EntreContos

Literatura que desafia.

Por favor, me deixe longe do Top 10 (E. U. Tim Ploro)

Existe um site chamado Couchsurfing. Nele, pessoas de diversas partes do mundo oferecem suas próprias casas para que outras pessoas cadastradas na plataforma possam se hospedar ali gratuitamente, por um tempo. Antes que você pense que está lendo um texto patrocinado pelo Couchsurfing, já vou dizendo que sim, a ideia do site é ótima; mas ele pode ser perigoso.

Em 2013, acionei o site porque ia assistir ao Rock in Rio e precisava de um lugar para ficar de sexta a domingo, que era quando voltaria a São Paulo. Fiquei na casa do Joílson, que é taxista e trabalha à noite e de madrugada. Como passei os dias inteiros fazendo programas criativos como tirar fotos de braços abertos em frente ao Cristo Redentor ou tentar, sem sucesso, tirar uma foto sem a presença de outros turistas visionários como eu na Escadaria Selarón, eu não encontrei o Joílson uma única vez. Ou seja, ele foi o anfitrião perfeito.

Corta para 2017. O Joílson saiu de férias, queria conhecer São Paulo e me perguntou se poderia ficar hospedado na minha casa. Aceitei sem hesitar.

Talvez para tentar tirar a má impressão de ter vomitado no meu sofá, ter quebrado o lustre da sala e de ter dado em cima da minha namorada – fato que eu perdoei porque ele apresentou um ótimo argumento, dizendo que não fazia ideia de que ela era minha namorada, pois nunca tinha visto um cara estranho como eu com uma mulher linda como ela -, o Joílson me chamou pra tomar uma cerveja na Paulista.

Fomos no Zoio. Só então, com cervejas e cigarros na mesa, eu pude conhecer um pouco mais o Joílson e sua certeira crítica literária.

– Aí, eu li umas paradas que você escreveu e postou no Face. Seus “textos” – ele deu bastante ênfase às aspas na palavra “textos”.

– E aí, o que você achou?

– Na moral, falta alma, mermãozinho. Alma!

– Zoio, me traz uma Seleta, por favor. Uma não, três. – Acendi um cigarro após fazer o pedido e respirei fundo. – Falta alma?

– Hoje em dia geral não quer saber mais de regrinha de gramática não, brother. O que importa é surpreender! Fico bolado sempre que tô lendo suas paradas, parece que tô lendo bula de remédio!

As três doses de Seleta chegaram e repousaram sobre a mesa por aproximadamente 2,3 segundos antes de serem tragadas por mim. O Zoio pode até ter a cerveja mais quente de São Paulo, mas o atendimento é rápido!

– Puxa, muito obrigado pelo conselho. Vou tentar te agradar mais no próximo texto. Mas só pra eu conhecer seu estilo literário, o que você tem lido ultimamente?

– Coé, mermão! Ler eu não leio muito não, mas o problema de vocês escritores 0800 é bem esse: vocês ficam presos na frente do note sendo que as ideias tão tudo nas ruas, brother. E ninguém entende mais de rua que um taxista carioca!

– Entendi. Por que eu nunca vi um texto seu, então?

– Porque a comunicação aqui é visual, sacou? Me põe numa mesa de bar com cerveja que qualquer história que eu contar vai ser mais sinistra que as tuas.

Foi nesse momento que a ideia me surgiu.

– Interessante essa comparação, Joílson. Você acha mesmo que uma história sua seria atraente?

Ele gargalhou.

– Acho? Eu tenho certeza, mermão. Uma quinta-feira normal pra mim já é mais interessante que qualquer trip que tu faça pra Europa. Porque eu tô ali, tô com o povo, tô ouvindo a voz que tu nem sabe que existe!

– Olha só, eu não duvido de você. E concordo, um escritor que não tenha vivência vai escrever textos tão ralos quanto o resto de cabelo que você tem na cabeça. Mas pra comprovar se você tá certo ou não, só tem um jeito.

– Eu sou careca por opção, mas manda!

– Eu participo de um site para escritores. Sempre rolam desafios literários, e todo mundo pode inscrever seus contos. O próximo desafio tem a temática comédia, mas, até agora, não tive nenhuma ideia.

Ele riu de novo.

– Mas é claro que tu não teve ideia nenhuma! Tu é mais sem graça que dançar forró com a própria avó!

– …Enfim, sua chance tá aqui. Me conta uma história engraçada, eu a inscrevo no site, e aí a gente vê.

– Já é! Mas como é que é, tem quantos gatos pingados por lá? Geral comenta mesmo? Metem o pau ou elogiam? Porque se te elogiam, aí já dá pra ver que rola um mal gosto.

– Tem bastante gente e muito texto bom. A maioria comenta dando dicas de como evoluir, mesmo quando não gosta do conto. Só um ou outro que se sente o Machado de Assis numa sala cheia de Nicholas Sparks, mas é normal. E quanto ao mal gosto, minha melhor posição por lá foi um Top 15, então não tenho muita moral mesmo.

– Top 15? Então é o seguinte: eu te conto uma história, tu publica nesse site e garanto que dessa vez tu pega Top 10. No mínimo!

Foi minha vez de gargalhar alto.

– Fechado. Mas essa aposta tem que valer algo.

– Claro! O quê?

– Se a sua história ficar fora do Top 10, você nunca mais se hospeda na minha casa.

Ele ficou claramente perturbado com a minha proposta.

– Então quer dizer que tu não curte minha presença, mermãozinho? Tá fodido então, minha história vai pegar Top 10 e o que eu quero é colar na tua casa a qualquer momento, sem precisar nem avisar. Fechou ou vai pular fora?

Admito que hesitei, mas apertei a mão gigante estendida à minha frente.

– Fechado.

– Mas tem uma coisa; pode sacar o gravador do celular que tu vai escrever minha história do jeito que eu contar, não é pra encher com as suas patifarias, não!

 

***********

 

Era uma quinta-feira, umas duas da manhã, e eu tava de ronda ali pela minha região, que sempre dá umas corridas massas. Passei do lado de uma igreja e achei meio sinistro que um velho vestido de padre deu sinal, mas parei e ele entrou no táxi.

– Aí, onde é essa festa à fantasia aí?

– Isso não é uma fantasia.

– Foi mal, seu padre.

– Arcebispo.

– Foi mal, seu padre Arcebispo. Tá indo pra onde?

Ele fez uma cara de quem lambeu pilha vencida, pegou o celular e falou o endereço. Um endereço que, por coincidência, eu conheço.

– Caraca, se tu quer dá uma beliscada, pelo menos vai num pico mais barato, nesse aí elas metem a faca!

Ele ficou meio pálido.  

– Eu não estou indo a esse antro de perdição para me divertir. Fui informado que um padre da minha arquidiocese está lá nesse momento, e pretendo pegar o pecador com as calças curtas.

– Ah, tu tá de sacanagem! Quero ver esse padre de calças curtas também, partiu!

Já sai cantando pneu pro bordel, e isso que nem ia consumir nada! No caminho, resolvi aproveitar meu cliente.

– Aí seu padre Arcebispo, me diz uma coisa. Faz uma cara que não apareço na Igreja, e já que tu tá aqui, posso fazer umas confissões?

Ele bufou.

– Não, a Igreja não permite.

– Coé, é por isso que um monte de gente não tem mais religião, tem que se modernizar! Tem que meter umas missas por Skype, fazer promoção de vinho. Marketing! Imagina quantos fiéis não iam gostar à beça de uma confissão delivery? Ia fazer mais sucesso que a porra do UberEATS!

Como tu sabe, meu poder de argumentação é muito alto, e ele concordou.

– Diga.

– Então, a real é que eu fiz umas merdas por aí, mas nada na má intenção. Só vendi uns negocinhos, levei e trouxe outros, sacomé.

O velho ficou mais pálido ainda.

– E aí, me perdoa?

– Claro, está perdoado, meu filho.

– Pera lá, e a penitência? Sem penitência, não tem perdão.

– Voto de silêncio, meu filho. Fique quieto até chegarmos lá que tu será absolvido!

– Irado!

Eu obedeci o cara. Na hora que chegamos, estacionei e ele já me estendeu a grana.

– Que nada, seu padre Arcebispo. Tô entrando junto!

– Por quê?

– Tu conhece aquela piada dos dois padres no puteiro?

– Não.

– Nem eu, por isso eu vou entrar também!

Ele percebeu que não ia adiantar argumentar e a gente foi entrando.

– Oi, Joílson! – a Cristal gritou lá do palco, deve ter me confundido com alguém.

– Ah, seu padre Arcebispo, se eu ficar quieto mais dois minutos tu me perdoa por outro pecado?

– Tu não pecou do carro até aqui, meu filho.

– Na moral, eu dei uma voltinha a mais contigo só pra corrida ficar mais cara. Força do hábito, não foi por mal!

Ele nem respondeu e já foi logo falando com o segurança.

– Mauro, meu filho. Onde ele está?

– Por aqui, arcebispo.

Subimos as escadas e eu já saquei o celular pra filmar a cena e jogar no Whats.

Quando o Mauro abriu a porta do quarto 107, o velho quase caiu pra trás. Lá dentro tava a Jhennyfer e a Nina se pegando forte na cama, e um cara de camisa social sentado na cadeira, só olhando!

As moças se assustaram e correram pro banheiro. O velho foi direto no padre.

– Tu será excomungado, padre João! Isso é um absurdo! Um homem de fé como você nesse antro, fazendo parte de tudo isso aqui, isso é uma blasfêmia!

O padre continuou sentado, tranquilão.

– Senhor arcebispo, eu posso explicar. Estou aqui por um ato de fé.

– Ato de fé???

– Isso mesmo. Eu tenho tido algumas dúvidas sobre a minha capacidade de me manter fiel ao voto de castidade, como tenho certeza de que o senhor já teve também. Somos apenas humanos. Então a saída que encontrei para minha curiosidade e tensão foi vir aqui uma vez por semana e apenas assistir a essas mulheres.

– Uma vez por semana?

– Sim. Eu venho aqui, sento nessa cadeira, pago para que elas se divirtam e vou embora. São pecados menores que previnem pecados maiores. E eu posso te garantir: me sinto muito mais calmo e focado nos meus estudos desde que comecei a fazer isso!

O velho tava meio zonzo e sentou na cadeira do lado do padre.

– Isso é demais pra mim. Todos nós sofremos com esse voto, claro, mas essa maneira de aliviar a tensão…

– Ô, seu padre Arcebispo – eu percebi que era minha hora –, só tem um jeito de descobrir se o que o padre tá falando é real. Jhennyfer, Nina, voltem aqui! Fecha a porta aí, Mauro.

Todo mundo me obedeceu.

– Agora assiste as moças aí, seu padre Arcebispo. Se o senhor sair daqui mais tranquilo, é porque o padre tá falando a verdade!

E foi assim que eu ajudei a comunidade!

 

***********

 

Minha cerveja já era alvo dos Aedes Aegypti que rondavam o local, pelo tempo que meu copo estava parado. Fiquei tão imerso na história do Joílson que até me esqueci do álcool. Desgraçado.

– Mas e aí, o que o arcebispo disse?

Ele se levantou.

– Isso, mermão, se chama deixar o público curioso! Mas já que tu vai bancar minha hospedagem por aqui nas minhas próximas viagens, eu te conto; tu tá olhando pro motorista exclusivo dos padres daquela igreja, porque, sacomé, não ia pegar bem muita gente sabendo que seis padres vão pro puteiro toda quinta-feira!

Ele se levantou, bebeu a cerveja do meu copo e começou a se dirigir ao metrô Brigadeiro.

– Agora boa noite, tô indo encontrar uma gata do Tinder que vai me agradecer muito mais pelas minhas histórias!

 

Creio que agora, caro ou cara EntreContista, você tenha entendido o título do meu conto. Eu suplico: por favor, se não for oferecer sua casa ao Joílson, me deixe bem longe do Top 10!

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.