EntreContos

Literatura que desafia.

A transformação (Curiango)

Quando Gregório de Matos Sansei acordou na manhã de 30 de fevereiro, após uma agradável noite maldormida, viu que estava transformado num ser ridículo.

— Puta merda! — exclamou Gregório. Olhava-se e nada compreendia.

Nesse instante, dona Belinda adentrou o quarto do filho.

— Ah! Ai, meu Deus! — por pouco dona Belinda não ficou de pernas para cima. — Quem é você?

— Mãe, calmaí… Sou eu, seu filho. Tá, sei que é difícil de acreditar, nem mesmo eu…

— Mentira! O que você, coisa feia, fez com o meu Greg?

— Peraí, mãe, não fique tão desassustada, vou te provar que sou eu. Humm… Já sei! Que tal perguntas e respostas?

Dona Belinda pôs uma das mãozinhas debaixo do queixo, mexeu suas anteninhas de vinil e, depois de muito tempo pensando pouco, achou a ideia estupidamente inteligente. Perguntas após perguntas, Gregório esgotou todas as suas alternativas: pediu ajuda às cartas, recorreu aos universitários (que a bem da mentira não havia nenhum ali), e, por fim, conseguiu convencer a mãe de que ele e Gregório eram a mesmíssima pessoa.

— Greg, ó meu filho! Que desgraça lhe foi acontecer! Bem, agora já foi, né? É vida que segue. Ponha uma roupa e venha tomar o café da manhã, não fique com essa “coisinha” de fora.

Mas Gregório não se mostrava resignado com a sua nova forma quanto a mãe parecia estar. Já à mesa, procurou pelos pães amanhecidos que tanto gostava. Notou o olhar que o pai lhe direcionava, um olhar de censura, como se aquela situação não fosse culpa do filho. Todos comeram em ruidoso silêncio. Então o pai (um coadjuvante sem nome) levantou-se, pegou sua pasta, deu um tapinha estalado nos glúteos da esposa e foi trabalhar. Era o tipo de marido que nunca lavava um prato.

Gregório meteu-se em seu quarto e passou o dia todo fora dele. A namorada lhe telefonara várias vezes, mas ele não quisera atendê-la. Do trabalho recebera uma ligação, e o mesmo se dera. Essa atitude de isolamento denunciava um traço de sua personalidade: uma tremenda falta de egoísmo. Mas não é para menos, pois ele se sentia envergonhado e aflito.

Por que isso foi acontecer justo comigo?, pensava ele.

Não conseguia compreender, estava mais por fora do que bunda de nudista com o que lhe sucedera. Por falar em bunda, Gregório se mostrava descontente com a sua. O reflexo que via no espelho lhe causava a mais deleitosa aversão. Dessa forma passou o dia, e a noite toda dormiu acordado.

Na manhã seguinte, constatou que continuava transformado, o que o deixou ainda mais agoniado. E assim os dias se passaram um atrás do outro, e Gregório permanecia isolado em seu cafofo. Os pais começaram a despreocupar-se, e dona Belinda resolveu falar com o filho sobre uma ideia que tivera.

— E então, o que acha acerca dela? — perguntou-lhe dona Belinda.

— Hã? Ah, sim… Então, mãe, não sei, só sei que nada sei.

— Pare com isso, bobinho! Tenho certeza que irá te fazer bem. Eu falei com sua tia, e ela me disse que já se consultou com o doutor Caprinio Balido. O doutor Caprinio já tratou de casos iguais ao seu, embora diferentes…

— Tá bom, eu vou.

Consulta marcada para as treze, lá se foi Gregório andando vespertinamente para o consultório do psicólogo Caprinio Balido. Pelo caminho, as pessoas que olhavam para ele nem o notavam; já as que não lhe direcionavam o olhar, percebiam nele uma esquisitice nada incomum. Chegado ao consultório, a secretária pediu-lhe que aguardasse e perguntou-lhe:

— É conveniado ou particular?

— Particular…

— São trezentos mangos, por favor.

Dali a pouco, estava frente a frente com o psicólogo.

O doutor Caprinio sorria. Só ria, o que deixava Gregório incomodado.

Imagine um bode sorridente sorrindo para você, não mexeria com os nervos de qualquer nenhum?, pensou Gregório.

“Alô, tem alguém aí?”.

— Como é? — perguntou Gregório para o ar.

“Sou eu, o doutor Caprinio, está me recebendo direitinho?”.

Puta merda!

— Sim… Como o senhor consegue fazer isso?

“Não fique admirado, meu jovem, esta técnica de transmissão é conhecia como Teletiopatinhas, muito embora apenas a maioria da minoria dos maiores psicólogos consegue dominá-la. Também sou capaz de ler a mente”. O doutor sorriu.

— Que da hora!

“Vejamos: você está pensando em como era bom lamber a boca das pessoas que vão para a cama sem escovar os dentes… Eca! Que pensamentozinho, hem?”.

Puta merda!

— Por favor, doutor, não me lembre disso, é saudosismo demais para uma pessoa só.

“Está bem, não está mais aqui quem teletiopatinhou”. O doutor riu.

Puta perca de tempo ter vindo aqui. Esse cabra só ri.

“Alto lá, meu jovem! Rir é o melhor remédio, como dizia minha vovozinha”.

— Tá, tá, tá. O senhor pode me ajudar ou não?

“Claro que posso! Vou lhe dizer exatamente o que está acontecendo com você: às vezes as pessoas agem assim, como você, para fugir da realidade virtual. Por exemplo: para não sair de casa, um adolescente raspa as sobrancelhas; alguém embriagado corta o bilau e o coloca no congelador; uma garota, geralmente roliça, se empanturra de chocolate só para não ir ao baile, por causa das espinhas que aparecem. Por fim, alguém, que não vou dizer quem, uh! uh!” — doutor Caprinio indicou Gregório com um de seus chifres — “se transforma, e é isso. Ah, e não precisa falar, é só pensar que eu entenderei”.

— Tá bom…

“Desculpe. Humm… Doutor, o que devo fazer? Tem como voltar ao normal, ser como eu era antes?”.

“Claro que tem! A palavra do dia é: aceitação! Aceite-se, e tudo irá bem, acredite. Ah, e claro, vou receitar um remedinho para você: tome dois comprimidos ao dia de fluocretina, isso ajuda bastante”. O doutor sorriu, triunfante.

“Só isso? Me aceitar?”.

Doutor Caprinio não transmitiu, mas continuou a sorrir.

Para um bom entendedor, uma palavra não basta, e Gregório entendeu que a consulta dava-se por encerrada. Pegou a receita e se despediu do doutor com um aperto de mão. Fora do consultório, recebeu a seguinte transmissão:

“Há algum problema em ser um bode sorridente? E cabra é a mãe!”.

Gregório não soube o que responder.

Me aceitar, me aceitar, me… Assim matutando, sentiu-se um pouco mais desanimado. Enfim, uma pequena vitória. Tomou então o rumo do supermercado Kafka, lugar onde trabalhava, sendo recebido alegremente, com duas pedras na mão, pelo seu encarregado.

— Greg, é você? — perguntou, nada espantado, o encarregado. — Você está diferente, mas os seus cabelos…

— É, tô sabendo. Escute, seu Franz, sei que andei faltando um ou dois dias…

Um ou dois dias teu c… Você faltou uma semana, seu merdinha, pensou Franz.

— Será que tem algum problema?

Ah, se tem!

Depois de conversarem muito sobre nada, e de estar tudo certo e nada resolvido, e, por menos que Franz lhe falasse sobre direitos trabalhistas, Gregório não aceitara receber os dias trabalhados, mostrando com essa atitude o seu lado egocêntrico.

Antes de ir-se, ouviu uma música emitida pelos alto-falantes do supermercado:

“La cucaracha, La cucaracha!

Tome cuidado com a sandália de borracha…”.

Que se dane! Nesse trabalho de merda ninguém ia com a minha cara mesmo, ninguém aceitava o meu jeito de ser. Para quem está cagado, que diferença faz uma freada? Procuro outro trampo, e boa. Pau no c do seu Franz!

Mais tarde, já em sua casa, Gregório contou à mãe como fora a consulta e tudo o mais.

— Eu sabia, o doutor Caprinio é batata! — disse dona Belinda. — Você vai se aceitar, não vai, meu filho?

— Vou…

— Que bom! Agora, que tal procurar a sua namorada? A pobrezinha te ligou a semana toda e você nem tchum.

— Verdade, mãe, obrigado. Te amo.

— Filho, também te amo. Ah, antes que eu me esqueça: nunca fui mesmo com a cara do seu Franz.

Como a namorada morava por perto, Gregório achou melhor telefonar do que andar toda aquela distância até a casa dela.

— Greg? Oi… — Cunegundes ao celular.

É claro que ela não ia me atender com um “oi amor”.

— Oi, amor, tudo bem?

— Tudo bem?! Poxa, que que deu em você? Te liguei várias vezes, e cê nem tchum.

— Me desculpe, amorzinho. Aconteceu uma coisa bem estranha comigo, você não acreditaria…

— Ah, agora cê mim vem com essa! É você que nem ia acreditar no quanto chorei por sua causa. Fiquei mega preocupada, cê simplesmente sumiu sem mim falar nada. Sabe, esse seu sangue de barata mim deixa bem irritada.

Sangue de barata, quem me dera!

— Escuta, coraçãozinho, tô arrependido, eu sei que não devia ter sumido, devia ter te procurado antes. Vamos ficar mal, por favor!

— Num sei… — Cunegundes estava a ponto de chorar. — Num sei não…

— Estou com tanta saudade de você, meu quindim! — Essas palavras balançaram um pouco Cunegundes (não se sabe se lhe despertaram a fome ou os sentimentos). — A gente podia se ver, conversar sobre esse bem-entendido. Que tal?

Ela pensou durante uma breve eternidade.

— Tá bom, vai. Amor?…

Ah, enfim ela me chamou de amor!

— … cê sabe que te amo, num sabe?

— Sei.

Antes de encerrarem a ligação, Gregório ouviu um “oinc” carinhoso.

Será possível?

Cunegundes veio encontrá-lo de moto, as mamas balançando em direções hipnóticas. Vendo-a, teve um déjà vu:

Como não percebi antes? Bem, não importa, melhor do que… do que uma javalina. Estou farto de javalis.

Só não sabia o porquê.

— My chubby girl — Gregório sempre a chamava assim quando se sentia tesudo, e ela adorava. Beijaram-se (fazendo inveja ao melhor encanador) e, em seguida, foram “motocando” em direção a um motel zero estrelas, com os cabelos flutuando ao vento sobre os capacetes. Pagaram pelo pernoite.

No motel, eles… desfrutaram uma noite com muita movimentação e acrobacias, e não há como descrever tamanhas travessuras.

Ao amanhecer, quando Gregório despertou, viu que estava transformado de novo. Espreguiçou seus seis membros, tocou a namorada com suas anteninhas de vinil e sorriu. Ela lhe sorriu de volta. Sentiam-se felizes, neste que era o pior possível dos melhores mundos impossíveis (ou algo assim).

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.