EntreContos

Literatura que desafia.

Porcos de Guerra (Ozzy)

Heitor mantinha o rifle de cano duplo próximo à muralha. Observava com calma a Travessia, quieta e enigmática como sempre. Atirou a esmo, a fim de testar a nova tecnologia experimental. Ajustou a mira automática com apenas um toque e bocejou. Se não tivesse sido reprovado no teste de aptidão genética, poderia estar lá fora, explorando, assim como seus irmãos. Sacudiu a cabeça. O portal mais distante precisava de um espantalho. Ninguém utilizava aquela velharia desde que o elemento Zero tornou-se abundante. O minério, dotado de propriedades termodinâmicas e descoberto por acaso nas profundezas de Orwell, era capaz de gerar uma ruptura temporária no tecido espacial. Algo desinteressante para Cícero, seu amigo de infância, responsável por trazer suprimentos e um estoque invejável de baboseiras sem fim. Pelo menos, tinha com quem conversar.

— Tudo tranquilo, Heitor? Quantos voadores já abateu?

Heitor não tirava os olhos da Travessia. Respondeu, a contragosto.

— Três… Ei, Cícero. Notou algo estranho quando você entrou no campo?

— Tirando você, não. – E devorou um sanduíche improvisado.

— “Muito” engraçado. Ainda morro de rir… Mas, falando sério, acho que vi uma distorção. – Completou, revirando o alforje em busca de algo suculento.

A resposta não demorou a vir. A pequena muralha em que se encontravam estremeceu. Ao longe, atravessando o campo em meio a oscilações, uma onda de choque monocromática sacudiu as estruturas. Cícero derrubou toda a comida no chão. Heitor livrou-se do alforje e ajustou o zoom.

— Está vendo isso, Cícero?

Seu amigo não respondeu. Estava mais preocupado em juntar as coisas e sair dali o mais rápido possível.

— Alto lá! Você fica! Não se lembra do “Código”?

Cícero conhecia bem o protocolo militar. Os artigos e incisos obrigavam a qualquer combatente permanecer no local de um possível Contato, quando este ocorresse. Vários registros mencionavam a manifestação pandimensional (fenômeno que haviam presenciado) e outras instruções técnicas que a maioria ignorava.

— Não acontece nada por esse lado há séculos! Tinha que ser justo no meu turno! – Chutou as bolsas.

— Anotado. Olha isso! – Heitor calibrou a tela, tocando no projetor holográfico. — O que você vê?

— Um borrão. – Disse Cícero, de má vontade.

— Ajusta o zoom, criatura!

Durante alguns instantes, o silêncio se fez presente.

— Parece o general… Trazendo alguma coisa junto, presa de maneira firme, junto ao seu corpo. Não dá pra identificar. Espera! Tem um objeto quadrado. É uma espécie de mala. – Concluiu Heitor.

— Não é um aparato comum. – Cícero constatou.

À primeira vista, o casacão de couro, os óculos escuros e o estranhíssimo objeto cônico pendurado, realmente pareciam de origem desconhecida, alienígena. Quem se vestia daquele jeito? Felizmente, a corrente estava bem presa à criatura. Não teriam de se preocupar com isso; por enquanto. Contudo, o horizonte cinzento e o borrão característico de uma viagem recém-empreendida, causavam um misto de espanto e admiração. Aquele efeito anacrônico duraria uma semana até que a floresta se recuperasse por completo. Em cada ocasião em que o fenômeno se manifestava, a matilha de lobos galácticos, de apetite voraz, utilizava a Travessia para atacar sem aviso as colônias distantes. Sabiam que seu verdadeiro trabalho havia recém começado.

— O general parece nervoso. – Disse Heitor, coçando as orelhas.

— Culpa daquele animal acorrentado. Aliás, não dá pra saber se aquilo é realmente um animal… Você devia dar um tiro de aviso. – Sugeriu Cícero.

— Tá maluco? E correr o risco de ricochetear?

— E se a “coisa” for um Espacial? – Cícero desenhava no chão.

— Um Espacial? Das estórias de terror? Já passamos da idade de acreditar nisso, meu amigo.  – Heitor desdenhou.

— Você já viu um, por acaso? Pode ter qualquer forma. Até essa coisa bizarra aí. – Cícero não queria admitir, mas ainda tinha medo do escuro.

A discussão foi encerrada assim que a maleta encontrou o chão. Seus instintos naturais falaram mais alto. Calafrios, suor e sobressaltos transmitiram a incômoda sensação de fragilidade. A patrulha não passaria por ali tão cedo. Como poderiam adivinhar que o próprio general utilizaria aquela relíquia? Ensaiaram uma aproximação. Com receio, e a passos lentos, deixaram a muralha para trás. A segurança dependia deles, de qualquer forma.

— A criatura precisa de um codinome. – Sugeriu Cícero, enquanto embrenhava-se no matagal.

— Pra quê? – Retrucou Heitor, empurrando os aparelhos de forma desajeitada. Mas a ideia, como todas as outras de seu irrequieto amigo, pareceu irresistível. — Que tal “Joseph Jacobs”?

— Que raio de nome é esse?

Cícero levantou os olhos. Um objeto cilíndrico, de efeito hipnótico e cheio de luzes azuis, adicionou novas cores à paleta monocromática. A maleta estava aberta e o que havia dentro valia uma vida! Devido à distração intencional, as correntes afrouxaram. A criatura se desvencilhou de forma impressionante. Heitor, ao presenciar tamanha demonstração de força e agressividade, ativou a montagem dos gatilhos e ajustou a mira.

— Atira logo! – Insistiu Cícero.

— Mas é o primeiro Espacial que encontramos! – Salientou o outro, num breve momento de compaixão.

— Ah, agora é um “Espacial”… Danem-se os protocolos! Eu quero é voltar pra casa!

No entanto, não medir as consequências naquela situação poderia resultar numa guerra futura. Queriam mesmo começar daquele jeito? A criatura corria de forma desajeitada. Parecia maior e mais forte ao se aproximar. Quando o artefato ao fim da corrente lançou uma descarga elétrica no próprio general, seu destino estava selado. Heitor marcou o alvo. A arma emitiu um clarão ao concentrar um terço de energia solar, como um diamante riscando outro. O solavanco os empurrou para trás. Uma pequena esfera brilhante acertou em cheio a testa do inimigo. Não havia qualquer chance de fuga. O Espacial tombou, sem vida. “Joseph” estava oficialmente fora de combate.

— Quem são vocês? – Gritou o general ao longe, ofegante, desfazendo-se das correntes imantadas.

— Heitor Magnavox da Divisão 82, senhor!

— Cícero Veritex da Divisão 19, senhor!

A autoridade se sacudiu e se aproximou, ainda zonzo.

— O que faziam aqui? A Travessia não estava sob quarentena?

— Fui alocado há alguns meses para cá, meu comandante! – Respondeu Heitor. — Mas é a primeira vez que vejo acontecer algo significativo.

— Agradeço o que fez, soldado. Mas perdemos um recurso valioso. É uma pena, pois ele tinha uma série de artefatos que nos interessava muito. Por isso o mantinha sob custódia. – Bufou.

— Peço perdão pela minha curiosidade senhor, mas aquele era um Espacial? – Indagou Cícero.

— Das estórias infantis? – Ponderou. — Era… Com seu cheiro insuportável, rosto achatado e grunhidos estranhos. Achei esse perdido no quadrante Alfa, onde ocorreu o Primeiro Contato. Desastroso, por sinal. Agora que abatemos um, eles voltarão com tudo.

— Se me permite a pergunta, general, o que é aquela coisa brilhante, dentro da mala? – Heitor voltava a respirar.

— Aquilo, meu jovem, é um artefato que levará nossa raça a um novo patamar científico! Uma verdadeira revolução!

O general apontou às luzes e fez um gesto no ar. Esmagou o ser imaginário no chão. Encheu o peito de orgulho e encerrou a conversa.

— É um circuito elétrico mata-insetos. Imagine como será a vida das colônias! As moscas gigantes nunca mais vão nos atazanar!

E ao dizer isso, derrubou uma maçã da árvore mais próxima e a colocou na boca do Espacial, como um símbolo de vitória.

— O churrasco de hoje será por minha conta! – Bradou o General Prático.

Seus rostos se iluminaram. Um “óinc” retumbante de três javalis soldados, evoluídos ao ponto de valer-se de tecnologia tátil, ecoou pela floresta de Orwell. O homem estava morto. Festejariam pelo resto da semana, até que se lembrassem de um detalhe incômodo, inconveniente e amplamente divulgado entre os seus… Carne vermelha aumentava o colesterol.

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5 comentários em “Porcos de Guerra (Ozzy)

  1. Vitor De Lerbo
    25 de maio de 2017

    Muito bom! Gosto bastante de ficção científica, ainda mais quando é bem escrita e inteligente como essa.

    A inversão do final é a cereja do bolo de um texto que já vinha consistente.

    Boa sorte!

  2. Milton Meier Junior
    25 de maio de 2017

    Um conto muito divertido, bem escrito e com um final surpresa muito engraçado. Ótima leitura. Dos melhores que li até agora. Parabéns!

  3. Ana Monteiro
    24 de maio de 2017

    Olá Ozzy. A ficção científica é um terreno desconhecido para mim e, como tal, um pouco incómodo de comentar. Até porque se é desconhecido, isso significa que não sou apreciadora. Mas li tudo a percebi que está bem escrito e bem montado. O final tem o efeito surpresa que quase sempre funciona bem e aqui cumpriu o papel a dobrar, ou seja, houve duas surpresas: a inversão algo inesperada de papéis (se bem que houve um momento, quase no final, em que me soprou uma suspeita que logo se esfumou mantendo a crença no objetivo inicial) e a tirada final que, obrigatoriamente, nos deixa a rir. Não é nada provável que não gostemos do que nos faz rir. Por fim e embora isso não vá alterar o voto, acho que o título foi mal escolhido (se nos lembrarmos dele enquanto lemos, percebemos o que você não quer que se perceba antes do final). Vou continuar longe da leitura de FC, mas gostei bastante do seu conto. Boa sorte.

  4. Anorkinda Neide
    21 de maio de 2017

    Olá!!
    Vc deve tá cansado de saber q eu nao curto FC, mas…
    (e desta vez o mas é bom)
    A leitura fluiu que foi uma beleza, fiquei intrigada e me diverti .
    Entendi quase tudinho!! em se tratando de FC, isso é incrível! rsrs
    E o final deu um nó no meu cérebro, fiquei um tempao olhando para o parágrafo pra conseguir inverter tudo o q imaginei hauhiuha
    Eu nao tinha me dado conta antes e agora pensando.. o titulo entrega né… acho q o titulo nao foi feliz :p
    Parabens pelo conto, bem cotado, sem dúvida!
    Abração

  5. Andreza Araujo
    21 de maio de 2017

    Alguns pontos do seu texto me fascinaram. O primeiro foi a própria narrativa, muito bem feita, me prendeu do início ao fim. O segundo foram os diálogos, achei bem verossímeis, nem todo mundo sabe narrar diálogos, e os seus foram bem convincentes. Por fim, o fato de ser FC me cativa hahaha é o tipo de história que a gente não sabe o que esperar porque foge do óbvio.

    Infelizmente, o ponto alto do seu texto, o final, foi algo que não me emocionou, porque num desafio passado (RHA) um amigo nosso usou exatamente a mesma ferramenta para o plot twist, “transformando” os protagonistas em animais, quando passamos todo o tempo acreditando que fossem humanos. Então me deu aquela sensação de “já vi isso”. Uma pena porque o seu texto é muito bom hahhaa mas pode deixar que esse detalhe não vai afetar sua nota, mas eu gostaria de ter apreciado mais o seu final, de ter sido pega pelo elemento surpresa.

    Alguns pontos do texto eu não entendi exatamente o significado que criaste, por se tratar de uma realidade de FC, mas nada que tenha me incomodado, só gostaria de ter compreendido um pouco melhor o seu mundo, mas pro limite do desafio, acho que você deu conta do recado com maestria. Você deixou uma leitora feliz. Abraços.

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.