EntreContos

Literatura que desafia.

Sabe de nada, inocente (Ctchanlhu)

I.

— Quiéissu, mulher? – Indagou Josivaldo, incrédulo, ao ver sua esposa estirada na cama, de roupas sumárias e lingerie minúscula, contornando delicadamente suas curvas em gestos expressivos, ensaiando um convite sedutor para uma noite inesquecível, regada a vinhos, a iguarias jamais experimentadas, a estrelas e arrepios.

Uma noite mágica, como não via há muito tempo; não fosse por apenas um mísero e intrigante detalhe, percebido somente depois de a Lua iluminar seu rosto e retirar o malicioso véu da penumbra. Muito além de formas sinuosas, no lugar de um rosto juvenil e suave, havia a cabeça de um polvo… Verde, pulsante, viscoso.

Teria sido melhor no escuro.

II.

Três horas antes, Josivaldo, um homem do campo, de feições agradáveis, embora mais feio que bater na mãe pelada, havia discutido seriamente com sua esposa, Maricleusa. Ela, uma mulher encantadora e ainda jovem para os padrões locais, argumentava de forma explosiva sobre o destino de suas vidas. As bodas de prata estavam chegando. Infelizmente, a fazenda em que moravam teria de ser vendida. Uma conversa que começara com o desejo de ter filhos, terminava com tapas e beijos. Vinte e cinco anos enterrando a mandioca e nada. Além disso, como notícia ruim viajava à velocidade da luz, descobrira dias antes que também desenvolvera uma séria doença no fígado.

Indignado com sua falta de sorte, pois não bebia nem fumava, encerrou a discussão agarrando a primeira garrafa de whisky acima da estante. Cara e de rótulo internacional, presente de tios mais abastados, o lembrava constantemente de sua situação. Chamou seu fiel buldogue e saiu floresta adentro, numa noite clara e cheia de estrelas. Uma caminhada por suas terras lhe faria bem.

Retirou o lacre com os dentes e cuspiu o plástico no capim seco. Tinha sido mais grosso que parafuso de patrola. A culpa não era de Maricleusa, mas dos boatos sem fundamento. Diziam por aí que em sua fazenda havia mais chifres do que bois. Observou a figura na varanda. O melhor a fazer era pedir perdão.

Lembranças vívidas de uma infância distante o assolaram. A amizade entre os dois começara no dia em que atearam fogo no milharal de seu avô (um experimente científico, segundo eles), unindo duas famílias distantes em prol de um bem em comum: correr atrás de duas crianças desembestadas. Por três meses a fio, sentar era uma dádiva. Da janela de seus quartos, prisões temporárias, comunicavam-se à distância através de sinais criativos e dancinhas bastante ofensivas… Bons tempos em que “sapo cururu” só tinha uma rima.

Mas o primeiro gole do líquido desbotado com cara de urina (verificou se não era mesmo) levou embora o pensamento altruísta. Entortou o rosto e tossiu várias vezes. Chamou o cão e também lhe deu uma pequena dose do néctar dos deuses. Andou. Depois de mais três, quatro, cinco entornadas, o horizonte já não passava de um borrão cinzento. A lua cheia, andarilha de noites ébrias, exercia sua arte como ninguém. Achou hilária a sombra que acompanhava seus passos.

Após uma série de arbustos e pernas trocadas, tropeçou numa estranha pedra oval, de cores chamativas. O litoral não ficava muito longe, mas aquela espécie só se encontrava em águas profundas, o que era curioso. Quase caiu. Estendeu os braços, recuperando parte do equilíbrio.

— Arre! Filha duma égua! – Exclamou.

Encarou a dita cuja. Calculou cuidadosamente a trajetória da mão até a pedra. Só então pensou em guardar a garrafa num lugar seguro. Achou a tampa, afrouxou a cinta da calça e a enfiou no vão entre a barriga e o salamito. Voltou ao projeto anterior. Em dúvida, agarrou as duas pedras que se projetavam abaixo de seu queixo. Analisou brevemente a estrutura porosa. Ouviu um pio.

A pedra voou longe. Contudo, não acertou a pobre coruja; permaneceu fixa no ar, à altura de seus olhos, a mais ou menos dez metros de onde se encontrava. Coçou a cabeça. Estava um pouco bêbado, mas ainda compreendia as leis da física. A pedra, cravada em uma parede invisível, praticamente sussurrava em meio à noite silenciosa. Bateu um medinho. Seu avô tinha o costume de contar histórias sobre aquela região. Afirmava que se Josivaldo encontrasse uma assombração, elas é que se assustariam. Dessa vez não havia fogueira.

Puxou as calças para cima. Não havia se afastado muito e podia voltar a qualquer momento. Olhou o relógio. Meia-noite. A curiosidade o instigava. O cão lamentou. Deu um belo bocejo e encolheu-se num canto. Se fosse um burro, teria empacado. Se fosse uma paca, estaria emburrado. O homem encarou seu destino. Deu passos firmes, não tão firmes quanto gostaria, e acabou travando no ziguezague.

— Dizem que à meia-noite homem vira lobo, mulher vira sereia e cabra macho não arreia! – Recitou num dialeto estranho, encontrando um jeito de andar em linha reta. Falhou miseravelmente.

O que viu o deixou boquiaberto. Como um imenso aquário sem paredes, a água mantinha-se em pé de forma misteriosa. Acompanhou sua extensão até perdê-la de vista. A escuridão da madrugada parecia abocanhar a estrutura. Imprudente como era, tocou a superfície, provocando ondulações sísmicas.

— Ô de casa! – Gritou.

Das nuvens sombrias que se formavam acima do fenômeno, um raio riscou o céu em direção ao horizonte, terminando exatamente no início de sua jornada: seu lar. Cheio de ramificações luminosas e de estrondo ensurdecedor, acabou desenhando uma figura grotesca através dos campos. Josivaldo saltou.

— Filha da muda, que cagaço! – Sussurrou ao cão.

Sua mente pregava-lhe peças. Todavia, mesmo no escuro, era possível avistar seu reflexo na superfície molhada. Divertiu-se por um tempo fazendo caretas para sua cópia, ignorando completamente o ambiente soturno. Após alguns minutos, num raro lampejo de consciência, mas só porque estava entediado, afastou-se. Uma pergunta capciosa e insistente ressoou em seus ouvidos, um chamado aos incautos de mente fraca: o que haveria do outro lado?

Um novo gole trouxe a coragem, e a burrice, necessária. Ensaiou uma aproximação e encostou o nariz. A água estava gelada, morta em cada pequeno átomo. Contrariando as expectativas, seu rosto atravessou com facilidade o oceano líquido e viscoso. Deu outro passo e entrou por completo. Não se surpreendeu com o que viu. Lá estava seu cachorro encolhido num canto, sua fazenda de mandioca e sua casa num ponto distante, ao fundo. Coçou a barba e analisou o ambiente ao redor.

Estava no mesmo lado? Jurava que tinha entrado e saído de algum lugar!

O relógio marcou uma hora. Se não voltasse logo, Maricleusa poderia chamar a guarda nacional, os bombeiros, a marinha, a aeronáutica, e ainda pior, sua sogra. Ignorou o cão e projetou-se à frente, numa corrida desajeitada. Não foi seguido. A relva azul passou despercebida aos seus olhos, enquanto o céu apresentava apenas um manto escuro, sem resquícios de qualquer iluminação além do círculo esverdeado, enorme e assustador. A lua parecia sorrir. Se tivesse prestado atenção, notaria, estupefato, que o céu sem estrelas possuía uma língua.

Entrou em casa ofegante, sem pensar no aparente mimetismo não-natural, desculpando-se no incompreensível dialeto alcoólico. Se porventura sua esposa entendesse alguma coisa, merecia um prêmio. Entretanto, ao presenciar a cena incomum, intrigante e muito, muito inconsequente, não pôde evitar o espanto.

— Quiéissu, mulher? – Indagou Josivaldo, incrédulo, ao ver sua esposa estirada na cama, de roupas sumárias e lingerie minúscula, contornando delicadamente suas curvas em gestos expressivos, ensaiando um convite sedutor para uma noite inesquecível, regada a vinhos, a iguarias jamais experimentadas, a estrelas e arrepios.

III.

Havia perdido a noção do tempo. Estava delirando. Só podia ser isso. O raciocínio turvo o impedia de chegar a qualquer conclusão. Tudo era familiar, exceto, é claro, o corpo voluptuoso e febril que insistia em provocá-lo. Não que Maricleusa não tivesse aquelas curvas, mas a atmosfera bizarra o incomodava um pouquinho. Desistiu de pensar. Seus impulsos naturais quase gritavam em desespero, causando um reboliço voraz no que havia entre suas pernas, os joelhos. Um poema antigo de letras populares, iniciando com a frase “Assim como tu…” foi resgatado de sua memória. Retirou o whisky do esconderijo – estava desconfortável mesmo – tomou o último gole e o largou sobre a mesa. Estufou o peito, encheu-se de coragem, afastou a imagem horrível da cabeça e fechou as cortinas… De nada adiantou.

IV.

Acordou estirado no meio do mato, de ressaca, com o Sol a pino e uma enorme enxaqueca milenar. “Bêbado não tem dono” era uma frase que latejava em sua mente. O relógio marcou meio-dia. Já havia se passado muito tempo desde o início de sua pequena aventura. Levantou-se e buscou a sombra refrescante da árvore mais próxima, de galhos retorcidos. A pedra a qual tropeçara estava lá, no mesmo lugar. Não havia sinais de qualquer evento obscuro na noite anterior, muito menos um paredão ambulante de dez metros de altura. O cão veio ao seu encontro, segurando um prato entre os dentes.

Teria sido um sonho? Ou um pesadelo?

Não tinha certeza. Contudo, a garrafa laranja, amiga inseparável da noite anterior, estava desaparecida. Suspirou. Isso já não importava mais. O certo, agora, era se desculpar de uma vez por todas com sua esposa. Franziu o cenho e caminhou firme. Dessa vez, sóbrio.

V.

Maricleusa andava de um lado a outro na varanda, indecisa, segurando uma grande maleta de couro, recheada de roupas de viagem e apetrechos sem fim. A ideia atingiu Josivaldo como uma dor de barriga no meio do jantar, daquelas que conversam junto aos convidados e não pedem licença.

Apertou o passo. O cão esfomeado o seguiu. Ao reencontrá-lo, ela o abraçou. Ele correspondeu. Por que haviam feito isso, nenhum dos dois sabia. Maricleusa, vendo a cara de espanto da figura cheia de mato em orifícios duvidosos, além de arranhões pelo corpo, falou primeiro.

— A mala é pra mim. – Disse ela. Ignorando o que se passava com seu marido, prosseguiu. — Ontem faltou energia aqui em casa enquanto cê esteve fora. Visse o tamanho da tempestade que se avizinhou? Não sei como cê não se não tá molhado.

Josivaldo passou as mãos na camisa seca, incrédulo.

— Não sabia que horas cê voltaria, por isso, quando um homem apareceu em minha porta, o deixei entrar. Ideia de jerico, eu sei, mas tava escuro demais! E ele tinha o seu rosto! Então… Me deixei levar pela ternura do momento. Não fiz por mal.

O homem piscou várias vezes num tique nervoso ao ouvir “ternura do momento” com o “r” bastante puxado. Seus músculos se retesaram. “Não fiz por mal” podia significar qualquer coisa, mas só conseguia pensar em palavras que rimavam com “mal”. Vendo sua reação, Maricleusa largou a mala, encheu-se de si e espantou o elefante branco da sala. Josivaldo ainda notou o elefante saindo, enquanto ela falava.

— Se bem que, parando pra pensar, suas mãos eram rugosas e ásperas, grudentas até.

Josivaldo respirava com dificuldade. A imagem de tentáculos oleosos colonizando o ‘Novo Mundo’ não era uma pintura agradável. Lembrou-se da madrugada anterior. O bizarro reflexo espelhado o imitava perfeitamente na calada da noite, do outro lado das águas. Aliás, “calada” não era bem o termo que usaria para aquela experiência lasciva. Ignorou a lógica irrefutável. Bem, sempre ouviu dizer que o casamento era uma sociedade entre duas pessoas onde uma sempre tinha razão, e a outra era o marido, então acalmou-se.

Respirou fundo, segurou as mãos de sua eterna companheira e a olhou diretamente nos olhos. Resolveria aquele assunto depois.

— Perdão, Maricleusa. Sou um jegue sem freio. Que se dane a fazenda! Os anos que me restam! Só quero ficar ao seu lado e ter muitos filhos, como cê me pediu! – Confidenciou, arrependido. No entanto, observando a reação negativa da esposa, completou. — Sei que não sou nenhum galã das novela, mas também não sou nenhum monstro. Pensa bem!

A atmosfera desfavorável permaneceu. Vendo a dúvida em sua expressão, procurou fazê-la sorrir.

— Pelo menos nossos filhos não vão nascer com cara de lula, não é?

E deu uma gargalhada inocente.

Mas a risadinha nervosa de Maricleusa, seu olhar à barriga quase saliente e a cruzada de mãos sobre as pernas, encerraram o caso…

Definitivamente, era um pesadelo.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.