EntreContos

Literatura que desafia.

Metapunhetagem (Rotua)

Personagem 1: Vai começar assim?

Personagem 2: É, cara. Tu nem escolheu nosso nome.

Autor: Calma, galera. Ainda estou pensando. Tudo começa meio nebuloso. Um pequeno esboço, um lampejo de ideia. No início, tudo são trevas.

Personagem 3: OK, mas dá uma olhada lá pra cima. Começou mal, misturando a terceira pessoa com a segunda, falta de concordância.

Autor: Ué, vai entrar nessa agora? Carioca é assim mesmo, mistura os tempos. Faz parte da ginga. E eu ainda não defini o cenário. Pensa só: praia, solzão, cerva gelada, mulherada de biquíni. Vai querer formalidade nos diálogos?

Personagem 1: Beleza, tá certo. Pelo menos definiu a primeira cena. Mas e o enredo?

Autor: Não sei. Ainda estou pensando.

Personagem 3: Precisa de um conflito.

Autor: Eu sei, mas calma. Faz parte do processo. Noutro dia um conto surgiu assim, meio sem enredo, veio de uma única frase. Tragam-me as corujas! E pronto. Era o texto se desenhando.

Personagem 1: Coruja na praia? Bizarro.

Autor: Não, porra. Nada de coruja. Era só um exemplo. Não está prestando atenção?

Personagem 1: Acho que me distraí. Muita mulher passando aqui. É Ipanema ou Arpoador?

Autor: Tanto faz. Pode ser Copa mesmo.

Personagem 2: Eu ainda acho que você deveria escolher nossos nomes primeiro…

Autor: Os nomes não são importantes, cara. Não agora. Vou pensar nisso depois.

Personagem 3: Que tal a jornada do herói?

Autor: Meio batido, né? Na falta de opções, pode ser.

Personagem 2: Posso escolher meu nome, então? Quero ser o Chuck.

Autor: Chuck?

Personagem 2: Chuck Norris!

Autor: Chuck Norris? Em Copacabana? Sem chance.  

Chuck Norris: Clint Eastwood?

Autor: Não. Nem pensar. Aliás, acabei de ter uma ideia: você será uma personagem feminina.

Clint Eastwood: Não, cara! De onde você tirou isso? Eu sou macho, porra.

Autor: É nada. E vai se chamar Samara.

Personagem 3: É, rapaz, olha: até que ficou jeitosa!

Personagem 1: Esse biquíni tá demais.

Autor: É isso! Samara é noiva do Personagem 3, mas no passado teve um romance arrebatador com o Personagem 1. O destino acabou separando os dois. Samara jamais esqueceu essa paixão. Os três se encontram por acidente no calçadão. Personagem 3 não tem ideia do passado de Samara, que se surpreende ao perceber a paixão do passado ainda tão viva. Ela faz o possível para disfarçar, mas não consegue.

Personagem 1: Vai perder pra mim! Já tô vendo.

Personagem 3: Vai sonhando, rapá.

Samara: Eu não sou mulher!

Personagem 3: Se a Samara é minha noiva, não vai ficar desfilando de biquíni minúsculo por aí. Coloca pelo menos um short e uma blusa.

Samara: Ah, fala sério. Estamos na praia, maior calor. Não vou colocar short nenhum. E o biquíni nem é tão pequeno assim.

Personagem 1: Olha só, que beleza! Assumiu o personagem. Agora não tem volta.

Samara: (Gulp!)

Autor: O Personagem 1 se chama Marcelo. Ele vem caminhando pelo calçadão como faz toda manhã desde que retornou ao país. Estudou medicina no exterior e voltou ao Brasil depois da residência para abrir seu consultório.

Marcelo: Opa! Tô bem, então. Dr. Marcelo, muito prazer.

Autor: O Personagem 3 se chama Evaristo. É diretor em uma empresa de tecnologia, morador de Copacabana e está noivo de Samara.

Evaristo: Evaristo? Puta nome coxinha…

Autor: Marcelo para diante de Samara ao ver o casal. Ela demora a assimilar o reencontro, mas responde ao cumprimento um tanto desconsertada. Fragmentos de memória se embaralham. Cumprimentam-se de maneira efusiva: beijos no rosto e trocas de gracejos. Evaristo fica desconfortável ao ver tanta intimidade entre a noiva e o desconhecido. Apesar do ciúme, ele mantém o controle.

Evaristo: Eu vou ficar pagando de cornão nessa história! Faz alguma coisa aí, autor. Ninguém quer um protagonista frouxo.

Dr. Marcelo: Fica frio, meu chapa. Nós somos apenas bons amigos. Hehehe.

Autor: E quem disse que você é o protagonista? Fica quieto e me deixa pensar.

Dr. Marcelo: Tá na cara que eu sou o protagonista.

Autor: Quietos! Voltando: o clima fica carregado. Samara apresenta finalmente o noivo à Marcelo. Ela mente. Diz que foram bons amigos e estudaram juntos no Colégio Santo Inácio.

Dr. Marcelo: Eu não disse? Bons amigos! Hahaha.

Samara: Olha, a história mal começou e eu já estou incomodada. Tá parecendo que a mulher é um elemento acessório nessa história, que vai servir apenas para colocar os dois homens em conflito. Quem é Samara? Todos os outros dois personagens têm uma profissão e personalidades bem definidas. Por que Samara não tem profissão? Qual é a sua motivação? Ela é só um troféu?

Autor: Samara é professora.

Samara: Por que não posso ser engenheira ou piloto de avião? Pilota! Sua história tá começando toda errada. Credo. Aposto que Samara é branca, não é? Olhos azuis, cabelos dourados, um metro e setenta. Olha que história sem representatividade. Por que se passa na zona sul e não no subúrbio? Dois homens cis de classe média alta duelando por uma mulher troféu. Fala sério! Ninguém mais quer ler isso.

Autor: Samara é muda. E anã! Já trabalhou em circo, mas agora faz pontas em programas de televisão por causa da rara combinação de beleza e falta de estatura. Por conta disso, ela vive em conflito. Vamos usar essa questão para falar sobre inclusão e representatividade.

Samara: âmmn mâaam nnm

Dr. Marcelo: Porra, a gente vai disputar uma anã?

Autor: Exatamente. E vamos aproveitar para debater o preconceito. Melhor assim, Samara?

Samara: âmmmmâaammmmm

Evaristo: O que importa é o amor. Ele sempre vence!

Dr. Marcelo: Tá certo, ok! Já vi umas anãs jeitosas por aí. Dá pra encarar.

Autor: Samara reencontra Marcelo e por mais que ainda tenha por ele os mesmos sentimentos do passado, agora está noiva. Além disso, ela se lembra dele ter usado a residência no exterior como desculpa para o término do relacionamento. Justo quando a relação começou a ficar séria. Ela suspeita que ele fugiu para não ter que contar sobre o relacionamento com uma anã para sua família. Marcelo seria a pior escolha que Samara.

Dr. Marcelo: Até meus amigos mais próximos faziam piadinhas infames. Não foi preconceito. Imagina contar isso pro meu pai, militar reformado, um cara pra quem tudo deve ter padrão e disciplina. Ele não ia aceitar.

Samara: Você nem tentou, Marcelo. Podia ter dado certo.

Evaristo: É preconceito, sim! Seu ex é um covarde, Samara. Mas você agora encontrou o cara certo. Vamos, vem comigo que a praia tá cheia. Vamos pegar um lugar.

Autor: Samara gosta de Evaristo. Ele é o cara certo. Mas que mulher quer o cara certo? Samara não consegue negar por quem seu coração bate mais forte.

Samara: Desculpe, Evaristo. Você é um homem bom, um cara correto e que me faz muito bem. Mas eu gosto mesmo é de Marcelo. Não dá pra explicar essas decisões do coração.

Dr. Marcelo: Aqui a chapa é quente, parceiro. Ela não gosta de você de verdade. Eu sou o cara, Samara. Vem!

Samara: Desculpe, Evaristo. Ele tem razão. Sinto muito.

Evaristo:

Samara: Você vai me aceitar, Marcelo? Do jeito que eu sou?

Dr. Marcelo: Claro, meu amor. É… Claro…

FIM

 

Autor (após a primeira releitura): Nossa. Ficou um bosta sem tamanho. Como eu fui perder tanto tempo com isso? Dias nessa cadeira desconfortável… Dias! Bem, agora é tarde. Vou mandar para leitura crítica e vamos ver o que dá.

***

Leitor-crítico: Ficou legal, transitando entre a ironia de Nelson Rodrigues e o grotesco de João do Rio. Ficou um dramalhão, mas o final aberto é interessante e provocativo. Dá a entender que Marcelo ainda está hesitante quanto ao relacionamento com Samara.

***

Editor: Ficou bom, mas sabe como é, está meio sem gênero. Tem muita de metalinguagem. Não sei se funciona em um livro ou se fala com o leitor médio. É muita ironia. Quem sabe se a gente colocar no Wattpad pra ter um termômetro?

***

Leitor sensível: Olha, eu não recomendaria a publicação. É grotesco, sexista e preconceituoso. Tem uma anã muda, personagens machistas, mulher troféu. Tudo errado. Até o narrador é problemático. Para publicar tem que mudar muita coisa. Eu faria do personagem Marcelo um afrodescendente que sofreu preconceito durante toda a vida. Acho que serviria para mostrar sua própria incoerência e desnudar o ser humano, mostrando que somos essencialmente falhos. Marcelo sofreu muito por conta do seu tom de pele, mas deu a volta por cima, financeira e profissionalmente. E ainda assim, não sabe lidar com seus próprios preconceitos. Essa questão daria outro rumo para a história, mas acho que ainda tem que mexer muito aí. Também não gostei do final, que não traz uma redenção. Um encerramento positivo para Samara poderia justificar toda sua história de sofrimento e trazer uma mensagem edificante.

***

Autor: Taqueopariu! 23:50. Em cima do prazo e a história ficou desgraçada de ruim. Foda-se! Fazer o quê? www.gmail.google.com. Desafio.entrecontos@gmail.com. Comédia – Metapunhetagem. E vamos de XP.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1, Comédia Finalistas.