EntreContos

Literatura que desafia.

Ô, Seu Moço (Zé do Arimatéia)

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Ô, seu moço, vamo chegá. Ocê tá bão? Pode i entrano. Vamo assentá? Ocê aceita um pãozim de queijo, um cafezim, uma broa de mi? Tá quentim, cabô de saí do forno. Isso, prova um. Eu num sabia que ocê vinha não, senão tinha feito umas coisa diferente. Mas, fala, como é qui tá a famía? Sua muié tá boa? E as criança? Deve di tá tudo crescido, né? Qui bão. Ah, eu ando meio doente. É uma tar duma tosse qui pareceu e num qué sumi. Uai, eu num provei não, é bão? Vô tentá. Não, o qui eu tomo é chá cum as foia do limão. Minha vó qui dizia qui era bão. Não, num tem ninguém pra fazê companhia mais. As criança cresceu tudo e foi-se embora. Depois que a Dulcinéia morreu eu fiquei sozinho. Às veiz bate aquela sodade que aperta o peito dum jeito, seu moço, qui ocê nem imagina. Eu gostava era dimais daquela muié. Mas ocê já terminô o café? Não, toma mais um poco, sô. Ocê qué leite? Tem leite isquentano, ocê qué? Pera qui eu vô buscá. Uai, qui isquisito. Esse trem num tá bão não. Óia procê vê, deixei o trem aqui isquentano e já azedô. Num tá certo isso não. Ocê acha qui foi Saci? Ah, ocê num credita nessas coisa? Mais eu credito qui eu já vi. Num ti contei não? Faiz tempo. Eu era piqueno ainda, morava lá pras banda da Rosêra. Era uma casa grandona, tinha um terrerão assim na frente, bonito qui ocê tinha que vê. Era. Era dum primo. Tinha chegado época de coiê café, i como era só ele sozinho, custumava chamá o povo pra ajudá. Naquele tempo a gente ficava ino de um lugá pro otro atrás de serviço. Chegava di noite, juntava aquela povaiada pra prozeá na varanda. Tinha um véio preto qui o povo dizia qui era bruxo. Mais o homi quando danava di bebê, pegava uma viola e cantava uns modão bunito, qui todo mundo cantava junto. Ah, era bão dimais. Mais, essa veiz já tava di noite. E era época de coresma. Eu alembro qui tinha poca gente na varanda, acho qui o povo tinha ido na missa. A gente tava prozeano quando passô uma ventania forte qui o trem balançô teiado, balançô arvre, i era cavalo qui curria num disispero só. Quando vê, o Zé Bento juntô num cavalo, cum medo do bicho machucá, e gritava dum lado e batia do otro, mais o bicho num sussegava. Nisso eu oiei assim por trais duns matinho e vi o trem oiano de lá pra cá. Naquela iscuridão ocê só via era a toca vermeia e o sorrisão marelo. Eu sei qui do memo jeito qui veio, o trem foi imbora. E era rabo de cavaco trançado, e era leite azedo, uma bagunça danada. Ah, o povo ficô num susto só. Num sei se viro não, mais eu vi. O trem era feio dimais. Ocê já terminô de comê? Não, come um cadim mais. Óia, a broa tá uma delícia, prova. Tem quejo tamém, qué? Eu que fiz hoje di manhã. Tá bão sô, prova. Mais, falano nesses assunto, ocê orviu a história da fia do seu Arfredo? Não? Uai, diz qui ela tava isperano o ônibus pra i pra cidade i um trem correu atrais dela. Ela fala qui tinha uns óio vermeio, uns cabelo meio tingido, um trem meio isquisito. Caipora? Eu num sei, já orvi já. Uai, ele contô memo. Disse qui orviu um baruio di porco gemeno e foi oiá, tava o bicho lá, mamano o leite da porca. É, uai. Eu num gosto dessas coisa não. Mais o trem é feio. Procê vê, conteceu a mema coisa cu Tião. O Tião da Rosa. O Tião, sô, fi do véio Arlindo. Aquele qui mora perto do miarar. É. Ele tava tocano gado di noite, época de coresma. Eu já tinha falado pra ele: “Tião, ocê para cum isso qui isso num é época di ficá mexeno cum essas coisa”. I ele ficava provocano. Ainda respondia: “Esses trem num existe” e dava uma golada naquelas pinga dele. Aí, dessa veiz ela tá tocano gado, quando vê, ele viu uma coisa branca perto do mata-burro da Carmelina. Como o bicho é meio cego, teve qui proximá pra vê direito. Nisso ele falô qui era uma noiva, tudo vistida di branco. Como ele num credita nessas coisa, ele foi perguntá pra vê si num tava perdida. Diz qui a muié foi entrano pro meio da mata, e o Tião gritano pra ela, e ela ino imbora. Nisso o Tião entra pro meio do mato e escuta ela chorano lá pro meio. Anda prum lado e pro otro e quem diz qui acha esse trem? A muié sumiu. Uai, ocê num ficô sabeno não. Teve um carro qui capotô aqui uns tempo pra trais qui tava levano uma muié pro casamento dela. Só pudia sê. Quem via muito dessas coisa era o Zacaria. Aquele meio doido qui custumava andá cum saco nas costa. Esse. Mais esse num tinha medo não. O povo falava qui ele custumava pará e ficá lá cunversano cus ispirito. Uai, ele ficava andano nessas istrada di terra era di madrugada memo. Di veiz im  quando, ele dormia pra essas berada di barranco. Tinha medo não. O povo qui às veiz assustava cum ele achano qui era assumbração. Uai, uma veiz a gente tava na venda do Joãozinho, quando ele chegô, pidiu uma cachaça i cumeçô a contá umas história. Ah, quando ele cumeçava a contá, o povo tudo parava pra orvi. Eu alembro qui ele contô duma veiz qui ele tava ali no trevo do Sítio das Abelha, quando bateu sono. Ele incostô ali naquela tapera véia qui tem ali e foi pra durmi. Nisso qui ele incostô, veio um trem i impurrô ele. Ele abriu os óio i nada. Depois o trem vortô i impurrô di novo. Ocê acredita qui ele teve qui saí di lá e i durmi nu barranco qui o trem num deixo ele ficá lá? Ah, o povo conta qui morava um véio lá qui num gostava di visita. Não, morreu já faiz uns cinquenta ano. Às veiz ele tá lá ainda. Às veiz ele ainda num gosta di visita. Lobisome? Já vi já. Não, vi memo eu num vi, eu já orvi. E num era cachorro não qui eu cunheço uivo di cachorro. Eu tava vortano da venda do Joãozinho, e tava ali na artura do Barrero, quando orvi aquela rosnação, aquela uivação. Eu achava qui era cachorro memo no começo. Aí eu cumecei a catá umas pedra qui tava no chão. Eu pensei: “Si esses trem avançá eu taco pedra”. Mais na hora qui eu parei pra iscutá direito, seu moço… Ah, num era cachorro não. Era uns uivo assim grosso, misturado cum gemido de gente, um trem isquisito qui ocê tinha di vê. Aí eu oiei pru céu e vi qui era lua cheia. Arrumei uma carrera desse Barrero inté aqui. Uai, as barra da carça rasgô foi tudo. Butão da camisa num tinha mais, qui ficô preso prus gaio. Ah, se aquele trem resorve corrê atrais di mim, ia sê só istória. Ummm? O quê? Ah, não, esse trem di sereia num tem não. Mula sem cabeça também nunca vi. Curupira o povo fala qui é outra coisa. É. Num tem pé virado pra tráis não, tem é uns pé di cabrito e dois chifre na cabeça. Diz qui ele corre atráis das minina qui anda sozinha di noite.  Uai, será qui num foi esse trem qui correu atráis da fia do Arfredo? Vô perguntá pra ele depois. Ocê já terminô? Uai, não, pera, num vai inda não, a prosa tá tão boa. Dexa eu só contá uma urtima istória. Ocê já tá cum medo? Não, essa cunteceu nessa casa. Foi. Eu tava durmino quando um trem me acordô na cuzinha. Eu levantei pra vê o que qui era. Cheguei lá, tinha uma véia fazeno café. Eu acho qui era a véia qui morava aqui antes. Diz qui ela nasceu i morreu nessa casa. Di veiz in quando eu iscuto uns baruio pra cuzinha, pro banhero. Não, ela dormia no quarto qui era das criança. Di veiz in quando, antes di durmi, eu iscuto ela rezano. É. Ocê ficô cum medo? Vai imbora já? Ocê num qué posá não? Já tá iscuro. E é lua cheia. E é tempo de coresma tamém. Ocê pódi ficá no otro quarto se ocê quisé. A véia? Será qui ela num vai gostá? Ocê pode durmi na sala intão. Si bem qui ela custuma andá pela casa di noite. Uai, intão tá bão. Mais, ocê toma cuidado na hora di i imbora que o povo anda falano di um padre qui anda pareceno pra essas banda. Agora, si ocê vê a mãe do oro, ocê num isquece di perguntá. Quarqué coisa a gente dividi. Ocê tamém. Vai cum Deus, seu moço!

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.