EntreContos

Literatura que desafia.

Sorria (Soteropolitano)

FADE-IN

ABERTURA

5 anos juntos e ainda nada de lua-de-mel, ela fazia beicinho.

Lua-de-mel. Coisa antiquada. Não tinham dinheiro. Ele batia o pé mais por teimosia que pela economia em si.

Não dava. Ela era assim. Se queria, queria e pronto! Além do mais, ele não precisava concordar. Bastava acompanhá-la. Só isso. Emburrado, feliz, a porcaria que fosse. Mas que fosse. E logo. Nada de esperar, de prioridades. Não. Velhos, ela argumentava, comemoravam bodas, jamais luas-de-mel.

 

CENA-1  

INT-LOJA-DIA

 

Quando Amâncio comprou um computador o mundo acabou. O seu mundo. E embora o mundo acabar possa soar um pouco trágico, era exatamente isso.  Ou quase. O mundo de Amâncio caiu. No choro. O de Alice.

Ora, não tinham dinheiro para nada.

Nada de orçamento para armário novo, roupas, capa para o sofá. Nada. Mas para computador, havia. 12 vezes sem juros, com garantia, pelo crediário-das-Casas-Bahia. E Alice, como boa representante, do signo de áries, embora disputasse, cronometrando ansiosa, o revezamento de tempo para o uso do Windows 98, com acesso ilimitado à Internet, depois da meia-noite, pelo dial-up da companhia telefônica, não se furtaria a seguir reclamando dia e noite. E, é claro, também nas madrugadas.

 

CENA-2

INT-QUITINETE DO CASAL-MADRUGADA

 

R$ 1.

Quando Alice viu a promoção na tela, não se conteve. A companhia aérea anunciava sua vinda para o Brasil e a promoção de lançamento pretendia arrebanhar não só todo e qualquer passageiro de toda e qualquer concorrente, como prometia àqueles que nunca voaram, a oportunidade de viagem barata, em uma confortável aeronave, com direito a ida e volta. Era o sonho da classe C se realizando. Era o sonho de Alice se tornando algo bem maior que aquilo que imaginara.

Teria sua lua-de-mel!

Abriu o painel de destinos e deixou que a vida escolhesse e o seu.

— Amor, vamos para Bahia?

Amâncio não se deu ao trabalho de responder. Balbuciou um pastoso “hum-hum”, embalado pelo sétimo sono ao qual se entregava. Aquilo era mais um delírio da mulher em suas incursões da madrugada, pelo ilusório mundo virtual. Amanhã conversariam.

 

CENA-3

INT-QUITINETE-DIA

 

Acordaram cedo.

A viagem estava marcada para 3 da manhã, do dia seguinte, mas não havia tempo a perder. Entre o tira e bota de roupas dentro da mala, a pesagem da bagagem na balança do banheiro. 23 quilos. O limite permitido pela companhia.

Precisavam checar tudo. Documentos, vouchers de embarque, o horário em que o ônibus para o aeroporto passaria pela rua onde moravam.

Viva a internet!

E um beijo apaixonado selou o fim da discórdia.

Viva o computador!

 

CENA-4

INT-AERONAVE-DIA

 

Embarcaram. Exaustos. O atraso na decolagem se devia menos a problemas na aeronave, novinha, e mais ao movimento do aeroporto. Filas intermináveis lotavam os guichês de check-in.

Para a felizarda classe C, voar já era realidade.

Espremidos na fila tripla de assentos, não queriam perder nada daquilo. Instruções de emergência. Sobrevoariam o oceano, mas isso não seria problema, já que suas poltronas eram coletes salva-vidas. Ufa. Amâncio não sabia nadar. Se a cabine despressurizasse máscaras de oxigênio cairiam sobre suas cabeças e deveriam respirar calmamente. Esse seria, talvez, o único problema, pois ao lado de Alice, um senhor muito sério parecia sofrer de um ataque de flatulência.  

Apesar do cheiro, tudo era perfeito. E logo descobriram que ninguém sentiria fome, graças às deliciosas barrinhas de cereal, servidas com um copo de água e guardanapo.

O guardanapo era para segurar o copo, Alice explicava, pois sabia das coisas. Era chique. Quase tanto quanto o primo rico, recém mudado para Salvador, que os buscaria no aeroporto, com direito a motorista e até plaquinha, dessas que se viam em filmes, com o nome de ambos, escrito para sinalizar.

Ora, mas o primo não a conhecia? Sim, claro que sim. Há anos, porém, não se viam e, além do mais, a tal plaquinha era chique.

A lua-de-mel era um sucesso.

 

CENA-5

INT-CARRO DO PRIMO-DIA

 

Sucesso, também, fora sua chegada. Baianas vestidas de branco amarravam fitinhas do Senhor-do-Bonfim em seus pulsos animados.

— Sorria! Você está na Bahia!

O primo não viera, a plaquinha, ao contrário, sim. Nas mãos do motorista que, atencioso, perguntou por seu destino e carregou as malas.

— Uma pousada no Pelourinho? Vocês têm certeza? — O chofer, como preferia ser chamado, torceu o nariz. Esquisitices de gente rica, pensou Alice. Coisa de gente que não sabe o que é viver, mais tarde Amâncio, autor das reservas no local, comentaria.

 

CENA-6

EXT-PELOURINHO-FINAL DE TARDE

 

Suando como galinhas no abatedouro, finalmente chegaram. O motorista, com medo de arriscar o carro do patrão, deixou-os na entrada do Pelô. E, atravessar o local, único e peculiar, símbolo da cultura brasileira, não foi nada fácil.

O calçamento pé-de-moleque, típico representante da mais pura autenticidade da época do descobrimento, se revelou um teste aos pés de Alice, com seus saltos agulha, acessórios de puro charme e beleza, a se enfiar por entre as frestas dos pedregulhos. E a Amâncio, restou a resignação e a força para carregar sozinho os 46 quilos de bagagem, mais os 10 das bolsas de mão. Para que trazer tanta coisa? Para nada. Para tudo. Para toda e qualquer eventualidade.

Alice sorria.

Amâncio bufava.

— Sorria, Galega! Você está na Bahia. — E lá estava nossa personagem, com o pulso estendido para mais uma fitinha colorida e o braço seguro, pelo rapazote que, mais que rapidamente amarrava-lhe um cordão artesanal no pescoço.

— Obrigada. — Alice sorria. Quanta gentileza. O brasileiro era incrível. Que povo multifacetado somos nós.

— 20 reais! — Amâncio ria, sarcástico.

— É para ajudar nossa ONG, meu Rei.

E o rei morreu com 5 reais, desconto que conseguiu enfezado enquanto a Galega, munida de mini filmadora, apontava para todas as direções daquele mundo colorido, carregando os sapatos na outra mão e o autêntico colar da manufatura baiana, confeccionado com coquinho pintado no mais puro estilo reggae-night, no pescoço.

E, mapa para cá, pergunta para lá, entre os hotéis de pura sofisticação, funcionando em casarões do século XVIII e as charmosas pousadas rústicas do local, ninguém parecia conhecer o Recanto da Mainha. Uma portinhola de vidro com aviso para soar a campainha, na qual chegaram depois de muito suor. O de Amâncio, claro.

 

CENA-7

INT-POUSADA DA MAINHA-INÍCIO DE NOITE.

 

— Mainha não está. Mas fiquem à vontade. O ar-condicionado está quebrado, mas não por muito tempo. — Disse o rapaz enfiando a cabeça para dentro do quarto do casal, através do invasivo buraco da ausência do equipamento.

Deixaram a mala sobre a cama. O armário, um bambu enfiado em outro buraco no cimento, coberto com tecido florido, estava quebrado. E o tecido furado.

— E fedido. — Alice cochichou.

Amâncio espirrou, mas tudo estava bem. Deixaram o banho para depois. A pousada estava sem água, logo, porém, tudo se resolveria. Por ali, nada era por muito tempo, ao menos de acordo com as informações do rapaz. O mesmo do ar-condicionado, que ainda acompanhava, pelo buraco, a movimentação do casal.

O melhor era tapar o rombo com uma canga, trancar o quarto e procurar por internet a fim de avisar a família que estavam bem. Internet havia, na recepção. Tranca, no entanto, logo se providenciaria. A chave estava quebrada.

— A porta fecha empurrando a mesinha. — A Pousada da Mainha era pura improvisação.

— E charme! — Amâncio agora era o animado por ali.

 

CENA-8

INT-SALA DE INTERNET-NOITE

 

A internet, para a surpresa de ambos, funcionava. Naquele momento, apenas o cunhado estava online e através do MSN foi encarregado de avisar a família que o casal desembarcara na Bahia. E que filmavam tudo, para depois exibir a todos, as cenas não censuráveis da lua-de-mel.

Terminado o chat, o plano era tomar água de coco e comer acarajé nas charmosas ruas por onde andaram Jorge Amado, Caetano e Veveta. E, como o marido engrenasse uma conversa sobre o time do cunhado no outro lado do Brasil e do monitor, sob o pretexto de que ainda restavam 20 minutos já pagos pelo uso do computador, Alice rebobinava a fita, calculando o tempo que lhe restava.

— Tem um erro de continuidade.

— O quê?

— Aqui, olha, do seu lado… Antes, tinha um celular.

A observação da turista derreteu o sorriso perpétuo do rapaz-do-ar-condicionado, agora recepcionista-na-sala-de-internet.

— Cadê meu celular?! — O rapaz apontava para um outro, bem mais novo, e que só agora podia ser percebido, próximo à entrada.

A acusação? O rapazote entrara pela janela, roubara o aparelho e, obviamente, passara para seus comparsas por ali mesmo, rapidamente.

A defesa? O moleque entrara pela porta e a Galega, que filmava tudo, podia servir como cúmplice.

— Testemunha! — Amâncio corrigia com sorriso cínico, menos pelo erro do acusado e mais pelo susto da mulher que reconhecera nele o vendedor de seu colar.   

E entre volta a fita e acelera o filme, a confusão estava armada. Ninguém poderia deixar a sala até que o mistério se esclarecesse. O celular, ainda não quitado, deveria estar no bolso do suspeito e o mais velho já o revistava, aproveitando o momento para lhe aplicar uns bem dados cascudos.

— Filme aí, Galega. Um inocente está apanhando… Você é cúmplice!

— Testemunha! — Amâncio fazia questão da correção, sem se abalar, narrando o acontecimento pelo MSN.

Seguro pela camiseta em farrapos, o rapazote apanhava. E o faz-tudo da Mainha fazia pose, mostrando a mão ensanguentada para que Alice registrasse seu talento de boxeador.

 

CENA-9

INT-SALA DE INERNET-CONT´D

 

— Stop!!!! — O sotaque da mulher, recém surgida, ecoou pelo local.

A figura, dona de um corpo monumental, calçando tamancos de plataforma que lhe conferiam uma altura ainda maior que a de seu metro e oitenta e sete, congelou a cena imediatamente.

Era Mainha.

E o silêncio se fez.

Ou quase.

— Olhe, Mainha, ele machucou minha mão. — O faz-tudo-boxeador, dono também de seu metro e noventa, chorava como criança.

— Cale a boca e vá fazer meu jantar. E você, moleque, trate de aparecer já com o celular.

— …

Mainha não queria saber. Se o celular do agora cozinheiro não aparecesse imediatamente, que fosse outro, mas que aparecesse, ou ela não responderia por si mesma. E voltando-se para Amâncio, com os olhos arregalados, já bem longe da internet, sorriu passando o dedo sobre as nádegas, arrumando seu shortinho.    

— São hóspedes? Sorriam! Vocês estão na Bahia.

 

CENA-10

INT-QUARTO DA POUSADA-MADRUGADA

 

Esquecendo coco e acarajé dirigiram-se ao quarto. No dia seguinte, certamente, o primo rico que ainda não ligara, viria busca-los oferecendo hospedagem na própria casa.

Fecharam a entrada com a mesinha e decidiram dormir de bruços, as cabeças voltadas para porta a fim de vigiar.  

Noite alta, quase dia, adormeceram. E a lingerie, especialmente comprada para a noite especial, ficou para outra vez. A lua-de-mel era um fracasso.

Amâncio roncava.  

Alice pesadelava.

E, como não há mal que sempre dure, ou tranquilidade que sempre perdure, foram acordados com a nova briga. Mais violenta. Alguém, do lado de fora, ameaçava seu amante com facão. Nada viram. Mas escutaram quando a confusão de apenas dois virou de três, de dez. Especulavam acompanhando o andamento da tragédia anunciada, já com as malas arrumadas e a cama encostada à porta. Planejavam uma fuga pelo vão da parede, caso alguém lhes invadisse o quarto pedindo para servir de cúmplices.

— Teste… — Foi interrompido pelo som das latas.

Pelo buraco, podiam ver o Olodum passando na ladeira. Dentro da pousada o silêncio súbito e imediato se fez.

 

CENA-11

EXT-PELOURINHO-DIA   

 

Já na ladeira, olharam para trás a fim de vislumbrar a Pousada. E, na janela da Mainha, puderam ver figuras com os sinais da luta, sorrindo em meio à trégua musical, apontando para os rostos conhecidos no meio do Olodum.

Se os perguntassem o motivo da fuga, argumentariam que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.

 

CRÉDITOS

 

Viva a Bahia!

Um longo beijo selou o sucesso lua-de-mel.

Antes de partir, ainda, foram ao banco. Precisariam trocar dinheiro para o taxi. O primo desaparecera.

Só então descobriram o motivo de tanta insistência no sorriso.  Sentiriam saudade daquele povo feliz e único em todo o mundo.

— Osh, Painho, 100 reais?! Alguém na fila tem troco?  — A caixa alardeava, animada, examinando a nota.

Tudo por ali acabava em festa.

 

Fade-out

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.