EntreContos

Literatura que desafia.

Sobre mulas e cabeças (Mithrandir)

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“Essa história que eu vou contar procêis foi contada pra mim logo antes do azarento bater as botas; pelo morto mesmo! Mas quando ainda tava vivo, claro”. O velho aprumou a viola em seu colo, mais para manter o suspense entre sua plateia do que qualquer outra coisa.

O ar era pesado. A densidade era acentuada pelo crepitar da fogueira, que emanava fumaça espessa devido à lenha molhada. A pequena incidência de luz gerada pelo fogo no centro da clareira competia apenas com o brilho distante do luar, e iluminava os quatro rostos jovens e inseguros que apontavam em direção ao velho.

“Dia e noite o Padre Sebastião procurava a mulinha. Largou a hóstia e a comunidade pra trás só pra caçar a assombração. Nem a benzedeira deu jeito no rapaz, que só comia as fruta que a terra dava e bebia água dos riacho”.

Dedilhando levemente as cordas de sua viola, o velho entoava uma melodia serena.

“E foi assim por meses. Ninguém mais dava muita atenção pro Tião. Quando ele passava perto de alguma fazenda, tinha gente que até fechava a porta pra não cruzar com o demônio. O rapaz subia os morro, nadava nos lago, usava isca; mas nada de cruzar com a burrinha, que de burra num tinha nada.

Foi numa noite de Lua cheia que nem essa, no meio do mato que nem nois , com a lenha molhada fazendo arder os zoio do Sebastião que nem os nosso agora, que ela apareceu. Pelo que ele me falou, o fogo que saía do pescoço dela era muito mais forte que o da fogueira, que se apagou sozinha de vergonha.

Quando o Tião pegou o facão e foi pra cima da mulinha, ela saiu disparada no galope; mas ele num era tão bobo quanto parecia, e já tinha montado um monte de armadilha pela floresta. Numa delas, que parecia uma cova estreita, a mula caiu com as pata pra cima e não conseguia se virar.

O Tião foi rápido que nem uma onça e meteu a faca na coxa da mula. Mesmo sem cabeça, ela soltou um grito que eu ouvi lá da minha fazenda; foi nessa hora que peguei a espingarda e o lampião e sai pela mata. Mas a história é do Tião, não minha.

Depois que ele tirou sangue da burrinha, pouco a pouco ela foi voltando a ser a Jurema, mocinha linda que nois conhecia antes. Mas o estrago já tava feito; na hora que tomou a facada, a mula desceu o coice no peito do Tião, que caiu pra trás que nem saco de trigo.”

Um barulho entre as árvores fez os quatro jovens, simultaneamente, desgrudarem os olhos do velho e perscrutarem a escuridão. Bastou o primeiro chegar mais perto do fogo para que os outros o acompanhassem. O velho continuava a tocar a canção hipnótica e voltou à sua prosa, como se não tivesse havido interrupção.

“Caído no chão, com uma marca de ferradura no peito e sem ar, do jeito que todo cabra apaixonado fica, o Tião declarou todo o seu amor pra Jurema. Disse que já tinha largado a batina e que agora eles podiam casar, que ela nunca mais ia virar uma mula sem cabeça por conta do fogo dos dois”.

Como que por destino, uma das cordas da viola do velho arrebentou, rasgando seu indicador e fazendo nascer um filete de sangue em seu dedo. A música cessou e o som do silêncio dominou a noite.

“E aí, o que aconteceu?”, perguntou um dos garotos, vermelho pela tensão.

O velho, olhando para os pingos de sangue que manchavam a terra, não respondeu de imediato. Os melhores contadores de história, afinal, são aqueles que conhecem a importância do silêncio.

“Pelada, sangrando e tremendo dentro de uma cova, a Jurema começou a rir. A gargalhada foi ainda mais alta que o grito depois da facada – e de algum jeito, gelou ainda mais minha espinha, mesmo de longe.

O Tião, sem entender nada, começou a gritar que ela era louca. Foi então que ela explicou. A Jurema nunca amou o Tião. Nunca amou as amigas e nenhum homem. Nunca amou a fazenda enorme que os pais dela tinham, muito menos os próprios pais. Só tinha uma coisa que a Jurema amava e os pais dela não podiam comprar. A liberdade.

Ela era obrigada a ir na missa todo domingo, e foi no meio duma celebração que ela desenhou o plano do diabo. Bastou uma saia curta e um olhar nada santo na igreja pra tirar a virgindade do Tião. Com isso, a Jurema virou uma mula sem cabeça, e nunca mais ficou presa em casa. Ela galopava pela noite, assombrava quem quisesse, conhecia os lugares que queria e vivia tudo que nunca tinha vivido. Até o ex-padre cortar o feitiço com a facada.

Ela saiu da cova e agradeceu o Tião pelo favor, dando um beijo nele. Mas o favor era ter transformado ela em mula, não em mulher! Ele me disse que começou a chorar só aí, mas eu aposto que foi antes, chorão do jeito que era. Quando ele perguntou pra onde ela tava indo, largando ele ali, sozinho na noite, a Jurema respondeu que tinha que conhecer o novo padre da paróquia. Depois disso, ninguém nunca mais viu ela”.

O velho colocou suavemente a viola no chão e chupou seu dedo ensanguentado. “E o Tião?”, sussurrou o garoto com uma leve pelugem no buço.

“Ora, ocêis já sabem, ele morreu. O coice foi tão forte que ele não aguentou. Por sorte, eu cheguei a tempo de ele me contar toda a história, senão ninguém ia saber a verdade”.

Uma nuvem encobriu a Lua enquanto, ao longe, um brado agudo, longo e sofrido, ecoou pela floresta, arrepiando os jovens.

As chamas no centro da clareira se extinguiram, e as últimas palavras do velho antes de se retirar vieram da escuridão.

“Eu espero que agora ocêis veja que essa conversa de virar padre é baboseira. O que nois tá precisando é de mais braço na roça, não de palavrinha bonita em sermão”.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.