EntreContos

Literatura que desafia.

A farsa da boa consciência (Strauss)

Fui incubido da peculiar missão de reconhecer o ambiente terrestre brasileiro, do Oiapoque ao Chuí, feito arauto da colonização. Ao contrário de meus irmãos, que foram em outras direções. Desci em velocidade esplêndida, de nossa estrela matizada, do coração do meu planeta natal ao coração da Terra. Caí numa cidade de clima seco, barulhenta e hostil, onde logo comecei a tomar notas, que transcrevo aqui, com mais ou menos detalhes. Meu tempo com os terráqueos foi proveitoso, adquiri muito de sua cultura, suas músicas, seus hábitos, de sua fauna e flora, que acabaram impregnados em meu inconsciente. Ou no meu disco rígido?

Minha descida foi perfeita. Um lançamento curvo e acurado no espaço-tempo, passando despercebido por todos os equipamentos de segurança na órbita do planeta azul. Me encontrei num beco sem saída e, ao sair, me deparei com os mais diversos primatas, alguns que nem tínhamos catalogados ainda. Primeira anotação paradoxal: a saída do beco sem saída. Estranhei, claro. Os humanos eram pra ser assim, tão singulares? Há quanto tempo não recebíamos atualizações? Rapidamente ativei meu indutor de imagens e me camuflei em meio a eles. Chimpanzés, orangotangos, bonobos e gorilas por todos os lados, correndo de um sentido ao outro, ocupados demais em seus aparelhos móveis. Solitários, de certa maneira. Meios de transporte antiquados e barulhentos se arrastavam pelas ruas. E caminhei, observando os hábitos dessas criaturas: algumas de mãos dadas; outras deitadas nas calçadas; roupas das mais diversas, cobrindo seus corpos peludos, mas apenas certas partes. Aparentemente, havia uma distinção entre o que poderia ou não ser mostrado em público. Foi quando me deparei com as peças mais inusitadas de minha viagem, verdadeiros monumentos! Pequenos, grandes, retangulares, ovais… de todos os formatos! Aglomerados, como uma convenção da Escola da Anta, que tanto ouvimos falar!

Observei com atenção uma das peças. Denominei Monólito #1 no caderno de anotações. Era como se olhasse a realidade, mas não era a realidade. Era algo a mais. Era uma realidade falsa. Uma primata passou por mim e aproveitei para questioná-la: o que são essas estranhas formas? E ouvi sua resposta:

– Kdih aisdjn dasih.

Claro, ela não falava nossa língua. O canal de comunicação não funcionou de imediato. Precisei quebrar nossa segunda barreira, logo após a da aparência: a da língua. Ativei o mecanismo de tradução simultânea, que logo captou as frequências ao redor e criptografou o idioma que, por sorte, não é só simples, como todos estão cada vez mais interligados e abreviados. Apesar de que, curiosamente, eles possuírem uma quantidade maior de palavras que nós. Muitas inutilizadas, mas ainda oficiais. Repeti a questão:

– Conte-me, senhora. O que vê?

– O que vejo, meu rapaz? Eu me vejo.

– Então você se sente representada por estas formas?

– Não somente representada! Veja bem, olhe de perto. Já viu algo mais fenomenal que isso? É belíssima. As formas, como se move, a textura… Adoro! Tenho vários em casa! Tem interesse?

– Não compreendo. Você realmente achou tudo isso?

Por algum motivo ela ficou incomodada com a resposta e saiu ríspida, sem sequer dizer adeus. Sentei na calçada, próximo aos monólitos. Percebi que, assim como as demais pessoas deitadas no chão, ninguém me notava. Foi como se estivesse invisível, constatei que os terráqueos possuem outra característica que nos é estranha: selecionam a quem dirigir a atenção de acordo com seu nível. Por eu estar num nível baixo, fui apagado. Enquanto alguns outros, no alto de seus sapatos de salto e dos pelos descoloridos do couro cabeludo, eram cercados por pequenos micos que lhes estendiam a mão. Os considerei, então, de certa importância. De certa altura. Mas, por alguma razão que também me é desconhecida, essas mesmas pessoas ignoravam as mãos ou, pior, demonstravam uma modéstia forçada, que lhes entortavam a face peluda. Uma situação, pelo que anotei posteriormente, ridícula. A princípio, processando as informações sentado, tive medo do ridículo. E quanto mais temia, mais percebia o quão ridículo as situações se tornavam. Até o momento que fiquei indiferente à elas.

As pessoas também ignoravam os monólitos. Apenas algumas se aventuravam em olhar para dentro deles e fui capaz de reparar certos padrões em seus comportamentos. Uma primata ajeitou o cabelo, enquanto outra alisou o rosto. Um gorila chegou a ajeitar o terno pesado. Cada qual arrumando algo em frente aos monólitos. Olhando com mais atenção, me dei conta do nome dado aos objetos e que não eram de concreto, mas sim um tipo de vidro ou metal polido, cujo reflexo despertava o interesse de alguns. Espelhos, como chamam.

Passei a manhã toda tomando notas dos transeuntes. Reparei, também, nos textos espalhados pelas paredes dos prédios, letras que meu programa não conseguia decifrar. A cidade, preciso dizer, era muito cinza. Ao contrário de nossas multicoloridas cidadelas. Cheguei a estender a mão para outra primata, a fim de fazer mais uma pergunta acerca dos espelhos, mas fui ignorado. Resolvi uma abordagem diferente, lembrei de nosso código 34-X do Manual de Reconhecimento de Campo: “se os nativos não demonstrarem intelecto suficiente, busque por inteligência em outros seres”.

Ao meu lado caminhavam diversos animais, diferentes das pessoas, sendo menores e agitados. Andavam de um lado ao outro, bicando o chão à procura de migalhas. Despreocupados com sua aparência, com a altura, com as penas, com nada. Vivendo. Questionei um que me pareceu simpático.

– Diga-me, amigo. O que vê?

– Pruu.

– Pru?

– Pru!

– Pru!

Senhor Pru, como o chamei. Por sorte, o tradutor simultâneo estava ligado. E não é que concordei com o Sr. Pru no chão? Talvez o mais sensato de todos ali, pois admitia, assim como eu, que nada se via nos pequenos monólitos. Quer dizer, espelhos. Era um mistério. Um que estava prestes a desvendar, meus caros superiores!

A consciência na Terra se dá de maneiras diferentes da nossa. Enquanto somos interligados e conscientes do corpo e espaço de um ao outro, os terráqueos demonstram maneiras diferentes disso. Nem todos, aliás. Os primatas tomavam consciência de si mesmos em frente ao espelho. De seu corpo e seu espaço. O Sr. Pru e eu, de espécies diferentes, víamos apenas o que estava ali: uma imagem refletida. Eu, em particular, jamais me enxergaria ali até mesmo por conta do indutor de imagens. Mas os primatas, pelo que percebi na manhã toda, despejavam certa importância aos objetos. Alguns ficavam mais felizes, enquanto outros saíam tristes e cabisbaixos. São assim que possuem auto-consciência, a percepção de si mesmos? Pensei. Em nossa estrela, teriam dificuldades, já que não temos tal tipo de coisa. Seriam até mais ridículos, acredito.

– Bocó! Bocó! Bocó! – Começou a gritar uma outra criatura, que se mantinha próxima às peças, num tronco improvisado de uma árvore morta. Em alguns aspectos, ele se assemelhava ao Sr. Pru: também era uma ave. Palrando despropérios. Foi quando tomei certa liberdade.

– Você é um Pru diferente! É um primo, talvez?

– Pru é o seu @#!

Censurei a frase, conforme nossas leis, pois foi um insulto! O pequeno bastardo me insultou! Mais tarde soube o significado de tal palavra, o que foi pior! @# era a cara dele! Mas no momento, fui inocente. E como percebem, o clima seco e hostil da cidade me impregnou. Perdi o controle, como verão nas próximas cidades.

– Pru é o seu @#. Bocó! – Ele repetiu.

– Mas me diz, meu amigo. O que são essas peças?

– Espelhos. Espelhos. Espelhos. – Ele repetia à exaustão, como se anunciando algo.

– Gostou do papagaio, rapaz? – Um orangotango já surrado pelo tempo, perto do tronco, surgiu e me questionou.

– Ah, este pequenino? Adorável! – Nota extra-oficial: mentira.

– E os espelhos, vai querer levar algum? Percebi que está a manhã toda aí, parado, observando. Vai levar ou não?

– Mas para quê eu teria isso?

– Pra se ver, oras!

– E eu preciso?

– Não quer se sentir bonito, meu rapaz? Arrumar esse cabelo bagunçado, atrair aquela paquera?

– Ah, então preciso de um desses para ser bonito?

– Falei se sentir, não ser!

– Mas eu me sinto!

– Mas não é?

– Agora não sei!

– Poderá saber!

– Então me dê um! Valerá a experiência, pelo menos!

– São 10 reais.

Negócio feito! Não só encontrei nossa terceira barreira na missão, o do padrão monetário, como fiz outra anotação paradoxal: o Real é algo inexistente, apenas transação digital. E que ser belo, no planeta dos primatas, é caro. Aliás, se sentir belo. Porque ser, ali ninguém era. Eita carestia! Após a compra, o orangotango surrado me pediu que curtisse sua página. O que me levou à outra descoberta incomum: a rede social da Terra. Que, assim como os espelhos e o Real, vinha com a função de falsa aceitação e beleza social. Tratei logo de criar meu perfil. Fake, claro. Se em meio aos terráqueos, falso também serei. Pelo que constatei, é a lei básica. Continuemos.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.