EntreContos

Literatura que desafia.

Os Irmãos da Família Galvão (Allan King)

Três irmãos habitavam a casa da família Galvão. Eram eles, em ordem de nascimento: Gabriel, Igor e Daniel. Contando com os seus pais, cinco almas chamavam o lugar de lar mas, há poucos meses, apenas quatro lá viviam. Gabriel, ainda na adolescência, envolvido com drogas e álcool, fugira de casa e, empoleirado em alguma boca de fumo, não fazia questão de ser encontrado, para o desgosto dos pais.

Em uma tristonha tarde de Domingo, os pais saíram para fazer as compras da semana. Não havia necessidade de levar os filhos que, apesar das últimas semanas conturbadas, já sabiam se comportar. Afinal, Igor havia acabado de completar dez anos de idade e Daniel, sete.

Na casa, Igor manipulava o barbante com grande lentidão, para compensar os dedos trêmulos.

– Por favor me perdoa. Por favor me perdoa…

Ele repetia o mantra por entre os lábios quase fechados; sussurros jogados ao vento em tom tão baixo que apenas ele sabia o que falava. Imaginava que Bella fosse a única ali a ouvi-lo e, sendo uma gata, jamais o entenderia. Mas insistia em repetir o mantra ao passo que enrolava o barbante ao redor do pescoço do animal de estimação, sem estar ciente dos olhos atentos do irmão mais novo que o observava do alto da escada.

– Por favor me perdoa. Por favor me perdoa…

O nó da forca estava firme. Bella ronronava com os olhos cerrados, sem suspeitar do que acontecia. A outra ponta do barbante já estava amarrada ao lustre da sala – Igor havia tomado o cuidado de não deixar que a gata pudesse se agarrar a alguma superfície, anulando assim suas chances de se salvar do enforcamento.

Levou Bella até o centro da sala nos braços e largou-a sem pestanejar. A criatura arregalou os olhos e, ao descobrir que não havia encontrado o chão, começou a se debater desesperada em uma confusão de pelos brancos e bem cuidados. Sua mãe abriu a porta da casa dez segundos depois. Ao ver a cena largou as sacolas de compras que carregava – quebrando dois vidros de milho em conserva – e soltou um grito de horror.

A gata, assustada e confusa, viu-se salva segundos depois, aconchegada nos braços da sua estimada mãe, que chorava copiosa, ajoelhada no chão. O pai se apressou em acudi-la. Igor permanecia imóvel – os braços pendentes ao lado do corpo, os olhos sem vida fitando a cena.

– Eu não aguento mais esse demônio. Eu não aguento mais! O que aconteceu com você? – Sua mãe vociferava, apertando Bella ao peito – O que diabos aconteceu com você, seu retardado? Não, eu não quero mais ver ele na minha frente. Tire ele daqui!

Os gritos da mãe ecoavam nos seus ouvidos, mas Igor tentava sufocá-los ao continuar repetindo o seu mantra entre dentes. Sentiu a orelha queimar quando o pai o segurou por ali e o carregou até o seu quarto. No caminho, notou os olhos flamejantes do irmão espiando-o pela fresta da porta semiaberta do banheiro.

O pai jogou o filho de qualquer forma quarto adentro, caminhando a passos largos até a televisão.

– Eu vou tirar os cabos do seu videogame. Você vai ficar aqui de castigo, pensando no que fez. Mas que droga Igor! Você quase matou a Bella! Onde você estava com a cabeça?

Igor, ciente de que o silêncio era mais perturbador do que uma resposta malcriada, permaneceu calado. Sentou-se na cama quando ordenado, assistindo o pai fazer o mesmo.

– O que deu em você, ein? Não bastasse o seu irmão, que parecia um demônio, agora você que parece ter o capeta no corpo! Você nunca foi assim, tão malvado!

O filho não esboçou reação. Com um suspiro frustrado, o pai e se retirou do quarto, chaveando a porta por fora.

Igor não se importava com a falta do videogame, desde que o pai não descobrisse a faca que escondera debaixo do travesseiro. Deitou-se na cama e tateou o metal afiado para confirmar sua presença ainda ali, então pôs-se a esperar: os olhos fixos na janela aberta para o céu, o rosto adornado pela indiferença que o dominava há algumas semanas. Por vezes sua boca estremecia e sua visão tornava-se aquosa, mas nenhuma lágrima desceu-lhe pelo rosto. Se assim o fizesse, poria tudo a perder. Não havia segundas chances para o seu plano.

Não notou quando caiu no sono, mas lá fora o sol já se escondia por trás das montanhas que circundavam o condomínio.

********

Acordou assustado. Lembrava-se de um pesadelo, mas não dos detalhes. Quando abriu os olhos, deparou-se com outra escuridão, que não conseguia dizer se era pior ou melhor do que manter os olhos fechados: alguém havia apagado a luz do seu quarto, tornando tudo sombras e tons azulados da luz da lua que se esgueirava pelas frestas da janela, por onde um vento frio uivava.

Em meio a sempre-presente música noturna de grilos e cigarras, um som lento e moroso se fez ouvir. Um chinelo se arrastava no assoalho de madeira. Eram passos cansados mas constantes e, agora que Igor prestava atenção, estavam lá desde que acordara, alguns momentos atrás. Conforme os chinelos traçavam o seu caminho pelo corredor lá fora, seu som tornava-se mais nítido. Aguçando os ouvidos, Igor pôde distinguir um som baixo que os acompanhava. Sentiu-se ouvindo algo que não deveria ouvir: um resmungo ao fim de um passo; uma praga ao fim de outro.

Igor divisou sombras do outro lado da sua porta, iluminada tão levemente de azul pela luz do luar. O que quer que caminhava lá fora decidiu que ali era o seu objetivo final. As sombras pararam de se mover – duas manchas negras e largas, paradas diante da sua porta, como se esperassem que ele a abrisse e as convidasse para entrar.

Em um átimo, soube quem estava no outro lado. Era ela. Finalmente. Pôs a mão sob o travesseiro procurando a lâmina que já havia se habituado a sentir antes de dormir. Seu corpo inteiro gelou quando não a encontrou lá. Ouviu – e então viu – a maçaneta da porta girar em um movimento lento e trêmulo. Podia jurar que o seu pai havia trancado o quarto, mas a porta já se abria, e agora ela projetava uma das suas pernas quarto adentro.

Igor retomou a busca com fervor. Pôs as mãos sob a colcha, então desceu e se agachou especulando que, por motivos desconhecidos, a faca havia encontrado o seu caminho para debaixo da cama. Não a encontrou lá mas, de onde estava, notou as duas pernas envelhecidas, agora completamente dentro do quarto. Calçavam sandálias que o lembravam da sua falecida avó. O vestido descorado – um pano costurado de qualquer forma para fazer as vezes de roupa – terminava no meio das canelas.

Sem faca e sem esperanças, Igor levantou devagar, até conseguir ver a criatura na sua totalidade. Diante dele – ali, do outro lado da sua cama – uma velha o fitava com olhos de crocodilo, pronta para julgá-lo. Era idosa do pescoço para baixo, e crocodilo do pescoço para cima; a pele enrugada cedendo desnivelada para as escamas verde-musgo que lhe cobriam a face. Uma barriga flácida se projetava para frente sob o vestido malfeito e, sobre ela, dois seios se espalhavam para os lados. A criatura falou entre os inúmeros dentes afiados que adornavam a sua extensa boca reptiliana.

– Uquê cê tá procurano, fio? Perdeu águma coisa?

A voz era humana, apesar do tom agudo peculiar, e em nada combinava com o seu rosto cheio de escamas e com seus olhos verdes e fendidos. Quando a velha notou que Igor não respondia, tratou de arrastar novamente os chinelos na direção do menino, traçando uma volta lenta ao redor da sua cama.

– Ôce sabe quem sô eu?

– Sim. Você é a Cuca.

Ele respondeu, enfim, surpreso por não ter gaguejado. Notou que a porta do seu quarto permanecia aberta, mas suas pernas não ousavam se mover.

– E ocê sabe uquê eu vim fazê aqui?

– Você veio me buscar.

Ela o alcançou. Agachou-se, nivelando o seu rosto de crocodilo com o rosto assustado do rapaz na sua frente. Quando abriu a boca, Igor pôde sentir o hálito ocre de saliva e sangue.

– E purquê eu vim ti buscá?

– Por que eu fui uma criança má. Por que eu desobedeci a minha mãe.

Alguns músculos no rosto da Cuca se moveram, como se ela tentasse sorrir. O rosto impassível de crocodilo se afastou do dele, e Igor viu sua mão cadavérica estendida na sua direção.

– Intão num tenho qui mi explicá. Venha. Ôce vai tê uque merece.

– Eu quero fazer uma troca.

O garoto não segurou a mão enrugada e, pela primeira vez, ousou fitá-la nos olhos. Podia ver apenas um dos olhos da Cuca que, com o rosto virado de lado, mais expressava curiosidade do que irritação.

– Ocê qué fazê uquê?

– Uma troca. Eu quero que você me leve, mas que traga o meu irmão de volta.

– Ô seu irmão?

– Sim. Minha mãe falou que ele se comportava muito mal, e que a Cuca levou ele para um lugar muito longe. E que eu não ia mais ver o meu irmão. Só que minha mãe ficou muito triste com isso. E meu pai também. Eles não estão nem aí para mim, mas gostavam muito do Gabriel. Eu também gostava dele. Ele era o meu melhor amigo. O meu único amigo.

Um silêncio sepulcral se seguiu, que nem grilo nem cigarra ousaram quebrar. Os olhos da Cuca agora inspiravam seriedade, e Igor jurava poder ver ali também um tom de ódio.

– Pegue minha mão, garoto. Vô te levá pru teu irmão.

Igor relutou.

– Você vai me deixar ver o Gabriel uma vez antes de trazer ele de volta?

A cuca se agachou novamente, virando o rosto de lado mais uma vez, aproximando os olhos fendidos dos olhos da criança.

– Ô muleque. Ôce tava tão preocupado cô atazaná a sua mãe, que nem notô as coisa direito. Não é cô Gabriel qui ocê tem que se preocupá. – E, levantando-se e estendendo novamente a mão, continuou – Tu se preocupô cô irmão errado. Agora vem. Tu vai tê o tempo que fô pra falá cô Gabriel.

Resignado, Igor segurou a mão da velha, deixando-a levá-lo pela porta que, por costume, fechou ao sair.

********

Na manhã seguinte, pai e mãe foram ter uma longa conversa com o filho malcriado. Ao abrir a porta, encontraram Daniel sentado sobre a cama de Igor, segurando uma faca que pendia esquecida nas suas pequeninas mãos. O quarto havia adquirido uma tonalidade vermelha, com todo o sangue respingado nas paredes e no chão, e acumulando-se em uma poça na cama. O corpo inerte de Igor dormia logo atrás dele, perfurado incontáveis vezes.

Em meio ao grito e ao desespero, ninguém ouviu o mantra que o garoto repetia entre dentes.

– Ele tava deixando a mamãe triste. Ele tava deixando a mamãe triste…

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.