EntreContos

Literatura que desafia.

Humilhação (Anamaria Di Branco)

A mulher chega em casa cabisbaixa, escondendo o rosto entre as mãos, se tranca no quarto sem dizer palavra. Seu Geraldo fica intrigado, nunca viu a esposa entrar em casa desse jeito. Tirando aquela vez em que ele deu razão à mãe quanto ao fato de o primogênito não poder se chamar Vitraldo, mesmo significando a engenhosa união de seus lindos nomes, Vitória nunca mais tinha se trancado no quarto. E isso já faz mais de 20 anos!

Ele bate na porta. A esposa apenas grita lá de dentro que não quer falar com ninguém.

– Mas meu bem, me diga o que houve.

Silêncio.

– Foi alguma coisa que eu fiz?

Nada.

– Alguma coisa que eu esqueci de fazer?

Nenhuma resposta. Parece que é sério, melhor deixar. Pelo menos não é bronca comigo, pensa.

Mas o fato é que as horas se passam, já vai dando tempo de o almoço sair, e nada da Dona Vitória abrir aquela bendita porta e ir preparar a comida. Seu Geraldo começa a ficar impaciente. Volta lá, bate de novo.

– Você esta passando bem? Não vai preparar o almoço?

Diante da mudez insistente, o marido começa agora é a ficar indignado. Que diabos! O que pode ter acontecido que ela não quer me contar? Boa coisa é que não foi, senão já tinha saído daí pra fazer minha comida.

– Olha! – diz ele, batendo outra vez na porta do quarto – Eu não tenho dinheiro pra ficar pedindo o almoço por delivery!

Em troca, só silêncio. Mas o que é que deu nessa mulher? Não foi briga com o Geraldo Júnior, que eu falei com ele agora de manhã e estava tudo bem.  Nessas alturas da vida, ela está me escondendo o quê, meu Deus?! A cabeça de Seu Geraldo foi dando volta e ele foi ficando enfurecido, já sentindo o sangue esquentar nas veias. Esmurra a porta do quarto.  

– Deixa de ser infantil! Sai daí e vem logo preparar minha comida, mulher! Já estou ficando irritado com isso!…

Um barulho no trinco, a maçaneta se move. Dona Vitória sai andando devagar, olhando pro chão, em direção à cozinha. Ele percebe que o rosto da esposa está vermelho e um pouco inchado, só do lado esquerdo. Franze a testa, daquele seu jeito de franzir a testa quando não consegue decifrar alguma coisa. Ele costuma usar essa mesma expressão, por exemplo, quando está fazendo palavras cruzadas. Vai atrás da mulher na cozinha. Exige explicações. Que cara vermelha é essa? Já está imaginando mil coisas, quando Dona Vitória finalmente confessa:

– Levei um tabefe, pronto! É isso que você queria saber? – diz, ainda de cabeça baixa, começando a descascar umas batatas.

– Como assim, levou um tabefe? Onde? De quem?

Dona Vitória suspira. Não queria falar no assunto, mas o homem bufa ao seu lado. Ela, que o conhece tão bem há mais de 30 anos, sabe que não adianta retrucar.

– Uma velha doida. Passei por ela na rua e ela me deu um tapão.

Após um átimo de espanto, Seu Geraldo dispara:

– E você deixou?!

– Geraldo, a mulher é maluca! Quando eu percebi já tinha me batido…

– Como assim, sua tonta?!  – diz Seu Geraldo, ainda entre a indignação e a irritação, mas já com uma pontinha de incredulidade – E você não viu que ela ia te bater, Vitória?

A mulher suspira, constrangida, agora picando as cebolas.

– Geraldo, já não basta a vergonha que eu senti? Se não fossem umas moçinhas que estavam passando e viram tudo, eu nem sei. Elas me levaram numa lanchonete pra tomar um copo d’água e me acalmar…

– Mas como é que você não viu que ela ia te bater, criatura? Isso é que eu não entendo. A velha era invisível, por acaso? Eu já apanhei, poucas vezes na vida, é bem verdade…

Dona Vitória revira os olhos, já prevendo o vilipêndio do marido. Ele continua.

– …Mas eu sei muito bem que dá pra ver o punho do adversário vindo na sua direção. Dá pra desviar a cara, sair da frente, dá até pra sair correndo, mas não apanhar passivamente assim! Que história mais sem pé nem cabeça, até pra uma lesma lerda como você…

Dona Vitória, os olhos mareados, – não se sabe se de angústia ou se por causa das cebolas – como que num acesso neurastênico, crava a faca na tábua de cortar legumes com toda força. Seu Geraldo emudece no mesmo instante, de susto.

– Escuta aqui, Geraldo – diz ela, dedo em riste. – Você acha que eu ia apanhar no meio da rua de propósito? Você acha que eu gosto de apanhar, é?

Seu Geraldo foca o olhar no dedo indicador da mulher, que aponta pra ele como se fosse a própria faca de cozinha.

– Estou dizendo que eu estava passando, – continua ela – a velha cruzou comigo e, do nada, deu na minha cara, foi isso! Lá na lanchonete me disseram que ela é conhecida no bairro, que costuma fazer isso, ela cisma com a cara de um e dá-lhe um bofete, assim, sem mais.

O marido solta uma gargalhada.

– Essa é boa, imagina! Se fosse comigo essa dona não batia não, se fosse comigo ela é que apanhava! Essa sua história tá é muito mal contada… Prepara logo esse almoço que eu tô morto de fome.

Diz isso e sai da cozinha, dando risada, mas no fundo ainda irritado e desconfiado, porque acha muito estranha essa história de velha maluca espancando as pessoas por aí. E virando a esquina do corredor:

– Ainda vou descobrir o que você anda aprontando na rua… além de apanhar na cara. – Cai na risada de novo, agora já entrando no banheiro.

Dona Vitória apenas solta um resmungo e continua a preparar o almoço, nesse momento está cortando o frango em cubinhos. Faz isso com uma pitada de violência.

Depois de tomar um banho para acalmar os ânimos, Seu Geraldo senta-se na mesa para almoçar e os dois comem sem dizer palavra. Vitória, olhando para o prato, de cara amarrada. Geraldo, olhando para a bochecha vermelha da mulher, se controlando para não rir, imaginando a cena da besta apanhando no meio da rua de uma maluca qualquer. Aquilo só podia ser piada!

Não que Dona Vitória não percebesse o sarcasmo do marido. Mas já se sentia tão humilhada, achou que o melhor a fazer era ficar calada, se quisesse que o assunto fosse rapidamente esquecido.

Os dias se passaram e ocorreu justamente o contrário do que Dona Vitória previu. Seu Geraldo parecia que tinha tomado gosto por azucrinar a esposa com o assunto. Como uma criança, estava sempre pegando no pé. Comentava na frente dos outros e morria de rir, sem pudor. Contou a história para os vizinhos, para os amigos, os filhos, até os porteiros do prédio de Dona Vitória já sabiam do caso de trás para frente e ela é que não sabia mais o que fazer de tanta vergonha. Todo dia era obrigada a reviver mentalmente a cena do tabefe e a figura da velha doida. Nunca devia ter contado ao marido a verdade sobre aquele tapão.

Mas, passadas algumas semanas, a coisa acalmou. Talvez tenha perdido a graça, o fato é que agora Dona Vitória respira mais tranquila. Já consegue até fazer o mesmo percurso a pé e passar naquele mesmo lugar onde apanhou na cara. Nunca mais viu seu algoz, a velha louca.

Já tinha até perdoado o seu idoso e infantil marido, e estava justamente pensando nisso, em como ele era imaturo mesmo com tanta idade na cara, quando Seu Geraldo, que tinha saído pra caminhar no calçadão, entra em casa batendo a porta fortemente atrás de si. Dona Vitória vai ver o que foi, mas o marido cruza com ela no corredor de cabeça baixa, arrastando a tromba e, sem dizer palavra, se tranca no quarto.

Ela fica uns instantes sem saber o que fazer, decide não fazer nada. Quando esse velho cisma de ficar de mau humor, sai de baixo, melhor deixar quieto!

Lá dentro, trancado no quarto, Seu Geraldo custa a acreditar no que acabou de acontecer. Como ele pode não ter percebido?! Essa ralé parece mesmo invisível, a gente passa por ela na rua e não vê. Ele só sentiu a ardência no lado esquerdo do rosto, foi um flash, um segundo, nada mais que isso. O golpe foi forte, entortou os seus óculos, que por pouco não caíram da cara, ele mal teve tempo de segurá-los antes que fossem ao chão. Quando conseguiu olhar para trás, só viu a figura daquela velha gorda, maltrapilha, apoiada numa bengala, mochila esfarrapada às costas, se afastando lentamente. Algumas pessoas em volta riam, como se fosse coisa comum de acontecer, alguém tomar um tabefe do nada, assim no meio da rua! Que tempos são esses! Ele, vermelho de raiva, de vergonha e também do bofete, nem olhou pros lados, seguiu reto, cabeça baixa, bufando e andando rápido, o mais rápido possível, a caminho de casa. Aquela velha existia mesmo e ele tinha descoberto da pior maneira possível…

Seu Geraldo só saiu do quarto no dia seguinte. A pobre da Dona Vitória teve que dormir no quarto de hóspedes. Ao ver o marido entrando na cozinha para tomar café pela manhã, ela chegou a abrir a boca para perguntar o que tinha acontecido, mas antes que a fala saísse, reparou que o rosto do marido estava vermelho e um pouco inchado, só do lado esquerdo. Então ela não disse nada. Serviu-lhe uma xícara de café bem quente e nunca mais se falou do assunto.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.