EntreContos

Literatura que desafia.

O Lobisomem do Pau Miúdo (Poetamaldito)

Em outubro de 1965 saí do Rio de Janeiro para morar em Salvador, na Bahia. Sem trabalho e sem dinheiro para o aluguel, a única moradia que consegui foi uma palafita no Alagados, construída com restos de madeira recolhidos em Água dos Meninos.

Nesta época, Salvador estava crescendo: cada um construía onde e como queria, resultando em ruas tortas e sinuosas, muitas das quais resistem até hoje.

Por esse motivo, a ideia do prefeito, já que não dava para impedir as invasões, era torná-las ordenadas e criar ruas paralelas de calçadas alinhadas, como devem ser.

Foi numa dessas que conheci Cesar, um sujeito que até hoje é meu amigo. Foi ele que me avisou sobre o prefeito Nelson de Sousa estar distribuindo lotes para evitar a ocupação desordenada da cidade.

Cesar era motorista do prefeito e tinha um caso com a filha do homem. Não foi difícil incluir meu nome na lista dos “sorteados”. Foi assim que fui parar no bairro do Pau Miúdo em Salvador, onde conheci o lobisomem.

Morei lá por vinte anos, tempo o suficiente para ver um casal de vizinhos ter sete filhas mulheres e um oitavo filho homem. Nem passou pela minha cabeça que essa combinação resultaria em lobisomem, que até então eu só conhecia de um filme em preto e branco de 1941.

Para falar a verdade, também não desconfiei da palidez e da magreza da criança, o Guilherme, ao vê-lo com a mãe, dona Shirley, quando coincidentemente subimos juntos a ladeira do Pau Miúdo.

O tempo passou e quando Guilherme fez treze anos, na primeira sexta-feira de lua cheia após o aniversário, coisas estranhas começaram a acontecer no bairro, como o aparecimento de porcos e galinhas mortos e estraçalhados, além de uivos que lembravam lobos. Recusávamo-nos a crer em lobos no Pau Miúdo, e sugeríamos entre nós que, assim como os gatos, os cães também poderiam ficar histéricos durante o cio.

É certo que há coisas no mundo que fogem a nossa compreensão. Por mais que queiramos achar que não existem, estão lá para nos mostrar que certas lendas são reais e que a intenção dos antigos era nos alertar, não assustar as crianças como pensávamos.

Quem chamou minha atenção para a possibilidade de o Guilherme, o filho da dona Shirley, ser um lobisomem, foi dona Zilda, outra vizinha, uma viúva que morava só com o filho e criava porcos para vender perto do Natal. Ela morria de medo de o lobisomem atacar seus porcos, coisa que nunca acontecera, ainda.

Certo dia, enquanto voltava para casa após a meia-noite, me dei conta de que era lua cheia. Não sei se por medo ou se realmente vi, mas notei alguém ou alguma coisa me seguindo.

Assustado, corri em direção a uma casa que estava para alugar. Forcei a entrada pela porta de madeira e assim que entrei ouvi o ruído das garras do lobisomem querendo entrar também e acabar comigo.

“Tô fudido”, pensei.

Essa situação durou a noite toda e o que mais me indignou é que nenhum vizinho aparecia para socorrer. Com o dia quase amanhecendo, olhando por uma das frestas vi dona Zilda no quintal cuidando dos porcos, duas casas depois dessa que eu estava. Em um ato de egoísmo não a alertei sobre o lobisomem. Na minha cabeça, se ela o atraísse ele me deixaria em paz e eu sairia dali vivo. Se era para alguém morrer, que não fosse eu. Morresse dona Zilda ou seus porcos, comidos pelo lobisomem.

A estratégia pareceu dar certo. Consegui ver quando o lobisomem avistou dona Zilda e, passando por trás da casa onde eu estava, seguiu em direção ao quintal da velha.

Foi nessa hora que senti remorso e me arrependi. Tomado por um ato de heroísmo estúpido, peguei um pedaço de pau que eu julgava forte o bastante para bater no bicho e saí da segurança do abrigo.

Corri em direção da casa para tentar socorrê-la e qual não foi minha surpresa ao deparar-me com o filho de dona Zilda se esfregando na lama do chiqueiro, enquanto voltava a se transformar em gente.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.