EntreContos

Literatura que desafia.

Frescão (Cauá Moesa)

A madrugada nascia em tons de branco e preto. Dentro do quarto, as pás do ventilador giravam lentas, quase sem produzir vento algum. Sua rotação arrastada era uma canção de ninar para o homem atribulado que dormia sobre a cama.

Júlio acordou com o despertador vintage que descansava sobre o seu criado-mudo. Após desligar o alarme, tentou esquecer que havia acordado, mas a tarefa era impossível: ainda que as pálpebras pesassem toneladas, não conseguiria retornar à paz anterior. Levantou-se; um morto-vivo. A noite passada havia sido corrida; cansativa.

Vestiu a roupa. Escovou os dentes. Arrumou a mochila. Em quinze minutos trancava a porta de casa e caminhava até o ponto de ônibus, parcialmente cegado pelo sol da manhã. Os olhos perdidos e as bolsas que se estendiam abaixo deles faziam as pessoas ao redor se perguntarem se finalmente o apocalipse zumbi era uma realidade.

Júlio prometeu a si mesmo que nunca mais jogaria League of Legends até as três da manhã.

Passados poucos minutos, o frescão surgiu no horizonte ondulante.

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Pausa para uma breve definição de “Frescão”

Transporte público equipado com aparelho de ar-condicionado, climatizado para proteger os seus passageiros do calor lá fora, muitas vezes sujeitando os mesmos a temperaturas tão baixas que o incômodo, quer dentro, quer fora, torna-se o mesmo.

O passageiro de um Frescão, por ter pago o triplo do valor da passagem convencional, ganha o direito de olhar com desdém para os usuários dos transportes públicos convencionais, avistados pela janela, como se todos não pertencessem, afinal, exatamente à mesma manada.

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Júlio ajeitou o banco macio do frescão, deitando o corpo em um ângulo confortável para o sono. Encontrou resistência nos joelhos do homem que sentava logo atrás, mas insistiu até que cedesse. Foi mal, mas hoje não vou ser educado, ele pensou, questão de sobrevivência. Fechou os olhos e mergulhou em um sono profundo imediatamente.

Minutos depois, um som cataclísmico acordou-o de supetão. Eram os anjos e suas trombetas anunciando o apocalipse. Júlio abriu os olhos sobressaltado, chutando o banco da frente por reflexo. A passageira ao seu lado fingiu que nada viu. Levou um segundo para lembrar de que se encontrava dentro do ônibus a caminho do trabalho. No segundo seguinte, foi novamente agraciado pelo anúncio do fim dos tempos: o verdadeiro armagedom bíblico encarnado no roncar de um dos passageiros do frescão.

Cada ronco fazia o ônibus tremer.

Aqui e ali, algumas risadas contidas nasciam espontâneas. Olhando ao redor, foi fácil identificar a origem dos terremotos: uma mulher esbelta, vestida com roupas finas e muito bem maquiada, tinha a cabeça jogada para trás e a boca escancarada apontando para o teto. Engoliu algo que a incomodou por algum tempo, remexeu-se de um lado para o outro, então voltou a roncar com força renovada.

Era o fim. Não havia esperança de voltar a dormir; não com aquela sinfonia fazendo as vezes de acalanto. Júlio passaria o resto do dia procurando pelo sono perdido.

Com um suspiro, limitou-se a observar a paisagem que corria pela janela. Parte do vidro estava embaçado pelo vento gélido que soprava no sistema de refrigeração, mas o restante ainda era transparente o suficiente para que ele acompanhasse o percurso. Um ônibus convencional atravessou o seu campo de visão. As pessoas lá dentro, a grande maioria em pé, com seus semblantes tristonhos, seus olhares vazios e o suor escapando pelos poros, fitavam os passageiros do frescão com indiferença. As cabeças balançavam ao ritmo da grande caixa de metal, singrando a estrada bem acima do limite de velocidade.

Subiam a ponte Rio-Niterói.

O Rio de Janeiro fritava em uma frigideira. O óleo era a Baía de Guanabara. O sol brilhava com tanta força que traçava uma linha dourada nas águas da baía, destacando-se por entre uma miríade de embarcações espalhadas até o horizonte.

A passageira sentada ao seu lado buscou um casaco dentro da bolsa. Vestiu-o, mas continuou com frio, então esfregou os braços para destilar algum calor com o atrito. Júlio não sentia o frio que ela sentia. Mulheres têm pele mais fina, ele pensava, mas parte do seu raciocínio apontava que ele provavelmente havia adquirido certa resistência glacial após uma década de viagens diárias usando aquele tipo de transporte. Processo evolucionário, ele pensou novamente. Sobrevivência daqueles que se adaptam.

Aquela mulher certamente não sobreviveria se dependesse do mesmo processo. Júlio suspeitou que os lábios dela começavam a arroxear. Após outras tentativas vãs de tentar se aquecer, a passageira se levantou e andou pelo corredor na direção do motorista.

Ah não, ela vai falar com o motorista.

Aquela mulher claramente não entendia de frescões; era marinheira de primeira viagem. Havia uma regra clara, infalível apesar de jamais ter sido escrita, que rezava:

Por direito, o portador do controle do ar-condicionado é o motorista, e ele sempre escolherá a menor temperatura disponível, não importando as circunstâncias. Variáveis como clima externo, temperatura interna ou reclamações de passageiros serão ignoradas. Sempre.

Júlio tentava imaginar o quanto as montadoras economizariam em peças e tempo de fabricação se os engenheiros criassem ônibus com apenas uma opção de temperatura. Talvez, algum dia, levaria o projeto até uma fábrica e ficaria rico.

Havia uma outra regra um tanto clara (e ele tinha certeza de que isto estava escrito em algum lugar) que dizia que nunca se deve falar com o motorista de um ônibus.

– Motorista – a mulher indagou, com a voz propositadamente alta, afim de tentar angariar o apoio dos passageiros que a ouviam – não tem como diminuir a temperatura desse ar-condicionado aí não?

Um ou outro grunhido em concordância surgiu no meio do ônibus, mas a maioria apenas esperou pela resposta do condutor. Quando o motorista falou, uma voz feminina e autoritária fez-se ouvir.

– Normas da empresa, senhora. Não posso desligar o ar-condicionado.

Fudeu, é motorista mulher, ele pensou. Achou que até a conhecia de vista, afinal, motoristas de ônibus do sexo feminino eram raras. Para dizer a verdade, ele gostava mais delas: geralmente a viagem era mais curta, e elas pareciam manejar o volante com mais segurança, além de serem menos ansiosas com o pé do freio, o que resultava em menos solavancos desnecessários. Alguns motoristas gostavam de tentar fazer milk-shakes com os passageiros que viajavam de pé, mas nunca as mulheres.

O problema ali não era esse. O problema era que ela era uma mulher sendo indagada por outra mulher.

– Não pedi para desligar, só pedi para diminuir.

– O ar já está no mínimo. Quer que eu diminua mais?

– Diminuir no sentido de aumentar, caramba.

– Pois a senhora se decida!

Alguns passageiros – sempre havia aquele tipo, mesmo em frescões – só queriam ver o mundo pegar fogo.

“Iauu”, um deles provocou.

“Uii! Agora deu ruim”, o outro acompanhou, acotovelando o amigo ao lado.

A passageira respirou fundo antes de responder.

– Poderia, por favor, aumentar a temperatura do ar-condicionado? Está muito frio aqui dentro.

– Olha só aquele sol, minha filha – a motorista apontou para a bola de fogo incandescente no céu – olha só praquilo. Tem certeza de que tá frio?

– Aqui dentro está!

– Não posso fazer nada pela senhora.

– Então me deixa sair, por favor.

– Estamos na ponte, minha senhora.

– Eu quero sair! Eu quero sair!

Agora lascou de vez, a mulher entrou em parafuso. A passageira esperneava, gritando para que a deixasse sair. Alguém tentou levantar para acalmá-la, mas ela rechaçou a ajuda com um tapa. Por sorte – ou não – o ônibus passava por uma das áreas de refúgio da ponte. A motorista jogou a condução para o lado de qualquer jeito, aparentemente tentando fazer o famoso milk-shake de gente que seus amigos do sexo masculino eram tão experientes em produzir, e parou a condução no refúgio. Os passageiros que estavam de pé gemeram de dor ou de susto. A porta de saída abriu com um chiado.

– Pronto, pode sair.

“Tá maluca motorista”, alguém gritou, “se deixar ela aí você vai presa!”

“Porrada! Porrada!”, os dois amigos continuavam a se acotovelar em meio a risadas.

“Porra eu só quero trabalhar, minha filha, aguenta o frio aí”

Vai sair ou não vai, ein? Se decida! – a motorista levantou do próprio assento, encarando de frente a sua desafiante.

Enquanto esperavam a resposta da passageira, em meio aos burburinhos crescentes, um homem virou-se para trás e falou com o primeiro passageiro em que bateu os olhos. Por azar, este era Júlio.

– Aí, cara, essa aí não é a Rólirrou não?

– Rólioquê?

– Rólirrou, aquela que luta MMA.

– Você diz… a mulher que está pedindo pra aumentar a temperatura? Aquela que está esperneando? Ela luta MMA?

– Não né. Essa aí é pinóia. Tô falando da motorista.

Outro homem, do outro lado do corredor, entrou na conversa.

– Ela tá mais pra Mienchas Teta.

– Que isso meu jovem – um terceiro se pronunciou – tem criança no ônibus.

O homem diante de Júlio falou consigo mesmo, antes de se acomodar novamente no seu assento:

– Sei lá, maluco, só sei que o braço dela dá a minha coxa.

Júlio reparou nos músculos retesados da motorista e constatou que ela realmente não se distanciava tanto assim de uma lutadora profissional. A passageira, intimidada, olhou para a porta aberta e então, iluminada por uma sensatez repentina, voltou a caminhar pelo corredor, de volta ao assento. As provocações silenciaram. A motorista voltou para o seu lugar, vomitando impropérios.

– Porra, como pode uma coisa dessas, vai se ferrar – ela cuspia – manhã bonita dessas, reclamando do frio, como pode, aturar essa merda…

O ônibus arrancou repentino, colando Júlio no assento, e jogando os em pé para trás, incrementando o milk-shake. A mistura de cabelos, mochilas e mãos-bobas no corredor da condução aumentava. A mulher manejou o câmbio com desdém típico de todos os motoristas de ônibus – como se o manche fosse o catalisador de toda a sua ira – e acelerou com um solavanco ainda mais forte na terceira marcha.

“Olha só motorista”, um homem gritou, furioso, “acho que você está muito irritada para dirigir. Está pondo a vida de todos nós em risco. Vou ligar pra central”.

O ônibus parou em tempo recorde, e por pouco não causou um acidente. No meio da ponte Rio-Niterói, a mulher afundou o pé no freio, e se levantou para olhar para trás. O milk-shake de gente estava completo: alguns em pé, quase todos caídos. Uma senhora reclamava de dores nas costas.

– Quem foi que falou isso?

Silêncio.

O homem diante de Júlio gritou, sem fazer questão de se identificar:

“Porrada nele, Rólirrou!”

E ainda outro:

“Filho da puta, fica quieto pra não arranjar confusão. Só quero chegar no trabalho! Deixa a mulher dirigir, por tudo que é sagrado!”

Dezenas de afirmações solidárias apoiaram o passageiro sincero. O infeliz que reclamara aparentemente havia perdido a coragem, e agora permanecia calado. A motorista observou enquanto os passageiros em pé no corredor se recuperavam da queda, então observou mais um pouco, os olhos finos e desconfiados. Por fim desistiu, voltou ao assento e seguiu viagem. Cada nova marcha, um novo solavanco.

Chegaram ao ponto final sem mais problemas, exceto a certeza que Júlio tinha de que alguns dos passageiros em pé deveriam marcar imediatamente uma consulta a um ortopedista. Alguns agradeciam pela viagem ao saírem do transporte – para ele, faziam mais por medo do que por costume.

A vantagem daquilo tudo foi que o sono fugiu, e só voltaria após o horário do almoço. Júlio desceu do ônibus pronto para mais um dia feliz de trabalho.

Ou não.

E na ouvidoria da empresa de ônibus, nenhum telefone tocou a manhã inteira.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.