EntreContos

Literatura que desafia.

Cumacanga (A Encantada do Pará)

cumacanga

“Lua, luar, toma o teu andar,

pega esta criança e me ajuda a criar,

depois de criada retorna a me dar,

lua, lua, luar, torna a teu andar”

 

Senta aqui, olha. Essa é a minha brincadeira preferida. Cinco-Marias. Eu vou colocar assim, está vendo? Cinco pedrinhas. Fui eu mesma quem escolhi. Uma por uma. Peguei lá na porta de casa. Eu gosto das branquinhas, as bem redondinhas. Assim não machuca a mão. Está vendo? Joga uma para cima e pega as outras, sem deixar essa aqui cair no chão. Eu sou boa nisso, viu? Não pode derrubar de jeito nenhum. Viu? Se cair, você perde o jogo. Gostou? Eu gosto! Eu gosto disso e de brincar de Mamãe. “Mamãe-Posso-Ir”, “, Mãe-da-Rua”……Mas dessas coisas não dá para a gente brincar. Não. Precisa ter mais participantes. E aqui não tem ninguém. Só eu. E você, claro.

 

“O que você tem?  

Saudades.  De quem?  

Do cravo, da rosa e de mais ninguém.  

Subi na roseira,  

desci pelo galho,  

fulano me acuda, senão eu caio.”

 

Viu só como eu sei pular? Eu pulo com um pé só. Viu? Olha que alto. Se tivesse uma corda é que ia ser divertido A gente ia cantar e pular. Mas tem que ter mais duas meninas pelo menos. Uma em cada lado da corda. Bom, uma só já dava. A gente amarrava a outra na ponta na árvore. Mas não tem. Não. Por isso que eu canto assim. Eu falo fulano. Fulano não é ninguém. É só modo de falar. As outras crianças não querem brincar comigo. As mães delas não deixam. Não. Eu sei. Eu finjo que não sei, mas sei. Eu escuto. Eu sou boa de ouvido. Eu escuto atrás da porta as coisas que a minha mãe fala. E o meu avô. Está vendo esse crucifixo aqui, no meu pescoço? É bonito? É para me proteger. Eu sou encantada, sabia? Sou. Mas não é de princesa. Não. Quando eu crescer eu vou virar a Cumacanga. Mas eu não quero. Não. Eu tenho muito medo, sabe? Muito. Mas eu não falo isso para a minha mãe, porque ela chora. E eu não quero que ela chore. Eu não gosto de ver ninguém chorando. E então eu fico assim, brincando com você, porque você não foge de mim. Você não chora. Nunca. E você não tem medo de mim.

 

“O sapo não lava o pé

Não lava porque não quer

Ele mora na lagoa

Não lava o pé

Porque não quer”

 

Eu adoro essa música. Minha madrinha me ensinou, porque eu tinha medo de sapo. Mas isso era antes. Tinha muito sapo lá no rio. Ela me ensinou a cantar para espantar o temor. Eu vou cantando e vou trocando as vogais. A, e, i, o, u. São as vogais. Entendeu? A sapa na lava a pá, na lava paca na cá… E com a letra e? Ele mere ne leguee, ne leve e pé peque ne que. Gostou? Minha madrinha sabe tudo. Ela que me deu o crucifixo. Para me proteger da tentação. Foi assim que ela falou. Porque lá na cidade dela, ela disse, ninguém fala de Cumacanga e nem de Curacanga. Não. Lá, menina assim que nem eu, que é a sétima filha mulher de uma família, não vira nem Cumacanga. Não. Lá eu ia virar é porco. Porca. Uma porcona enorme. Que come gente. Mas eu não quero. Eu não gosto. Eu nunca ia comer uma pessoa. Nunca. Porquinho eu já comi. O patrão do meu avô que matou e deu para ele no Natal. Mas não gostei. Eu não gosto de comer nenhum bicho que foi vivo. Eu tenho pena. Se for para eu virar encantada, se não tiver jeito, então eu prefiro virar a Cumacanga mesmo. Aí, meu corpo vai ficar em casa e minha cabeça vai voar e voar pelos ares, brilhando que nem um balão. Que nem a lua. Cumacanga também faz maldade. Mas eu não vou fazer não.  Eu prometo, olha! Não tem nem um dedinho cruzado aqui. Não. Tem menina que cruza o dedo para poder quebrar a promessa. Eu não.  Eu prometo de verdade.

 

“Mariquinha morreu ontem,

Ontem mesmo se enterrou.

Na Cova de Mariquinha,

Nasceu um botão em Flor!”

 

Bem-me-quer… Mal-me-quer… Viu? Deu bem-me-quer. Quer dizer que você me ama. Muito. E de verdade, sabia? Eu só não vou despetalar, porque a gente só tem essa florzinha. Uma só. E eu vou plantar para a minha irmã. Eu ouvi, sabia? Eu ouvi quando o meu avô disse que tinha jeito. Esse negócio de feitiço. De eu ser encantada. A sétima filha, sabe? A minha irmã mais velha precisava me batizar. Aí, era ela que ia ser a minha madrinha. É isso que as madrinhas fazem. Elas jogam água benta na cabeça das crianças. E as crianças são salvas. Igual à minha irmã. Ela está salva. Por isso que ela não pode jogar água na minha cabeça. Ela foi para o céu. Ela e as minhas outras irmãs. Todas. Só fiquei eu…Sozinha. Elas pegaram doença da lua.

 

“A água do coco é doce

Ela é boa de beber

Quem bebe a água do coco

Morrendo torna viver.”

 

Está vendo o meu vestido? Era da minha irmã. É bonito? Ela era linda. Quer ver uma coisa? Foi ela quem me ensinou. Olha esse cadarço. Vou tirar aqui do vestido. Minha mãe não liga, não. Ela amarra na minha cintura porque a Mariquinha era muito maior que eu, e assim o vestido não cai. Mas eu vou tirar só um pouquinho. O cadarço, claro. Você tem que passar a mão no cordão, assim. Viu? É cama-de-gato. Dá para fazer cada desenho lindo. Só com as mãos e o cordão. Mas não vai dar. Aqui só estamos eu e você. E você não tem mão. Não. Porque será que fizeram você sem mão? Mas não fica triste. Que para você, a mão não faz falta. Você é linda mesmo assim, com esse rasgadinho na perna que a minha mãe remendou. Minha mãe costura bem. Eu ia pedir para ela fazer uma mão de meia para você. Você ia querer? Foi ela mesma quem fez todas as roupinhas das minhas irmãs. Sozinha. Lavou no rio, com sabão de coco e perfumou com priprioca. Estava cheinho de sapo. Mas ela é corajosa. Não tem medo de nada. Ela disse que mãe é assim. Não pode ter medo de nada. E pendurou tudo no varal. Ficou lindo. Tudo branquinho. Igual minhas irmãs ficaram. Ela falou que era simpatia para a lua. Para ela não levar as minhas irmãs, sabe? Mas ela levou. Não gostou das roupinhas, acho. Quando a minha cabeça virar lua, eu não vou dar doença para ninguém. Não. Eu não gosto de ver as pessoas chorando. Me dá um nó aqui. Na garganta. Estranho, não é? Meu avô disse que esse nó é porque eu não gosto de falar disso.          

 

Dizei, senhora viúva,  

Com quem quereis se casar,  

Se é com o filho do conde,  

Se é com seu general,  

General, general.”

 

Olha lá o sol. Está se escondendo. Daqui a pouco a gente precisa ir. Se o ônibus não vier, vamos amanhã. Eu não gosto de escuro. Não. Eu gosto é de estrela. Eu acho lindo. Mas para ter estrela tem que ter escuro. Meu avô que fala assim. Ele diz cada coisa. Fala para eu não apontar para as estrelas porque nasce verruga no dedo. Ele devia gostar muito de estrelas quando era menino. Você já viu a mão dele? Mas ele não virou Lobisomem, nem Bruxa. A minha bisavó não teve sete filhos. Não. Ela só teve cinco. O meu avô era o quinto. Se fosse o sétimo, virava Lobisomem. E aí, ele ia ser igual a mim. Não. Eu nunca ia virar Lobisomem. Porque eu sou menina. Eu vou virar outra coisa. Coisas feias. Tem gente que diz que eu sou bruxa. Tem gente que chama boneca de pano de bruxa… Mas eu não tenho verrugas. Nem você. Não… Minha mãe não vai casar novamente. Tem gente que diz que ela namorou o padre. Mas é mentira. Falam porque o meu pai já foi para o céu, cuidar das minhas irmãs… Elas morreram, sabia? Mas ele não faleceu de lua. Foi de doença mesmo. Doença feia que ninguém falava o nome. Só diziam para eu brincar baixinho. Que o meu pai pegou aquela doença. Eles falavam assim… Aquela doença. Não sei qual era. Diziam e se benziam. Mas eu cantava alto, sabia? Ele gostava. Eu sei, porque ele sorria. Mas agora eu só canto baixinho, que é para ninguém fugir de mim. Da minha mãe.     

   

“Ó lua por aqui passaste
A graça da minha filha levaste
Hás de por aqui passar
A graça da minha filha hás de deixar
E a tua hás de levar.”

 

Olha a lua. Cheia. Minha cabeça vai ficar assim, sabia?  É bonito? Minha mãe diz que eu sou linda e que não é para eu ficar pensando nessas coisas feias. Mas eu penso. Por isso que eu quero fugir. Hoje. Se o ônibus chegar, claro. Meu avô falou que a condução passa por aqui. Mas não sei. Talvez ele tenha errado o horário. Não sei. Já viemos aqui tantas vezes. Talvez a gente devesse ir andando. De quem será aquela cabeça que virou lua cheia? Deve ser de uma menina muito linda. O corpo dela, a essas horas, está lá, em casa. Dormindo. Nem imagina o que a cabeça está fazendo agora. Tomara que não seja maldade. Você tem medo? Você não precisa ter medo de nada. Porque está aqui comigo e eu sou a sua mãe. Eu vou colocar você aqui, dentro da minha trouxinha. Viu? Para não apanhar luar… Talvez ela também tenha medo. A menina da lua. Talvez ela tenha levado minhas irmãs para ter alguém com quem brincar. Mas você não precisa ficar triste. Nem chorar. Eu protejo você. Aprendi com a minha madrinha. Ela é benzedeira. Me rezou pela frente e pelas costas. Bateu em mim com uma planta que ela pegou lá no Ver-o-Peso. Arruda. Até doeu. Mas só um pouquinho. Não era para machucar. Era só para fazer a benzedura mesmo. E deu certo. Acho. Eu não peguei doença da lua. Viu? Se a gente não fosse fugir, ela podia benzer você também.

 

“Um, dois, Feijão com arroz.

Três, quatro, tenho um prato

Cinco, seis, pulo uma vez.

Sete, oito, como um biscoito.

Nove, dez, olho meus pés.”

Essa cantiga me dá fome. Aí dentro deve ter um lanchinho. Viu? A minha mãe sempre coloca um lanchinho escondido na minha trouxa. Bacuri. Taperebá. Às vezes até beiju, que eu adoro. Ela sabe. Eu acho que ela coloca o lanchinho aí, porque ela adivinha que a gente vai fugir. E ninguém pode fugir de barriga vazia, nem escondido da mãe. Saco vazio não para em pé. É o que ela diz. Mãe sabe tudo. Eu acho. Você está com fome? Fome de comida? De farinha com açaí e peixe? E de colo depois da comida? Eu não gosto de ficar longe dela. Ela chora. Vai chorar muito quando eu fugir, sabia? Mas eu vou porque eu não quero que ela me veja virando porca. Não. Talvez seja até bom ser porquinha. Porquinhos tem companheiros, tem filhas. Eu vou ter cinco filhas. Sete não. Porque eu não quero que a minha filha chore. Nunca. Bebezinho chora, mas é de fome. Não é de tristeza. Nem de lua. Porque de lua, ele fica fraquinho e não consegue chorar. Só a mãe que chora por ele… Está escuro, não é? Eu acho que a gente podia voltar. Só hoje. Eu peço para a minha mãe costurar a sua mão com cinco dedinhos, para a gente brincar de Fura-bolo-e-mata-piolho. Você quer? Quer. Eu sei. Mãe sabe de tudo. E eu sou a sua mãe. E é por isso que a gente vai voltar. Viu? Não precisa ter medo. Amanhã a gente foge.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.