EntreContos

Literatura que desafia.

Morte súbita (Chandler Bing)

Ai! Que dor…  Espera aí, o que aconteceu? Não, não acredito nisso! Eu morri? Mas como assim? Agorinha mesmo eu estava bem, andando tranquilamente pela rua, até pensava na lasanha que a Juliana ia fazer no almoço. Mas só pode ser isso, estou morto.

Sabe o que é pior do que estar morto tão jovem? (Bem, não tão jovem, mas ainda nem cheguei aos cinquenta). É que estou pelado e isso é muito humilhante. Parece que ninguém pode me ver, mas mesmo assim não deixa de ser constrangedor. Pensei que depois de morto teria mais dignidade, cadê as túnicas brancas brilhantes, que a gente vê nos filmes? Ou um manto grosso, cor de nada e com capuz? Mas não, tinha que estar pelado.

Você pode estar se perguntando como eu sei que morri, não é? Pois é, eu sei por que estou olhando para o meu corpo, caído no chão, com a mão no peito, a boca aberta e parece que eu fiz xixi na calça, ou até pior. Ai meu Deus! E falando em Deus, onde está a luz que eu teria que seguir? Não estou vendo nada. Pelo menos não vejo demônios com tridentes, vindo me buscar. Nada, tudo parece exatamente igual, como se eu nem tivesse morrido.

Pessoas passam por mim, correm até o meu corpo, tiram selfies com o homem morto, não sei se alguém se lembrou de chamar uma ambulância, ou a polícia, mas daqui a pouco minha foto vai circular pela internet, e tão mal apresentável, que droga, meus quinze minutos de fama não serão tão bons quanto eu imaginava. Deve ser castigo.  Eu adorava ver esse tipo de foto, desastre, cadáveres, desgraças e aberrações.

Coitada da Juliana, será que vai saber da minha morte assim? Uma corrente passando pelo whatsapp? Vai me ver nesse estado, ela pode até desmaiar. Não, ela é forte. Talvez fique até um pouco aliviada, ela achava que não, mas eu sabia que ela não me amava mais, e desconfiava das suas conversinhas com o Geraldo. Os dois pensando que eu era bobo. Talvez ainda não tivesse nada demais entre eles, mas agora com certeza vai ter.

O Geraldo vai dormir na minha cama, que desgraça, pode até aproveitar minhas roupas, as que estiverem melhorzinhas, posso até imaginar ele andando de cueca pela casa, coçando a busanfa, e tem mais, imaginei aquela barba grossa roçando no cangote da Juliana. Ai que raiva! Não, não posso sentir raiva, vai que o chifrudo aparece pra me buscar, me espetando com o tridente. E eu ainda pelado, não vai prestar. Deus me perdoe e tenha misericórdia de mim.

Eu nunca fui religioso, raramente ia à igreja, mas também nunca fui um homem mau, nunca roubei, a não ser bala na venda da esquina quando era criança, e material de escritório do meu trabalho, mas quem nunca? Claro que eu abusava um pouquinho da cerveja e também já dei uma ou duas escapadas com mulheres que faziam o que a Juliana se recusava, de pés juntos a fazer. Mas isso todo homem faz, não faz? Deus podia descontar essas coisas por ter me feito baixinho, com tendência prematura a calvície, com um senso de humor defasado e gosto duvidoso para música, quem gostava de tecnobrega afinal de contas?

Uma ambulância enfim chega pra me resgatar, quem sabe ainda estou vivo? Posso estar em coma. Olho atento para os dois médicos do SAMU que me examinam.

– Não adianta, está morto!  – Diz o mais velho, e posso jurar que notei uma nota de alívio.

-Vamos levar pro necrotério… – Diz o mais novo, quase feliz por não ter que salvar mais uma vida hoje.

Então é assim, morri mesmo, tô peladão aqui na rua, ninguém veio me buscar, não sei o que fazer.

-Alôou, tem alguém aí? Ninguém vem me buscar? Pelo menos tragam uma roupa…

Nada. O mundo continua igual. As pessoas passam por mim sem me ver. Ninguém notou a minha morte. Logo a Juliana iria saber. Acho que vou até minha casa, quem sabe consigo ver a reação dela. Começo a correr, mas paro logo, tem muita coisa balançando, para o meu gosto. Aproveito pra procurar a tal luz, um anjo, alguma coisa, sei lá.  Pelo menos no caminho pra minha casa não tem nada disso. E se eu tiver que ficar aqui, assim, pra sempre?

Chego na frente da minha casa e logo vejo a Juliana. Mulher forte, morena, roliça, de vestido florido, chinelinho de dedo bordado com miçanga. Nunca tinha reparado em como são bonitinhos aqueles pezinhos gordinhos, com as unhas cor de rosa. Parece nervosa, será que já avisaram da minha morte?  

Ela está no quintal, enterrando alguma coisa. Agora afofou a terra e espalhou folhas secas, nem parece que a terra foi mexida. O que será? Chego perto e tento falar com ela, nada. Tento desenterrar o que quer que foi enterrado, mas não consigo. O telefone toca. Vou correndo pra dentro de casa, passo pela porta que está aberta, ainda não tentei atravessar as paredes. Observo enquanto ela atende com a voz calma, mas noto um tremor em suas mãos.

Nenhum desespero, nenhuma lágrima, sem gritos histéricos e muito menos desmaios. Confesso que fico um pouco decepcionado. Pra que serve ter uma mulher se não é pra ela se descabelar quando a gente morre?

-Morreu é? Quando? Ham ham. Já sabem do que foi que morreu? Sei. Tá bom, obrigada.

Só isso. Nem uma lágrima. Ela está ligando pra alguém. Quem será? De certo vai avisar a mãe dela, coitada, aí pode chorar a vontade que a mãe consola.

– Geraldo, o Nestor morreu. É, acabaram de ligar. Não sei, disseram que pode ser infarto, mas não deram certeza ainda. Já me livrei dele. Tá, to te esperando.

Mas que filha de uma péssima mãe! Ligou pro Geraldo! E que história foi essa? Como assim, me livrei dele? Por mais que eu não queira atrair o capeta com a minha fúria, não consigo me controlar, se pudesse esganava essa mulher era agora.

Vejo que ela está entrando em nosso quarto, vou atrás. Ela abre o guarda roupas e escolhe uma calça preta, a melhor que eu tenho, ou tinha, sei lá. Pega a melhor camisa branca. Paletó preto novo. Gravata vinho, minha preferida. Vai colocando tudo em cima da cama. Pelo menos vou ser enterrado de forma decente.

Não paro de pensar na conversa dela com o Geraldo. Já me livrei dele. Ela devia estar falando do objeto que enterrou. O que poderia ser? Será um frasco de veneno? Não… Ela não ia fazer isso comigo. Ia? Disseram que foi infarto. Meu coração sempre bateu tão bem.

Juliana pega a foto do nosso casamento. Olha um longo tempo pra ela. Não consigo adivinhar o que ela está pensando. Tento ler em seus olhos alguma culpa, raiva, rancor. Só vejo melancolia e uma lágrima solitária que escorre até o queixo. Talvez ela ainda me amasse um pouquinho, afinal.

Uma buzina chama a nossa atenção e Juliana pega tudo que arrumou e põe em uma sacola. Fecha a casa e sai. Lá fora está o Geraldo, esperando no carro. Aquele traidor. Dizia-se meu amigo, mas tramava alguma coisa pelas minhas costas com a minha mulher.

Eu já estava seguindo a Juliana até o carro quando, do nada, aparece um rapaz do meu lado, vestindo roupas de estilo jovial.

-Então, vamos embora? Desculpe a demora, mas estamos com muito serviço por esses dias…

– Você é um anjo?

– Não exatamente…  – Diz dando uma risadinha estranha.

-Mas, espera um pouco, eu quero saber o que está acontecendo com minha mulher e o Geraldo. O que eles estão tramando? – Pergunto olhando Juliana entrar no carro.

– Relaxa parceiro! O bom de estar morto é não precisar saber de mais nada… E no seu caso, é melhor nem saber mesmo.  Vamos embora que tenho muita gente pra buscar ainda hoje.

– E pra onde nós vamos? – Pergunto morrendo de medo da resposta.

Com uma gargalhada ele responde:

– Cara, você não sabe? Tá lascado, meu irmão. Essas coisas a gente garante quando ainda tá vivo. Depois de morto já era… Vamos?

Segui o sujeito, fazer o que né. Nunca fui bom com argumentos lógicos.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.