estado. Pois este, dele se apossou, após grande inquérito a respeito dos fatos. A polícia investigativa suspeitou dos diretores da imobiliária. Investindo nessa linha. Não deu outra. A direção da imobiliária em conluio com os donos do prédio praticaram os crimes, e confessaram: com o intuito de vender os apartamentos, visto que os atuais moradores não tinham condições de adquiri-los. Arquitetaram este plano: inspirados no romance “O Nome da Rosa”, de Humberto Eco, enviava aos inquilinos do Beira Rio, não aos proprietários, uma estampa envenenada, cuja fórmula foi adquirida nos antigos escritos de Lucrécia Bórgia,  – filha de um dos papas mais corruptos da história da igreja católica -, a cruel assassina de maridos. Que, com muitos testes e gatos mortos, conseguiram prepará-lo. O qual era misturado à cola dos selos, que lhes enviavam gratuitamente, sob um pretexto qualquer de lhes retornar a resposta e que, ao umedecer na língua eram contaminados, que os levavam a óbito dias depois. Sem evidências de envenenamento, pelos simples exames de métodos convencionais. Esclarecidos os fatos, o Estado pôs a venda, para que as famílias das vítimas assassinadas, e um desaparecido, fossem devidamente indenizados. Oferecidos a preços mais baixos, que os do mercado, rapidamente foram vendidos.

*****

Como diz o dito: “Têm males que vem para o bem.” Foi o que se sucedeu com Deusdete. Depois que aquelas mortes tantos terror causaram a sua vida. Sua família ficou com o apartamento quitado e mais a indenização do seu desaparecimento, pois ele também fora uma vítima dos criminosos. Como defendeu o advogado de sua mulher. Trocou de identidade, prestou novo concurso público. Agora se sentia mais realizado profissionalmente. Comprou uma gravata nova. Vermelha. E estava vivendo com a linda e deliciosa moça da loja de gravatas.

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16 comentários em “A Morte nas Alturas (Ordep Sotam)

  1. Fheluany Nogueira
    19 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Viver sozinho, completamente só, deve ser aterrorizante, estar em um prédio abandonado por causa de mortes misteriosas, mais assustador e esse único morador sumir sem nenhum sinal, pior — portanto, excelente premissa. Introdução instigante, desenvolvimento em bom ritmo, boas referências de livro, música, trama bastante criativa, mas…

    Terror e emoção – As explicações sobre a causa das mortes, sobre a fuga do protagonista e o final feliz com Deusdete livre do emprego ruim e com a garota mais nova, mais bonita minimizaram o medo provocado anteriormente.

    Escrita e revisão – Fiz uma leitura fluente, ágil, prazerosa. Há pequenos desvios gramaticais, algumas repetições que não prejudicaram o texto no todo. Gostei muito do conto, divertido, perde pontos dentro do gênero do Desafio.

    Parabéns. Abraços.

  2. werneck2017
    19 de outubro de 2017

    Olá,

    O texto traz uma história bacana, criativa, e bem resolvida. Gostei da homenagem a O Nome da Rosa. Acredito que muitos colegas já se pronunciaram bastante sobre os erros gramaticais encontrados, de forma que o texto carece de uma boa revisão, sem falar na troca de narradores que acontece de vez em quando.
    No mais, acredito que você deva investir na história, que está mais para suspense que terror, mas que não a desqualifica de modo algum.
    Boa sorte no desafio.

  3. Luis Guilherme
    19 de outubro de 2017

    Bom dia! td bem?

    Como tenho dito, esperei bastante por esse desafio, uma vez que adoro o gênero. Por isso, tenho lido os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu:

    Olha, cara, sendo sincero, não consigo classificar seu conto como terror. Em nenhum momento encontrei nenhum aspecto que enquadrasse em terror ou suspense. Tem um pouco de mistério e crime, bastante de humor.

    Por isso, acabou sendo difícil apreciar completamente o conto, visto que, como disse, comecei a ler com a expectativa que o desafio trazia.

    Não vou entrar muito na questão gramatical, uma vez que já foi bastante abordada, não quero ser repetitivo.

    Quanto ao enredo: achei que teve muitos furos, e bastante inverossímil, em especial o desfecho. Teve uma espécie de plot twist no final, quando esperávamos que o desfecho fosse tratar das misteriosas mortes, quando na verdade a surpresa que tivemos foi a fuga do homem.

    Quanto aos pontos posivitos: o conto tem algumas boas construçoes, especilamente essa:

    “A estonteante impressão de que a morte procurava-o. A sensação era de que ela, a morte, esqueceu seu endereço e põe-se, impaciente e aleatoriamente a bater de porta em porta à sua procura. E que, por vingança ou frustração, pela viagem perdida levava o primeiro que topasse em casa.”

    Gostei muito desse trecho! Tem outras passagens no mesmo nível no texto.

    Ou seja, a impressão que tive é só que a ideia nao se adaptou bem ao desafio, mesmo. Acho que você tem bastante potencial, mas não rolou terror, sabe? Não entenda como uma critica, e sim como minha opinião de que voc~e tem muito potencial na construção da escrita, só nao rolou nesse texto.

    Enfim, boa sorte e parabens!

  4. Antonio Stegues Batista
    17 de outubro de 2017

    ENREDO: Diretores de uma imobiliária e donos de um edifício, arquitetam um plano para matar todos os moradores de um prédio. Achei uma má ideia.

    PERSONAGENS; Sem força, sem simpatia, engraçados, a começar pelo nome do personagem.

    ESCRITA: O autor pretendeu fazer uma escrita bem elaborada e exagerou nos adjetivos e sinônimos. Algumas frases ficaram com sentidos divididos e meio embaralhados.

    TERROR: Não vi ou, senti, nenhum terror. A história tem um tom mais de comédia do que outra coisa, a começar pelo nome do protagonista. Inclusive a motivação para matar os moradores é algo de ridículo, cabe mais numa história de absurdo. Salvando-se apenas o plano de fuga, bem arquitetado. Boa sorte.

  5. Rafael Soler
    17 de outubro de 2017

    Gostei da narrativa, principalmente por vermos inicialmente o desaparecimento do personagem e as circunstâncias em torno do evento, para depois acompanharmos o que aconteceu até o momento fatídico. O protagonista também foi muito bem descrito, deu para sentir como era sua vida e tudo o mais. Outro ponto positivo é o ritmo da trama, que não “cria barrigas” em nenhum ponto.

    Acho que alguns pontos poderiam ser mais bem trabalhados, principalmente alguns detalhes na escrita. Alguns parágrafos misturaram narração e pensamento sem distinguir o estilo, o que me causou certa confusão momentânea. Isso poderia ser estruturado melhor para que o leitor não se confunda.
    E não sei se esse conto se encaixaria na classificação de terror, mas isso é subjetivo.

    Mais um conto muito divertido!
    😀

  6. Ana Maria Monteiro
    16 de outubro de 2017

    Olá, Ordep. Li o conto e em seguida os comentários; sempre faço isso antes de escrever o meu. E porquê? por três motivos: não repetir o que já tenha sido dito; eliminar as observações gramaticais e de escrita que tenha apontado e assim não precisa ver duas vezes a mesma coisa; e por fim também me pode servir de auxílio à interpretação, para alguma coisa de que eu não me tenha apercebido.
    Então, já pus de lado muito do que teria para dizer. E considero o conto dentro do tema do desafio, uma vez que o terror existe, fica bem patente no comportamento de cada sobrevivente (e de estranhar seria se assim não fosse). A história está bem urdida e bastante original, gostei.
    Quanto à escrita, raramente me manifesto sobre verbos, visto que a sua utilização no meu e no seu país são quase diametralmente opostas mas, não apreciando ser repetitiva, aquele “acalmousse”, quase me tirou do sério. Tanto também não! E não tem nada a ver com conjugação ou concordância; foi falta.
    Além disso e de outros pormenores já apontados, notei esta: “de vítima resignada, com que sua mulher e as filhas lhes impingiram”, este plural não foi descuido e ficou mesmo a despropósito.
    Por fim, apenas uma perda de autenticidade nesta frase: “pois as mortes já acontecidas foram tantas, que perderam as contas, alegavam os jornalistas”, não imagino isto de jornalistas a assumir perder as contas, ainda se fosse a afirmar que não dispunham dessa informação pelas autoridades, insinuando (como é prática corrente do mau jornalismo) que isso fosse devido às autoridades já terem perdido as contas, tudo bem, mas assim, perdeu credibilidade.
    O gato obrigou-me a voltar atrás à procura dele – e não o encontrei. A explicação do seu porquê sim, veio mais tarde. Mas de onde surgiu o gato sem mais nem menos?Deveria constar dos preparativos.
    A história, estando, em minha opinião, adequada ao tema, é mais dentro do policial,sem dúvida e merece toda a atenção que lhe dedique, pois é realmente boa.
    Vou terminar pelo início: gostei imenso do primeiro parágrafo, está muito bem escrito e cria um interesse caso imediato sobre o que virá depois. Ponto alto.
    Não entendo que uma história de terror tenha que acabar mal, da mesma forma que não é suposto que todas as de amor terminem bem, mas esta acaba demasiado bem.
    Antes do desfecho, eu estava convencida de que o prédio estivesse realmente amaldiçoado por um ex-habitante do apartamento habitado por Deusdato e que seria essa a razão porque morriam pessoas em todos os outro, excepto no dele. Esperei que no final, o prédio voltasse a ser habitado e que Deusdato de lá saísse sem dívidas e de partida para uma vida melhor que a anterior, deixando para trás também a mulher e as filhas. E a minha esperança era de que isso sucedesse e começassem a morrer todos de novo – excepto, claro, quem vivesse no mesmo apartamento de Deusdato. Teria sido um final feliz para o protagonista, mas atenderia melhor à demanda de terror. Enfim, ideias, apenas. Como toda a gente sabe, porque não faço disso segredo, não gosto de terror, não consumo e nem percebo nada do assunto.
    Gostei do seu conto. Está dentro do tema. Você sabe escrever. A história é boa. Faltou um pouco mais de revisão, é só.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  7. Nelson Freiria
    14 de outubro de 2017

    A primeira parte ficou um pouco parecida com matéria de jornal, a última tbm. Acredito que dava pra cortar uma coisinha aqui e outra ali, a exemplo da cor da cortina.

    Na segunda parte, essa frase me incomodou um pouco: “Lá fora a ventania era forte. O tempo estava pra chuva. O vento açoitava as cortinas com certa violência.”. Mais a frente, essa outra frase também me pareceu um pouco ‘demais’: “Era flagrante em seus semblantes a felicidade estampada no brilho dos olhos”. E achei esquisita aquela comparação de beleza a flores dentro de um aquário.

    Tem erros de digitação, como “vermelham arroxeadas” e depois “vermelhas arroxeados”, e tantos outros que acabaram passando pela revisão. Algumas palavras como ‘meditabundo’ me fizeram parar o texto para pesquisar o significado. Tem algumas interrogações/exclamações seguidos de reticências, acho que dava para organizar melhor esses sinais [?,!, …].

    No geral, achei interessante a abertura. Depois o conto se mantém num ritmo consideravelmente agradável, mas um pouco além da metade já temia que faltaria ação/tensão/suspense. As explicações sobre a causa das mortes eliminou o elemento sobrenatural do conto. Apesar da evolução de Deusdete ser mto bem construída e do conto ter um enredo interessante, isso não basta num desafio de terror. Num outro tema esse conto teria um potencial maior.

    Acredito que dava para passar sem o último parágrafo.

    ” ‘Primavera’, de Vivaldi.”, boa escolha.

  8. Paulo Luís
    14 de outubro de 2017

    A escrita percorre todo o texto como um barquinho a deslizar num rio, sem cascatas nem rodamoinhos, fluindo com uma leveza impressionante. Um conto bem amarrado, o autor promove todas as nuances do enredo nos mínimos detalhes. Logo no princípio da narração já demonstra o desprezo que a mulher nutre pelo marido ao tratá-lo de meu caro, e ao comparar a idade do falecido com a dele. Quase que dizendo: Cuidado podes ser o próximo. Quarenta e cinco anos, a tua idade. É por isso que eu digo: temos que aproveitar a vida enquanto estamos vivos, meu caro!… Se não oh, bau, bau!…) A moça através da vitrine, para culminar com o final. Quanto ao terror, tão cobrado e exigido neste desafio, ao meu ver está perfeitamente representado, ao contrário do que alguns críticos estão apontando como inexistente, considerando-se que o terror reside nos vivos e não nos mortos, o conto corresponde plenamente as expectativas de, no mínimo, um grande suspense. É um conto escrito por quem sabe o que quer dizer e como dizer, sem rodeios. Firme. Da largada á chegada, e todos os entremeios do caminho.

  9. Fabio Baptista
    14 de outubro de 2017

    A narrativa tem um ar de crônica (talvez a ambientação no cotidiano de um condomínio tenha ajudado nessa impressão) que torna a leitura fácil e gostosa.
    Alguns problemas, porém, sobretudo no que diz respeito ao uso das vírgulas, comprometeram um pouco a parte técnica.

    – de que o infeliz funcionário público fora arrebatado da cama, em pijama e descalço por algum poder desconhecido.
    >>> aqui, por exemplo, acredito que a intenção era dizer que algum poder desconhecido arrebatou o personagem. Essa estrutura deixou a frase ambígua, dando a entender que o poder deixou o homem descalço.

    – E Deusdete, que adquirira, em razão dos fatos
    >>> aqui acho que era “adquirira [notoriedade]”

    – A sensação era de que ela, a morte, esqueceu seu endereço e põe-se, impaciente
    >>> aqui o tempo verbal veio para o presente

    – Que valem mais as promissórias ou nossas vidas?
    >>> Que valem mais: as promissórias ou nossas vidas?

    – me arruinaria, mais iria embora
    >>> mas

    – lembrou-se do pássaro e acalmousse
    >>> esse “acalmousse” foi o que mais me deixou aterrorizado na história rsrs

    – roupa e sapatos desconhecido da família
    >>> desconhecidos

    – O qual era misturado à cola dos selos, que lhes enviavam gratuitamente, sob um pretexto qualquer de lhes retornar a resposta e que, ao umedecer na língua eram contaminados, que os levavam a óbito dias depois.
    >>> há muitos “que”s nessa frase
    >>> o encadeamento de vírgulas dá a entender que “que os levavam a óbito dias depois” se refere à cola dos selos, o que não é verdade.

    – Oferecidos a preços mais baixos, que os do mercado, rapidamente foram vendidos.
    >>> preços mais baixos que os do mercado (sem vírgula aqui)

    – Depois que aquelas mortes tantos terror causaram
    >>> terrores

    – pois ele também fora uma vítima dos criminosos. Como defendeu o advogado de sua mulher
    >>> vítima dos criminosos, como defendeu

    A trama, a princípio, me lembrou aqueles plots do desenho do Scooby-Doo, em que alguém se fantasiava de monstro para expulsar os moradores de uma casa.
    Fiquei torcendo para que houvesse alguma entidade sobrenatural maligna no prédio e um bom motivo para os acontecimentos. Infelizmente, fui frustrado nessa expectativa.

    Não havia entidade, não havia bom motivo, tampouco havia terror.

    No final, o plano do protagonista pouco tem a ver com as mortes do prédio. Ele só aproveitou a oportunidade para desaparecer de um modo mais convincente do que o tradicional “vou ali comprar cigarros e já volto”.

    Enfim… foi até divertido, mas com algumas falhas técnicas que podem ser facilmente lapidadas e, infelizmente, muito deslocado dentro do presente desafio.

    Abraço!

  10. Paula Giannini
    14 de outubro de 2017

    Olá Autor(a),

    Tudo bem?

    Quando seu conto iniciou, pensei que iria falar de combustão espontânea e algumas teorias que eu lia, quando jovem, na Revista Planeta. Depois, com o caminhar da história, o conto me remeteu a um “Caso Especial” que assisti quando criança na “Rede Globo”. Creio que aquilo foi uma das coisas mais assustadoras que vi na vida. Ao menos esta foi a minha impressão de criança. Na tela, via-se o homem que vivia sozinho em um edifício abandonado. Em uma determinada cena, o telefone tocava e ele ia ao apartamento do vizinho… Pura tensão.

    O tal caso especial, eu creio, foi inspirado por um caso real de um edifício no Rio de Janeiro, em plena Praia de Copacabana, que, por algum motivo que eu (também criança) desconhecia foi aos poucos abandonado pelos moradores, exceto por um, que viveu lá por anos. Todas as vezes que passávamos no local de carro, meus pais narravam a história e comentavam a deterioração do edifício.

    Bem, obviamente, seu conto me transportou para essas experiências, o que é ótimo. Transportar o leitor à experiências próprias é, ao menos eu acredito, um ponto fortíssimo em todo e qualquer conto. Toda e qualquer obra de arte. Através da elaboração do que somos, entendemos o que é visto, o que é lido de diferentes formas, com diferentes sensações.

    Gostei muito de seu modo narrativo, logo de cara. O conto tem uma “pegada” ágil e leva o leitor a se interessar pelo que vem a seguir.

    Com o passar do conto, creio que a história tenha “criado vida própria”, levando o autor a visitar outros locais. Ao menos essa foi a impressão que me deu. Parece que nossos contos têm vida, não é? Eles acabam tomando rumos outros, que aqueles que planejamos no início. Não sei se isso aconteceu aqui, foi só uma impressão. Mas isso não prejudica, de modo algum o bom andamento do trabalho.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  11. Andre Brizola
    13 de outubro de 2017

    Salve, Ordep!

    Cara, gostei do conto. Como já apontaram, também acho que não se enquadraria dentro do gênero terror. Entretanto, isso não elimina suas qualidades, se lido com outra expectativa.
    A trama inspirada pelo Nome da Rosa ficou legal. Acho, entretanto, que ficaria mais ajustada com algumas referências à época em que se passa, pois me deu a impressão de que ela se situaria em uma década anterior à atual. Talvez nos anos 80, 90, quando seria mais frequente a utilização de selos “lambidos” (ao invés do adesivos, ou até mesmo as cartas resposta sem necessidade de selos), entre outros aspectos, como a falta de vigilância por câmeras em condomínios, documentos adulterados aceitos como comprovação para concursos públicos, entre outros. Sei que isso tudo é balela quando se lê o conto, e que podem ou não ser decisivos para o resultado das tramoias. Mas que tudo isso encaixaria como uma luva em 1985, isso encaixaria!
    Fora isso foi como ler Agatha Christie. A gente sabe que uma hora vão esfregar o mistério na nossa cara, mas não importa, eu quero é saber o que é que aconteceu de fato! E isso é mérito do texto atrativo, com um ritmo cadenciado, dentro de uma programação que me fez querer saber mais e mais detalhes. Muito legal.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  12. Fernando.
    13 de outubro de 2017

    Meu querido Ordep (talvez Pedro Matos ficasse mais fácil, né?). Um caso que causa ansiedade e que tem como inspiração uma grande obra da literatura mundial, conforme você mesmo me relembra. Ao terminar a leitura do seu conto me peguei aqui pensando se acaso estaria diante de uma história de terror, ou de suspense? Estou propenso a achar que se trata dessa segunda hipótese e você me auxilia nessa definição, na medida em que elucida o caso. Acho que você tem em mãos, Pedro, um bom tema. Puxa, um conjunto de apartamentos na cidade grande, no qual vão acontecendo mortes. Cá com os meus botões (por favor, releve o que vou dizer, eis que nada entendo desse assunto aterrorizante) fiquei pensando se não seria melhor que tivesse acabado com a história naquela hora em que pouco sabíamos, em que o nosso herói resolvera permanecer no prédio. Aí poderia ver uma saída, uma entidade que o protegesse, alguma ajuda alienígena, uma bruxa que morava por lá e era apaixonada por ele, ou mesmo imaginando que a tal bruxa fosse a moça linda da loja de gravatas… Bem, com isto quero dizer, Ordep, ter achado que a explicação dos acontecidos e o final feliz (pelo menos para o nosso herói, Deusdete Serafim) provocou um esfriamento na sua história, mas acho que seja melhor que desconsidere essas minhas considerações. Tomara que venham outros leitores que tenham uma visão distinta do que achei. Já escrevi demasiado e então deixarei para outros comentaristas as questões relativas a uma boa revisão no texto. Sim, sinto que ele precisa dela e creio mesmo que eles lhe farão este alerta. Grande abraço.

  13. Regina Ruth Rincon Caires
    13 de outubro de 2017

    Gosto muito da técnica de iniciar o texto com o desfecho (ou parte dele). Exige cuidado, a narrativa precisa ser trabalhada com muita perspicácia para que haja coerência ao final. É um belo exercício!

    O conto é uma história policial, de trama bem organizada, coesa, permite uma leitura fluente. Alguns pequenos deslizes, nada que compromete e que não pode ser corrigido. Ficou um pouco confuso quando se percebe uma troca de fala (tempo verbal), confusão entre narrador e protagonista, um no lugar do outro.

    Não havia entendido a razão do pobre gato ensacado, boa estratégia. E o “morto” arrumou novos documentos, FALSIFICADOS, prestou outro concurso publico, foi aprovado e viveu feliz para sempre. Será?! Escrever é muito bom, a imaginação tem livre-arbítrio, cria o que quer, voa por onde quiser.

    Gostei do seu texto.

    Parabéns, Ordep Sotam!

  14. Olisomar Pires
    13 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: baixo.

    Narrativa/enredo: Edificio residencial é vítima de plano diabólico praticado pior imobiliária no intuito de não ser lesada.

    Escrita: boa. Alguns erros que não me incomodaram tanto.

    Construção: o texto ficou “longo” com descrição dos eventos sem contudo descrevê-los a contento. Muito genérico, superficial. Não foi criada empatia ou eu não senti. O bilhete da esposa chamando o marido de “meu caro” é extremamente inverossímel, bem como outras situações.

    A solução dos crimes narrada em estilo jornalístico fecha o conto definitivamente.

    Considero que não houve “terror” no texto. Há um gancho para o suspense que se melhor trabalhado poderá render bem mais na categoria “policial”.

  15. Angelo Rodrigues
    13 de outubro de 2017

    Caro Ordep Sotam,

    torço para que o senhor não se chame Pedro Matos, pois isto o revelaria, desclassificando-o. Acho que foi isso que li no regulamento, mas não quero voltar até lá pra confirmar.

    Comecei a ler o seu conto e fui anotando, fazendo observações, ressaltando o que poderia ser melhorado, e tal. Num ponto parei. Seria inútil continuar.
    Imaginei um conto onde situações inusitadas – mortes suspeitas – seriam resolvidas com algum traço de terror. Nada. Tudo não passava de um golpe imobiliário. Assim, lamento, não classifico o conto como apto a participar do desafio. Não há terror, apenas um crime praticado contra direitos e pessoas.
    Mas… com o objetivo de ajudar imaginando que o senhor possa dar um novo rumo ao conto, aqui vão algumas observações (lembrando que fui até certo ponto depois desisti de continuar):
    – Cor marrom pardo. Acredito que seja uma circunlocução. Não existe a cor marrom parda. Temos cor parda, gris, burro, lobo, rato, ruço-cardão e por aí vai, mas marrom pardo, sei não…
    – “…um par de sapato…” por “…um par de sapatos…”. Par, como substantivo sempre vem acompanhado de uma locução formada por uma preposição mais um substantivo flexionado no plural. Par de esporas, par de chinelos…
    – A frase “Quase todos, porém…” está longuíssima e me pareceu se sentido quando “… condições especialíssimas em que este se encontrava a hipótese…”
    – Sempre implico com frases que não expressam relação (subordinação) de causa e efeito. Veja: “No entanto, seis meses atrás, era um funcionário correto, pacato e desconhecido, mas feliz.” Opa! Uma adversativa que não expressa ideia de contraste? Por que um sujeito ordeiro, pacato e desconhecido não poderia ser um cara feliz? Acho que a frase poderia funcionar bem quando subtraído o “mas”, deixando o coitado do Deusdete ser feliz à sua maneira.
    – Expressões esquisitas sempre geram grafias esquisitas. Babau (já era!) é uma delas. Substituir “…bau, bau…” por babau.
    – (Fala o narrador) “Clotilde, sua mulher se foi para o quarto… (Fala o protagonista) O que ela quer? Que eu me corrompa?…” Mudança de narrador. Um quebra-molas no texto.
    – “Feita as compras…” As compras foram feitas. “Feitas as compras…”
    – “Era só abraços e congratulações…”, por “Eram só abraços e congratulações…”
    – “Diante à vitrine…”
    – “… de listas, de seda…
    Foi por aqui que eu parei, pulando algumas.

    Boa sorte Ordep Sotam, e obrigado por nos deixar conhecer seu conto.

    • Ordep Sotam
      15 de outubro de 2017

      Meu caro Rodrigues,
      Em primeiro lugar: muito grato pelas dicas gramaticais; segundo: desculpe-me por tratá-lo pelo sobrenome, pois o seu Angelo está desprovido, ou melhor di-zendo, descoberto pelo simpático chapeuzinho, também conhecido como acento circunflexo. E não querendo errar na pronúncia se, Ângelo ou Angélo, optei por não errar. Quanto ao Ordep Sotam, é mesmo um pseudônimo. É uma singela homenagem a um remoto professor meu, que se dizia ser uma “Eminência parda oculta”, portanto, um Pedro Matos às avessas. Sobre o “mas”, (vou inverter a situação). Você pensou na possibilidade de pelo fato, ele Deusdete, se sentir um sujeito correto, pacato e desconhecido, não seja motivo para ele se sentir feliz? De qualquer modo, faço aqui uma confissão, pois a frase “desconhecido mas feliz” não seria a palavra das minhas intenções, mas sim, “Aparentemente feliz”. Aquela ficou por descuido e o avançado do tempo para a participação no Desafio do EntreContos. Dito tudo isto, agora sou eu que não vou desculpar-lhe, poxa!, você não me deu nem uma licencinha poética para minha cortina marrom parda? Ks, Ks, Ks… E muito menos a beleza das flores dentro de um aquário! Poxa vida!, isso é maldade demais, não é não? No mais, muito grato mesmo pelas correções, farei um pente fino, com mais tempo. Só um obs. É sabido e de praxe, que nenhum escritor, por mais letrado que o seja mande seus originais para o “prelo”, (olha lá, mais uma licença poética, prelo em tempos de altas tecnologias? É de se ri.), sem um grande revisor a tiracolo, não é mesmo?
      Abraços

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Informação

Publicado em 12 de outubro de 2017 por em Terror.