EntreContos

Literatura que desafia.

A dor no dedo do meu pé não tem mais cura (Arlindo)

– Tem certeza disso, Diego?

– Claro. – deu-lhe dois tapinhas nas costas. – Não tem como dar errado.

– Não sei. Não tô gostando disso.

Permaneciam abaixados, ambos, atrás da frágil cerca. Espiavam pelas frestas entre os pedaços de madeira parcamente pregados juntos. Observavam a casa, gigantesca, estilo colonial. Na varanda havia uma longa mesa feita de madeira de lei com várias cadeiras cujos encostos eram feitos de bambu e amarrados de forma artesanal.

– Vamos repassar o plano. – disse Diego. Tinha os ombros largos e a cabeça grande. Somados à estatura pequena, conferiam a ele um aspecto carrancudo e atravancado. Ao seu lado, Luís era a antítese disso. Alto, magro e desengonçado, mal conseguia esconder os dentes protuberantes na boca sempre aberta. – A gente corre até o galinheiro. Passa pela passagem que tem no telhado e que leva até a casa. Eu entro, pego o que encontrar, e passo para você. Depois a gente… – ele se deteu quando os olhos, subitamente, se dirigiram ao chão, mais precisamente aos pés de Luís. – Você veio de chinelo? – perguntou, visivelmente consternado.

– É que eu suo muito.

– Soo. – corrigiu Diego.

– Você também? Então por que veio de tênis. Devia ter pegado aquele Crocs que sua mãe te deu e…

– Fica quieto! Vamos lá. Você entendeu o plano?

– Que plano?

– O plano que eu acabei de contar!

– Plano? – Luís coçou o topo da cabeça por alguns instantes. Então sua expressão denotou que havia finalmente entendido. – Ah, tá. Lembrei.

– Certo. Então vamos. – Diego saiu por detrás da cerca e seguiu em direção à casa. Então uma mão agarrou seu ombro e puxou-o de volta.

– Espera! – disse Luís.

– O que é? O que foi? – Diego olhou ao redor, preocupado que alguém pudesse tê-los visto.

– Tô com medo.

Diego bateu ambas as mãos nas coxas em sinal de revolta.

– Eu já não te disse que não tem como dar errado?

– Eu sei. – respondeu Diego enquanto balançava a cabeça. – Mas e se eles tiverem uma tartaruga?

– Eu já te disse que… O que foi que você disse?

– Uma tartaruga.

– Qual é o problema de ter uma tartaruga?

– É que se ela morder o dedão do seu pé só solta quando dá um trovão.

Diego parou, olhando sem acreditar para o outro. Sem dizer nada virou e seguiu em direção à casa. No meio do caminho ouviu Luís chamando seu nome.

– Diego!

– O que foi? – perguntou de volta.

– Se você não for usar, posso ficar com seu Crocs?

Esgueiraram-se até o galinheiro. Chegando lá, as aves começaram a cacarejar num volume insuportável.

– Cala a boca, desgraça! – gritou Diego e jogou uma pedra nas galinhas.

– Não faz isso. – reprovou Luís. – E se uma delas come a pedra pensando que é milho?

– Que galinha vai comer uma brita?

– Você não sabe o que é uma fome, Diego.

– Fica quieto e me ajuda aqui. Tá vendo aquele caixote ali?

– Sim.

– Pega ele.

Luís foi até o canto do galinheiro onde um punhado de caixotes feitos para colocar ovos estavam empilhados. Ele pegou um deles e foi em direção a Diego. O outro rapaz esticou a mão para pegar o objeto, mas Luís já havia se distraído com as galinhas e olhava para outro lado.

– Ahamm. – Diego limpou a garganta para ver se o outro desconfiava.

Quando Luís virou, viu a mão esticada.

– Olá, como vai você? – disse enquanto apertava a mão do amigo.

– Me dá isso aqui. – Diego puxou o caixote com a outra mão. Colocou no chão e subiu, mas ainda não era suficiente para alcançar a abertura no alto da parede do galinheiro. – Vai lá e pega mais dois pra mim.

Luís virou e seguiu em direção a pilha de caixotes. Enquanto isso Diego tentou olhar com mais cuidado para a abertura. Parecia que passaria sem problemas.

– Ai!!! – ouviu o outro gritar do outro lado do galinheiro.

– O que foi? Uma galinha te bicou?

– Não. Arranquei o tampão do dedo.

– Falei pra não vir de chinelo. Vai logo com esse caixote. – voltou a virar-se para a parede. – Acho que não vai ser muito difícil. O buraco parece ser largo o suficiente e…

– Ai!!!

– Que foi dessa vez?

– Arranquei o outro tampão!

Quando Diego olhou para o pé de Luís, viu que estava em carne viva. Sem se importar muito, empilhou os caixotes e subiu.

– Segura isso pra não escorregar.

Dessa vez, ele conseguiu alcançar a abertura. Já havia se agarrado com as duas mãos e começava a erguer o corpo quando ouviu um som vindo de fora do galinheiro.

– Droga! – praguejou.

– O que foi? – perguntou Luís.

– Acho que chegou alguém. – desceu rapidamente dos caixotes e seguiu em direção à entrada do galinheiro. – Droga, droga! Chegaram antes da hora. Anda, se esconde.

– Mas, onde?

– Em qualquer lugar. Embaixo da palha.

– Mas, tem cocô de galinha.

– Não interessa. Vai.

Mal haviam se escondido, alguém havia aberto a porta do galinheiro.

Um homem de suspensórios e bigode grosso colocou a cabeça pra dentro e amaldiçoou.

– Esses filho de uma cabrita abre a porta e num fecha. Na hora que as galinha fugi tudo… – então fechou a porta e saiu.

Diego ainda permaneceu escondido por alguns minutos, por segurança. Quando saiu, olhou pelo buraco da fechadura.

– Droga. O carro ainda tá aí.

– E agora? – perguntou Luís, saindo do meio da palha.

– A gente vai ter que dormir aqui hoje. Você dorme ali em cima, eu ficou aqui perto dos caixotes. Amanhã cedo, enquanto ele estiver tirando leite, a gente entra na casa e pega o que tiver que pegar.

– Mas e se ele vier pegar ovo?

– Não. Ele só vem no galinheiro de tarde. Agora vai dormir que amanhã a gente começa logo cedo.

De madrugada, Diego ouviu Luís chamando por seu nome.

– Vai dormir. – respondeu. Virou de lado, tentou voltar a dormir.

– Diego!

– Vai dormir, desgraça! – gritou dessa vez.

– Não dá.

– Por que não.

– Tem um rato aqui.

– E qual o problema?

– Ele tá roendo a cabeça do meu dedo.

Quando Diego acordou, pela manhã, Luís já estava de pé. Levantou, rapidamente, indo em direção à abertura na parede do galinheiro.

– O cara já levantou? – Diego perguntou enquanto puxava um dos caixotes para subir.

– Sim. – respondeu Luís. – Ele desceu pro curral.

– Ótimo. Agora a gente pode… – ele colocou o pé em um dos caixotes e sentiu algo estralar sob seus pés. Quando olhou para baixo, notou que estava pisando em um caixote cheio de ovos. – Luís! – chamou.

– Quê?

– Por que você encheu o caixote de ovo?

– Ah, tava muito espalhado. Alguém podia pisar em um deles.

Diego olhou para ele, o olhar de incredulidade não o abandonava. Procurou por um caixote vazio e escalou até a abertura.

– Me ajuda aqui. – pediu ao outro. Luís se aproximou e foi empurrando-o para dentro da abertura. Quando finalmente conseguiu entrar no buraco disse ao outro. – Sobe em cima dessa pilha e vai pegando as coisas que eu for te passando.

– E onde eu coloco?

– Sei lá. Dentro de um desses caixotes.

E assim foi. Tudo de valor que encontrava, Diego ia passando para Luís que colocava, um a um, dentro de um caixote. Quando haviam enchido-o com vários objetos de valor, Diego voltou pela abertura e desceu de volta ao galinheiro.

– Que idiotas. – disse. – Quem é que deixa uma abertura que nem essa em um galinheiro que vai direto pra casa?

– Pois é, né rapaz. Vai que uma galinha entra na casa e bota um ovo lá dentro.

– Esse é o maior problema que você vê?

– Claro. Imagina a sujeira se alguém pisa no ovo.

– Para de falar besteira e presta atenção. Eu vou sair e dar uma olhada. Quando eu gritar, você pega o caixote e vem correndo.

– Tá bom.

Diego abriu a porta do galinheiro, olhou ao redor e saiu em disparada. Quando alcançou um lugar no qual podia se esconder, vasculhou para ver se havia algum sinal do fazendeiro. Quando teve certeza de que não havia ninguém por ali, gritou para Luís. O outro veio correndo, todo desengonçado, carregando o caixote nas mãos. Quando o alcançou, os dois saíram correndo dali.

– Ha, ha. – gargalhou Diego. – Eu disse que ia dar certo. – estava deitado no chão. Nunca havia se sentido tão relaxado em toda sua vida.

– Eu não sei. – lamentou Luís. – Acho que foi muito arriscado.

– Não importa, cara. A gente conseguiu.

– Não sei se valeu a pena.

– Fica quieto e me passa o caixote, quero ver o que a gente conseguiu.

– Você acha mesmo que isso vai render algum dinheiro? – perguntou Luís enquanto passava o caixote. Quando Diego olhou para seu conteúdo, seus olhos encheram-se de lágrimas. – Quero dizer, quanto é que tá a dúzia do ovo?

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.