EntreContos

Literatura que desafia.

Deus, o impessoal (Bar Mitzvá)

— Alô?

— Alô.

— Senhor Pacheco?

— Sim. Quem fala?

— Aqui é Deus. Tenho uma notícia para o senhor.

— É quem? Para de loucura, homem.

— É Deus, seu Pacheco. Sem brincadeira.

— Mas qual deus que é?

— Você me conhece por YHWH.

— YHRW o que?

— YHWH, ou JHVH.

— Tá doido, é? Quem consegue falar isso? É um trote ou o que?

— Não, seu Pacheco, tenha calma. Meu nome é assim de propósito. Já fazem alguns milhares de anos que tenho evitando passar o verdadeiro, senão acabam com a minha paz.

— Acho que estou reconhecendo esse papo. É coisa dos dez mandamentos, não é?

— Isso mesmo, seu Pacheco. Mandei logo um tetragrama para Moisés e o povo dele, porque da última vez que revelei meu nome, tive que mandar uma chuva por quarenta e dias e quarenta noites. Mas essa já é uma outra história…

— Está certo. Se Deus quis assim, quem sou eu para questionar?! Mas Senhor, achei que seu nome era Jeová.

— Tá danado, hein? Sabia que hoje em dia existe Google, Wikipédia, Bing? Ainda bem que o pessoal me erra, mas quando alguma testemunha morre e consegue vir para cá, dá o que fazer para explicar isso. Tem vezes que falam tanto na minha cabeça, que acabo enviando alguém lá para baixo. Só quero #paz.

— Sem contar daqueles chatos que batem na nossa porta de domingo. Se até o Senhor descansou no último dia, eu que não vou me dar ao trabalho de levantar do sofá. Fico vendo tudo pela câmera que liguei no roteador daqui de casa e, quando tocam a bendita campainha, olho quem é pelo celular. Se tiver bem vestido e com pasta na mão, já taco o fod…

— Mas eu descansei no sábado – disse Deus interrompendo o homem.

— Eu sei. Mas minha semana só começa na segunda e acaba no domingo. Quem criou esse calendário não devia trabalhar no Brasil.

— Tudo bem, seu Pacheco. Isso são só detalhes e não vem ao caso discuti-los. Cada um escolhe o primeiro e último dia da sua semana, combinado?

— Combinadíssimo! Mas então, YEHRJVH, o que o Senhor queria comigo mesmo?

— Essa foi de doer o ouvido – respondeu fazendo uma careta que assustou até mesmo Gabriel, então continuou. – Eu tenho uma notícia para te dar. Você está sentado?

— Sim. Quer dizer, na privada conta, né?

— Isso é sério?

— Ah, sabe como é… Nessa idade, as coisas escapam com facilidade. Quando você disse que era o próprio YARJHWE, corri para o banheiro. Mas pera lá, você não é onisciente?

— Acredite, quando se é onisciente, tem certas coisas das quais você não quer saber. Essa é uma delas.

— Não sabia que dava para selecionar. Espera um pouco na linha – Pacheco se limpa e dá a descarga. – Pronto. Pode continuar.

— Então, Cláudio Antunes Pacheco, estou ligando para avisar que vou precisar de você aqui em cima.

— Aí em cima? Para que?

— Acho que você não entendeu. Eu quis dizer aqui em cima… comigo… ao meu lado…

— Ora essa YRHWJH, você está precisando de alguma ajuda? Não creio!

— Não, não é isso. Estou tentando avisar que o seu tempo está chegando ao fim.

Pacheco afasta o celular do ouvido e confere as horas.

— Putz, você tem razão. Já estava me esquecendo de buscar a Maria Clara na escola. Brigadão, Deus, você é O Cara.

— Mas não foi isso que eu quis dizer. Olha, seu Pacheco, não quero lhe atrasar. Eu ligo depois, pode ser?

— Você quem manda.

***

Horas depois.

— Alô?

— Oi, pode falar YORHWH. Tentei te ligar, mas minha operadora não conseguiu completar a ligação.

— É YHWH, já disse. E a única operadora que consegue discar para cá é uma do Zimbábue. Mas só autorizo receber chamadas do meu amigo Paul Sanyangore.

— Dá para fazer chamada de vídeo? Fiquei curioso para saber quem tem mais barba branca. E por que você não me diz logo seu nome verdadeiro?

— Não se preocupe com vídeo, em breve você verá muito mais do que isso. E dadas as condições, acho justo que você saiba. Meu nome é…

Um som que Pacheco jamais ouvira, percorreu todos os seus sentidos. Era sinestésico. Mais do que isso, era uma nova maneira de sentir. As sinapses em seu cérebro abriram um novo caminho pela percepção de realidade, conectando-se com o divino. Mesmo sem entender como, sabia que era possível conversar diretamente com Deus. Porém não disse nada. Ficou mudo. Imobilizado pela sensação daquela presença. Acreditava estar enxergando o paraíso, mas era apenas o vislumbre do nome do Santíssimo.

Percebendo que o sujeito estava em transe, Deus mandou um sopro. Uma brisa gelada que surgiu do nada e percorreu o corpo de homem. Um calafrio espiritual que lhe recobrou a consciência.

— O que você queria falar comigo mesmo?

— Sua hora chegou, meu filho. Você deve se juntar a mim.

— O que? Eu vou morrer?

— Pense que você viverá eternamente comigo aqui em cima.

— Mas isso não é justo. Por que você está me levando tão cedo?

— Não é nada pessoal, meu querido, tente entender que eu tenho um plano para todos os acontecimentos.

— Como assim não é nada pessoal? Quem escreveu os planos?

— Fui eu mesmo.

— Pois, se foi você quem decidiu, como isso pode não ser pessoal?

— Não escolho por prazer, seu Pacheco. Foi meio aleatório, sabe? Eu estava aqui pensando, arquitetando uns eventos, ajustando uns detalhes e de repente pimba!

— Pimba?

— PIMBA!

— Você me escolheu para morrer e pimba?

— Sim, foi exatamente assim.

— Não sei se aguento isso… Fiquei muito decepcionado agora.

— Por favor, não fique assim. Pense nos momentos bons que te dei, nas conquistas, na…

— Na pimba! – respondeu com raiva, interrompendo Deus.

— Se acalme. Já falei que não é nada pessoal. Essas coisas são difíceis de explicar. Mas quando você estiver aqui, tudo vai se esclarecer. Eu prometo.

— E como é que eu vou morrer?

— Bom, já era para você ter morrido, eu tinha escrito seu nome num caderno que encontrei por aqui outro dia e liguei para avisar, mas nossa conversa se estendeu mais do que devia.

— Posso saber que caderno é esse?

— Se chama Death Note.

— Você só pode estar de brincadeira. Primeiro, pimba. E depois, Death Note. Estou começando a achar que deveria ter seguido o caminho do meu irmão, que se tornou hinduísta.

— Não se preocupe com isso, apesar das diferentes formas, eu sou um só. Já o resto são só macacos, elefantes e vacas mesmo.

— Então, por que você não vem para cá avisar o pessoal sobre isso?

— Porque eu já fiz demais por todos. De qualquer forma, as pessoas se esquecerão da verdade com o tempo, voltarão a ser desunidas, guerrear e etc… É mais fácil sentir empatia, do que construir uma bomba. Ainda assim, preferem as bombas. Além do mais, minha criação tem uma diversidade intelectual gigantesca, entende? É mais fácil pescar diferentes peixes se você tiver diversas iscas.

— Nunca fui muito bom em pescaria, vai ver foi por isso. Mas se eu vou morrer, você poderia ao menos me revelar qual é o sentido da vida, não acha?

— Estava esperando por isso. Assim que eu lhe contar, você morrerá. Exatamente como foi profetizado no evangelho do Death Note.

— Fazer o que, né… – disse sacudindo a cabeça em descontentamento.

— O sentido da vida é…

Pacheco ouviu Deus falar sobre o motivo de toda a criação. Uma longa história que envolvia uma aposta para criar o mais complexo mundo onde mestrar um RPG de mesa, inserindo desde leis para o funcionamento da matéria em escala atômica até a corpos maiores, a criação e destruição da vida ao longo de bilhões de anos, passando por dar a uma espécie a capacidade de desenvolver considerável inteligência e observá-la quase sem interferências, até chegar ao momento final do qual fecharia seu livro em uma expansão cósmica, encerrando todo aquele universo.

***

“O simples homem não foi capaz de compreender todos os planos do Criador. Sua mente ficou perturbada ao refletir sobre a impessoalidade divina, que colocava toda a existência em um plano aleatório de acontecimentos insignificantes. Outra vez seu intestino remoeu as emoções, então ele correu para o banheiro. Imaginou que morreria ali sentado, olhou o celular, pensou em perguntar como diabos estava descrita sua morte naquele caderno. O estômago embrulhou, ele se contorceu e virou para vomitar, ignorando a água marrom que respigava em seu rosto. Em seguida, um aperto dolorido dominou seu peito, roubando-lhe a vitalidade. O pescoço não resistiu a fraqueza, mergulhando a cabeça na mistura morna de líquidos e sólidos dentro da porcelana. O último suspiro foi interrompido pelo engasgo, que terminou por findar, de forma impessoal, a vida de Pacheco.”

Death Note 1:2

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.