EntreContos

Literatura que desafia.

A História de Chico Fominha (Tia Kuda)

Com a morte da esposa e já aposentado, Seu Baka, um português que morava na Bahia, resolveu abrir uma funerária.

Pareceu ser uma boa ideia, afinal, todos seriam clientes, mais cedo ou mais tarde.

Seu Baka era uma pessoa ranzinza, de poucos amigos. Com a inauguração da funerária passou a cumprimentar as pessoas. Perguntava como andava a saúde, mais por interesse no futuro cliente do que por uma preocupação genuína.

Apesar da experiência como comerciante o ramo funerário era novidade. O fabricante não precisou de muita lábia para convence-lo a incluir um caixão rosa no pedido:

– As mulheres adoram. –  disse o vendedor, com um sorriso de fazer inveja ao Sílvio Santos.

Seu Baka não teve dúvidas de que ele sabia do que estava falando e autorizou a inclusão do caixão rosa no pedido, mas só um. Se vendesse bem pediria outros. Começar com um parecia ser o mais sensato.

Seis meses depois o estoque já havia trocado três vezes e nada de vender o caixão rosa. Se arrependimento matasse…

As mulheres não queriam enterrar seus maridos no caixão rosa:

– Vão pensar que ele era gay.

Os homens também não queriam enterrar suas falecidas no caixão rosa:

– Vão pensar que é enterro de gay. – eles diziam.

Até o pai de um garoto que todo mundo sabia que era veado não quis o caixão:

– Vão pensar que ele era gay.

– Mas não era?  – Seu Baka pensou, mas não falou. Se o pai levasse um caixão qualquer já daria lucro e se ele chamasse o filho veado do veado de gay, o pai talvez não comprasse caixão algum.

Venda concluída, papéis assinados, cheque na gaveta, era só entregar o caixão. Não o rosa, pois este continuava encalhado.

Enquanto Seu Baka pensava no que fazer com o caixão, eis que adentra no recinto um rapaz elegante, perfumado, usando um paletó com o caimento perfeito. Parecia um galã do cinema americano.

Entrou. Parou. Olhou os caixões. Dirigiu-se até onde estava Seu Baka e com um vozeirão de locutor macho perguntou:

– Posso falar com o proprietário?

A funerária era malcuidada, quase uma espelunca. Uma presença tão ilustre pegou Seu Baka de surpresa. Ele acabou se mijando, devido a uma incontinência urinária que o perseguia há algum tempo. A urina apressadamente marcou seu caminho na calça de tergal cinza clara.

Foi um constrangimento, mas o ilustríssimo não se abalou, apontou para o molhado na calça e saiu com essa:

– Quem trabalha em funerária não pode se mijar de medo.

Seu Baka ficou possesso, mas não sabia quem era aquele sujeito, muito bonito por sinal, modelo de como todo homem deveria ser. Humildemente perguntou:

– O que o Sr. Deseja?

– Eu quero falar com o proprietário. Ele está?

– O proprietário sou eu,  Baka. Do que se trata?

Com uma elegância de envergonhar lorde inglês o sujeito calmamente tirou os óculos escuros, que certamente era de alguma marca famosa, estendeu aquela mão firme, lindamente manicurada, de quem nunca pegou no pesado, e se apresentou:

– Meu nome é Chico Fominha. Eu estava passando, vi o cartaz que precisavam de funcionário e estou aqui me candidatando. Quando começo?

Seu Baka, que sempre foi uma pessoa calma, perdeu as estribeiras:

– Seu filho de uma puta. Eu pensando que era uma pessoa importante, quem sabe até um fiscal da prefeitura, e você é só um desempregado? Espere aí que eu vou lá dentro pegar o negócio de bater.

Ninguém sabia o que era esse negócio de bater, mas sempre que a situação complicava Seu Baka falava que ia pegar esse negócio de bater e, pelo sim pelo não, ninguém ficava aguardando para ver o que era.

Não o Chico Fominha, que foi tratando de esclarecer as coisas:

– Seu Baka. Entrei por causa da vaga. Vamos esquecer o incidente e tratar do que interessa. Eu procuro emprego e o senhor um empregado. Não é isso?

Não era exatamente um pedido de desculpas, mas o cartaz pedindo vendedor estava lá há uma semana e ele foi o único que mostrou interesse na vaga. O melhor a fazer era esquecer a humilhação e contratar o sujeito, pois, pelo que se via de volume na calça, era alguém para ser respeitado.

Tirando o episódio constrangedor que nem era culpa do rapaz, a aparência, a postura e a apresentação impecável, era de um vendedor nato.

– Está bem. Mas antes quero fazer um teste como senhor. A vaga será sua se conseguir vender este caixão rosa.

Chico Fominha aceitou o desafio e mal apertaram as mãos fechando o acordo, a sorte fez aparecer um freguês procurando caixão para enterrar a esposa.

– Em que posso ajudar? – adiantou-se Chico Fominha.

– Vim ver um caixão para a minha esposa. Fui pego desprevenido e estou procurando algo barato.

– Como o senhor se chama?

– Barbosa. – disse o viúvo.

– Certo seu Barbosa, tenho este aqui de imitação de mogno. Todo aveludado por dentro, um luxo. Custa só quatro mil reais.

Fominha nem sabia se o preço era esse. Seu Baka só falara do caixão rosa e de um branco que estava ao lado. Mas havia um motivo para o Chico Fominha oferecer um caixão com o preço tão elevado:

– O senhor está doido é? – disse visivelmente irritado o viúvo. – Eu falei que fui pego desprevenido. Como é que o senhor me oferece um caixão que custa quatro mil reais?

Chico Fominha sabia fazer uma venda e acabou convencendo o Barbosa de que aquele caixão era um dos mais baratos. Os outros, mesmo com a aparência de serem piores, eram ainda mais caros. Porém, havia uma solução:

– Tenho este aqui que está reservado, mas a pessoa não voltou e assim eu me sinto no direito de vender para o senhor por mil e duzentos reais, com o serviço funerário completo. O frete é por nossa conta.

– Mas este caixão é rosa!?

– Sim. Não é a sua esposa que vai nele? As mulheres adoram coisas rosas. Coisas rosas e vermelhas, mas o caixão vermelho é indicado para as putas. A sua esposa era puta?

– Claro que não.

– Então é o rosa mesmo. Podemos fechar?

– De forma alguma. Se eu velar a falecida em um caixão rosa, quem passar vai pensar que eu era casado com gay.

– Não fala isso seu Barbosa. O senhor quer ser preso?

– Falar o quê? Ser preso por quê?

– Falar que tem preconceito contra gay. Não sabe que isso é crime?

– Eu não falei isso.

– Falou e sou testemunha. Eu e Seu Baka. Não é mesmo Seu Baka?

Seu Baka consentiu com a cabeça do fundo da loja, mesmo sem saber do que se tratava. Ninguém nunca ficou tanto tempo decidindo se ia ou não levar o caixão rosa. Era mostrar o caixão e o cliente ir embora. Este Chico Fominha tinha um volume no meio das pernas que funcionava como um ímã, atraindo as pessoas para a sua argumentação.

– Seu Barbosa se o senhor não tem preconceito contra os gays vai ter que provar levando o caixão rosa.

– Como é que é?

– Isso mesmo seu Barbosa. Agora entendi porque o senhor não queria levar o caixão. O nome disso é homofobia e eu vou ter que lhe denunciar.

– Mas eu não falei que não gosto de gay.

– Então o senhor gosta de gay?

– Claro que não.

– Olha aí o senhor com a homofobia novamente. É um homofóbico contumaz. Vai ser daqui para a delegacia.

– Calma, calma. Como é que a gente pode resolver isso sem precisar envolver delegacia?

– É muito simples. Para provar que o senhor não é homofóbico é só levar o caixão gay. Caixão gay não, caixão rosa. Está vendo? Sua homofobia é contagiosa. E tem mais, sua esposa, quando ver que vai partir num caixão rosa, vai ficar toda feliz. E quando chegar sua vez e vocês se reencontrarem ela vai dizer; Barbosa, em que caixão lindo você me enterrou!

Ainda desconfiado daquela história de ser preso por falar mal de gay Barbosa apontou para um caixão branco que estava ao lado e perguntou:

– E este caixão branco? Quanto é?

– Este custa 900 reais só a primeira parcela.

– E quantas parcelas são?

– Duas.

– E de quanto é a segunda parcela?

– A segunda parcela é de 300 reais.

– O senhor está de brincadeira? O preço é o mesmo do caixão rosa e ainda por cima é parcelado.

Prestes a perder a venda Chico Fominha franziu a testa, recolocou os óculos escuros, pegou o celular que parecia ser de um modelo dos mais caros e, antes de supostamente ligar para a polícia, avisou:

– Seu Barbosa. Já vi que o senhor não entendeu a sua situação. O senhor ofendeu os gays e eu e Seu Baka somos testemunha desse comportamento desprezível e homofóbico. A única maneira de a gente saber que o senhor não é um homem preconceituoso é enterrando a falecida no caixão rosa. Caso contrário vou ter que ligar para a polícia agora mesmo. O que o senhor decide?

Barbosa ainda não estava totalmente convencido, mas Chico Fominha não tinha este nome por acaso:

– Então Seu Barbosa? O caixão ou a prisão?

Pelo sim pelo não Barbosa achou melhor não ter polícia no meio. Ele precisava cuidar do velório, liberar o corpo, e se fosse parar na delegacia por não gostar de gay ia acabar complicando ainda mais o seu dia:

– Seu Chico Fominha. Não sou homem de me deixar vencer com facilidade, mas o senhor me convenceu. Vou levar o caixão rosa.

Até hoje não se sabe se Barbosa comprou o caixão por causa da ameaça de ser preso ou se ficou hipnotizado pelo Chico Fominha e seus dentes perfeitos, o sorriso branco, os braços musculosos, o peitoral trabalhado na academia, além da oitava maravilha que sobressaia por entre as pernas.

Com o negócio fechado Fominha guardou o celular, recolocou os óculos escuros com uma elegância que até parecia ensaiado e conduziu Barbosa até os fundos da funerária para tratar dos papeis com Seu Baka.

Após esta venda bem-sucedida Seu Baka contratou Chico Fominha quase com lágrimas nos olhos. A parceria deu tão certo que em pouco tempo viraram sócios e abriram várias filiais na capital, em Salvador.

Com o sucesso vieram as franquias e se antes só entrava ratos e pobretões na funerária, agora, atraídos pelas altas comissões das vendas, faziam filas em busca de vaga de vendedor.

Qualquer um era contratado desde que conseguisse vender um caixão rosa, não importando quem fosse o defunto.

Eu soube dessa história de uma forma no mínimo inusitada. Depois que morri fui enterrado em um caixão rosa. Ao falar com a minha mãe em uma sessão espírita perguntei qual o motivo, e ela contou a história do Chico Fominha.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.