EntreContos

Literatura que desafia.

Literassex (H. Romeu)

A primeira vez que Ademir experimentou aquela sensação foi na oitava série, logo depois que Fabiane Dória elogiou sua redação.

‒ Nossa, Ademirzinho, que lindo o que você escreveu!

Podia ser só o “Ademirzinho”, mas o que o acendeu mesmo foi a referência à sua escrita. A ereção foi imediata, potencializada por ela ter se inclinado para conferir a nota dez, permitindo-lhe um vislumbre dos seios por dentro da camisa folgada e do sutiã idem. Guardou a cena na cabeça até que pudesse extravasar a emoção, horas mais tarde, no banheiro de casa, a torneira do chuveiro aberta para disfarçar. “Que lindo o que você escreveu”, dizia Fabiane Dória, nua, com os biquinhos rosados dos seios apontando para o céu.

Anos mais tarde, Ademir foi admitido no Jornal “Tribuna da Manhã”. Inexperiente, viu-se incumbido de redigir os obituários. Queria causar boa impressão e, em respeito aos mortos, decidiu caprichar nos floreios biográficos. Contudo, certo dia aconteceu:

‒ Adoro o que você escreve ‒ disse Sandrinha, a menina do xérox.

Daí para frente, quanto maior o ar de epopeia conferido às vidas sonolentas que se findavam, mais admiradoras Ademir ganhava. A cada elogio feminino, vinham-lhe um sorriso e um volume crescente nas calças, indisfarçáveis, como que dizendo: não pare.

Sim, Ademir tinha jeito com as palavras e isso, às vezes, o levava a ter sucesso com as mulheres. Bastava o elogio à sua verve de escritor e pronto, o rapaz comum e bem comportado se transformava em um verdadeiro amante latino, à exceção das frases em castelhano. Ciente disso, passou a se dedicar com afinco à literatura, pois sem as alusões à sua escrita, jamais passaria de um admirador platônico das curvas femininas, um Sansão careca.

Fato é que suas habilidades literárias o levaram ao cargo de editor-chefe do caderno de variedades, com direito a uma coluna semanal, podendo abordar o que bem entendesse. Passou a escrever sobre futebol, novelas, política, livros, temas que iam da filosofia à importância do galho seco na vida amorosa dos macacos. Por vezes, seus artigos obtinham cumprimentos de garotas desavisadas e outras nem tanto. Colegas que o conheciam há mais tempo, para quem não era segredo sua peculiar natureza sexual, já sabiam como tudo iria terminar: sexo animal entremeado por citações dos clássicos nas mudanças de posições. Realmente, para Ademir o elogio literário funcionava como uma espécie de viagra, favorecendo seu magnetismo, tornando-o irresistível para as mulheres, uma mistura de Sidney Magal com Casanova.

Um dia, uma mulher chamada Isabela Rezende chegou para trabalhar como revisora na Tribuna. Morena, olhos verdes, linda. Para completar, gostava de se vestir com saias apertadas e camisas sociais que revelavam o rego dos seios. Ademir, claro, não deixou de notar, afinal, desde a adolescência via-se atraído por aquele abismo de perdição. Sabia, porém, que só teria chance de mergulhar por entre aqueles montes do prazer eterno se recebesse dela um elogio autêntico. Assim, escreveu a versão inicial de um artigo chamado “A Arte da Guerra na prosa Machadiana” e mandou a ela para que revisasse. O texto voltou no dia seguinte. A mensagem dizia “Ok”. E só. Nem mesmo um ponto de exclamação. Um Ok seco, magro, anêmico.

Na semana seguinte, uma nova coluna: “A biografia de um incompreendido”, defendendo o poeta João Mineirinho, execrado pela crítica devido à profusão de rimas pobres, do tipo amor-ardor. Novamente, Isabela devolveu o texto com um “Ok” mais solitário que náufrago com piolhos.

Contrariado, Ademir acessou o perfil dela no facebook. Precisava conhecê-la melhor. Passou rápido pelas informações gerais e clicou nas fotos. Todas bem comportadas. Ela com as amigas, amigos, parentes, viajando… Pensou em solicitar amizade. Sim, que mal haveria? Eram colegas de trabalho. Ela não iria se opor. Ou iria? Não… Melhor não…

Naquela noite, sonhou.

“Doutor Ademir, achei bárbara sua última coluna. Como o senhor escreve bem!” dizia Isabela. “Essa metáfora entre o pensamento de Heráclito e o mundo atual… Esse raciocínio perturbador que nos leva a perceber…”

“… Que ninguém entra no mesmo rio por duas vezes…”, completava ele, a sobrancelha erguida e o sorrisinho de canto de boca compondo a indefectível imagem de cafajeste-conquistador.

“Sim, perfeito”, divagava ela, cheia de desejo. “O rio…”

Sim, o rio.

Ademir detestava rios, aquela água gelada que fazia seu pênis encolher. Com Isabela, porém, com aquele par de seios magníficos, tudo era perfeito. “Sua escrita faz Veríssimo parecer um anotador de recados em um hotel de quinta categoria” ela dizia. E eles, nus, se amavam sem pressa, junto a uma cachoeira ruidosa. Sem mosquitos ou formigas.

*   *   *

Na manhã seguinte, resolveu escrever um artigo sobre filosofia. Ligar Aristóteles ao Joie de Vivre, de Zola, e a eterna busca pela felicidade parecia promissor. Passou o dia e a noite revisando o texto, como se participasse de um concurso literário, cuidando para não parecer pedante demais nem descuidado demais, mas com o objetivo evidente de conquistar Isabela. Entre um e outro parágrafo, sua mente fugia para lugares tão improváveis quanto sensuais. Lá estava ela, sempre, com roupas minúsculas e com aquele sorriso perfeito de turista de folheto da CVC.

“Como é que o senhor consegue?”, dizia ela. “Lindo demais! Que senso de oportunidade… Tocou lá no fundo.”

“Deixemos o ‘senhor’ de lado. Prefiro o tocar lá no fundo.”

“Essas metáforas me deixam louca…”

 

Algumas horas depois, quando o sol já se insinuava pelas persianas da sala, acessou mais uma vez o facebook dela. O rosto redondo, a boca carnuda e a camisa entreaberta. Não tinha mais como resistir. Clicou no botão “solicitar amizade”.

Foda-se.

Incrivelmente, uma bolinha vermelha, no canto superior da tela, avisou, menos de um minuto depois: “Isabela aceitou sua solicitação”.

Imediatamente voltou a clicar nas fotos dela. Agora que eram amigos tinha acesso a todos os álbuns. Todos! Ah, ela ia muito ao litoral. O biquíni minúsculo. Uma tatuagem de dragão, pequena, logo acima do cós da bunda. E que bunda, do tipo melancia, grande, lisa e redonda… Como as pessoas se expõem… Obrigado, Senhor! Mais fotos, mais praias, coxas grossas, mais bundas. Seios.

Logo se imaginou com ela num transatlântico em alto mar, ou melhor, numa ilha deserta, porque tinha horror ao balanço das ondas, que o deixavam enjoado. Sim, os dois nus, em um pequeno deque (afinal ninguém merece areia no meio da transa), rodeados por um mar esmeralda, à sombra de coqueiros e com um helicóptero à disposição – para irem embora depois. Ele a possuiria lendo, em voz alta, parágrafos selecionados de 50 Tons de Cinza – não, porra, esse não…‒ isto é, de “A Casa dos Budas Ditosos”, do João Ubaldo, perfeito!

*   *   *

Ademir conferiu o cabelo no espelho e alisou o queixo, em busca de um fiapo de barba que pudesse ter escapado da gilete. Depois dobrou as mangas da camisa. Três vezes, para destacar os braços recém malhados.

Nunca fora a uma festa de fim ano do trabalho, pois achava aquele clima deprimente. Entretanto, com Isabela tudo mudava. Ainda que pouco conversassem em público, haviam estabelecido uma discreta amizade no facebook. Uma foto curtida aqui, um comentário ali. Nada muito relevante, nada de menções a textos dele, apenas o suficiente para fazê-lo acreditar que poderia, talvez, ter sucesso num eventual encontro.

Há tempos perdera a timidez da adolescência, mas só para garantir, ensaiou mentalmente sua estratégia de aproximação, incluindo diálogos e possíveis variações. Se tudo funcionasse, ele a levaria para um motel e, antes da transa, entre beijos, sussurraria para ela um verso erótico de sua autoria. Tal estratégia – utilizada apenas em casos especiais – deveria bastar para que ela se derramasse em elogios e súplicas de uma noite selvagem.

Quando chegou, percebeu que ela estava no bar, bebericando alguma coisa. Estava sozinha. Por ser bonita, as mulheres a evitavam. Já os homens, bem, os homens sabiam, de alguma forma, que ela era território proibido. Em alvo do chefe ninguém arrasta a asa.

Quase obscena, Isabela usava um vestidinho amarelo, bem apertado. Que Deus é justo, todo mundo sabe, mas aquele vestido era ainda mais justo, um desafio à física e à teologia. Ademir não teve dúvidas e foi logo se acercando, conferindo com a mão, só para garantir, se o zíper de sua calça não estava aberto. Era distraído com essas coisas.

A música que tocava era horrível, mas Isabela não parecia preocupada com isso. Havia se sentado junto ao balcão quando ele puxou conversa, conforme ensaiara. Uma piada, um gracejo. Ela deu condição. Começaram a falar sobre trivialidades, ao pé do ouvido, e logo o papo engrenou. Os minutos se multiplicaram, assim como as risadinhas, as taças vazias. Súbito, começou o funk, que ele odiava com todos os poros, mas que a atiçou instantaneamente.

‒ Você dança? ‒ ela perguntou entusiasmada.

‒ Claro! ‒ ele respondeu empolgadíssimo.

Atirou-se na pista com ela, como quem se oferece num ritual de sacrifício, esperando a recompensa dos céus. Tentava não parecer tão ridículo, enquanto ela rebolava com volúpia, extasiada por aquele ritmo dos infernos, repetindo de cor os versos que ultrajavam a típica família cristã brasileira. Ali mesmo, enquanto dançavam, ela ofereceu-lhe um gole da bebida, que ele aceitou sem pestanejar. Não gostava de mojito, mas naquela situação tomaria mesmo que fosse suco de quiabo com cocô em pó.

A certa altura, quando os alto-falantes despejavam Anitta, ela se aproximou:

‒ Tô com um probleminha aqui no vestido… Será que você pode me ajudar?

A voz era grave e provocante. Na falta de um script melhor, Ademir respondeu:

‒ Aqui?

Ela sorriu, segurando o canudinho com a ponta dos dedos e depois chupando, o olhar safado de quem sabe o que faz.

‒ Aqui não… No banheiro. Pode vir comigo?

Ademir sentiu um calorão subindo pelo corpo, seguido de taquicardia e falta de ar.

‒ Eu…

Ela pôs o indicador nos lábios dele.

‒ Dá um tempinho e vem atrás.

Meu Deus, é agora. Isso não tava no planejamento. Vem atrás, ela disse. Vem atrás!

Acompanhou-a de longe e viu quando fechou a porta do lavatório. Olhou ao redor. Discretamente, enquanto fazia um giro, ajeitou o pênis dentro da calça, mole como uma bolacha maizena molhada.

O verso! O verso!

Um minuto, disse a si mesmo, conferindo o relógio. Vou lembrar da porra do verso. Marchou até o banheiro, deu dois toques na porta e esperou. Logo, uma fresta se abriu e ele jogou-se lá para dentro. Isabela o agarrou pelo colarinho e beijou-o imediatamente. A boca quente, voraz, a língua sôfrega. Tudo dele, tudo dele! E para completar o banheiro estava limpo, sem cheiro de urina ou de veja multiuso.

Isabela abriu o zíper da calça dele e, encarando-o tirou-lhe o pênis para fora.

Meu Deus, como era mesmo?

‒ Pensei muito em você ‒ disse ele, lutando com a memória.

‒ Eu também ‒ disse ela, cheia de desejo.

Um instante se passou e ele, precisando preencher o silêncio em meio à flacidez, sussurrou:

‒ Queria te dizer uma coisa…

‒ Ai, fala, adoro ouvir sacanagem…

Cacete…

Ela, mantendo o olhar fixo no dele, massageando seu pênis ainda adormecido.

‒ Fala, Ademir…

Mente em branco.

Vai ser a trepada do século. Lembra da porcaria do verso.

Virou a cabeça e viu a si mesmo no espelho. Enfim, disse:

‒ “E agora, José? A luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…”

Ela o analisou, sem entender, soltando o que tinha nas mãos.

‒ Não entendi…

Outro instante.

‒ “Todos esses que aí estão, atravancando meu caminho… Eles passarão. E eu, passarinho…”

Ela riu.

E ele, quase chorando:

‒ “Sorri quando a dor te torturar, e a saudade atormentar…”

Não houve jeito. Quando Ademir deu por si, Isabela já deixava o lavatório.

Ele estudou o próprio reflexo por mais alguns segundos. Trancou a porta por dentro, baixou a tampa do vaso e sentou-se.

Porra de mulher que não entende literatura. Quintana, Drummond… é luxúria pura…

Permaneceu em silêncio por mais um minuto.

E então pensou em Fabiane Dória.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.