EntreContos

Literatura que desafia.

O frango e a freira (1,2,3, Oliveira 4)

Nasceu em 23 de março de um ano desses qualquer na cidade de Mogi das Cruzes, na grande São Paulo. A princípio não ganhou nome por ser filho de chocadeira. Igual tantos outros irmãos, branco e exmiliguido. No entanto, para maior infortúnio se diferenciava dos outros por ser atrófico da perna esquerda e da asa direita, e ainda estrábico. Logo se percebia o preconceito reinante das frangas e frangotes do galinheiro. Enquanto ainda pintinho sofreu muito em virtude de seus problemas físicos. Tornou-se um frango adolescente angustiado, solitário e amargurado. Diante esse estado macambúzio e sorumbático foi escolhido muito cedo para ir para o abatedouro.

Não conformado com sua sina decidiu que não morreria como um carneiro. Resignado. Quando decidiu num ato de bravura, do alto do caminhão que o transportava, atirar-se na estrada empoeirada de barro e cascalho. Não tendo condições de voo pelo fato de seus aleijões na asa e na perna, machucou-se muito na queda. Ficando ali no meio da estrada agonizando por horas a fio. Pedindo a Deus que abreviasse sua vida, que acabasse logo com aquela agonia. Não foi atendido. Foi ai que, por obra do divino, vem-vindo a Kombi da madre Celestina lá no fim da estrada levantando poeira a toda velocidade. A noviça Lenasilva gritava de medo e pavor ao lado da madre, – uma verdadeira doidivanas, uma sádica no volante, – que dava gargalhadas de prazer e arrepio de êxtase lascivo, infundindo medonho horror na noviça. Num repente, no meio da depravada risada, se ver obrigada a dar uma brecada violenta, rodopiando num cavalo-de-pau, atravessando a Kombi na estrada. Deixando-a envolta numa nuvem de poeira. A madre superiora sai gritando impropérios. A noviça rapidamente corre até aquele estrupício no meio da estrada. Com carinho põe o frango em seus braços e chora comovida.

Socorre-o levando-o para o convento. Limpa-o e cura seus ferimentos com zelo. A partir desse dia passou a ser o xodó da noviça Lenasilva e motivo de biscuinha da madre Celestina. Pois a noviça não mais saia a passear com ela. – A noviça era sua diversão quando dirigia, houve dia em que ela, a superiora, mijou-se de rir, e a noviça, de santo horror. – Agora não, era Macuco pra cá, Macuco para lá. – Macuco. Esse foi o nome que Lenasilva deu para o frango. – Era o mesmo nome de um ex-namorado dela. O sujeito que a deflorou, um catimbau peruano. Daí o motivo de sua entrada para o convento. Quando entregou sua vida a Deus e agora ao frango. Pois de certa forma aquele seu ato de carinho para com Macuco acendeu a chama da libidinagem que até então estava apenas adormecida.

Macuco por sua vez, achava-se renascido das cinzas, sentia-se um verdadeiro Fênix. Estava forte, com saúde e cercado de carinho por Lenasilva. Quantas vezes não havia dormido com ele no celeiro, sobre o feno, alisando sua pequena crista, esquecendo o corpo nu sob as volumosas vestes religiosas. Deixando Macuco brincar por baixo dos panos em seu corpo alfenim. Evidente, que como macho que era, Macuco se excitava e para retribuir tanta afeição ele pulava cacarejando em cima de seus peitos e coxas. Picando aqui e ali, usando e abusando, fazendo a noviça sentir a plenitude da lascívia sexual aflorando seu branco corpo cristal como pérola maculada. – Corpo este, deflorado há tão pouco tempo por seu namorado, porém já recomposto, quase intacto, como por um milagre. – Lenasilva estava feliz. Era a vida que havia pedido a Deus. A noviça a priori, nutriu por Macuco, um amor platônico. Amor este, que sentia por qualquer cão vira lixo da rua, todavia em pouco espaço de tempo viu este sublime sentimento transformar-se numa obsessão sem limites. Uma obscena devoção carnal. Não obstante, nesse mundo nada é eterno. A inveja e a mesquinhez humana é devastadora, vingativa e cruel.

Madre Celestina, a superiora, aturdida sentindo-se injustiçada, jogada para escanteio, passou a persseguir o frango obstinadamente.

Sempre na espreita, para pegá-lo sozinho, desprovido da guarda da noviça. – Sonhava em vê-lo espetado numa máquina de padaria, servindo de vitrine e desejo para os cachorros do bairro. – Na melhor das hipóteses cozido em lata de querosene sobre o lerdaço fogo frio dos jornais, em baixo dos viadutos servido como canja para famintos desvalidos. Não obtendo sucesso na caça ao penudo, madre Celestina, arquitetou um plano diabólico. Arrumou um pecado escabroso para a noviça Lenasilva. Motivo: ela andava muito feliz ultimamente, que aos olhos de Deus aquilo era artimanha do capiroto para desvirtuá-la dos votos (3-D). Dom da Dádiva Divina e sua dedicada obediência à Santa Madre Igreja. Pois agora a noviça só queria saber do primeiro canto do galo. (Macuco já se tornara um galinho). Passou-lhe um pito e o castigo: na sexta-feira próxima ela, a noviça, iria acordar e dormir orando de joelhos em cima de um punhado de grãos de milho. A reza, para purificação dos males da luxúria, e o milho para esquecer o objeto do desejo e lembrar o porquê do castigo. Isto feito, enquanto Lenasilva pagava sua penitência ela, a madre, passou à ação. Cega de ódio a madre partiu para cima do frango com toda empáfia que Deus lhe deu de faca peixeira na mão, quando se apercebeu de que não poderia simplesmente matá-lo, daria na vista. Decidiu que faria diferente, – e até mais gostoso e apropriado para seu espírito no momento. – Levou-o à linha do trem, prendeu-o, atando-o ao trilho, pondo o pescoço no ponto fatal da roda. Era o triste fim daquele que almejou apenas ser um frango feliz. E para sua consagração, ficou ali madre Celestina, aguardando pacientemente escondida, de cócoras, atrás de um arbusto, o desfecho da tragédia, quando da passagem do trem das 18h25min, com destino à Santana do Parnaíba e Bom Jesus do Pirapora. Fato consumado ficou Macuco ali degolado às margens do trilho e da vida. Só restava deixar-lhe dito. Glória aos vencidos! O morto, que em Deus o tenha em sua santa glória, com glórias a Deus seria enterrado!

Entretanto o pior estava por vir. Ao passar por ali, um mendigo aproximou-se e sem nenhuma cerimônia, enfiou os destroços do frango num saco plástico, pensado em fazer um gostoso guisado. Mas de repente apertou uma vontade danada de tomar uma cachaça. Porém, não tinha dinheiro. Veio-lhe na ideia a decisão de vender o frangalho para um sacolão perto de sua marquise, onde pernoitava. No sacolão fez um ótimo negócio, trocou o frango por uma garrafa de marafo e meia dúzia de limão. E passou a noite em festa com seus companheiros de penúria, cantando:

“Eu bebo sim… Estou vivendo…

 Tem gente que não bebe… Está morrendo”…

O dono do sacolão achou por bem separar os membros atrofiados de Macuco. Pois não lhe dariam uma boa aparência exposta em cima do balcão. Mas logo chegou uma senhora e comprou o Macuco, fiado para pagar no dia 10 do mês seguinte. (Evitando assim a amputagem dos membros de macuco).

Bom apetite! Disse o dono do sacolão para a freguesa sorridente da Vila Leopoldina. Enquanto isso no convento, a irmã Lenasilva, desolada chorava desconsoladamente, trancada em seu quarto, quando a madre bate na porta chamando-a:

– Irmã Lena!… Irmã Lena!…

– Quem é?  – Pergunta irmã Lenasilva.

– Sou eu.

– Eu quem?

– Irmã Celestina, a superiora.

– Chegou?

– Que isso, irmã Lena! Você parece ansiosa. Chegou o quê?

– A minha mãe ficou de me mandar uma encomenda, hoje à tarde.

– E você acha que pode ter chegado?

– Acredito que sim, (Abrindo a porta) há tempo estou esperando…

– Seria este pacote? – mostrando a caixa, toda solícita. –

– (Tentando tirar o pacote das mãos da Madre). É meu? É para mim?

– (Mesmo que fosse! Este é “para mim” revela um grande egoísmo de sua parte…

– É que…

– O que não fica bem para uma noviça. Você está num momento de reflexão, lenasilva. De provação…

– Eu sei Madre, desculpe. Neste momento eu sinto como se fosse…

– Fosse o quê?

– Esse pacote…

– Esqueça este pacote. Esqueça!… Esqueça tudo! O pacote! Seu corpo! Você mesma!

– Não posso, não posso, eu existo!

– Lenasiva você esta delirando.

– Macuco! Macuco! Estou sofrendo tanto!

– Orgulhosa! Só você que sofre? E eu, não sofro também?

– Não tanto quanto eu.

– Ajoelhe-se! Coloque a cabeça no chão. Seja humilde! (A noviça obedece. A madre degusta por uns momentos a situação).

– Levante-se Minha filha! Não quero atormentá-la mais. O senhor há de nos perdoar. Esta caixa chegou para você. Pelo cheiro, é um frango assado. Sua mãe que mandou.

(A noviça ansiosa põe a caixa em cima da mesa, abrindo-a).

– Meu Deus!… Quem espera sempre alcança.

– Irmã Lena! A impaciência é a mãe da imprudência. Você é uma serva de Deus. Não perca a postura. Não se aprece, o bom do frango assado é que ele não cacareja! Sente-se, vamos comer. (A Madre senta-se, põe as mãos postas em sentido de oração).      Agradeça ao senhor à lembrança de suas servas!

– Aleluia. “Réquiem Aetermam dona Eis”.

– “Requiescat in pace”.  Sirva-me!

Irmã Lenasilva, cheia de cuidados, vai virando o frango dentro da caixa, pegando pela micula.

A madre, observando o movimento da noviça. Grita ríspida.

– O sobrecu é meu!

           – Assombrada, a noviça grita: – Deus nos acuda! É macuco! É macuco!

-Deixe de ser besta. Todo frango é igual. (Arrancando o sobrecu da mão da noviça).

– E desde quando a senhora tem direito ao sobrecu? Isto não consta nas regras monásticas e nem no regulamento interno do convento!…

Num arrebate de fúria, tira o sobrecu da mão da madre.

– Com vento ou sem vento, não interessa. A noviça deve cega obediência à superiora.

– Não a uma superiora de araque como você, que não passa de uma inferiora!…

– Mal criada! Filha do demônio! Me dá o sobrecu!

– O sobrecu é meu! O macuco foi meu. Portanto o cu dele me pertence por direito e tradição.

– Me dá o sobrecu, Lenasilva, ou te arrebento!

– Vai tomar no cu, se você quer o sobrecu!

As duas partem para agressão física. Briga de cortiço. O sobrecu está em jogo. Na confusão derrubam a mesa e a caixa no chão. Pisoteiam todo o frango. Por último, engalfinham-se rolando pelo chão. Após perder a posse do sobrecu, no calor da disputa, a noviça num golpe de extrema destreza, apoderou-se mais uma vez do cobiçado objeto do desejo. E põe o sobrecu entre os dentes, enfia na boca e engole numa atitude de puro egoísmo. Madre Celestina furiosa com este gesto fica de pé e dá um ponta-pé na genitália de Lenasilva.

– Ai!!!… – Grita Lenasilva – Cai o pano.

 

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.