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Literatura que desafia.

Vitória-Régia – A Verdadeira História (Hipólita, Rainha das Amazonas e do Amazonas)

Existem muitas e muitas versões desta história. Esta, que vocês vão ler agora, é a verdadeira, a que descreve o acontecido tal e como se deu. Eu tenho certeza que esta é a verdadeira história, pois é a que meu pai me contou. E ele sempre diz a verdade.

 

Flutuando nas águas do rio, As imensas folhas, verdes como esmeraldas, brilhavam à luz do luar. Entre elas floresceram flores brancas de selenítica beleza. Um pássaro caminhava sobre as folhas, atentamente, como se procurasse alguma coisa.

Ou alguém.

🌑 🌒 🌓 🌘 🌕 🌖 🌗 🌘

 

Essa história se passou há muito tempo. Querem saber quanto exatamente? Não poderei lhes dizer, pois o tempo em histórias é diferente, não se mede em anos nem segundos, se mede em quantos histórias antes de nossa História se passou a história, coisa difícil de se medir. O fato é que há muitas histórias para trás havia uma aldeia na floresta amazônica, e nela vivia a jovem índia Naiá, a mais bela da tribo, filha do cacique Anajé. Quando Naiá chegou na idade de casar, todos os belos rapazes da tribo dela e das tribos vizinhas vieram pedir sua mão, e a todos ela rejeitou.

– Não me casarei de repente, só por casar – disse ela –, sou filha do chefe, posso escolher com calma aquele que será meu futuro marido.

O pai respeitou a vontade da filha. Afinal, não havia tanta pressa.

 

🌑 🌒 🌓 🌘 🌕 🌖 🌗 🌘

 

Uma noite, Naiá foi tomar banho sozinha no rio. Tinha acabado de entrar na água, quando viu uma outra jovem no raso. Era uma moça muito bela, de cabelos negros com reflexos azuis. Naiá falou com ela, a moça olhou e sorriu, mas não respondeu. A filha do cacique fez muitas perguntas, quem ela era, de qual aldeia, quem eram seus pais, mas não obteve nenhuma resposta: a moça sorria, e às vezes ria, os dentes brancos brilhantes, os olhos misteriosos. Naiá nadou até a moça, que fugiu, de repente sumiu.

Desde esse dia, Naiá passou a ir todas as noites ao rio. A moça sempre estava lá, e nunca respondia nenhuma pergunta, só sorria, ria e nadava. Às vezes, a moça acenava para Naiá, mas quando ela tentava nadar para perto dela, a jovem do rio nadava para longe. A moça nunca dizia nada, nem uma palavra, apenas sorria e olhava para Naiá. Elas ficaram nesse jogo, todos os dias, e a filha do cacique foi ficando cada vez mais fascinada com aquela moça.

Duas semanas depois da jovem ter aparecido, Naiá estava louca de amor por ela; seu coração não era mais seu, ele agora pertencia à moça desconhecida. Ela estava amando, e tinha se tornado uma escrava desse amor. Como bem sabem todos que já amaram e amam, o amor é um tipo de escravidão do qual nunca queremos nos libertar.

O coração da filha do cacique se tornou escravo do amor que ela ardia pela bela moça do rio: todos os seus pensamentos eram para ela, todo seu afeto e ternura, a filha do cacique só respirava, só vivia, só existia para a moça misteriosa.

O pai de Naiá bem que notou um novo brilho nos olhos da filha. Ele ficou todo entusiasmado, pensando que ela já tinha escolhido um marido, mas sua alegria durou pouco, pois o tempo passava e a moça nunca que contava o nome de seu escolhido, o pai não entendia o que estava acontecendo, não sabia que alegria silenciosa era aquela, que amor era aquele que não ousava dizer seu nome.

Um dia, chegou um rapaz querendo falar com o cacique. Era Pité, um conhecido guerreiro e caçador de uma aldeia não muito longe dali. Mais um pretendente querendo se casar com a filha do chefe da aldeia. Mas esse era diferente dos outros: mais garboso, belo, forte, bem-educado, parecia o melhor candidato que já havia aparecido.

– Uma vez vi a filha do senhor de longe. Na hora soube que tinha que ter por esposa. Nunca mais moça nenhuma ocupou meus pensamentos. Juro que vou fazer ela a mulher mais feliz de todo o mundo.

Naiá foi chamada, conversou com gentileza com o rapaz, mas disse que não podia casar com ele.

– Não é o fim, Naiá – falou Pité, magoado –, não vou desistir até você aceitar casar comigo.

Depois de dizer isso, ele partiu da aldeia, com o coração magoado.

O pai ficou furioso, quis uma explicação para a decisão da filha.

– Esse foi o melhor rapaz de todos, por que você o rejeitou?

Ela pensou um pouco, então respondeu:

– Ele tem pernas compridas demais. E pés muito compridos também – acho isso esquisito, não gosto de homem assim.

 

🌑 🌒 🌓 🌘 🌕 🌖 🌗 🌘

 

O tempo passou, mais e mais candidato apareceram, e todos Naiá recusou, com todos os pretextos possíveis: alguns eram altos demais, outros muito baixos, outros tinham um olhar pouco inteligente, ou pareciam demasiado espertos para serem maridos. Esses e muitos outros motivos ela alegou para não se casar com nenhum de seus pretendentes, e muitas vezes ela simplesmente não deu motivo nenhum. Nenhum homem era bom o bastante para ele, e o pai foi perdendo a paciência – mesmo a filha do chefe não podia demorar tanto, nem ser tão exigente, dezenas e dezenas de candidatos já haviam sido rejeitados. A situação tinha se tornado insustentável.

– Naiá, se você não escolher logo um marido, eu escolho pra você. Minha paciência está se esgotando, decida de uma vez!

A filha de Anajé não queria dizer que seu coração já tinha escolhido um amor, mas um que não poderia dar netos a seu pai.

No dia seguinte a jovem índia tomou coragem, foi até seu pai e disse, decidida:

– Pai, eu já fiz minha escolha.

Essas palavras transformaram Anajé no mesmo instante: ele passou da raiva e preocupação para o alívio e alegria de sentir um imenso problema ser retirado de seus ombros.

– E quem é o jovem rapaz que conquistou seu coração?

– Nenhum. Eu amo uma moça. Todas as noites, quando vou tomar banho no rio, eu me encontro com ela.

No início foi um choque; depois, a fúria.

– Quem é essa mulher? Qual é o nome dela? – quis saber o pai, sacudindo a filha.

– Eu não sei o nome dela, ela nunca fala nada. Só sei que é ela que eu amo, é com ela que quero me casar.

A raiva de Anajé aumentou ainda mais.

– Minha filha não vai se casar com mulher nenhuma. Me leve até essa moça sem nome.

De noite, a contragosto, Naiá levou o pai até o rio, com medo do que o pai faria quando visse a sua amada, já que ele levou um tacape consigo. Logo que os dois chegaram, a filha do cacique avistou a moça perto da margem do rio e correu para ela, gritando:

– Corra! Meu pai quer te matar!

A moça da água não aparentava estar com medo nenhum; ela sorriu para Naiá, que correu até ela. E pela primeira vez, a moça deixou que Naiá a tocasse. Ela tocou as mãos da jovem misteriosa, e sentiu seu calor e maciez. E pela primeira vez, a moça do rio falou.

– Meu nome é Jaci.

E Jaci deu um rápido beijo em Naiá. Um beijo muito leve, suave como o roçar das asas de uma borboleta, e rápido como a picada de uma serpente, mas poderoso como um raio ateando fogo a uma árvore. E foi assim mesmo: aquele beijo ateou o fogo da paixão na alma da filha de Anajé; que, esquecida do pai, tentou abraçar a moça, mas ela se soltou e fugiu nadando.

– Com quem você estava falando? – perguntou o pai.

– Com ela, ela estava aqui há pouco – respondeu a filha.

– Não tem ninguém aqui, só você. Ficou louca, minha filha?

– Ela estava aqui, ela disse que se chama Jaci.

– Jaci? – exclama o pai, surpreso –, Você não sabe quem é Jaci?

Naiá fez que não.

– Jaci é a Deusa da Lua. Então é esse o seu grande amor? Uma mulher, e ainda por cima uma deusa? Isso não vai te levar a nada! Vamos voltar pra casa e esquecer isso tudo.

– Seu pai tem toda a razão.

Era a voz de Pité.

– Seu pai está certo: isso não vai levar a nada. É só um sonho, uma paixão irreal, fruto de um delírio. Eu sou real, estou aqui na sua frente, e o que mais quero na vida é me casar com você. Vamos ser felizes juntos, eu imploro, Naiá!

A proposta de Pité deixou Anajé muito satisfeito. O pai olhou para a filha, viu que ela parecia confusa e infeliz, e resolveu falar por Naiá.

– Aceitamos sua proposta, Pité. O casamento será dentro de três dias. Vamos embora!

A filha de Anajé queria ficar, ver se Jaci voltava, mas o pai e o noivo praticamente a arrastaram para casa. Na primeira noite, ela ficou trancada para não fugir, do lado de fora, Pité ficou tomando conta. No dia seguinte, Naiá mudou de tática, fingiu que concordava com tudo. Quando a noite chegou, ela fugiu.

Naiá foi até a o rio, e lá estava Jaci, à sua espera. A filha do chefe entrou na água, foi até a deusa, segurou suas mãos com paixão e a beijou nos lábios. Jaci sorriu e disse:

– Naiá, eu te amo. Vamos ficar juntas para sempre!

Jaci abraçou Naiá e voou com ela na direção da Lua.

– Naiá, pare, Não!

Pité gritou desesperando quando viu a mulher que amava mergulhar no rio. Ele se jogou na água atrás dela. Nadou até o fundo onde estava o reflexo da Lua, bem onde ela tinha mergulhado, mas não achou nenhum sinal de Naiá; estranho, porque a água não era muito funda ali. Isso não fez o bravo rapaz esmorecer: Pité estava determinado a não desistir até achar sua amada. Ele começou a procurar mais fundo no rio, e foi cada vez mais longe e mais fundo, indo até onde nunca tinha ido. E tão fundo foi Pité, que não conseguiu mais voltar.

 

🌑 🌒 🌓 🌘 🌕 🌖 🌗 🌘

 

Naiá se transformou na Vitória-régia, planta aquática cujas imensas folhas flutuam nas águas do rio. Pité se transformou em um pássaro, o Jaçanã, que, com suas longas pernas dotadas de dedos também muito compridos, caminha pelo rio andando sobre as folhas da vitória-régia, indo e vindo sem descanso, sempre em busca da moça que ama, sem perceber que ele está caminhando sobre Naiá.

Há noites nas quais a flor da vitória-régia se abre; uma flor branca como a lua. Nessas noites Naiá retorna à forma humana, e também Pité. Assim que vê sua amada, o rapaz corre para ela, mas em vão, pois logo surge Jaci, abraça Naiá e a leva pelos ares, até o prateado disco da lua. Pité, que nada pode fazer para impedir o encontro das amantes, fica suspirando de saudade até o retorno da dona de seu coração. Quando ela volta, Pité novamente tenta correr atrás dela, mas de novo não consegue alcançá-la, pois logo ela se transforma novamente na Vitória-régia, e ele no Jaçanã.  

Depois dos encontros com Jaci, Naiá engravida de sua amada, e flor muda de branca para rosa, a cor do amor. Naiá dá então origem ao fruto da Vitória-régia, que espalha sementes que originam novos pés da planta.

A folha da vitória-régia, quando jovem, é parecida com um coração, símbolo vivo do amor infinito entre a bela índia Naiá e a Deusa da Lua, Jaci.

🌑 🌒 🌓 🌘 🌕 🌖 🌗 🌘

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.