EntreContos

Literatura que desafia.

A última tentação de J.C. (Maria Madalena)

Esta não é mais uma história de amor, nem mesmo um drama que mereça atenção. Seria trágico se não fosse cômico.  

Tudo começou na internet. Tinha de ser, não é mesmo? Tempos modernos, relações afobadas. Só quem tiver riscado algumas décadas no calendário, entenderá o porquê do meu engano. Os jovens que me desculpem, mas experiência é essencial para rir da piada no momento certo.

Eu deveria ter desconfiado assim que li o nome José Cristóvão. O sobrenome também não ajudava muito: Oliveira Pinto. Mas o tédio faz maravilhas com pouco material e age muito mais rápido do que vodca.

J.C. e eu nos esbarramos em uma dessas salas de bate papo, divididas em categorias: por idade, intenção e localização. No fim das contas, tudo se resume a uma busca. Uns procuram por amor (sim, sou uma romântica sem escrúpulos) e outros tantos (são tantos!) por sexo casual, estilo fast food.

− Difícil encontrar uma mulher de verdade por aqui, viu?  

− É mesmo? Não sabia disso. Também, esta é a segunda vez que entro nesta sala.

Menti, claro. Os homens têm uma predileção por ineditismo, algo relacionado às cavernas, à descoberta da roda. Quem sou eu para estragar a brincadeira?

Depois de muita conversa, trocamos fotos (nada de nudes) e resolvemos nos conhecer pessoalmente. Marcamos o encontro para a semana seguinte.

Segui o protocolo sugerido pelas amigas mais experientes: marcar o encontro em um lugar público, avisar a família e os amigos, cercando-me do máximo de segurança possível. Marquei na agenda com tinta vermelha: entrar na dieta, imediatamente.

Imaginei uma bela cena em uma charmosa cafeteria:  eu vestida de branco e uma rosa vermelha entre as páginas de um livro. Tudo bem, eu roubei a ideia daquele filme Mensagem para Você. Mas quem nunca quis ser a Meg Ryan do tal Fox? J.C. não gostou da minha sugestão. Disse que seria melhor nos encontrarmos mais próximo de sua casa. Ih, que falta de cavalheirismo, pensei. Mas aceitei.

Com a proximidade do encontro, J.C. mostrou-se ávido por mais detalhes sobre mim. Enviei novas fotos e contei sobre minhas experiências anteriores. Descobrimos que tínhamos muitos conhecidos em comum. A maioria deles, amigos do meu pai. Sim, eu sei, segunda dica do universo e continuei sem dar a mínima atenção.

Resolvemos falar pelo celular. Afinal, já haviam inventado o aparelho há um bom tempo e nós, ali, teclando como se não houvesse amanhã. A voz de J.C. era, digamos, peculiar. Considerei música aquela sensualidade instalada nas cordas vocais como rouquidão grudenta. Terceira dica e eu passei adiante. A quarta veio logo em seguida e sutil como um tapa na cara.

− Olha, tem uma coisinha que eu não te contei. – Pausou a fala criando suspense. – Eu uso bengala, tudo bem?

Enquanto ele discorria sobre a razão da necessidade de um apoio, eu busquei na memória a imagem do enigmático Dr. House. A sigla AVC nem fez cócegas no meu entendimento.

− Sem problemas. – Respondi ingênua e delirante. – Dá até um certo charme.

Marcamos o encontro para a noite seguinte. Como quinta dica, os céus enviaram uma chuva daquelas.  

Para completar, houve um acidente qualquer numa das principais avenidas da cidade e o caos se instalou. Minha rua virou pista de duas mãos, com motoristas fugindo sabe-se lá do quê.  

Pensei em desistir, aliás, ensaiei um discurso de “deixa pra lá”. José Cristóvão foi irredutível e, diante da minha hesitação, disse que me buscaria em casa.

– Não se deixa para amanhã o que se pode fazer hoje.

Sabe quando as mães zelosas alertam suas filhas para não entrarem em carro de desconhecidos? Pois é, ignorei o conselho. Pouco antes da hora combinada, lá estava eu, na entrada do meu prédio, rezando para o tempo melhorar e chutando a intuição que zombava do meu arranjo noturno. Meu estômago roncava e nada das tais borboletas.

O celular tocou. Era J.C. avisando que o trânsito estava horrível e que seria melhor me pegar na esquina da rua de trás. Concordei, pois a chuva havia cedido um pouco.

Lá fui eu, sem guarda-chuva, mas vestida para matar. Ora, todos sabem que preto emagrece e eu não uso branco nem em véspera de ano novo. Sem livro, sem rosa, apenas a ansiedade a me acompanhar.  

Dez minutos depois, parou um carro prata, comum, sem alarde.  Um senhor acenou de dentro do veículo. Comecei a desconfiar que esperar alguém em uma esquina não tinha sido muito inteligente.

– Madalena?

Sim, a encrenca era mesmo comigo.

Não me perguntem por que, mas eu entrei no carro. Talvez pela vergonha de estar ali esperando por Richard Gere e dar de cara com o Papai Noel.   

Entrei, disse oi, afivelei o cinto, olhei para frente. Senti minha alma despregar do meu corpo. Chovia novamente e o olhar de J.C. pesava sobre mim. Reparei na bengala ali, largada ao lado do câmbio. Madeira de lei com detalhes em prata? Claro que não!  Um artefato ortopédico sem o menor glamour. Gregory House desapareceu ali mesmo.

− Então, me achou muito diferente da foto?

Engoli em seco e amaldiçoei a boa educação recebida. Algo me impedia de ser sincera naquele momento. Compaixão? Masoquismo?

− Não muito. E eu?

Ele parou aproveitando o sinal fechado e me observou com dedicada atenção. À esta altura, minhas unhas crivavam o couro da bolsa escolhida para a grande noite.

− Igualzinha às fotos, moça.

Sorri, fixando o olhar no painel do carro. O que eu estava fazendo ali? Calculei as minhas possibilidades de fuga. Pela idade avançada e debilidade denunciada pela tal bengala, deduzi que quem corria maior perigo ali era ele. Um simples empurrão e J.C. tombaria.

– E o meu beijo?

Dei uma risada nervosa e destrambelhei a falar. Comentei sobre o jogo do São Paulo. Sabia que isso o afastaria da minha boca por um tempo.

– Jogão, né? Pena que o seu time não foi lá muito bem…

O silêncio instalou-se entre nós. Relaxei um pouco e consegui respirar. Até ele quase bater em dois carros em menos de um minuto.

– Viu como me viro bem? Dirijo melhor do que muita gente, né, moça? – Disse ao fechar um terceiro carro. O motorista fez um sinal que me pareceu bastante adequado para a ocasião.  

Meus pensamentos fluíam feito diarreia sem trégua. A fome embotava ainda mais minhas ideias. Depois de minutos enfrentando um engarrafamento sem sentido, chegamos a um prédio alto, com fachada moderna e uma guarita que lembrava um forte apache. J.C. acionou o controle remoto e abriu o portão da garagem.

– Chegamos ao meu castelo.

O carro foi mal, muito mal, estacionado em uma vaga próxima aos elevadores. Livrei-me do cinto, sai e fechei a porta com uma lentidão quase calculada. Foi aí que constatei o estado real daquele carro. A lateral encontrava-se bem amassada e vários riscos adornavam ambas as portas.

– Vamos…

J.C. saiu do carro com a agilidade esperada de um bicho-preguiça acometido de pressão baixa. Escorou-se na coluna mais próxima e apoiou o braço direito na já familiar bengala. Sim, rir daquilo seria politicamente incorreto, portanto eu me segurei.

O espelho do elevador denunciou o próximo ato da tragicomédia: uma mulher ainda nos seus anos de guerreira e um cavalheiro que há muito resistia estrelar nas colunas do obituário. O contraste era gritante e a sensação era de profundo constrangimento. Eu realmente precisava beber algo.

– Aqui estamos. Entre e fique à vontade.

Foi dar o primeiro passo no carpete gasto da sala para sentir que eu não estava no paraíso. Um misto de bolor com urina impregnou minhas narinas. Dica número… Ajuda aí, perdi a conta.

Sentei-me no sofá encostado à parede oposta da porta. Ele, um tanto exausto pelo esforço, acomodou-se na cadeira giratória que ficava logo na entrada. Um velho notebook jazia sobre a escrivaninha roída pelo tempo e, possivelmente, por uma família de cupins.

– Quer alguma coisa? Acho que tenho sorvete de manga.

– Talvez um copo de água. – Precisava afogar minha fome.

– Vá lá, moça, pode pegar o que quiser. Mi casa, su casa, como dizem os amigos paraguaios.

A cozinha era bem pequena e cheirava a pinho, desinfetante barato, o que já era um consolo. Resolvi procurar por algo que pudesse acalmar meu estômago. Nada nos armários, além de louça lascada e copos descombinados.

Minha respiração provocou eco quando abri a geladeira. As grades gastas, mas aparentemente limpas, ostentavam a frugalidade de um eremita. Solitária, uma maçã descansava sua casca lisa e verde sobre a prateleira mais alta. Olhei para aquela fruta e quase chorei. Entendi o sentido da vida naquele instante. Era o frescor preservado em um mundo frio. Verde e jovem. Pronta para uma mordida. Não tive coragem de devorá-la ali, temperada de lágrimas.

Tomei um copo de água, ainda sob o efeito da visão da maçã. A fome cedeu um pouco.

De volta à sala, encontrei J.C. fumando. Pensei em alertá-lo sobre os malefícios do vício para a sua saúde. Mas eu era lá algum Drauzio Varella? Ao invés disso, tentei ganhar tempo, conversando sobre assuntos diversos. Sempre olhando para a prateleira acima da cabeça de José Cristóvão, onde várias garrafas de conteúdo etílico mostravam uma boa camada de poeira.

Vimos um pouco da novela, eu no sofá, ele sem se levantar da sua cadeira-trono. Minha mente fervilhava, procurando uma maneira de sair dali, sem ofender J.C.

– Não vou poder ficar muito tempo. – Disse, soltando um suspiro. – Deixei meus filhos sozinhos em casa.

– Você não me falou que tinha filhos.

– Não falei? – Forcei o tom de surpresa– Os gêmeos completam cinco anos mês que vem e o mais velho está com dez. São a luz da minha vida! Vai adorar os meus filhotes.

Caprichei no olhar de mãe perturbada que larga os filhos para conhecer um sujeito qualquer em uma noite chuvosa. Ei, não me olhe assim! Nunca pari criança alguma. Só estava fazendo cena para o bem do velhinho. Bom, a parte da perturbada-que-sai-numa-noite-chuvosa-para-conhecer-um-sujeito-qualquer  era verdade. Mas quem pode me julgar?

José Cristóvão tossiu com mais vigor. Por um momento, pensei que ele não fosse recuperar o fôlego.

– Bom, moça, acho melhor você voltar para casa.

– Ah, sem pressa, amore. O pai dos gêmeos ficou de passar lá para pegar uns bagulhos que deixou comigo.

J.C. apagou o cigarro inacabado, esmagando-o no cinzeiro.  

– Madalena, eu realmente acho que… – pausa para uma longa tossida – que você deveria ir agora.

– Bom, se você faz questão…

Levantei do sofá, alisando meu vestido e fingindo uma certa decepção. Peguei minha bolsa em cima da mesa, que estava mais bamba do que eu.

J.C. lançou um olhar em direção à porta. Trêmulo, sacudido pela tosse e as revelações recentes, levantou-se, apoiando as duas mãos na escrivaninha. Ostentou um ar que dizia – você não é mulher para mim. Doeu, não vou negar. Afinal, eu estava sendo descartada como uma fruta podre. E a maçã verde, ali, à espera de uma Branca de Neve que não seria eu.

– Bom, foi um prazer, Zé. Quando puder, me liga. Podemos combinar um passeio com as crianças, quem sabe?

Ele curvou-se em mais um acesso de tosse. Preciso ir embora antes de matar o velho, pensei.

– Claro, claro.. Depois, nos falamos.

– Abre a porta, senão eu não volto, hein? Melhor não arriscar, né, Zé?

Ele escancarou a porta, reunindo as últimas forças que pareciam abandonar seu corpo. Restava-me ainda o golpe final de misericórdia. Fechei os olhos e beijei sua face esquerda. Sorri e disse, muito docemente:

– Boa noite, vovô.

As palavras saíram mais rápido da minha boca do que ele merecia. Sem dizer mais nada, escorreguei para dentro do elevador.

A viagem rumo à liberdade durou menos de um minuto. Minha alma finalmente se encaixou e, juntas, fomos embora.

Sem guarda-chuva, alcancei a calçada que começava a ser lavada pela tempestade. Meu vestido estava molhado e meus sapatos ensopados, mas eu me sentia feliz como nunca.  

Uma risada incontrolável me impulsionou a atravessar as ruas quase dançando. Se não fosse pela fome, eu cantaria. Devia ter comido aquela maçã.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.