EntreContos

Literatura que desafia.

Quando Anjos Merecem Morrer (Billy)

Peterson Fishburn permaneceu em silêncio após receber o envelope.

Trinta e dois anos depois, poderia avançar em sua busca. Encarou o invólucro de papel com ares de caixa de Pandora, como se ali estivessem encarcerados todos os males do mundo. De certa forma, estavam.

— Acho melhor alimentar a lareira com isso, Pete – sugeriu Samuel, pousando a mão enluvada sobre o envelope que acabara de trazer.

— Não tem mais volta – disse Peterson, puxando a carta e rasgando o lacre num único movimento.

“Hans Schneider

Hanbury Street, 116 – Londres”

Leu e releu, uma, duas, três, dez, vinte vezes. “Londres”. Quanto mais lia, mais ficava incrédulo. “Londres”. Samuel, que ficara igualmente surpreso ao descobrir a informação na semana anterior, deu um riso anasalado.

— Um tanto irônico, não?

— Não é possível… o desgraçado estava bem debaixo do nosso nariz esse tempo todo? – Peterson sussurrou, balançando a cabeça em negação.

— Eu fui conferir com meus próprios olhos – confirmou Samuel. – E, Pete… acho que você não vai gostar do que encontrará se for até lá.

— Não é o endereço de um cemitério, é? – a dúvida tomou Peterson de rompante.

— Não, homem! O que quero dizer… é que já faz muito tempo. Você já pensou em esquecer? Em seguir a vida? Em arrumar a casa, pelo menos? Olha a bagunça que está isso aqui – Samuel apontou o lixo e a pia atulhada de panelas que pareciam sujas desde o Paleolítico. – Estou aqui há vinte minutos e já vi três baratas andando na sua cozinha, Pete. E elas são tão grandes que botariam meu cachorro pra correr.

— Samuel – disse Peterson, após raro sorriso –, seu conselho é sensato, mas, infelizmente, não poderei segui-lo. Para mim a guerra não acabou. E, além disso, meu bom amigo… eu fiz uma promessa.

No dia seguinte, Peterson Fishburn carregou a Magnum 45.

E foi até o número 116 da Hanbury Street.

***

A penúltima coisa que um soldado deseja na guerra é morrer. A última, é ser capturado. O cabo William Moore e o capitão Peterson Fishburn constatariam isso da pior forma. Quando as metralhadoras calaram e a fumaça das explosões baixou, havia apenas alemães ao redor. A coronhada na nuca trouxe o alívio temporário da inconsciência. Ao despertar, viram-se amarrados no centro de um galpão amplo que fedia a querosene e urina.

— Não quero ser torturado, capitão – o jovem William começou a chorar, tomado pelo desespero genuíno dos que se descobrem irremediavelmente perdidos.

— William… Cabo William… BILLY! – Peterson gritou, interrompendo as lamúrias. – Olha pra mim, Billy. Vai ficar tudo bem! Logo esse celeiro estará tão cheio de bons ingleses quanto o velho Trafford em dia de jogo contra o Liverpool, ok? Vai ficar tudo bem, garoto.

William queria acreditar nas palavras do capitão. Mas uma certeza fria lhe tomava conta da alma, uma certeza chamada Der Engel des Leidens. Sabia que as histórias sussurradas nas noites de patrulha eram verdadeiras, sabia que havia por ali um inimigo mais cruel do que o próprio Führer e, de alguma forma incrivelmente terrível, sabia que mais cedo ou mais tarde o anjo do sofrimento viria e ele nunca mais teria condições de tomar cerveja vermelha, nem de caminhar pela orla de Brighton nas tardes quentes de julho, mãos entrelaçadas às da bela Maggie May.

Der Engel… – balbuciou William. – Ele está vindo, não está, capitão?

— Pelo amor de Deus, Billy! Isso é só uma história que contam pra assustar os novatos.

No fim da tarde, o capitão descobriria que estava errado.

***

Peterson Fishburn caminhou pela calçada da Hanbury Street, com a agilidade que a perna metálica permitia, uma curiosidade inquieta avolumando-se no peito. Viu farmácia, vídeo-locadora, mercadinho, pequenos apartamentos de tijolos à vista e crianças jogando futebol. Nada muito interessante, nada muito diferente. Essa familiaridade o incomodava, pois não conseguia imaginar nenhuma grande surpresa escondida no número 116 daquela rua monótona.

No íntimo, desejava encontrar uma enfermaria, onde Hans Schneider estivesse internado nos últimos trinta anos, acometido por alguma doença tão rara quanto dolorosa. Ansiava comprovar a existência da justiça divina, vendo o inimigo numa cama de lençóis amarelados, com pústulas eclodindo pelo corpo feito fungos num tronco apodrecido. Queria constatar que a vida se encarregara de dar ao alemão o que ele merecia, mas, ao ver as flores bem cuidadas ladeando a porta de seu destino, se deu conta de que não encontraria nada disso.

Guten Morgen! – uma senhora atendeu a campainha, oferecendo um sorriso amável. – Bom dia, senhor… em que posso ajudá-lo? – insistiu, num inglês carregado de “r”s, após notar a hesitação do homem.

— Olá… eu… eu gostaria de falar com o senhor Schneider.

— Ele não está no momento, senhor… ?

— Fishburn. Peterson Fishburn.

— Alma Schneider. Prazer. E o que exatamente o senhor veio tratar com meu marido?

— Eu lutei contra Hans Schneider na guerra. Depois tentei encontrá-lo, durante todos os minutos da minha vida. Demorei trinta e dois anos, cinco meses e doze dias. Agora estou aqui. E não vou embora sem falar com ele.

A resposta sincera deixou a dona da casa boquiaberta.

— Quem ‘tá aí, Oma? – uma voz de criança se fez ouvir.

— É um amigo do Opa… – dona Alma respondeu para a neta. Em seguida, dirigiu-se novamente ao visitante: – Entre, Herr Fishburn. Seja bem-vindo.

***

Hans Schneider consultou o relógio ao entrar no galpão. Dezessete horas em ponto. Sua figura fazia jus às lendas mais exageradas. Os óculos de aviador, o sobretudo de couro enegrecido, as correntes, a maleta e o peculiar animal de estimação. “Meu Deus, até isso era verdade”, pensou o capitão Fishburn, ao ver o javali andando com pompa de arauto diabólico. Diante da personificação da dor e da morte, William Moore tornou a chorar.

— Eu sou der Kapitän! Ele nichts wissen! – desesperou-se Peterson, ao ver o anjo do sofrimento se dirigindo a William. – Ele é inocente!

— Por favor, não arranhe meus ouvidos tentando falar minha língua, capitão Fishburn – disse Schneider, num inglês sem sotaque. – Tenho sérias objeções quanto à afirmação sobre inocência, pois, na minha visão, um tanto pessimista talvez, ninguém é inocente na guerra. Mas estou ciente de que o nosso jovem cabo Moore aqui não sabe de nada. Porém, sei também, capitão Fishburn, que os oficiais de patente mais alta, sejam ingleses ou alemães, possuem apego quase paternal por seus subordinados. Após anos de prática posso dizer, sem falsa modéstia, que não cheguei à perfeição, mas aprendi o suficiente para concluir que meus métodos têm maior eficácia quando utilizados assim. Então, se não se importam, começarei agora mesmo e só vou parar quando o senhor Fishburn tiver a gentileza de informar a localização da base aliada.

Disse isso e abriu a maleta. Dentro dela, o inferno. Ao ver as lâminas e agulhas brilhantes, William gritou e se debateu ainda mais. Antes do primeiro corte, implorou para Hans não machucá-lo e, aos berros esganiçados, garantiu estar disposto a entregar até o endereço de sua família e seus amigos em Brighton. Pediu ajuda ao capitão, mas Peterson não tomou ação alguma. Não poderia colocar centenas de homens na mira de um bombardeio para salvar um único soldado. Foi o que disse a si mesmo tentando, sem muito sucesso, se convencer de que fazia a coisa certa. “Desculpe, Billy… eu vou te vingar um dia, prometo”, balbuciou quando o sangue começou a jorrar.

O javali, impassível, observava a tudo com olhos de demônio experimentado.

***

Peterson olhou com desprezo para as medalhas de honra, alinhadas com precisão milimétrica em um quadro de veludo verde-escuro preso à parede. “Hans foi um herói”, disse Alma Schneider, convicção inabalável. Em seguida, um corredor apinhado de fotografias de Hans, Alma, seus filhos e netos, estampando sorrisos de família feliz em diversos lugares do mundo. “Eu sou caseira, mas o Hans adora viajar”, observou Alma, como se guiasse o visitante por uma excursão no museu. Na cozinha, sentada à mesa, estava uma garotinha com aspecto de querubim renascentista.

— Você é o amigo do Opa? – ela questionou.

— Nós estivemos juntos na guerra…

— Prefere café ou chá para acompanhar? – perguntou Alma, colocando um pedaço de strudel de tamanho jurássico à frente do convidado.

— Não, obrigado… eu… estou sem fome – disse Peterson, um tanto sem jeito.

Nein, nein, nein! Ninguém vem em casa e sai sem provar meu strudel! – disse Alma, com autoritarismo de Gestapo. – Café ou chá, Herr Fishburn?

— Chá, por favor.

As medalhas, as fotos, a esposa dedicada, a neta linda – tudo parecia orquestrado para servir como clímax na obra-prima do torturador. E o gran finale veio na primeira garfada. Que a vida não era justa, Peterson sabia há muito tempo. Mas aquele strudel já era exagero. Como alguém que causou tanta dor e sofrimento podia seguir assim, incólume, rodeado de amor e com uma iguaria daquelas à disposição o tempo todo?

Hans Schneider chegou quando a chaleira começava a apitar, carregando um saco marrom cheio de batatas e cenouras. “Olha, Opa! Esse homem lutou com o senhor na guerra!”, a netinha apressou-se em fazer as apresentações. Eles se encararam, sem dizer nada por alguns instantes.

— Como tem passado, capitão Fishburn? – Hans quebrou o silêncio, reagindo à presença inesperada como médico que recebe paciente com hora marcada.

Peterson sempre pensou que saberia como agir. Saberia dizer frases de efeito e tomar ações cirúrgicas para fazer aquele homem mau sofrer e receber de volta toda dor que causara. Talvez a tarefa tivesse sido facilitada se, como quase sempre imaginava, encontrasse o inimigo exercendo seu velho ofício, em algum campo de concentração parado no tempo nos confins da Alemanha.

— Se a bomba que até hoje não sei se veio do céu ou do inferno… se a maldita bomba não tivesse caído… você deixaria aquele bicho comer o resto da minha perna e do meu corpo? – Peterson fez a pergunta mais estúpida e, ao mesmo tempo, que mais lhe afligia o coração.

— Estávamos em guerra, capitão Fishburn – Hans respondeu, após longo suspiro. – E a guerra acabou… vocês ganharam, nós perdemos, fim da história.

— RESPONDA A PERGUNTA, OBERST SCHNEIDER – Peterson exigiu, pousando a Magnum 45 na mesa. A senhora Alma gritou, apavorada, e chamou a neta, mas ele segurou o braço da menina, dizendo: – Ninguém sai dessa cozinha até o senhor Hans responder.

— Sim, capitão Fishburn… se o senhor não me dissesse a localização da base, como presumo que não diria, eu deixaria o animal terminar o serviço – Hans Schneider confessou, sem alterar o tom de voz. – Agora, por favor, deixe minha esposa e minha neta fora disso. Elas são inocentes, capitão.

“Ninguém é inocente na guerra”. Um tiro na cabeça seria um castigo rápido demais, indolor demais. “Eu vou te vingar”. Ele precisava sentir a dor da perda, ter o que lhe era importante arrancado à força, precisava sentir na pele, passar o resto dos dias com remorso, ciente de que suas maldades lhe trouxeram desgraça no final. Peterson Fishburn contemplou os olhos azuis da menina, eles choravam assustados, igual aos de Billy. “Ninguém é inocente na guerra”.

— Você se arrepende de alguma coisa, senhor Schneider? – perguntou Peterson, engatilhando a Magnum.

— Há algumas coisas das quais não me orgulho. Mas… não, capitão Fishburn. Eu não me arrependo de nada – respondeu Hans, olhando a luz da vida no rosto da neta pelo que imaginava ser a última vez. – E o senhor… se arrepende?

“Desculpe, Billy…”.

— Todos os dias… – Peterson respondeu, o peso do mundo saindo de seus ombros ao colocar para fora a verdade e as lágrimas que queriam escapar havia trinta e dois anos, cinco meses e doze dias. – Todos os dias, senhor Schneider.

O capitão respirou fundo e guardou a arma. Descobrira que não era vingança o que buscava, afinal. E, sobretudo, descobrira que não cabia a ele decidir quando anjos merecem morrer. Dirigiu-se à senhora Alma, desculpou-se pelo inconveniente e agradeceu pelo “melhor strudel do mundo”. “Parabéns pela bela família, senhor Schneider”, foi o que disse ao encarar Hans uma última vez, enquanto se encaminhava à porta. Depois foi embora, sem olhar para trás.

Passou no mercadinho, comprou alvejante e detergente.

E então, a guerra finalmente acabou para o capitão Peterson Fishburn.

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6 comentários em “Quando Anjos Merecem Morrer (Billy)

  1. Elisa Ribeiro
    25 de maio de 2017

    Olá autor! O que mais gostei na sua história foram os diálogos. Além de muito bem escritos, você conseguiu habilmente dar vida a cada um dos personagens pelo que eles dizem. Parabéns por isso! As cenas também estão bem descritas, me senti envolvida pela atmosfera que você criou para cada uma delas. Sobre o enredo, já vi mais de um filme com argumento parecido, o diferencial foi o final sem sangue. Pensei por um momento que o Peterson iria dar um tiro na garotinha. Acho que teria gostado mais de um final desse tipo, mas isso é apenas uma questão de gosto que não atrapalha a avaliação do bom trabalho que você entregou. Boa sorte no desafio!

  2. Vitor De Lerbo
    25 de maio de 2017

    Ótimo conto! Gera emoções reais nos leitores e surpreende até o final.

    O texto está impecável e a maneira como a história é contada, intercalando passado e presente, é bastante atraente.

    Algumas frases são sensacionais, como “A penúltima coisa que um soldado deseja na guerra é morrer. A última, é ser capturado.”

    O final é condizente com a índole e o passado do protagonista.

    Boa sorte!

  3. Ana Monteiro
    24 de maio de 2017

    Olá Billy. Uma história ajustada à imagem e à época para que nos remete. Só houve um pormenor, um único que me pareceu desajustado: e exibição, em Londres, das medalhas ganhas na guerra por um alemão. Ainda que na própria casa, não sei, não me parece. A crença da mulher no heroísmo do marido, sendo credível, antagoniza-nos com a criatura, uma vez que toda a gente sabe que os alemães, cada alemão (entre a sua imensa maioria não nazi) ainda hoje tenta aliviar a vergonha e a culpa; ou seja, mesmo os que pudessem sentir orgulho no seu papel ou no papel dos seus, teria que ser muito estúpido para o admitir perante ex combatentes inimigos. Quanto ao resto está ótimo e muito verosímil, poderia perfeitamente ser o relato duma história verdadeira – é com certeza do que foi o resto da vida de muitos. O sereno ambiente familiar serviu como um ótimo suporte ao adensar dramático, proporcionando ao mesmo tempo algum sentimento de empatia pelo “vilão” da história. Então temos: uma leitura densa e pesada que se leva com emoção e curiosidade, quase angústia. “Sentir” quando se lê, é talvez o que o todo leitor busca. Em cheio. Acrescente-se a criatividade presente e a perfeita adequação ao tema e temos uma resposta digna do desafio proposto.

  4. Olá, Billy,
    Tudo bem?
    Relatos de guerra parecem ter inspirado muitos por aqui. Deve ter sido a imagem, os trajes do homem na foto, enfim.
    Você criou uma história triste e emocionante. Uma narrativa de pós-guerra e da culpa que, quem já esteve lá, deve realmente sentir. A trama do resgate da memória e da vingança do sofrimento do amigo, por si só já é boa. Uma premissa que já rendeu vários filmes, de tão forte que é. No entanto, o autor habilmente introduziu a criança no texto, criando um elemento muito forte de tensão e empatia com os personagens.
    O detalhe do doce servido é perfeito. E a fuga do maniqueísmo ao insistir que “na guerra todos são culpados”, deslocando a imagem do vilão de um único centro, permitindo que o protagonista faça a mea culpa, é perfeita.
    Gostei muito.
    Parabéns por seu talento “jurássico”.
    Beijos
    Paula Giannini

  5. Milton Meier Junior
    23 de maio de 2017

    Belo conto! Muito bem ambientado, bons diálogos e uma história cativante, mesmo sendo pesada. Realmente não preciso dizer mais nada. Parabéns!

  6. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Olá!
    Um texto pesado.. segurei a respiração quase que o tempo todo. e isso que eu não gosto muito de historias de guerra..rsrs
    Ao mesmo tempo que respirei aliviada pq uma criança foi poupada, tb senti a frustração gigantesca de que a vida não age com a justiça que a gente presume conhecer.
    Ao mesmo tempo em que o enredo é pesado, o autor(a), colocou alguns toques com o fim de aliviar a leitura, mas que a mim me pareceu um tanto deslocados,mas adivinho que deve ser o estilo já do autor, de ser um tanto mais irreverente e que aventurou-se por este texto mais denso. É o meu palpite rsrs
    Enfim é um conto bem montado, onde o homem com o javali apareceram rapidamente mas de forma estratégica, achei bem eficiente o teu trabalho., Parabéns
    Abração

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.