EntreContos

Literatura que desafia.

Febre de Selva (Cabral)

O guarda vinha pedalando a toda pela trilha de terra, alheio aos buracos e pedrinhas que podiam travar o pneu e arremessá-lo longe. Pendurada no pescoço, a sacola de compras balançava. Quando chegou ao posto policial que ficava em uma clareira na floresta, largou a magrela na entrada da cabana e entrou no recinto aos gritos.

– SARGENTO! SARGENTO!

O sargento estava sentado atrás do balcão, e ao notar o subordinado, seus olhos se encheram de fúria.

– Até que enfim, guarda. Mas que demora. Já estava pensando em me limpar com as folhas.

– Sargento, preste atenção – disse o guarda, afoito, ignorando a bronca. – Estamos correndo grande perigo.

– Sei, sei – o sargento abanou as mãos. – Mas diga, trouxe o papel?

Quase sem respirar, o guarda remexeu na sacola e retirou o papel higiênico. Ao vê-lo, o sargento suspirou de alívio.

– Ah, que maravilha, tão branquinho. Vamos, me entregue o rolo, o que está esperando? Que eu faça nas calças?

– Sargento, por favor, me escute, estamos correndo perigo. Lá em Lavras, no mercadinho do colombiano, ouvi uma história…

– Que história? – perguntou o sargento, a curiosidade finalmente lhe aliviando um pouco a barriga. – O que estão dizendo?

– Sabe o sujeito que está preso aqui dentro? O que matou o Uanana? Pois então… dizem que os índios estão putos da vida, sargento. Que estão se organizando para vir até aqui e pegar o homem. E que se nós os impedíssemos, íamos levar flechadas e pauladas.

O sargento escutou o subordinado e depois de meditar um pouco, sorriu, balançando a cabeça.

– Você é um tolo, guarda. Acredita em cada coisa. Acha mesmo que os Uananas iam vir aqui se meter a besta? Sabem que temos armas.

– Mas eles são muitos, sargento.

– E daí? Já viu como arregalam os olhos quando veem um revólver? Como fogem correndo se escutam um disparo? Isso que você ouviu não passa de um boato. Agora me entregue o maldito rolo, vamos.

– Quando o tenente vai chegar para buscar o preso? – perguntou o guarda, se agarrando ao rolo. – Hoje?

– Hoje a noite. Talvez amanhã cedo. Por quê?

– E se os índios já estiverem vindo, sargento? Só eu e o senhor contra todos? Por favor, vamos pegar o preso e ir para a cidade, esperar o tenente por lá.

– E deixar o posto as moscas?  – bradou o sargento. – Eu sabia que você era covarde, guarda, mas não burro. Por acaso não sabe que só morto se abandona o posto? Quer ser expulso da corporação?

– Mas, sargento…

– Nada de “mas”. Agora deu para acreditar em tudo que falam por aí? Jesus Cristo. Olhe, quero que faça o seguinte. Saia e faça uma ronda pelos arredores.

O guarda ficou pálido.

– Eu, sargento?

– E por acaso está vendo outro guarda por aqui? Não enrole. Saia e vasculhe cada canto desse mato. Olhe embaixo de cada pedra, atrás de cada árvore. Procure bem pelos seus indiozinhos, mas se não os encontrar, não me venha de novo com essa conversa, estamos entendidos? Agora me passe a droga do papel. No dia em que minha prisão de ventre dá uma trégua você quer que eu perca a oportunidade?

– Os índios? – o preso agarrou as barras da cela, aterrorizado. – Minha nossa.

– Se acalme, homem – riu o sargento. – Jesus, você é mais medroso que o guarda.

– Ficar calmo? Nunca ouviu falar do que os Uananas fazem com os inimigos capturados, sargento? Cortam o pau fora e depois os cozinham vivos. Ou os enterram de cabeça para baixo, coisas assim. Não sei como se decidem.

– Puro mito – disse o sargento, puxando um banco e sentando ao lado da cela. – Provavelmente matam com flechas ou com pedradas na cabeça. São índios, não carniceiros.

O sujeito arregalou os olhos, e o sargento começou a rir.

– Estou brincando com você. Não acredite nas bobagens do guarda. Não tem índio nenhum vindo lhe pegar. E mesmo que viessem, eu o protegeria.

– Eu confio no senhor, sargento – o preso sorriu amarelo. – Mas será que não pode deixar a porta da cela aberta? Pro caso das coisas darem errado? Prometo que não fujo.

– Nos seus sonhos. Quer um cigarro?

Retirou do bolso o maço e ofereceu para o preso, que recusou.

– Em que confusão foi se meter – disse o sargento, acendendo o seu.  – Você parece um homem tão calmo. Precisava mesmo meter uma bala na cabeça do infeliz?

– Sou calmo, mas tenho minha honra, sargento. Não podia deixar que me fizessem de bobo.

– O que houve, afinal? – perguntou o sargento. – Por que tanto destempero?

– Comprei uma canoa desse índio – explicou o preso. –  Você sabe, para fazer travessias até São José do Riacho. A minha antiga já estava fazendo pena. Pois bem, acontece que a canoa do índio era ainda pior. Na segunda viagem apareceu um furo no casco e depois as tábuas começaram a soltar. Quase afundei no Uapés, sargento, e veja só, estava levando o padre Aristides. Já pensou se o mato afogado? Minha alma iria direto para o inferno. Fiquei furioso, mas decidido a resolver as coisas. Fui com uns amigos lá na tribo para pedir o dinheiro de volta, e o Uanana se recusou a devolver. Me ofereceu uma canoa nova, e eu lá ia querer outra porcaria daquelas? Não tive escolha, precisei mostrar que não sou bobo.

– E agora está preso. O que ganhou com isso?

– Eu sei, eu sei. Podia ter dado apenas uma coça no infeliz, mas não consegui me segurar. Malditos selvagens. Nos vendem essas bugigangas como se fossem ouro valioso, mas são puro lixo. Fazem de propósito, sargento, eu sei. Andam na cidade, no meio da gente, mas nos odeiam. Se fosse por eles, estaríamos longe, e eles iam ficar com a floresta inteira.

– Mas sempre achei os índios tão pacíficos. Um deles trabalhou na minha casa quando eu era jovem, lá na minha cidade – relembrou o sargento, com ar saudosista. – Não lembro o nome dele, o chamávamos de vermelho. Porque ficava vermelho sempre que enchia a cara. Aprendi a beber com ele.

– É só disfarce, sargento – disse o preso. – Pelas costas nos desejam o mal. – E, subitamente, ficou quieto, reflexivo, até que deu de ombros e tornou a falar, baixinho. – Olhe, vou lhe contar uma história da minha vida. Aconteceu antes do senhor chegar por essas bandas.

– Hum? – o sargento espichou o pescoço, curioso.

– Eu já fui casado uma vez. Rosa era o nome dela. Uma morena linda, sargento, quando a vi tratei logo de pôr as mãos. Pois bem, vivíamos felizes numa caba ninha que ficava onde hoje é a tenda do hospital, mas de vez em quando brigávamos porque a Rosa era muito preguiçosa. Não gostava de lavar roupas, de varrer o chão. Só fazia quando eu obrigava. Até que do nada aconteceu um milagre. Ela passou a tomar gosto pela lavagem. Todos os dias ia até o rio com uma trouxa de roupa na cabeça, com um sorriso no rosto, cantarolando. No começo achei estranho, a gente nem tinha tanta roupa assim. Por outro lado fiquei feliz por ela finalmente cuidar da casa, das minhas coisinhas. Que idiota, sargento. Que idiota. Todo contente, mas então comecei a perceber que a Rosa passava mais tempo lavando roupa que em casa. Fiquei com aquilo na cabeça, martelando, e resolvi tirar a limpo. Uma tarde a segui até o rio e não consegui acreditar no que vi. Os selvagens, os Uananas, tomavam banho na mesma praia em que as mulheres lavavam a roupa. Pelados, sargento, nus, com as coisas do lado de fora, balançando. Imagino que o senhor já tenha visto um deles sem tanga e sabe como são, hum, digamos, avantajados.

O sargento coçou a testa, meio desconcertado, e fez um sinal para que o homem prosseguisse.

– Ficavam se banhando, se exibindo, e no outro canto as mulheres fingiam que lavavam a roupa, mas, na verdade, estavam espiando, lambendo os beiços, fazendo gracinhas e gestos para os índios. Meu Deus, dói o coração só de lembrar. Aposto que as selvagens as comiam ali mesmo, ou atrás de alguma moita. Achamos que são inocentes, sem maldade, a verdade é que nos corneavam e se faziam de bobos. Botei a Rosa contra a parede naquele dia. Ela negou ter deitado com os índios, mas confessou que gostava de olhar, que tinha um desejo incontrolável, como se os olhos estivessem enfeitiçados. Aí matei a charada, sargento. Feitiços. Sim, os malditos encantavam nossas mulheres. Essas magias de selvagens, coisas da floresta. As hipnotizavam com os seus penduricalhos enormes e depois nos passavam para trás. Vingança, sargento, vingança pela terra. Enfim, eu perdoei a Rosa, sabe? Não era culpa dela. Depois as coisas entre nós deram errado, mas por outros motivos. Só que nunca esqueci essa história. Lhe contei para que o senhor veja o que ganhamos por confiar neles. Fui idiota de ter comprado a canoa, sabendo como são, mas sendo bem sincero, apesar de estar preso acho bom que tenha sido assim. Gostei de ter dado cabo do safado.

“Então está explicado”, pensou o sargento. Esmagou o cigarro no chão, ficou de pé e esticou a coluna.

– É muito triste a sua história, homem – disse, com sarcasmo. – Só que isso não lhe ajuda em nada. Não se pode sair por aí matando os outros, mesmo que seja um selvagem.

– Espere, sargento. Onde o senhor vai? Fique. E se vierem me pegar?

O sargento encarou o preso com um olhar frio e cortante.

– Bom, se vierem mesmo, talvez eu deixe eles entrarem. Mas duvido que eles queiram sujar as mãos com alguém como você.

Do lado de fora da cabana, viu o guarda cumprindo sua ronda. O coitado se tremia inteiro, o revólver empunhado, a todo instante olhava por cima do ombro. Atenção!, gritou, e o guarda deu um pulo.

– Santo Deus, sargento, que susto. O senhor me mata do coração.

– Você é muito medroso, guarda – gargalhou o sargento. – E então, encontrou algo?

– Nem sinal, sargento. Nem presenças no mato, nem pegadas.

– Não lhe disse? Por que dá ouvidos a boatarias?

– Hum, não sei, sargento. Acho que o senhor deve ter razão. Sou muito medroso. Achei que trabalhando na selva as coisas seriam mais fáceis, só que quebrei a cara. Estamos longe do povoado, e aqui é cheio de selvagens, de onças, aranhas. Acho que estava melhor na delegacia de São José.

– Não entendo, guarda. E por que pediu para vir?

– É que o posto policial de São José ficava em um prédio muito antigo. De noite eu ouvia sussurros, barulhos estranhos, risadas. Tinha medo que fossem fantasmas, então pedi para ser transferido.

O sargento parou, incrédulo, e depois caiu na risada.

– Eu já conheci muitas pessoas covardes, guarda, mas você sem dúvidas é a maior delas. Vir para o meio do mato por medo de fantasmas? Faça-me um favor. Ai, ai, só você mesmo. Mas escute, seria até bom que os selvagens viessem, sabia? Nunca vi um sujeito para odiar tanto os índios como aquele lá dentro. Acho que culpa os coitados por todos os problemas que existem no mundo. Seria engraçado vê-lo se cagar de medo.

A menção a palavra cagar fez surgir uma movimentação nas entranhas do sargento. Ele sorriu, satisfeito.

– Olhe, guarda, agora esqueça tudo isso e vamos nos preparar para a chegada do tenente – disse, dando meia-volta. – Precisamos arrumar a cozinha, que está uma bagunça. Ele só come em lugares limpíssimos. Comece agora, já me junto a você.

– E onde o senhor vai, sargento?

– Eu? Cagar novamente, ora. Finalmente o meu intestino disse a que veio. Preciso aproveitar cada segundo desse dia histórico.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.