EntreContos

Literatura que desafia.

O noivado (Comedi(d)a)

Nasci mudo. A condição é algo rara, mas não inédita. É aborrecido, acreditem. Mas ao menos não tive que aprender a estar calado, o que é uma grande vantagem – especialmente para os outros.

Para mim também foi bom, pois se fosse ruidoso decerto os meus pais não me teriam adotado. Assim pude ser feliz e divertir-me imenso. Mas já lá vamos.

Quando os vi pela primeira vez, no meio do campo, hesitei entre atacar pra me defender ou mostrar-me dócil – com igual propósito. Optei pela segunda alternativa. Acho que os conquistei com este eloquente olhar silencioso de filhote abandonado e nem notaram as minhas enormes presas que já permitiam adivinhar o tamanho que viria a ter. A mãe “apaixonou-se” por mim e o pai não conseguiu resistir às suas súplicas, nunca consegue – coisa de homem, como muitas outras fraquezas. Poderia dizer que foi essa a razão por que não casei, mas estaria a mentir; só não me tornei um macho idiota e apaixonado por falta de oportunidade.

Por algum motivo que me escapa, eles sempre acreditaram que eu fosse também surdo, e assim, mesmo quando falavam comigo, percebia-se que não esperavam que eu ouvisse. Isso foi-me bastante proveitoso em diversas ocasiões; se a preguiça vencia a natural tendência de me tornar útil ou quando engendrava as minhas peripécias.

A mãe estava sempre a dizer: “À mulher de César, não basta ser, é preciso parecer.”. Confesso que nunca percebi o que pretendia com aquilo, até porque a inteligência não foi muito generosa comigo. Mas penso que seria uma espécie de fixação que ela tinha. Era recorrente: a propósito de qualquer assunto, lá vinha a ladainha da mulher do tal César, que nunca explicou quem fosse nem algum dia nos visitou. E se era um corrupio de gente em épocas festivas! E uma trabalheira que nem imaginam: a casa virada do avesso, tudo lavado, limpo, desinfectado – e a história da mulher do outro. E eu sempre à coca, esperando conhecer o tão famoso casal.

Vivíamos numa grande quinta. O rio, ali ao lado, era uma verdadeira tentação; nele me banhava e dali saía feliz e todo enlameado. Os meus irmãos foram grandes companheiros e cúmplices de brincadeira, mas a Lena era a minha favorita, talvez por ser menina. De forma que quando começou a namorar com aquele emproado que mal me olhava e nutria por mim um profundo e óbvio desprezo, retribuí-lhe na mesma moeda. E uma guerra secreta foi decretada entre nós.

O Renato, assim se chamava o ranhoso, aparecia aos sábados. Trazia flores e alguma prendinha para a mãe. Era todo obsequioso com ela e cheio de cerimónias com o pai, a quem temia, mas eu percebia as suas intenções: levar a Lena para longe de nós, ficar com ela só para si. Tinha que tomar medidas!

Fiz o que estava ao meu alcance, mas nada parecia suficiente para o demover. E acreditem que foi muito. Roubava-lhe o guarda-chuva quando chovia, obrigando-o a regressar a casa sem ele; mijava-lhe dentro dos sapatos quando ele os tirava ao serão a ver televisão (e era ouvi-lo a debitar raios e coriscos sobre mim); conseguia tirar-lhe a carteira do bolso do casaco na entrada e deixava-a num canto qualquer, obrigando-o a procurá-la por todo o lado, enquanto eu, o surdo-mudo, me rebolava a rir interiormente, fingindo dormir junto à lareira.

Ele sabia que era eu, mas tirando o xixi, por demais óbvio e aparentemente fruto duma estranha atração minha pelo seu peculiar cheiro a chulé, ninguém acreditava que fosse eu o causador das suas desgraças. E, depois que, zangadíssima, a Lena ameaçou terminar o namoro caso ele não abandonasse de vez a sua obsessão em relação a mim, continuou a bufar furioso quando me via, mas nunca mais me acusou. Murmurava apenas entredentes quando ninguém o ouvia: “Porco nojento!” Eu ficava ofendidíssimo com semelhante subversão da minha raça e redobrava nos esforços por lhe infernizar a vida.

Até que o noivado deles foi anunciado. A festa seria em nossa casa. Alguns membros das duas famílias conhecer-se-iam nesse mesmo dia. A azáfama dos preparativos durou por semanas e, amiúde, lá vinha a história da mulher do César.

Vivíamos bastante acima das nossas possibilidades. O pai andava desesperado com os custos astronómicos de tudo quanto a mãe queria para satisfazer as suas pretensões. Por várias vezes discutiram, até. Mas ela calava-o sempre falando na mulher do outro e em ter que estar à altura. “Devem ser muito importantes”, pensava eu, acalentando a esperança de ir finalmente conhecê-los, mas nem isso me demoveu do meu propósito, que formulei logo que soube do evento: estragar tudo. Estava a ficar sem tempo; talvez essa fosse a última oportunidade de manter a Lena connosco.

Muita coisa correu mal nesse dia que amanheceu chuvoso e oferecendo-nos uma furiosa tempestade; parecia que também Deus manifestava a sua indignação contra aquele casamento. Isso estragou os meus planos. Sou bom farejador, lá fora saberia onde encontrar as plantas necessárias para misturar ao arroz de marisco e provocar-lhes a todos uma bela e instantânea diarreia. Mas, impedido de sair, teria que encontrar solução dentro de casa.

Sabia que o Pedro, o meu irmão mais velho, guardava umas ervas quaisquer muito em segredo no seu quarto. Optei por usar essas e logo se veria o resultado. Foi fácil encontrá-las, o mesmo não posso dizer quanto a retirá-las do esconderijo; tenho quatro patas, não duas, certo? apesar de habilidoso, uns polegares ter-me-iam sido muito úteis. Por fim, lá consegui sacar as ervas. Agora bastava aguardar um momento de distração da mãe e deitá-las dentro da enorme panela.

Criei um pequeno fait-divers para arrancá-la à cozinha: Dirigi-me a um jarrão de porcelana decorativo que desde sempre estivera ali no corredor e atirei-o abaixo, esgueirando-me de imediato. Desfez-se estrepitosamente em mil pedaços. Alertada pelo ruído, a mãe saiu a correr da cozinha deixando o arroz ao lume. Despejei as ervas todas e, para disfarçar, meti a pata lá dentro misturando-as atabalhoadamente. Ainda estava aflito com o escaldão quando ela regressou à cozinha e nem me foi difícil aparentar um ar infelicíssimo que acabou por denunciar a minha culpa na história do jarrão, algo de que ela já desconfiava. Apiedou-se de mim e fez-me uma festa, “Foi presente de casamento duma ex-namorada do dono. Não faz mal.”- Disse, sorrindo, mesmo acreditando que eu não a ouvia.

Dedicou-se de novo ao tacho sem se aperceber do que entretanto se passara. A dor na pata tinha aliviado e saí dali à pressa, indo dormir uma sesta para passar o tempo. Estava impaciente por que chegasse o final do dia para descobrir se as ervas funcionariam ou não.

Os convidados foram chegando um a um. Muitos estranharam a minha presença e evitaram até aproximações, alguns já me conheciam. Todos tinham sido informados de que sou inofensivo apesar da minha aparência. Eu esperando, esperando, até que já não faltava ninguém. E nada de César, nem da mulher. “Bem, fica para a próxima”.

O jantar decorria animado. Alguns momentos de constrangimento aqui e ali (foi embaraçoso quando o avô se engasgou e a dentadura caiu na sopa), mas tudo normal. Entretanto, logo pelo maravilhoso aroma que todos testemunharam, o arroz de marisco fez anunciar a sua chegada.

Lentamente o ambiente foi mudando. Todos gabavam a comida que, afirmavam, estava uma maravilha. As mulheres interrogavam a mãe para obter o segredo daquele maravilhoso travo.

E então tudo começou a acontecer. Sem mais nem menos o avô Manuel peidou-se estrondosamente. Silêncio. Os presentes entreolharam-se. De repente, o pai rebentou numa gargalhada. Riu-se tanto que se engasgou até ficar vermelho como um pimentão. Mas já não se ria sozinho, todos riam espalhafatosamente. Aí o avô disse: “Nada mais libertador do que um bom peido!”. E as gargalhadas continuaram. As gargalhadas e a comezaina; de súbito pareciam esfaimados e comiam que nem loucos. “Nunca provei nada tão delicioso!” – dizia uma; “Nem eu” – repetia outra. E riam. E comiam.

E eu sem perceber patavina. As ervas tê-los-iam enlouquecido? Seria Pedro, secretamente, algum feiticeiro?

E a farra continuava. Entusiasmado com o inesperado sucesso, o avô deu outro peido que ninguém ouviu no meio de tamanha barulheira; mas ele próprio, empolgado com a liberdade recém-conquistada de o fazer em público, levantou-se e começou a dançar sozinho apoiado na bengala e levantando ritmadamente a perna direita ao som de mais um e mais um até cair redondo no chão sem que ninguém parecesse preocupar-se com isso – nem ele. Vendo-o dançar, a mãe juntou-se-lhe, chupando os dedos lambuzados pelas cascas de marisco saboreadas à mão, e declarando bem alto: “Sempre adorei dançar. Meu sonho era ser dançarina, de dança do ventre” e começou a menear-se de formas antes impensáveis. O pai, após um momento de hesitação, saltou da cadeira e agarrou-a pela cintura iniciando uma espécie de “lambada” algo estranha e incómoda que rapidamente os levaria para o quarto, abandonando os visitantes, mas não sem que antes Pedro tivesse decidido falar: “Já que estamos em maré de revelar segredos, aproveito para vos informar que sou gay”, e desatou a rir feito louco. Lena levantou-se dum pulo e atirou-se ao pescoço do irmão abraçando-o: “Eu sabia, mano. Que bom que saiu do armário!”

Eu sentia-me cada vez mais assustado. E que raio de armário seria esse? Estariam com alucinações?

O pai interrompeu por momentos a “lambada” com a mãe e, hilariante, constatou: “Por isso é que nunca apareceu com nenhuma namorada, seu safado!”, E deu-lhe uma tal palmada nas costas que Pedro, desprevenido, caiu também no chão, rindo que nem um perdido. Então a avó Teresa, viúva desde que me recordo dela, interveio: “O quê? E eu fico de fora?” e ria-se imenso – “Pois saibam que o Raimundo dorme na minha cama há mais de quinze anos.” E virando-se para o chauffeur, igualmente convidado: “E somos muito felizes. Não é assim amor?”

O pai, que tinha voltado à dança, parou momentaneamente, olhando aparvalhado a própria mãe. Em seguida, dirigiu-se a Raimundo e ferrou-lhe uma palmada nas costas ainda mais forte que a aplicada no meu irmão. “Enganaste-nos bem todos estes anos, manganão!”, Raimundo não caiu porque se preveniu a tempo contra o impacto, mas deu um grande abraço ao meu pai. E riam-se e choravam ao mesmo tempo.

Renato e Lena, depois de uns beijos desalmados e dumas escandalosas apalpadelas em que ninguém pareceu reparar, tinham desaparecido do mapa, sabe-se lá para onde.

Os pais de Renato e os primos, de início meio deslocados, continuavam a comer e a falar uns com os outros, rindo ruidosamente e aparentando uma hilaridade estonteante.

A noite foi longa. Eu, em pânico, sem compreender o que se passava (até hoje não entendi), acabei por retirar-me sorrateiramente rezando por um regresso à normalidade. Minhas preces foram atendidas.

Na manhã seguinte parecia que nada de anormal sucedera, excepto a desarrumação total e inusitada, um pouco por toda a casa. E o facto de o avô ter sido internado por ter fraturado a anca ao cair da bengala abaixo quando dançava, algo de que ninguém se apercebeu na altura – nem ele.

O assunto foi tacitamente esquecido por todos e ninguém procurou explicações. Eu, ainda que quisesse, sendo mudo, não teria como confessar-me culpado. A Lena e o Renato casaram na mesma – falhei o meu objectivo. Com o passar do tempo acabámos por aceitar-nos polidamente. Eu continuo a achá-lo um emproado de merda e ele continua a olhar-me com uma certa repugnância; mas desde que o menino nasceu, as coisas entre nós suavizaram. Adoro ser algo semelhante a tio e nem me aproximo do bebé com receio de o magoar. O Renato percebe o meu cuidado com o filho e não fica indiferente a isso, é mais amável.

Estou velho, muito velho. Quis escrever estas memórias, quase em jeito de confissão, para que algo meu fique registado. Com doze anos, o meu prazo de validade caducou. Vivo cada dia por empréstimo. Continuo a ser feliz. Um último pormenor: não voltei a ouvir falar do César nem da mulher.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.