EntreContos

Literatura que desafia.

O enterro (Tom Biszonho)

“Eles só ficam olhando. Porque não acompanham?”

“Se fosse eu também não acompanharia. Ainda não acredito que estamos nos prestando a isso.”

“Mas a senhora concordou que um enterro cristão ia fazer as pessoas verem a nossa família com outros olhos. Eu fiz pensando neles”, disse Josefo apontando para os caixões amarrados em cima da carroça da frente.

“Eu não concordei com nada. Se eu soubesse não deixaria você fazer isso, o seu pai queria ser enterrado na terra dele.”

“A gente conversou, vó, as pessoas ficam assim, com receio, depois de tanta morte na nossa família. Dizem que somos amaldiçoados.”

“Um enterro duplo vai ajudar em que? Se pelo menos o padre tivesse dado um desconto. Você deveria ter pensado na despesa que vamos ter com sementes e ferramentas na próxima plantação. Se o seu pai não tivesse comido toda a plantação de tomate antes de morrer, ao menos a gente teria as sementes.

“Eu acho bonito serem enterrados juntos. É romântico.”

“Romântico? Todo mundo sabe que o enterro é hoje porque ficamos esperando o seu pai, a sua mãe já tem quase uma semana de morta.”

“Mesmo assim.”

“Ah, só agora dei fé, com a morte deles são duas bocas a menos, graças a Deus.”, disse a avó Abigail.

Josefo não falou mais nada, foi no momento que o sino começou a tocar e ele encarou as pessoas na frente de suas casas. Apenas uma família aceitou seguir o enterro. A família Prazeres ia atrás com suas muitas crianças cantando alegres.  Josefo se concentrava em ler a expressões das pessoas e nem percebeu que a carroça da frente tinha atolado fazendo com que o burro que puxava a carroça que ele guiava trombasse na da frente.

Não teria sido nada demais se a pancada na carroça não tivesse feito com que o caixão de seu pai se desprendesse, caísse no chão, tivesse aberto a tampa e, para o desespero geral, o defunto saísse de dentro indo cair de cara na lama, mas não antes de ter sido visto dando alguns passos por algumas pessoas.

“Misericórdia”, se ouviu gritar dentro de uma casa.

Josefo desceu da carroça assim como os dois condutores da carroça da frente, o senhor Amadeu dos Prazeres que guiava a carroça de trás veio depois para ajudar a levantar o defunto e colocar no caixão novamente, a parte mais difícil foi colocar o caixão em cima da carroça, pra isso precisaram de mais ajuda. Dois homens que assistiam o acontecimento de dentro das casas vieram para ajudar. Quando o caixão já estava amarrado, o cortejo voltou a prosseguir sob o olhar atento dos moradores.

“Deus tenha piedade de vocês”, disse um dos homens antes de voltarem pra casa.

“Vamos terminar logo isso antes que atirem pedra”, disse a velha Abigail.

Levaram mais de quarenta minutos para contornar o povoado e voltar para o cemitério que era localizado bem perto do sítio da família de Josefo, agora reduzida a avó e ele. Juvêncio Moleza terminava de cavar a última cova quando  o cortejo chegou, o padre os esperava na capela. Para a surpresa da família, alguns dos rapazes do povoado ex-colegas de escola Josefo também estavam no cemitério segurando garrafas de bebida. Minutos depois da chegada e durante o velório dos corpos, o coveiro chamou atenção de todos, este descobrira que a cova que estava quase pronta na verdade já tinha sido usada e a parte do caixão antigo já dava para se ver. Neste momento entrava no cemitério o velho Epaminondas com sua bengala acompanhado de um dos rapazes da turma que já estavam lá.

“Eu vim ver se é verdade mesmo o que me disseram”, disse o velho enquanto se aproximava da cova com dificuldade.

“Olá seu Epaminondas, que a paz de Deus esteja convosco”, disse o padre.

“Eu não acredito, não é possível!”, bradou o velho. “Como é que pode fazer isso? Maculando a cova da minha esposa desse jeito. Interrompendo o descanso eterno.”

“O senhor nos perdoe, foi um engano, o nosso coveiro se confundiu porque eram duas covas e eu não sei onde foi parar a lápide”, o padre tentava dizer.

“Me disseram que era essa daqui”, se explicava Juvêncio.

“O que foi que eu fiz, meu Deus, pra merecer isso?”, lamentava o velho com voz de choro, mas não se pode dizer propriamente isso pois mudava de feição muito rápido.

O velho contornou a cova e mancou ao encontro do coveiro e este percebeu sua intenção e começou a se afastar do lugar, mas não antes de ser derrubado por golpe na canela.  O homem se arrastava no chão para fugir dos golpes de bengala do velho. Todos os presentes foram pegos de surpresa e não reagiram. Percebendo que não conseguia mais alcançar o coveiro, o velho virou para todos e perguntou quem mandara cavar a cova. Todos apontaram para Josefo que não teve tempo de se explicar  e o velho já mancava para o seu lado. Sentiu no estômago, o primeiro golpe, depois no queixo e no joelho.

“Você vai aprender a respeitar as pessoas, cabra safado. Não tem mais terra não pra enterrar os seus mortos? Enterre no seu quintal, incircunciso!”, gritava o velho enquanto batia no jovem. Quando o senhor Prazeres conseguiu parar o velho, o estrago já se tinha feito, o golpe certeiro foi na cabeça derrubando o jovem inconsciente na cova recém criada. E mesmo segurado, ainda conseguia arrastar terra para dentro da cova com a perna manca. Tudo isso enquanto dona Abigail gritava com Juvêncio e pedia o dinheiro de volta ao Padre e este dizia que era impossível pois este já tinha sido gasto.

Josefo acordou no outro dia sofrendo de dor de cabeça, mas foi curada pelo cheiro de terra que vinha dos fundos da casa. Chovera a noite e o sol cozinhava o solo pronto para ser plantado. Se espantou quando chegou nos fundos e a terra estava revirada e até uma plantinha nascera no meio dela. Ele poderia jurar ser de tomate. Neste momento a avó apareceu e ele ia falar da planta, quando sua feição mudou e seus olhos se arregalaram.

“Os pais, vó. Onde foram enterrados?”

“Onde se enterra todo mundo. Não deixaram enterrar no cemitério, mas não se preocupe, foi num melhor lugar.”

Todos os dias o neto perguntaria e a vó não lhe responderia, enquanto isso os tomateiros brotavam do centro para todos os lados do terreno para admiração de Josefo.

“Vó, a senhora pensava que eu não ia perceber isso? Eu sei o que a senhora fez”, Josefo disse para avó apontando para a terra. “Bem que eu vi que a terra tava mexida.” A velha olhou para ele espantada. “Claro, só pode ter sido isso, a senhora pegou o dinheiro  de volta do padre e comprou mais sementes!” E a avó assentiu com um sorriso.

Josefo parou de perguntar sobre os pais um mês depois quando os tomateiros estavam adultos e as frutas tão grandes que arrebentavam dos caules. O senhor dos Prazeres disse que nunca tinha visto tomates tão vermelhos e saborosos como aqueles e foi o primeiro a comprar. A notícia se espalhou e já todo o povoado queria provar dos tomates gigantes e nem se importavam se em alguns destes encontrassem dentes.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.