EntreContos

Literatura que desafia.

A Última Traquinagem do Saci-Pererê (Sacizin)

invisivel

Numa floresta cheia de belezas, mistérios e mosquitos, reuniram-se os personagens do folclore brasileiro. Primeiro, veio Tupã, o anfitrião, organizador do encontro. Logo em seguida, Curupira, Lobisomem e Homem do Saco. Vieram também Saci, Caipora, Mula sem Cabeça e os outros que ninguém conhece. Foram chegando e, por algum tempo, ficaram ali, conversando, relembrando histórias, contando vantagens e anedotas.

— Pisadeira, que saudaaaade, amiiiiga!!! – disse Matinta Pereira, com uma espontaneidade de encher os olhos.

— Tintinhaaaaa!!! – gritou Pisadeira, como se acabasse de reencontrar a irmã gêmea desaparecida na maternidade. – Meu, como você tá magra! Tá tomando Coscarque? Herbalife? Me conta, miga!!!

— Fala aí, Saci, meu camarada! Porra, pensei que tu não vinha mais, merrrmão! – disse Lobisomem, abraçando o velho amigo.

— Ah, ziminino-lobizómi, quase que o Sacizin num vem memo – respondeu Saci. – Que lonjura esse matagal! Sacizin só veio pruquê o ziminino-cacique prometeu comida pra nóis comê e tabaco pra nóis pitá até o fiofó fazê bico! Hahahaha.

As conversas continuaram, em meio ao alarido das aves e ao arrastar de pernas dos grilos no cio. Quase no limite de tolerância do horário, chegou o Boto e, cinco minutos depois dele, Iara Mãe d’Água – ambos com o cabelo molhado (detalhe captado pelos olhos de ave de rapina fuxiqueira da Matinta). Tupã começava a ficar inquieto, consultando o relógio a cada dois segundos. Jaci não havia acreditado muito nessa história de reunião e prometera lhe cortar os bagos caso demorasse ou, principalmente, caso ficasse de papinho furado com “aquela oferecida da Iara”.

— Alguém saber onde estar Boitatá? – o grande índio perguntou, com voz de trovão.

— Óia, ziminino-cacique… a única cobra que o Sacizin sabe onde tá é preta, num é vremeia, não – respondeu Saci. Todos caíram na gargalhada e Iara mostrou-se interessada em saber mais sobre o assunto.

— Bom, sendo assim – Tupã interrompeu a risadaria –, vamos começar. Mim precisar voltar cedo para resolver assuntos importantes – explicou-se, pensando na faca afiada de Jaci. – Primeiro, mim quer saber como andam coisas. Começar por você, Curupira-mirim. O que ter feito de bom?

— Curupira não vai mentir pra cacique – o indiozinho ruivo começou a falar, um pouco constrangido. – Curupira tenta fazer trabalho, mas homem branco ser mais rápido pra destruir do que mim ser rápido pra proteger.

— Vai vê é prucausa desses pézin virado pra tráis, ziminino-curumim, hahahaha – disse o Saci, escancarando a boca cheia de dentes.

— Pelo menos mim ter duas pernas – retrucou Curupira. Todo mundo ficou com cara de “Noza, Gurupira… #pegouPesado”.

— Repete isso, ziminino, repete isso e o Sacizin enfia esse cachimbo no teu olho que fica virado pros dedão dos pé!

— SILÊNCIO – a voz de trovão retumbou na clareira. – Nós não estar aqui pra brigar. Vamos continuar. Você, Lobisomem, como andar coisas?

— Porra, Tupã, agora sabe que tu tocou num assunto delicado? – Lobisomem respondeu, desviando o olhar e coçando a cabeça. – Porra, eu até tento dar um sustinho aqui, outro ali de veixiz em quando, mas a verdade merrmo é que eu tô mais parado que Saci de patinete, tá ligado? – deu um tapa nas costas do amigo, que lhe estendeu gentilmente o dedo médio em resposta. – Porra, aí… muito tiroteio lá onde eu moro, não dá pra ficar nessa de se transformar em lobo, não.

— Bah-guri-tri-capaz… mas não é só bala de prata que te mata? – perguntou Salamanca do Jarau (é… essa não é das mais famosas).

— Porra, minha filha, tu tá sabendo que eu moro no Rio de Janeiro? Ali tem bala de chumbo, bala de prata, bala de tudo quanto é caralha de fuzil, submetralhadora, AR-15 e a porra toda. Não dá pra ficar dando mole, não. Além do mais, depois dessa moda de Crepúsculo, Lua Nova e o cacete, esse lance de lobisomem tá numa outra vibe, tá ligada? Tô deixando até o abdômen trincado, saca só – Lobisomem mostrou a barriga tanquinho para Salamanca, mas foi Mãe d’Água quem quis conferir mais de perto.

— Isso!!! Isso, Lobisomem-mirim-guaci! Era justamente nesse ponto que mim queria chegar! – Tupã animou-se por um instante. – Nós estar perdendo identidade. Nós estar sendo trocado por lendas estrangeiras. Nós estar perdendo moral, não assustar mais ninguém, não ser respeitado por mais ninguém! Isso precisa mudar!

Seguiu-se um silêncio de repartição pública em emenda de feriado. Depois, começou um burburinho que foi aumentando e aumentando, até se tornar balbúrdia generalizada. Quando a clareira estava mais zoneada do que protesto pacífico de Black Bloc, Tupã pediu silêncio novamente e, quando os ânimos esfriaram, uma voz miúda se fez ouvir:

— Tu sabes que muito te respeito, Tupã – disse o pequeno Sanguanel, empoleirado num galho. – Mas não acho que estamos perdendo o respeito assim como tu dizes, não.

— Você ser uma das lendas mais importantes do folclore brasileiro e mim respeitar muito sua opinião, Saci! – respondeu Tupã.

— Obrigado, Tupã – disse Sanguanel, confuso. – Mas eu… eu não sou o Saci.

— E nem ser lenda importante do folclore brasileiro! HUAHUAHUA – Tupã berrou com satisfação. – Agora cala a boca, Pikmin! Como mim ia dizen…

— Mim também achar exagero dizer que estamos perdendo respeito – Curupira tomou coragem e interrompeu, dizendo o que pensava (raramente uma boa ideia, seja numa reunião de condomínio, da empresa ou de seres mitológicos).

— Curumim ter certeza? – Tupã perguntou, sarcástico. – Pois foi por sua causa que mim resolveu fazer reunião.

— Por minha causa? – Curupira ficou mais perdido do que calcinha em lua-de-mel.

— Por causa de desenho que caras-pálidas fizeram. Antes, na visão de homem branco, Curupira temido, demônio da floresta. Hoje em dia…

— Que desenho ser esse, grande Tupã? – o indiozinho perguntou, apreensivo.

— Esse aqui! – Tupã estendeu o celular na direção do Curupira que, horrorizado, observou a tela.

sacizin

— E Tupã reagir com “Haha”? – Curupira não sabia se estava mais indignado ou envergonhado.

— Na ocasião, mim achar engraçado. Mas, depois de pensar bem, mim concluir que não pode ficar assim. Temos que fazer alguma coisa para caras-pálidas lembrarem que nós não estar pra brincadeira. Pregar boa peça neles, retomar respeito de outras épocas.

— Olha, Tupã – disse o Boto –, tudo isso que você está falando até que faz algum sentido, mas, tipo assim: quem te nomeou o manda-chuva da parada? Na boa, mas nem fazer parte do folclore você faz. Acho que a gente precisava de um líder assim, mais inteligente, carismático, bonitão e tal, tipo… eu.

— Boto poder invocar raio do céu e fazer peixe fora d’água virar churrasquinho?

— Ãhn… invocar raio, não, mas…

— Quando Boto puder, Boto será líder. Até lá, líder sou eu. Agora, sem mais conversa fiada. Jaci estar esperando e mim ainda precisar comprar pão. Nós se encontrar aqui de novo, daqui um ano. Recuperem honra!

Todos foram embora, pensando no que poderiam fazer.

***

Um ano depois, estavam todos lá de volta outra vez.

As caras de paisagem denunciavam a falta de êxito na empreitada. Olhavam para as árvores, para as folhas e para as flores. Olhavam para todos os lugares, menos para os olhos de Tupã. Conforme ia perguntando sobre os feitos de cada um, a decepção se avolumava. Boto arrastou mulheres para a água. Iara, homens. Sanguanel levou crianças para a árvore e lhes deu mel, Matinta agourou casas, Pisadeira não fez quase nada, pois, depois da invenção do Luftal, seu trabalho fora dificultado um bocado. Nada de novo. O único empolgado parecia ser Curupira:

— Vieram caras-pálidas com serra-elétrica. Mim imitar animal feroz, caras-pálidas ficar com medo. Mim assoviar, e caras-pálidas perdidos na floresta! Antes, mim deixar eles lá, pra encontrar saída depois. Mas agora, depois de desenho, mim não ser tão bonzinho. Mim assoviar e gritar e conduzir caras-pálidas até árvore onde onça-pintada esperava, faminta. Aqueles caras-pálidas nunca mais cortar árvore…

— Aqueles, não – ponderou Tupã, num longo suspiro. – Mas, e os outros?

— Outros voltar com espingarda e mais serra-elétrica. Matar onça e cortar árvores. Mim assoviar e gritar e imitar animal, mas não adiantar nada. No final, mim só assistir e chorar – o indiozinho abaixou o olhar, deixando escapar uma lágrima.

— Mais alguém querer contar o que fez? – Tupã perguntou para cumprir tabela, já resignado.

— Eu tava queto pruque num gosto de ficá me agabando, mas o Sacizin fez uma traquinági das boa, ziminino-cacique – disse o Saci, pitando o cachimbo com olhar matreiro. – Sacizin fez curso de informática, hackeô o Facebook e o Zap-Zap, e vazô a senha de todo mundo!

O furdunço foi instantâneo. Todo mundo suando frio e entrando apressado nos aplicativos para apagar conversas e posts comprometedores. Lobisomem foi o único que achou graça e parabenizou o companheiro:

— Porra, Saci! Tu é foda, merrmão! Porra, era pra fazer uma traquinagem, não pra começar a terceira guerra mundial, parceiro! Caaaaralho, maneiro!

— É mentira! Num foi essa a peça do Sacizin, não! Hahahaha – o Saci ficou um bom tempo gargalhando e os outros queriam matá-lo, ao mesmo tempo em que respiravam aliviados. Quando recuperou o fôlego, ele disse: – A traquinági foi isso aqui, ziminino – do bolso do calção, tirou uma pedra preciosa, radiante como um sol azulado.

— Onde Saci conseguir essa pedra? – Tupã perguntou, com um receio nada peculiar transparecendo na voz.

— Ziminino-cacique se alembra da bruxa Yago-Baba-Baratuxa? – Saci perguntou, soltando fumaça e se deliciando com o medo causado pela simples menção daquele nome. – Uma vez ela perdeu (ou alguém perdeu pra ela), uma varinha mágica. Toda feita de ouro e pó de estrela, coisa bunita como só ixistia antigamente, ziminino. O Sacizin ajudou ela a achá. Faz tempo, mas o Sacizin alembrava. E ela também. Num sô de cobrá favor, ziminino, mas dessa vez, num teve jeito. Fui lá, na sétima cachoêra que nasce na sétima montanha antes do fim do mundo. Pedi o que precisava. E tô aqui cá pedra.

— E o que… e o que pedra fazer, Saci-guaci?

— Essa é a pedra do esquecimento, ziminino-cacique. Ela vai apagá a gente dessa realidade…

— Porra, Saci! Tá maluco? Era pra aprontar pra cima duixiss humanuixiss, não da gente, porra! – Lobisomem se desesperou. Os outros permaneceram num silêncio incrédulo.

— Eles num vão se alembrá mais da gente. Vão isquecê que um dia ixistiu magia aqui pertin, nessa terra boa, e vão sonhá cada vez menos. Vão se apegá cada vez mais nas coisa estrangera, e achá que só é bom o que vem de fora.

— Porra, Saci… então pra eles não vai mudar porra nenhuma, caralho!

— Por isso a gente precisa ir’imbora, ziminino-lobizómi. Esse mundo num é mais pra gente. Insistí em continuá é pregá peça na gente memo, todo dia. Eu sei que todo mundo qué que volte a sê como era antes, mas isso é sonhá com passarinho. Num vai acontecê, ziminino. O melhor é nóis voltá pro nosso lugar. E dexá isso aqui pro asfalto e pro concreto. O azar é deles.

— Magia já estar feita, Saci-Guaci?

— Ainda não. Pra ativá o feitiço, precisa todo mundo sigurá a pedra e despois vim um raio bem forte, desses de fazê churrasquinho. Sabe do que eu tô falando, né? A decisão é sua, ziminino-cacique…

***

Juliana assustou-se com o clarão que veio repentino, iluminando o apartamento com a intensidade de um milhão de holofotes. E assustou-se ainda mais quando, logo em seguida, um trovão de apocalipse fez tudo tremer feito terremoto. A energia acabou e Gabriela começou a chorar no berço. Juliana tomou a filha nos braços e teve o ímpeto de contar uma história para acalmá-la – a história que escutara da avó, havia muito tempo, sobre um negrinho peralta que fumava cachimbo e pulava numa perna só. Mas, por algum motivo, não conseguia se lembrar, por mais que tentasse. A luz só voltou de madrugada, quando mãe e filha dormiam um sono sem sonhos.

No dia seguinte, o mundo pareceu um pouco mais cinza para todos.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.