EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – As Estações do Vazio (Antonio Luis Mendes)

Parte I: Inverno

Capítulo 1

O diagrama na tela compartilhada tinha a solidez precária das coisas erguidas para durar só até a próxima cobrança. Caixas cinzentas, setas finas, nomes de serviços dispostos com uma disciplina que a tarde não tivera; no alto do monitor, a fileira de avatares imóveis, câmeras desligadas como pequenas recusas, impunha à reunião um silêncio de necrotério corporativo, aquele silêncio onde ninguém respira junto e toda pergunta chega um pouco esterilizada pela distância que permite a qualquer um parecer mais seguro do que de fato está. A falha, porém, continuava lá, roendo a lógica por dentro. O ambiente de produção não quebrava; cedia, empenado sob a própria carga, registros corrompidos, filas de processamento presas num torpor sem erro explícito, o sistema inteiro se comportando como um corpo que não cai de uma vez, apenas começa a perder coordenação pelos cantos. Nada que justificasse pânico. Tudo o que bastava para moer a semana.

— Por que a fila B ainda duplica o payload, Daniel?

A voz de Gustavo atravessou o fone com aquela limpeza ofensiva dos homens que ainda não tiveram tempo de enferrujar por dentro.

— Se a contenção está na borda, isso não devia mais passar.

A palma desceu sobre a mesa. Pressionou a madeira até o pulso responder. A pergunta já tinha sido feita. Talvez respondida. Em algum ponto da última hora, as palavras começaram a sair de fase, como se o raciocínio chegasse inteiro e a boca, por birra ou atraso, devolvesse só o entulho. Conhecia aquele sistema melhor do que quase todos ali. Tinha desenhado parte da espinha, decidido fluxos, sacrificado elegâncias para cumprir prazo, enterrado gambiarras sob nomenclaturas decentes. Ainda assim, desde o almoço, alguma articulação interna falhava sempre no instante mais caro.

— O evento entra ferido. A fila só recolhe o estrago.

A frase caiu dura, curta demais, e o que deveria soar técnico ganhou o timbre de defesa. Do outro lado, alguém abriu um log. Pigarro manso de cobrança sem se exposição, depois a voz do gerente pedindo uma estimativa realista — palavra suja, embora andasse de roupa social, inventada para pôr rédea no impossível e chamar isso de gestão.

Saltou de um dashboard a outro. O gráfico pulsava no centro da tela, nervoso, irregular: um pico de requisições no meio da tarde, a queda, a recuperação manca, depois aquelas pequenas oscilações que já não eram crise aberta, mas tampouco permitiam paz. Parecia sempre haver, dentro das linhas, uma forma de insistência humilhada.

— Pode ser concorrência mal resolvida na validação — disse, sem convicção suficiente para se ouvir. — Ou dívida antiga na entrada do evento.

Odiava a expressão. Dívida técnica era um nome quase elegante para o velho pacto com o provisório: resolve depressa, entrega hoje, empurra a conta para o futuro, deixa que outro pague em insônia ou reputação corroída. Às vezes esse outro era ele mesmo.

— Mas a revisão de janeiro foi sua.

Quem lembra de janeiro no Brasil?

A frase de Gustavo não veio armada. Pior: estava limpa, exata, sem ressentimento, oferecendo apenas um fato. Ainda assim, a tela ganhou uma nitidez insuportável. Cada seta do diagrama passou a apontar para o mesmo lugar. Você. Janeiro carimbado no sistema como autoria, e agora o sistema se revelando uma estrutura incapaz de suportar toque, uma arquitetura de areia endurecida por nomenclaturas, até que a carga errada ou a pergunta certa a dissolvessem à vista de todos.

Puxou a cadeira para a frente. O rangido das rodinhas no piso pareceu alto demais.

— Foi revisada, não reescrita. A base continuou a mesma. Contenção não é correção.

Silêncio.

Não houve discordância. Tampouco adesão. O gerente perguntou se isso significava refatoração. Alguém sugeriu uma branch experimental para isolar a duplicação. Outro quis saber quanto tempo Daniel precisava para fechar um diagnóstico que pudesse ser apresentado na reunião da manhã seguinte sem expor a fragilidade toda. Respondeu o que seria mais sensato nesses casos — primeiro localizar o ponto real da falha, depois decidir o tamanho do corte — e, enquanto falava, teve a impressão desagradável de estar ouvindo um homem pedir prazo para amputar a perna errada.

A chamada terminou sem despedida. Um avatar sumiu, depois outro, depois todos. Restou o reflexo do próprio rosto por cima do dashboard: barba por fazer na linha do maxilar, sombra do cansaço impressa na pele, a camiseta escura amarrotada junto ao pescoço. Evitou sustentar a própria imagem. O notebook ainda aquecia a mesa. Na lateral da tela, mensagens do time, dois e-mails, uma cobrança automática do banco. O celular foi para a mão num gesto sem pensamento. Bloqueou. Desbloqueou. Abriu a conversa do trabalho. Fechou. O polegar pairou sobre uma notificação sem entrar nela, suspenso, enquanto a outra mão tocava o bolso vazio da calça só para confirmar uma ausência que não existia.

O bug não era o centro do problema. Era só a parte que podia ser nomeada numa reunião.

O resto vinha em partículas: o tom asséptico de Gustavo, janeiro dito sem maldade, a palavra realista, a própria voz se aproximando daquele ponto intolerável em que toda explicação começa a soar como desculpa. Sob o osso do peito, a contração já se armava. Nada teatral. Apenas o aviso conhecido de que, se ficasse ali muito tempo, a tarde vazaria noite adentro e continuaria trabalhando nele, raspando, insistindo, até transformá-lo num homem diante de várias telas sem conseguir abrir nenhuma.

Levantou.

A cozinha tinha a ordem exausta dos espaços onde se vive por manutenção, não por gosto. Uma caneca da manhã na pia, um limão ressequido sobre a bancada, água pela metade numa garrafa esquecida perto do escorredor. Abriu a geladeira, encontrou embalagens, prateleiras, a luz branca demais dos eletrodomésticos honestos, e tornou a fechá-la sem levar nada. No espelho do armário do corredor, o corpo surgiu só de relance, capturado entre um passo e outro.

Do lado de fora, o corredor do prédio cheirava a desinfetante, isolamento e carpete que nunca viu sol. O visor do elevador demorou a acender no décimo quarto andar. Quando a cabine chegou, trazia aquele frio metálico das coisas usadas em revezamento, aço escovado, piso impecável, o tipo de limpeza que não produz conforto, apenas ausência de rastro. Entrou sozinho. As paredes devolveram um homem alto demais para o cubículo, ombros tensos, mãos sem tarefa, como se o corpo tivesse sido mantido de pé só por hábito.

No térreo, o porteiro levantou os olhos do celular e fez um aceno rápido. Na rua, o vento mordia mais do que prometera do alto do apartamento. Pediu um carro e ficou sob a marquise com as mãos nos bolsos, vendo a avenida seguir seu turno indiferente: a farmácia aberta, a academia que nunca fecha, um entregador parado junto ao meio-fio com a mochila quadrada nas costas, um casal discutindo em volume civilizado, um cachorro puxando a coleira como se quisesse sair daquela cidade antes de todo mundo. O carro chegou em três minutos. O banco traseiro guardava o calor gasto de outros corpos, polido por desconhecidos, e o motorista confirmou o nome pelo retrovisor com a objetividade de quem confere carga.

No rádio, uma locutora falava da frente fria do fim de semana. O som durou até o segundo semáforo. Depois vieram o motor, o couro sintético, a luz dos faróis escorrendo nos vidros. Encostou a cabeça no banco e deixou a cidade passar em fragmentos: uma cobertura acesa muito acima, fumaça subindo de um carrinho de esquina, meninos saindo de um bar de casacos abertos, uma mulher tirando o salto antes de entrar num carro. Todo mundo parecia cumprir alguma necessidade concreta. A dele, ao contrário, dissolvia-se assim que tentava encará-la de frente.

O celular vibrou.

Mensagem do time. Gustavo tinha subido a branch e perguntava se dava para revisar ainda naquela noite. Leu sem abrir a conversa inteira. Virou o aparelho para baixo no banco ao lado, mas o gesto não bastou; tornou a pegá-lo, só para confirmar que a mensagem continuava ali, na expectativa de prolongar por mais alguns segundos a ilusão infantil de que verificar um problema era uma forma de controlá-lo.

Foi deixado na esquina de casa. Subiu de elevador ouvindo o cabo gemer entre os andares. No apartamento, largou a chave sobre a bancada, tirou os sapatos no corredor e seguiu direto para o banho. A água veio fria, depois morna, e permaneceu insuficiente. Ficou ali mais do que precisava, deixando que o jato batesse na nuca e escorresse pelas costas sem oferecer nada além de intervalo.

Atravessou o quarto de toalha na cintura sem acender a luz. O monitor em repouso mantinha sobre a parede um brilho azul fatigado; pela fresta da cortina entrava a faixa mais suja da rua, um laranja gasto pelo trânsito. Havia, naquele quarto, uma coleção de superfícies incapazes de acolher: vidro, tela, metal, a madeira lisa da mesa. Até a pele parecia pertencer mais à luz que ao sangue.

Sentou-se na beira da cama.

O telefone, virado para baixo sobre a escrivaninha, não esperava por ele. A pior parte era saber que não havia solenidade alguma naquele retorno. Era só uma técnica baixa de manejo. O mesmo princípio da dívida técnica, outra vez: remendo rápido, juros altos, a estrutura toda preservada por mais algumas horas à custa de um problema maior amanhã. Ao abrir o aplicativo que jurava ter apagado, encontrou a limpeza agressiva da interface, a eficiência triste dos mercados noturnos: homens a poucos metros, a alguns quilômetros, nomes reduzidos, idades, torços sem rosto, espelhos de banheiro, fotografias tiradas para produzir resposta, não memória.

Não havia desejo ali, ao menos não do modo como as pessoas gostam de nomeá-lo. Talvez houvesse cansaço demais para isso. Ele mesmo buscava o desligamento, o silenciamento provisório do mecanismo que começara a girar sob o peito desde a reunião, a prova de que o dia não o rebaixara por completo. Bastava entrar naquele corredor digital onde tudo tinha custo curto e duração menor ainda. Ali, ninguém perguntaria por janeiro, pela revisão, pelo bug, pela diferença entre contenção e correção. Um tórax, uma curva de cintura, uma distância em metros; o mundo reduzido a variáveis baratas, e talvez justamente por isso suportáveis.

Rolou a tela sem pressa. Um perfil o reteve pela banalidade: barba escura, banheiro bege, legenda reduzida a um ponto final, a idade já encostando na dos homens que começam a desistir de parecer espontâneos. Abriu a conversa antiga. Havia um “sumiu” de semanas atrás. Sorriu sem humor. Sumir, afinal, era simples. Difícil era comparecer inteiro em algum lugar.

Voltou. Outro perfil. Mais novo. Peito definido, rosto cortado pela metade, a palavra discreto. Enviou uma reação. O ping de resposta veio quase no mesmo segundo, seco e dócil ao mesmo tempo.

Oi.

Respondeu.

Cidade? perto? sozinho?

Mentiu pouco. Afinal, mentiras curtas não exigem manutenção. Não criam universo paralelo. Servem para lubrificar a passagem do presente para um ponto suportável logo adiante.

A conversa escorregou depressa até o que quase todas pediam, não porque houvesse intimidade, mas porque esta tinha sido abolida daquele jogo desde a primeira troca.

Tem foto agora?

Abriu a galeria. A última imagem útil mostrava o próprio tronco no espelho do banheiro, cintura para cima, o rosto cortado fora do enquadramento, a luz afinando aquilo que deveria e apagando da pele o que não interessava. Mandou.

Quatro segundos.

Bonito. Outra?

Tinha consciência de que o que importava não era o sexo, mas o intervalo entre o envio e o elogio de um estranho — aquela pequena validação que comprava alguns minutos de valor. A cotação que comprovava demanda. O dia podia até ter falhado nele, mas ainda havia, ao alcance do polegar, um mercado disposto a confirmar que sua imagem seguia circulando.

Mandou outra. Recebeu de volta uma foto mais explícita, urgente, tirada com a competência impessoal de quem já sabe onde a luz favorece e o enquadramento simula entrega sem oferecer nada. Olhou sem realmente entrar na imagem. O conteúdo importava menos que a circulação. Uma fotografia puxando outra. Um corpo servindo de recibo para o outro. A nudez, ali, não era convite, fazia simplesmente o papel de passe.

Mais uma? perguntou o sujeito.

Levantou-se. Parou diante do espelho do armário. A toalha baixa na cintura, o piso frio sob os pés, o azul do monitor pegando só a lateral do corpo. Ajustou a câmera sem incluir o rosto. Ombro. Peito. O recorte do abdômen. Um pouco de pele a mais do que mostraria se houvesse alguém presente no quarto. Tirou duas fotos. Apagou uma. Mandou a outra.

A resposta veio carregada de pressa.

Vem? pode ser agora.

Ficou olhando para a tela.

O encontro real pesava demais: o trajeto até outro prédio, outro elevador, outro corredor, o cheiro de um homem que não caberia mais na palma da mão, a fala mínima antes, o vazio específico depois. Não era isso que buscava. Não queria o suor, a demora, a matéria completa de um corpo. A notificação bastava, ela atestava o breve valor de mercado da própria imagem.

Não consigo hoje, escreveu.

A resposta veio com facilidade, como se também o outro estivesse só administrando a noite.

Sem problema.

Outras conversas subiram no topo da tela. Oi. Curti. Tá on? Passou de uma a outra com a atenção vazia. Mandou mais duas fotos. Recebeu um áudio que não ouviu. O calor do celular na palma, a única temperatura estável do quarto. Sob o osso do peito, o nó cedia devagar. Não por excitação — isso exigiria presença demais —, mas pelo desarme. O sistema interno deixava o vermelho à força de pings, elogios, confirmações sem lastro.

No banheiro, urinou sem soltar o telefone, o brilho da tela projetado contra o azulejo branco. De volta à cama, abriu um site qualquer daqueles que acessava quando estava inacessível ao toque alheio, imagens correndo lisas e intercambiáveis, um catálogo de superfícies onde nada o alcançava. Quando terminou, o esvaziamento foi curto, burocrático, quase lateral.

Permaneceu sentado, cotovelos nos joelhos, o aparelho frouxo entre os dedos. O quarto, agora, recuperava seu tamanho verdadeiro, e isso nunca ajudava. Com o afrouxamento vinha a taxa cobrada pelo serviço: um rebaixamento baixo e conhecido, sem drama, só a sensação de ter comprado sossego com moeda contaminada. O gráfico da tarde reacendeu na memória. O pico, a queda, a recuperação manca. Janeiro. A branch esperando revisão. Nada fora resolvido. O problema apenas mudara de gaveta.

Bloqueou a tela.

Desbloqueou de novo, porque a primeira ausência de luz nunca bastava. Três notificações novas. Lindo. Gostoso. Curte ser filmado? Não respondeu a nenhuma. A abundância cansava no mesmo instante em que sufocava a sensação de escassez. Deitou de lado, puxou o lençol até a cintura e deixou o celular aceso sobre o travesseiro vazio, como se precisasse daquela claridade subsidiária para adiar o retorno completo ao quarto.

No teto, a luz da rua desenhava formas moles, mexidas pelo trânsito lá embaixo. Algumas janelas do prédio vizinho ainda ardiam. Um homem fumava na sacada com o rosto recortado pela ponta do cigarro e pela tela na mão. Em algum apartamento distante, uma criança correu, logo contida por uma voz abafada. A cidade seguia repartida em centenas de interiores estreitos, cada qual tentando atravessar a noite pelo método menos caro.

Pegou o celular uma última vez. Gustavo tinha mandado dois prints e uma hipótese para o problema. Parecia razoável. Poderia levantar, abrir o notebook, continuar dali. Em vez disso, fechou a janela e deixou tudo para amanhã, essa palavra útil que contém tanta coisa até o peso romper o fundo.

Pousou o aparelho no travesseiro. A tela clareou metade do rosto por alguns segundos. Depois o brilho cedeu. Os traços afundaram devagar no reflexo preto. Continuou olhando para o retângulo escuro mesmo depois de ele apagar de vez, sem sono, com a sensação de ter sobrevivido ao dia à custa de se afastar mais um pouco do ponto exato onde a própria vida o aguardava.

Capítulo 2

Às cinco e onze, o telefone vibrou.

Não houve susto. Sentiu aquela passagem suja entre o sono e a consciência em que a mão encontra o aparelho antes que o pensamento acorde. A tela abriu num azul duro. Anomalia detectada em serviço dependente. Abaixo, o nome do componente. Mais abaixo, o horário do primeiro desvio. Não era o mesmo serviço da véspera. O remendo de janeiro tinha encontrado outra parede.

Leu o alerta ainda deitado. Depois sentou-se na cama e tornou a ler, devagar, sem esperar que as palavras mudassem. O quarto permanecia escuro, mas já não havia noite ali; só um resto de sombra prensado entre o prédio da frente e a cortina mal fechada. No painel, a linha vermelha começava discreta, atravessava a madrugada e se fixava no gráfico com a frieza dos instrumentos que não conhecem hesitação. Colega erra. Ferramenta registra.

Foi ao banheiro com o telefone na mão. A água bateu no rosto e escorreu pelo pescoço sem limpar nada. No espelho, a própria imagem apareceu por um instante e foi embora assim que baixou os olhos. Voltou ao quarto, abriu o notebook, puxou logs, cruzou horários, abriu o histórico do patch antigo. Janeiro surgia nas anotações com sua linguagem de gente segura: mitigação temporária; baixo risco operacional; revisitar no próximo ciclo. Frases sem sangue. O problema, agora, corria por baixo delas com a paciência das infiltrações.

Às seis e vinte já havia perguntas no canal do time.

Gustavo mandou primeiro só um print do alerta, depois uma linha: isso conversa com o ajuste de janeiro? Daniel respondeu sem adjetivo: sim. estou mapeando alcance. Outra mensagem surgiu em seguida, desta vez do gerente: precisamos entender o impacto antes da reunião das nove. A palavra apareceu na tela e ficou ali, lisa, de gravata. Pensou na parede úmida. Tinta ainda inteira por fora. Dentro, o gesso se soltando em farelos.

Não fechou o notebook nem para fazer café. A água ferveu esquecida na chaleira enquanto ele seguia o caminho do erro entre serviços que até a véspera pareciam fora de risco. O patch antigo tinha segurado o centro da rachadura e deixado a pressão correr de lado. Agora esta aparecia noutro ponto, mais limpa, quase elegante em sua crueldade. Não havia grande colapso, apenas provas. Pequenas, exatas, suficientes.

A chamada das nove foi curta.

O gerente abriu a reunião com a voz suave, evitando alarmar investidores imaginários. Gustavo compartilhou um trecho de log. Daniel mostrou a cadeia de dependências, apontou o lugar em que janeiro voltava a latejar, respondeu ao que perguntavam sem erguer a voz. Ninguém o acusou. Nem precisou. Os detalhes da conversa já faziam o resto. Um analista de outra equipe quis saber por que a contenção não isolara o problema. Ele respondeu. Depois o fez de novo, noutra linguagem, mais limpa. Enquanto falava, teve a impressão de acompanhar uma perícia sobre decisões que já não lhe pertenciam por inteiro. As frases de meses atrás estavam ali, assinadas por ele, e agora serviam de material.

Quando a chamada terminou, o notebook seguiu aberto sobre a mesa. No canto da tela, o alerta permanecia vermelho. Embaixo da janela, o limão seco sobre a bancada guardava a mesma cor baça da semana anterior. Passou pela cozinha, abriu a torneira e esqueceu o copo vazio junto à pia. O telefone vibrou outra vez. Outra anomalia, menor, derivada da primeira. O sistema todo parecia responder com aquele pudor perverso das coisas que não caem de uma vez; apenas avisam, camada após camada, que o fundo não era tão firme.

O pai ligou pouco depois do meio-dia.

O nome aceso na tela ficou tocando até o último segundo. Atendeu no fim, já de pé, diante da janela fechada do quarto.

— Oi.

Do outro lado, a televisão falava baixo. Não dava para entender o programa. Só a presença dele, espalhada pela casa antiga como sempre estivera: uma voz sem dono definido, acompanhando almoço, remédio, jornal, cochilo.

— Te atrapalho?

— Não.

— Tua mãe foi medir a pressão cedo. Melhorou um pouco. Vamos ver no fim da semana.

O jeito de falar era o de sempre, sem abrir espaço para pânico nem confiança demais. Depois vieram as notícias pequenas. Um primo querendo financiar carro sem entrada. Um vizinho vendendo o apartamento abaixo do valor. Um antigo colega que queimara dinheiro porque teve pressa. O pai não falava disso com cobiça; havia algum tipo de respeito mineral de quem passou a vida inteira erguendo a própria segurança a prestações. O fato é que as palavras, na boca dele, nunca eram neutras. Reserva. Aposentadoria. Segurança. Enquanto o ouvia, Daniel mantinha a aba do histórico aberta no notebook, janeiro repetindo-se na tela em comentários e merges, como uma assinatura que envelhecera mal.

— Ainda bem que contigo eu nunca precisei me preocupar — disse o pai, no meio da conversa, sem dar ênfase. — Tu sempre soube te virar.

Não conseguiu responder de imediato. O telefone pesou mais na mão. Do lado de fora, um carro freou na rua e alguém buzinou uma vez, sem insistir.

— A semana está corrida? — o pai perguntou.

— Um pouco.

— Melhor assim. Pior é ficar parado.

Um breve silêncio. Desses que aguardam concordância.

O pai falou ainda da revisão do carro, da farmácia mais barata no bairro vizinho, de uma aplicação antiga que tinha rendido porque ele não mexera nela no momento errado. Daniel ficou diante da janela, o vidro devolvendo só um reflexo opaco do quarto. A televisão seguiu murmurando ao fundo. Quando a chamada encerrou, permaneceu alguns segundos com o telefone na orelha, escutando a linha morta, até que o visor apagou sozinho.

Voltou para a mesa.

Às duas e dezessete, novo alerta.

Às três e quatro, mais um.

A falha avançava com a discrição das coisas que não precisam de espetáculo para comprometer uma estrutura. Os serviços começavam a conversar entre si por meio do atraso. Uma fila arrastava a outra. Um desvio pequeno servia de apoio ao seguinte. Gustavo mandou uma hipótese precisa demais para doer menos. O gerente pediu, para o dia seguinte, um plano com risco residual baixo. Daniel leu a frase e a deixou aberta na tela do celular. O notebook devolvia, do outro lado da mesa, a luz pálida de sempre. Por um instante, viu as próprias mãos sobre o teclado e teve a impressão de que pertenciam a alguém treinado para parecer mais inteiro do que era.

No fim da tarde, o calor começou sob o osso do peito. Nada abrupto. Uma brasa estreita, acesa no lugar de sempre.

Levantou-se, foi até a cozinha, cortou o limão seco por hábito e encontrou só polpa exausta. Jogou as duas metades fora. O envelope da corretora continuava intocado sobre a bancada. Planeje o amanhã com inteligência, dizia o papel. Rasgou a borda sem abrir e deixou os pedaços junto ao lixo.

A frase do gerente, o gráfico, o pai, janeiro: tudo seguia no apartamento sem precisar de corpo. Bastava a presença dos objetos. O notebook sobre a mesa. O telefone voltado para baixo. A luz da tarde recolhendo-se devagar do piso. Melhor isso do que responder torto ou do que entrar em pane. O raciocínio vinha aos poucos, em pedaços curtos, sem pedir licença: há métodos piores; cada um contém o que pode com o material que tem; ninguém precisa assistir a tudo.

Quando abriu o aplicativo, a tela surgiu com a mesma eficiência da véspera. Homens a poucos metros. Fotos recortadas no espelho. Troncos. Abdômens. Um mercado montado sobre a urgência alheia e, por isso mesmo, previsível. Uma vez mais não procurava encontro. Queria a parte muda do mecanismo, aquele intervalo em que o corpo voltava a caber dentro da própria pele porque um estranho, ignorando o resto, devolvia à sua imagem algum valor.

Entrou numa conversa sem olhar direito o perfil. A distância era curta. O outro escreveu primeiro. Comentaram o frio. Trocaram duas frases secas. Veio o pedido de foto. Resolveu mandar uma antiga, depois outra, enquadradas para poupar o rosto. A resposta chegou depressa: bonito. Em seguida: manda áudio.

Ficou olhando para as duas palavras.

Digitou prefiro assim.

A demora do outro abriu um pequeno corredor. Quando a resposta veio, trazia um enfado mínimo, quase casual.

tem que estar mais animado

A frase encostou em outro quarto.

Dentro da lembrança quebrada, o pior corte dela. O ex deitado de lado, olhando para o teto, dizendo num tom quase pedagógico que sexo com gente sem vontade era humilhante. Noutra noite, este mesmo homem, já vestido, questionando por que Daniel insistia em começar sempre na hora errada. Foram muitos os dias em que seu corpo precisou estar pronto ao primeiro toque, aceso, generoso, como se desejo fosse um cômodo e bastasse acionar o interruptor. Tanto quanto aqueles em que recebia um hoje não tão simples quanto uma porta fechada na cara. Sua função era estar disponível quando convocado, apenas.

Fechou a conversa.

Abriu outra. Nela, um desconhecido pediu vídeo logo na terceira mensagem. Fechou também. Numa terceira, o sujeito mandou sem cerimônia: quero ver tu reagindo. Daniel apoiou o telefone no joelho e ficou algum tempo sem mover o polegar, pois até na fuga havia performance. A tela prometia superfície, enquanto cobrava presença. Sempre alguém querendo prova de disponibilidade, uma alegria mínima de vitrine, o corpo não apenas visível, mas disposto.

O quarto permanecia frio. Do prédio vizinho vinha a luz fixa de uma televisão. Acima, arrastaram uma cadeira no piso, depois silêncio. Fechou uma conversa, depois outra. O rosto do último homem desapareceu sem resistência. Nenhum deles faria falta. Nenhum chegara a existir o bastante.

Abriu o navegador.

A tela mudou de linguagem. Sumiram os nomes, as distâncias, a exigência de resposta. Restou o fluxo contínuo, a sucessão de imagens organizadas por uma inteligência sem memória e sem piedade, corpos empilhados em velocidade suficiente para impedir que o pensamento terminasse de se formar. Ali não havia voz pedindo prova, tampouco pedido de áudio ou a pequena tirania do entusiasmo. O algoritmo fazia a triagem. Ele só descia.

O azul do monitor tomou conta do quarto. A parede, a mesa, o lençol, a dobra da toalha largada na cadeira — tudo recebeu aquela luz impessoal, e por um instante pareceu que o único olhar possível era o da própria tela. Para ela a mentira se fazia desnecessária. Bastava permanecer ali, diante da sequência intercambiável de corpos que se substituíam com a eficiência de peças de reposição.

No aplicativo ainda havia linguagem de alto nível: frase curta, elogio, recusa, demora, o pequeno teatro das presenças mínimas. Aqui, não. Agora o sistema descia ao básico. Imagem. Pulso. Descarga. Uma gramática de máquina, seca o suficiente para que nenhuma história se interpusesse entre o corpo e o alívio. Era isso o que procurava, afinal: não o gozo, palavra sempre mais luminosa do que o necessário, mas o ponto em que o ruído baixasse até caber dentro de um circuito suportável.

Sentou-se de novo na beira da cama. O notebook, aberto sobre a mesa, continuava lançando sua claridade lateral sobre o quarto, duas telas acesas para funções diferentes: numa, janeiro ainda vazava; na outra, o presente era moído em estímulos curtos, substituíveis, limpos de biografia. Havia qualquer coisa de obsceno nessa convivência, mas não no sentido moral. A obscenidade estava nas duas máquinas rodando em paralelo, uma cobrando, outra amortecendo, e ele no meio, carne suficiente apenas para alimentar ambas.

O dedo deslizava. Parava. Deslizava de novo. Nem escolha havia de fato; só a ilusão dela. As imagens já chegavam ordenadas para produzir efeito depressa, sem pedir mais do que a parte mais rudimentar da atenção. Nada precisava durar, muito menos convencer. A repetição fazia o trabalho. A sucessão. O automatismo. O pensamento, que durante o dia se agarrara a logs, prazos, frases do pai, mensagens do gerente, foi sendo empurrado para trás pela mecânica sem sintaxe daquele fluxo.

Levou a mão ao próprio corpo com a mesma falta de cerimônia com que, horas antes, abrira o painel de monitoramento. Ternura ausente, bem como qualquer traço de curiosidade. O espetáculo permitia manutenção. Um toque de serviço, funcional, repetido até que o organismo aceitasse entrar no trilho estreito para o qual vinha sendo conduzido desde a primeira vibração do telefone naquela madrugada. O quarto seguiu frio. O azul da tela vibrava nas unhas, na lateral do braço, no relevo discreto do lençol.

As imagens passavam depressa. Nenhuma fixava rosto, nome, temperatura. Um corpo substituía outro antes que o anterior deixasse resto. Essa intercambialidade o acalmava mais do que deveria. A liberdade tão duramente conquistada ia sendo paga com apagamento. Sem exigência de retorno, performance, nem questionamentos sobre sua animação ou disponibilidade. Pela primeira vez no dia, o mundo deixava de lhe pedir interpretação.

Sob o esterno, a brasa foi cedendo. O nó abriu um pouco mais. O corpo seguiu o caminho sem grandeza, obediente ao procedimento. Quando a descarga seca veio encharcar-lhe os membros, o que ela trouxe não foi prazer, mas um rebaixamento abrupto do ruído, um desligamento breve, suficiente para que os sistemas internos parassem de disputar prioridade por alguns segundos. Shutdown. Nada mais nobre do que isso.

Permaneceu curvado, o cotovelo apoiado no joelho, respirando pela boca. Na tela, os vídeos continuavam correndo em silêncio. Fechou a aba sem olhar o que substituía o quê. O quarto voltou de uma vez, inteiro: a mesa, o notebook ainda aberto na mesma janela de erro, o copo vazio perto da cama, a toalha esfriando na cadeira, o lençol com aquela textura ligeiramente áspera que o corpo só percebe quando a urgência já acabou. A dívida tinha sido rolada por mais algumas horas. Amanhã continuaria cobrando.

Foi ao banheiro, lavou as mãos e voltou sem acender a luz.

O telefone estava onde ele o deixara, morno ainda. O aplicativo permanecia aberto em segundo plano, algumas conversas suspensas no ponto exato em que as abandonara. Não respondeu a nenhuma. A abundância, agora, parecia resto industrial. Deitou-se de lado e puxou o lençol até a cintura. Na mesa, o notebook seguia aceso, paciente, única testemunha do seu ritual.

Ficou olhando para o teto. A luz da rua desenhava nele manchas moles que o trânsito empurrava de um canto a outro. O elevador do prédio subiu arrastando seu motor velho até algum andar acima, parou, desceu depois. Nenhum som entrava inteiro no apartamento; tudo chegava amortecido, domesticado pela distância, e ainda assim o silêncio não se tornava paz. Era só uma superfície extensa onde cada objeto ganhava mais nitidez do que merecia.

O celular vibrou.

O trabalho e o pai já haviam lhe deixado em paz, então só restavam os seus iguais.

Na tela, um desconhecido tinha escrito apenas: acordado?

Leu a palavra uma vez, depois outra. Aparentemente não havia pedido ali. Nem entusiasmo. Só aquela pergunta mínima, lançada de um quarto qualquer para outro quarto qualquer, ambos suspensos na mesma hora morta da cidade.

Escreveu sim.

A resposta demorou a vir. Mesmo assim, continuou olhando para a tela acesa, como quem aproxima as mãos de uma chama pequena demais para aquecer a casa, mas suficiente para atravessar a noite sem endurecer de vez.

Capítulo 3

O encontro foi marcado para as oito e vinte, num cinema antigo espremido entre uma loja de colchões e uma farmácia de esquina. Saiu do trabalho tarde demais para a margem de erro que costuma conceder aos outros e nunca a si. O notebook ficou aberto sobre a mesa, janeiro respirando numa aba minimizada, e o quarto, por um instante, pareceu dividido entre dois homens: o que ainda devia respostas ao gerente e o que trocava de camisa diante do espelho, deixando o tecido mais escuro corrigir o resto.

O reflexo devolvia pedaços. O colarinho torto. O cabelo obedecendo mal à mão. O rosto sem o benefício da luz do banheiro que afinava o que devia afinar nas fotos. Quase mandou a mensagem pronta — dia ruim, reunião estendida, melhor remarcar —, mas abriu a conversa com Caio e ficou olhando as últimas linhas. O jeito de pontuar. As respostas sem urgência. A foto em que ele aparecia inclinado sobre uma bancada de madeira, com vasos ao fundo e uma expressão sem pose, como se alguém o tivesse chamado pelo nome no meio de outra coisa. Nada ali parecia construído para render mais alguns minutos de atenção. Talvez por isso tivesse aceitado. Certamente o fato de não solicitar a exposição do seu corpo de antemão foi algo que se destacou.

No elevador, tornou a abrir a conversa. Subiu até a primeira troca, desceu de novo. Paisagista. Trinta e dois. Cinema antigo. Cachorros velhos. Plantas difíceis. Havia qualquer coisa de pouco eficiente naquele perfil, e esse desperdício o perturbava.

Na rua, o vento mordeu o rosto antes que o carro encostasse. No banco de trás, já parado num semáforo, abriu o ingresso e enfim viu o horário certo da sessão: vinte e dez. A falha apareceu inteira, sem disfarce, e não era só um número. O corpo atrasava por dentro o que a boca não tinha coragem de cancelar.

Mandou uma mensagem.

chego em cinco.

A resposta veio rápido.

tô aqui. sem pressa.

Leu as últimas duas palavras enquanto o carro avançava um quarteirão e prendia de novo atrás de um ônibus. Guardou o telefone no bolso. Tirou. Tornou a guardar.

O garoto esperava sob a marquise do cinema, as mãos nos bolsos do casaco, olhando a rua e não a própria tela. Conseguiu reconhecê-lo antes de se aproximar, mais pela postura do que pela aparência. Nas fotos era um rosto aceitável, um tronco, um conjunto de ângulos. Na calçada, tinha altura, ombros, a gravidade baixa da voz quando disse oi, mostrando uma garganta conhecedora de outra velocidade. A primeira coisa que notou foi a cicatriz clara na base do polegar esquerdo, um traço branco atravessando a pele morena. Não estava em foto alguma.

— Tudo bem? — disse Caio.

— Tudo.

Daniel mostrou o ingresso sem rir. O outro olhou o horário, ergueu um pouco as sobrancelhas, depois a rua.

A sessão tinha começado havia dezoito minutos.

— Você está com fome?

Não havia censura na pergunta. Nem gentileza de consolo. Só a saída mais próxima.

— Estou.

— Tem um lugar aqui perto. Não é bonito, mas nunca me fez mal.

Foram andando. O cinema ficou para trás com sua fachada apagada e o filme correndo para gente mais pontual ou menos nervosa. Na esquina, um ciclista veio rápido demais. Caio tocou o cotovelo de Daniel para puxá-lo meio passo para trás. Um gesto curto, sem pensamento aparente, mas a pele guardou aquilo.

O restaurante ficava numa rua lateral, com porta de madeira antiga e janelas baixas já embaçadas por dentro. O ar tinha cheiro de alho, gordura quente e vinho aberto cedo demais. As mesas eram de madeira escura, gastas nas bordas; os cardápios, plastificados e um pouco pegajosos. Havia uma costela-de-adão junto à janela, grande demais para o vaso, as folhas verdes no meio e queimadas nas pontas.

Caio olhou para ela enquanto puxava a cadeira.

— Alguém gosta muito dessa planta e entende pouco de luz.

Daniel acompanhou o olhar.

— Dá para saber?

— Dá para errar menos — respondeu. — O resto ela conta.

Sentaram-se. O garçom trouxe água, deixou os cardápios, voltou para outra mesa. Ao lado deles, uma família terminava o jantar tarde. A criança dormia no colo da mãe, a boca meio aberta, o cabelo grudado na testa. No fundo, dois homens dividiam uma garrafa de vinho em silêncio.

Quando questionado sobre o trabalho, Daniel respondeu com a fluidez que a profissão tinha lhe ensinado.

— Arquitetura de software. A parte que ninguém vê e reclama mesmo assim.

Caio sorriu.

— E você gosta?

Sua reação foi pegar o copo d’água. A pergunta vinha limpa demais.

— Depende do dia.

— Hoje não parece.

O garçom voltou. Enquanto ele pediu uma massa qualquer, Caio escolheu cordeiro com polenta e vinho da casa. Quando o homem se afastou, o silêncio ficou na mesa. Começou, então, a girar o copo, sentindo o peso do vidro e, sem planejar a entrega, disse:

— Teve um problema no trabalho. Ainda tem, na verdade.

Caio apoiou os antebraços na mesa.

— Daqueles que se espalham?

Um riso curto parecia quebrar o gelo.

— Exatamente.

— Jardim faz isso também. Você deixa uma raiz passar porque está sem tempo, ou cansado, ou porque o cliente quer tudo pronto para ontem. Meses depois a calçada abre.

O vinho chegou. Caio serviu primeiro o copo dele, depois o próprio, com um cuidado sem cerimônia. As mãos eram mais bonitas do que nas fotos: dedos longos, unhas curtas, pequenas marcas junto aos nós, e a cicatriz, agora mais clara sob a luz amarela.

— Você sempre quis fazer isso? — Daniel perguntou.

O rapaz encostou o copo na mesa antes de responder.

— Nem sempre quis viver tanto. Trabalhar com isso veio depois.

Foi difícil esconder o espanto nos olhos.

Caio não emendou explicação. Só respirou, olhou um instante para a planta junto à janela e passou o polegar pela base do copo.

— Passei um tempo correndo atrás de barulho. Muita noite, muita gente, muita coisa que parecia liberdade até passar. A validade era curta, mas a conta só subia. Uma hora cansei de acordar em lugar sem densidade.

Daniel ficou quieto. O garçom trouxe o pão, o azeite, os pratos. O vapor subiu entre os dois, trazendo tomilho, manteiga, carne demorada no fogo. Por alguns segundos, nenhum deles falou. Em seguida, um partia o pão e o outro percebia o próprio apetite tarde demais, sentindo o corpo voltar a existir em camadas.

— E você? — perguntou Caio, já com a faca na mão. — Corre atrás do quê?

A resposta fácil teria sido trabalho. A correta, cansaço. Olhou para a rua através da janela embaçada, onde os faróis passavam deformados, e colocou para fora o que veio primeiro:

— Do resto.

Uns segundos de espera.

— E às vezes do trabalho também.

— Deve cansar.

Foi só isso. Nenhuma interpretação ou alívio fabricado. O prato de Daniel chegou brilhando de óleo e queijo, o de Caio soltando um perfume espesso de vinho e carne. Comeram alguns minutos em silêncio. O ruído dos talheres, o baque de uma garrafa na mesa do fundo, alguém rindo perto do caixa. Era estranho perceber o corpo com tamanha nitidez, fora do aquário e em um lugar com ar.

Caio falou do trabalho sem transformá-lo em alegoria. Contou de uma praça onde plantaram árvores erradas por economia e agora metade crescia torta, raízes rasas, copa desequilibrada. Falou de um jardim em cobertura que parecia exuberante nas fotos, mas morria por baixo porque a laje devolvia calor demais. Falava olhando para o prato, ou para o copo, ou para a planta junto à janela. Não tinha o vício de enfeitar o que dizia para parecer interessante. Talvez por isso cada frase pousasse inteira.

— As pessoas acham que paisagismo é fazer uma coisa bonita. Quase sempre é só decidir onde a vida aguenta ficar sem adoecer.

Daniel riu baixo.

— Isso serve para quase tudo.

— Verdade.

A palavra ficou entre eles. Caio não correu para completá-la.

Mais tarde, quando o vinho já tinha baixado um pouco nos copos e a família ao lado se levantava devagar com a criança dormindo no ombro do pai, começou a falar do filme que tinham perdido. Caio questionou por que ele queria ver justamente aquele. Respondeu com mais verdade do que pretendia, dizendo que tinha visto o mesmo filme aos dezessete, sozinho, num notebook ruim, e desde então às vezes pensava que não gostava do filme, mas da pessoa que tinha sido ao assisti-lo. O date daquela noite não riu disso. Apenas completou:

— Faz sentido.

Depois contou da avó, que mantinha samambaias na cozinha e conversava com elas enquanto fritava peixe. Daniel perguntou se ela acreditava que planta escutava. Caio encolheu um ombro.

— Não sei se escutava. Sei que a casa dela tinha menos pressa.

O garçom passou para recolher os pratos. A mesa ficou com migalhas de pão, duas marcas de vinho no verniz e a sombra da planta no canto da toalha de papel. Ao apoiar a mão ao lado do copo, Caio olhou para ela um segundo, depois para o rosto dele, e lançou:

— Você parece um homem cansado de sustentar as coisas.

O conteúdo da frase não lhe ofendia, mas o modo como foi dita lhe deixou intrigado: sem ênfase, sem pena, sem aquele brilho clínico dos julgadores de vidas alheias. Abriu a boca, fechou, tornou a pegar o copo. O vinho tinha aquecido. Bebeu devagar, sentindo o vidro na mão, o líquido descendo, e continuou em silêncio.

Foi então que Caio pousou a mão sobre a dele.

Um toque morno e firme ao mesmo tempo. O calor daquela mão era um peso que Daniel não sabia como sustentar. Naquele toque não havia caminho para sexo, nem ensaio de posse ou cobrança adiantada de nada. Reconhecimento. Só isso. O corpo inteiro parado um segundo atrás da pele.

Caio soltou primeiro.

— Desculpa — disse, com um sorriso breve. — Tenho mania de tocar as pessoas quando estou prestando atenção.

Daniel mexeu os dedos uma vez, parecendo reaprender o próprio tamanho.

— Tudo bem.

Frase estreita para o que o corpo fazia embaixo da camisa. O ponto do toque continuou aceso muito depois daquela mão voltar para o copo.

Quando a conta chegou, Daniel a puxou num gesto antigo, quase reflexo. Caio segurou-lhe o pulso de leve, antes que o cartão tocasse a mesa.

— Dividimos.

A palavra desarmou o gesto com uma facilidade indecente. O garçom levou os dois cartões.

Lá fora, o frio tinha engrossado. A fachada do cinema brilhava mais adiante, já liberando outra sessão. Gente saía comentando o filme perdido por eles, casacos fechados até o queixo, o hálito visível na luz da rua. Os dois pararam sob a marquise de um prédio vazio enquanto os carros passavam na avenida.

— Quer remarcar? — perguntou Caio. — O filme, eu digo.

Daniel olhou para a fachada, depois para ele.

— Acho que foi melhor assim.

Sorrindo com um lado só da boca, a verdade era reconhecida sem muita celebração.

Ficaram ali mais alguns segundos. Não tão próximos quanto gostariam, mas o suficiente para sentir o calor um do outro. Um ônibus passou cuspindo ar quente e diesel. Da outra esquina veio o som de garrafas sendo recolhidas. Caio puxou o casaco para mais perto do corpo.

— Vai de aplicativo?

— Vou.

— Eu também.

Esperaram lado a lado. No vidro escuro da portaria, o reflexo dos dois aparecia e sumia a cada farol que passava: Daniel ainda um pouco tenso nos ombros; Caio quieto, inteiro sem esforço visível. Quando o carro encostou, Caio tocou de novo seu ombro. Desta vez o gesto foi ainda mais curto.

— Me avisa quando chegar.

No banco de trás, a cidade voltou à sua geometria de vidro, semáforo, farol, reflexo. Daniel abriu o aplicativo por reflexo e encarou a grade de perfis sem entrar em nenhum. As fotos estavam todas no lugar, os troncos, as descrições curtas, a vitrine inteira funcionando como sempre, e ainda assim alguma coisa tinha perdido função. Fechou a tela. Abriu a conversa com Caio. Não havia mensagem nova.

Subiu de elevador ouvindo o motor velho arrastar-se pelos andares. No apartamento, largou a chave sobre a bancada e ficou parado no escuro. O quarto era o mesmo: mesa, notebook, copo, lençol torto. Mesmo assim, a noite trazia outra temperatura. O cheiro de comida quente na gola da camisa. O vinho ainda raso na boca. O ponto exato do ombro onde a mão de Caio pousara. Até o silêncio parecia menos liso.

Sentou-se na beira da cama e pegou o telefone.

Duas notificações do trabalho. Nada urgente. Abaixo delas, a mensagem de Caio:

chegou?

Leu uma vez. Depois outra. A palavra era curta, mas entrava inteira.

digitou sim. você?

A resposta veio logo.

sim. gostei de te ouvir.

Continuou olhando para a tela acesa até o brilho começar a cansar a vista. Depois a apagou e pousou o telefone sobre a escrivaninha. Deixou o aplicativo fechado. Nem quis abrir navegador naquela noite. Levou a mão ao ombro apenas para confirmar que a pele ainda o guardava.

Deitou-se sem sono.

No teto, a rua desenhava suas manchas moles de sempre. O elevador subiu, parou, desceu. Um apartamento distante fechou janela com força. Tudo seguia no lugar. Ainda assim, alguma coisa tinha saído do eixo. Outra falha. Mais lenta.

Fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, o quarto escuro não pareceu apenas um lugar de contenção. Havia nele o espaço exato onde uma coisa sem nome poderia começar.

Capítulo 4

A luz ocupou o quarto, indiferente.

Na escrivaninha, o copo d’água pela metade devolvia um brilho raso. Abriu os olhos e, antes de janeiro ou do gráfico de monitoramento, encontrou a pressão breve da mão de Caio — a pele havia dormido por cima dela. Ficou deitado alguns segundos, olhando o recorte claro na parede. O mundo seguia intacto, mas alguma coisa perdera o atrito.

No banheiro, a água bateu no rosto sem o frio desagradável das outras manhãs. O espelho mostrou o mesmo homem com uma imagem que não exigia defesa. Secou-se devagar, voltou ao quarto, vestiu a primeira camisa que encontrou. Na cozinha, o limão seco continuava sobre a bancada, murcho, atravessado por um fio de luz. O notebook seguia fechado. Encheu o copo, bebeu em pé diante da janela e deixou que a rua viesse inteira: sacadas, roupa no varal, um cachorro latindo para o caminhão do gás. Tudo era comum e, naquele momento, suportável.

Pegou o telefone.

A conversa estava onde a deixara. Desceu até o fim, leu outra vez gostei de te ouvir e voltou ao topo. O corpo reorganizava o passado com rapidez obscena. Talvez fosse só o inverno. O isolamento, a síncope das telas, a falta de uma voz que não fosse cobrança. O homem do elevador frio, das fotos sem rosto, da madrugada moída entre alerta e algoritmo — esse era agora um estranho, sintoma de uma febre que enfim baixava. Bastava a mesa certa, o homem certo, e a vida retomaria o prumo.

A chaleira chiou no fogão. Desligou antes do segundo apito. Cortou pão, passou manteiga, sentou-se para comer — prato na mesa, café de verdade — agradecido pela noite que reintroduziu modos antigos no corpo. O telefone vibrou ao lado da xícara.

Gustavo.

Ficou olhando o nome na tela um segundo a mais do que o necessário. Abriu.

print do painel

outra fila começou a oscilar

consegue olhar isso antes da reunião?

O cursor piscou na conversa. Levou o café à boca, deixou que o calor segurasse o rosto por um instante e só então abriu o notebook. A máquina aqueceu a mesa no mesmo ponto da véspera. O painel carregou. Janeiro continuava lá, espalhado agora em outras bordas, menos discreto, mais frio. A linha vermelha atravessava a manhã com a persistência muda das infiltrações. Leu o alerta, minimizou a janela, respondeu com duas palavras — vejo depois — e fechou a aba.

Em seguida veio o gerente.

precisamos preservar previsibilidade até fechar o diagnóstico, me dê um retorno assim que possível.

A frase ficou aberta, lisa e irritante, enquanto o brilho do celular subia com outra notificação.

Caio.

bom dia. sobrevivi ao frio.

O rosto não reagiu de imediato. Primeiro leu. Depois, só depois, o corpo afrouxou. Escreveu rápido:

também. acho.

Os três pontos surgiram. Sumiram. Voltaram.

tinha esquecido como massa quente salva uma noite.

Ficou olhando a frase. Do outro lado da mesa, o notebook seguia aberto no mesmo alerta. O trabalho ainda existia, mas agora com a inconveniência das coisas que falam fora de hora. Fechou a tampa da máquina. O baque breve do metal soou físico. O sistema continuou rodando do lado de dentro; que rodasse.

Pegou o telefone de novo.

O ícone do aplicativo permanecia na tela inicial, discreto, banal. Custava pouco admiti-lo ali quando a noite era ruim e o peito pedia saída. Naquele instante, doía vê-lo. Aquilo preservava o homem de janeiro no mesmo plano do homem que jantara cordeiro e voltara para casa com outra temperatura no corpo. O dedo pousou sobre o aplicativo.

A grade estremeceu.

Os ícones começaram a tremer juntos, nervosos, como objetos pequenos à espera do corte. O X surgiu no canto. Manteve o olhar, o polegar imóvel. Escrúpulo inexistente, quem propunha a barreira era a vaidade. A vontade seca de encerrar um hábito num gesto limpo, sem plateia, assim como fazem aqueles que largam os vícios e decidem que a história antiga está abaixo da própria dignidade.

Tocou no X. A confirmação abriu. Pressionou.

O ícone sumiu. A grade se recompôs devagar e o espaço que ficou na tela abriu uma clareira mínima, um palmo de luz onde nada mais pedia urgência. Permaneceu olhando para aquilo. Depois entrou na galeria. Apagou algumas fotos: troncos no espelho, cintura sem rosto, a luz do banheiro corrigindo o que a vida não corrigia. Abriu o navegador e limpou o histórico. Restos. Não todos. O bastante para que o telefone deixasse de ser um atalho imediato para o vazio.

O notebook apitou sob a tampa. Outra vez. Continuou fechado.

Levantou, levou a xícara até a pia, lavou-a com atenção desnecessária. Na lixeira, o envelope rasgado da corretora encostava na casca ressequida do limão. O apartamento parecia menos hostil, e isso bastou para lhe dar coragem de fantasiar um pouco mais. Aplicativo ou pornografia, não era o ruído em si o problema, mas a falta mal administrada, que agora, pela primeira vez em meses, encontrava forma humana. Caio surgia nessa formulação como chave para a ausência de uma porta certa.

Ao meio-dia chegou outra mensagem.

vou passar a tarde em obra. posso sumir um pouco.

Leu duas vezes. Nada naquela frase tentava produzir efeito. Havia ali uma prestação mínima de realidade: um homem com barro nos sapatos, avisando porque quis avisar. Respondeu que tudo bem, que poderiam conversar mais tarde. Enquanto escrevia, as notificações abafadas do notebook continuavam a bater sob a tampa com paciência.

A tarde se arrastou sem ordem.

Abriu a máquina duas vezes. Na primeira, o painel mostrou o desvio tocando outra fila. Na segunda, Gustavo enviara um log com a linha sublinhada onde o problema reaparecia. Leu. Fechou. Em vez de responder, trocou a capa do travesseiro, abriu a janela do quarto, limpou um canto da mesa que não pedia limpeza. O telefone ficou ao alcance da vista. No lugar da expectativa consciente, excesso de fome.

Às duas, o gerente escreveu novamente: preciso de você com posição clara às 17.

Deixou a mensagem sem resposta. Abriu a conversa com Caio. Nada novo. O cursor piscava na janela de resposta aberta para Gustavo, insistente, pequeno, quase humilhado. Não digitou. Se encarasse janeiro de frente, a manhã perderia fundamento. O homem que deletara o aplicativo com o peito aberto voltaria a ser o outro, o do elevador, o da carne reduzida a recibo noturno. Para preservar o novo arranjo, era preciso empurrar o resto.

Deitou sem dormir. O telefone sobre o esterno. Lembrou da cicatriz na mão de Caio, da planta junto à janela, da palavra dividimos. As lembranças vinham banhadas por uma luz indevida, ingênua, e ele se deixava atravessar. A cabeça montava cenas: Caio sorrindo sozinho ao lembrar do jantar; Caio ocupando o dia com a mesma delicadeza que ocuparia, um dia, uma casa. A projeção crescia sem precisar de fatos. A fome era mais do que suficiente.

Às quatro e meia, o telefone vibrou de novo.

Gustavo: preciso de você na reunião das cinco.

A frase ficou brilhando na tela. Levantou-se, lavou o rosto, olhou o espelho sem vê-lo. Voltou para o quarto e respondeu: não consigo entrar agora. te atualizo depois.

A resposta veio em um minuto: ok. mas piorou.

Releu a última palavra e sentiu, sob o osso do peito, a brasa reacender. Fez o que o corpo queria fazer desde o início: abriu a conversa com Caio. Nada. Última mensagem às 12:07.

Cinco minutos não significavam nada. Dez tampouco. Gente trabalha, tem as mãos ocupadas. Sabia disso. Às cinco e três, a conversa seguia imóvel. Às cinco e onze, pegou água, não bebeu. Às cinco e quinze, o notebook emitiu outro som abafado sob a tampa fechada e o corpo respondeu ao chamado errado. Abriu a tela inicial do celular.

Às cinco e dezoito, o polegar repetiu o trajeto de sempre. A mão conhecia o lugar exato. Tocou o vazio.

Nada abriu.

Repetiu o movimento, menor. O fundo da tela permaneceu liso, neutro, o deserto de uma cor só entre ícones que não serviam para nada. Ali de manhã tinha havido clareira. Agora aquela falta preenchia o espaço. Permaneceu parado olhando o quadradinho limpo e o quarto devolveu tudo ao tamanho certo: o notebook sobre a mesa, janeiro correndo por baixo do sistema, o pai em alguma casa de televisão baixa, ainda convencido de que o filho sabia se virar. E Caio do outro lado da cidade, real, vivendo um atraso banal enquanto nele a demora já ganhava peso de abstinência.

O telefone vibrou.

Ergueu os olhos tão depressa que sentiu o pescoço doer. Era Caio.

desculpa a demora. mão na terra até agora. sobrevivi. e você?

Leu uma vez. Logo, outra. A pressão no peito não cedeu; apenas mudou de lugar. Uma mensagem sem salvação. Só um homem chegando tarde do próprio dia, barro ainda sob as unhas, e uma pergunta simples demais para sustentar a expectativa que ele já pendurara nela.

Digitou. Apagou. Tornou a digitar: também sobrevivi. Enviou.

Ficou um tempo com o aparelho na mão, olhando a última mensagem de Caio até ela perder a primeira camada de calor e virar só texto sobre a tela. Nada se reorganizou. O quarto continuou sendo o quarto. O notebook, fechado sobre a mesa, guardava janeiro do lado de dentro. O elevador subiu. Parou. Desceu. A cidade, lá fora, acendia suas janelas por conta própria.

O telefone vibrou. Gustavo.

preciso de você agora. a contenção não segurou.

Leu e não abriu o computador. Tornou a olhar para a conversa com Caio. A pergunta simples demais. A resposta mais simples ainda. O dia inteiro tinha sido pendurado nisso, e agora tudo cabia em poucas palavras. Nada se corrigia, tampouco se resolvia. O corpo, desarmado, procurou outra saída.

Abriu o navegador. Modo anônimo para não se lembrar de mais um deslize iminente.

A luz da tela endureceu o quarto. O colchão. A mesa. O próprio joelho. Tudo ganhou borda. Começou pelo que ainda podia chamar de suportável: vídeos de casal, corpos desacelerados o bastante para parecerem próximos de alguma ternura. Ficou ali poucos segundos. Efeito insuficiente. O telefone vibrou de novo — trabalho, sem dúvida — e a pouca resposta do corpo cedeu logo, esvaziada pelo som curto da notificação.

Parou.

Respirou pela boca. Passou a mão no rosto. Voltou.

Dessa vez foi mais fundo, sem muita escolha, como quem desce um corredor conhecido porque já sabe que o primeiro lance não traz entrega. As abas se abriram rápidas demais. Os títulos. Os quadros congelados. A sucessão de corpos ficando mais impessoal, mais numerosa, mais áspera. O tipo de cena que não promete encontro algum, só excesso. Gente demais. Mão demais. Parque, noite, pressa, risco. Nada daquilo lhe interessava de verdade. Justamente por isso servia. Quanto menos vida houvesse ali, melhor funcionava.

O notebook apitou.

O membro falhou outra vez.

Ficou imóvel, respiração curta, olhando para a tela como se a máquina estivesse emperrada, enquanto ele mesmo ultrapassava o seu limite de funcionamento. Uma espécie de raiva sem objeto foi a primeira pulsão — do trabalho, de Caio, da própria demora, do corpo incapaz até de obedecer a esse procedimento velho. Recomeçou mais brusco, menos por vontade do que por teimosia. Precisava terminar. Calar o ruído.

O telefone vibrou.

Caio.

cheguei em casa. banho e cama.

A ereção cedeu quase inteira ao ler. Ficou olhando para a frase, para o modo banal e limpo como ela existia. Um homem chegando cansado, indo tomar banho, deitando. Só isso. O navegador seguia aberto logo abaixo, aquela outra linguagem correndo em sons cada vez mais distantes de qualquer ideia de afeto.

Bloqueou a tela. Tornou a desbloquear. Voltou ao site.

Agora já não havia escolha de verdade. Só insistência. O corpo respondia e caía. Respondia e caía. As notificações do trabalho seguiam entrando. A mão ia, parava, tornava a ir. O quarto parecia assistir em silêncio. O ar esfriou. A luz da tela batia no lençol, nos dedos, no contorno baixo da barriga. Nada ali tinha calor. Só atrito.

Quando finalmente veio, chegou tarde e mal. Um espasmo curto. Sem prazer. Mais perto de falha elétrica do que de alívio. O corpo cedeu de uma vez e ele ficou inclinado para a frente, respirando pela boca, com a sensação imediata de sujeira. Na pele. Na mão. No tecido embolado entre as pernas. O lençol, tocado sem querer, devolveu aquilo de volta. O cheiro chegou depois. Baixo. Inconfundível.

O telefone acendeu outra vez.

Caio.

dorme bem.

Tentou pegar o aparelho. A mão escorregou. O toque falhou. O telefone quase caiu do colchão. Limpou os dedos às pressas no lençol, gesto inútil que só espalhou mais. Tornou a tentar. A tela não respondeu de imediato. Deslizou outra vez. Travou. O brilho da mensagem permaneceu aberto, quieto, enquanto ele, sujo, ofegante, meio curvado, não conseguia sequer responder duas palavras limpas a um homem que lhe desejava descanso. O que mais precisava.

A distância obscena entre a frase na tela e o corpo em que ele se encontrava. dorme bem. E ele ali, melado, o notebook pedindo presença sobre a mesa, janeiro vazando, o telefone travado sob a mão errada. Sentiu-se clandestino. Não diante de Caio ainda — seria cedo demais chamar de traição o que nem começou —, mas diante da possibilidade de uma vida menos podre. Via-se contaminando uma coisa nova antes mesmo de tocá-la direito.

Levantou-se de uma vez.

Foi ao banheiro com o telefone na mão, quase derrubando-o no corredor. Lavou as mãos rápido demais. A água espalhou antes de limpar. Tornou à tela. A mensagem seguia ali. Ainda incapaz de respondê-la.

Voltou ao quarto. O apartamento inteiro parecia ter encolhido.

Ficou assim por algum tempo, sem abrir o computador, sem responder a Caio, sem coragem de tocar em mais nada, com nojo daquele mal que precisava ser arrancado pela raiz.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G2, Entre Romances e marcado .