EntreContos

Literatura que desafia.

O sequestro da mãe-d’água (João Galafuz)

iara-vii

A manhã despertara para a vida fazia pouco: o pretume da madrugada desalgemando a luminosidade. Os mesmos ventos frios, soprados do interior da floresta e vindos como que das funduras do Solimões, ainda permaneciam no ar e próximos ao espelho d’água. Os ventos também eram cicatrizes de todas as noites anteriores que somente aos poucos desapareciam, na mesma proporção em que o sol aquecia as águas, as margens do rio e alguns madrugadores, solitários timoneiros de suas canoas e de suas tarrafas, na lida desde a noite anterior.

De tanto subir e descer o rio sem descanso, como se estivesse dentro dum feitiço, sentia que diariamente as águas eram um novo batismo para seus irmãos de labuta e suas embarcações, não para ele; que os outros haviam conseguido tocar o coração generoso d’Oxum de modo a fazê-la ouvir seus pedidos modestos de alguma fartura, mas que para ele a grande pescaria pela qual aguardava desde quando embarcou pela última vez Solimões afora nunca teria lugar. Nem precisavam saber jogar a tarrafa no exato pedaço d’água; ele, mesmo se soubesse matematicamente onde encontrar o que tanto desejava, não pescaria. Ah, Oxum… Fiz as oferendas tão direitinho…

Foi tanto tempo que o tempo navegou… Dos ainda vivos desde quando embarcara, pouco mais que ninguém daquela povoação ribeirinha conseguiria recordar-se dele, se quisesse. Todos o tinham por definitivamente sequestrado pela tempestade que estrondou durante uma pescaria infeliz, noturna, que encheu o rio, inundou as margens, e fez morrer muito justamente alguns caiçaras incrédulos, teimosos em pescar quando não era da lei. Há três gerações canoeiras isso ocorrera. A existência daquele pescador entre os ribeirinhos transformara-se em veracidade incerta, lenda sem rosto.

Ao contrário dos outros mortos, seu corpo não aparecia. Por isso, as mães entraram em ação: interpretações cada vez mais enfumaçadas e distante dos fatos foram transmitidas às crianças ao longo dos anos, principalmente aos garotos de índole sinuosa como areias movediças, teimosos em ignorar as tempestades de Iansã. Mesmo quando nuvens mal humoradas, alguns insistiam em pescarias, pediam autorização aos pais para se exibirem tão homens quanto ainda não eram, mas imaginavam ser.  

Na verdade, pelas vozes trovoadas, elas mesmas eram Iansãs da aldeia ribeirinha, na tentativa de assustá-los, os mais que meninos e menos que homens: costumavam narrar-lhes, caras e bocas, o inacreditável. Via de regra, inútil: poucos olhos arregalados, nenhum arrepio. Nem poderia ser diferente: para alguns daquela geração ribeirinha parecia uma bobagem assombrosa dizer que um pescador, certo dia, era uma vez, tão logo o dia amanheceu, embrulhou-se  em sua tarrafa, rodopiando alucinado e lancinante de tanta cachaça, velas acesas nas mãos, gargalhando a quem ouvisse: invadiria as águas naquela noite para encarcerar em sua rede, com a ajuda d’Oxum, ninguém menos que a própria mãe-d’água. Faria dela sua refém num enorme aquário. Verdadeira vitrine para ganhar vários dinheiros cobrando os olhos dos turistas. Afinal, quem não gostaria de ver a sereia da água doce, tão conhecida dos povos ribeirinhos? E então, rico, conseguiria fisgar todos os peixes possíveis dos rios impossíveis! E os oceanos que o aguardassem! O céu prometia chover mais tarde? Acaso era feito de papel?

Os quase homens até ouviam a cantilena, mas para muitos deles aquilo não passava de invencionice das mães, esse amontoado supersticioso de mulher.

Definitivamente, a claridade. Espantava os restos de madrugada e frio. Não sabia com certeza mensurar, depois de tudo, quanto tempo escorrera e o tamanho real da frustração por retornar sem a desejada prisioneira. A tarrafa murcha. A pouco menos de quilômetro da prainha, era possível enxergar, miudamente, os pescadores como ele e  seus preparativos todos, necessários para avançar Solimões adentro, embrenhando-se na manhã de modo a garantir a subsistência.

Quantos sóis brilharam no mundo das pessoas desde que havia saído, canoa e sonho, em busca da mãe-d’água? Não sabia, mas depois de tanto, madeiras da embarcação apodrecendo, a alma rasgada, fome e sede apavorantes, cadê o resultado? Nenhum. A despeito da pretensiosa busca por sua presa, e até certo ponto sem cansaço, não conseguira sequer um lambari. E o pior: ele, conhecedor de todas as portas e atalhos das estradas dos rios amazônicos, perdera-se muito mais que inúmeras vezes nos tantos igarapés. Como se pescador de primeiros arremessos fosse.

Nas noites de procura, ouvia incessantemente os encantos da mãe-d’água, absolutamente livre em algum canto do rio e jurava: ela não escaparia.

Escapou, contudo. E o atrevimento exigiu o elevado preço de sua existência: o sol implacável tostou e curtiu seu rosto a ponto de as feições serem a textura rachada dum solo sertão, por onde minava sangue quando luas cheias. Tempestades e ventanias noturnas completavam a ruína: violentíssimas, sacudiam não apenas a canoa (que nunca adernou, entretanto), como também sua pele pouca e enferma. Nalgumas áreas do corpo frágil, pedaços de tecido epitelial e muscular soltavam-se, como quisessem abandonar o pescador à maldição na qual se metera. E mergulhavam nas águas, boiando. Eles, os tecidos, preferiam ser alimento dos peixes. Os ventos varriam o leito do rio, doendo todo o corpo. Era quase um incêndio na musculatura exposta, à maneira de chibatadas.

Com sofrimentos para além de si, persuadira-se definitivamente: ao inverso do que um dia imaginara em seus desejos e emoções, a mãe-d’água não cairia na rede, e Oxum tinha feito ouvidos de mercador.

Abancou-se na proa, seminu, semicorpo. Andrajos fazendo vezes de bermuda, a tarrafa sobre a carne viva. Amarrotado. Exaurido. Quem sabe acabava encontrando um modo de transformar a decepção em alegria? Talvez tivesse sido bom, afinal. Encontraria os companheiros pescadores. Não os antigos, é certo: os filhos e netos dos parceiros de outrora. Era consoladora a ideia de que, mesmo não tendo logrado êxito em pescar na tarrafa o seu sonho, seria recebido por toda a comunidade como herói ou, vá lá, quase isso. Afinal, era um pescador letrado nas manhas d’água, famoso desde menino pelo arrojo das ideias. Portanto, os tapinhas nas costas viriam.  

A poucos metros de sua aldeia ribeirinha, os homens acordavam suas embarcações e deitavam-nas no leito d’água para trabalhar, mas havia outras ainda retardatárias na areia. Tartarugamente. Quase todos o viram aproximar-se. De imediato, por considerarem impossível ser quem parecia ser, não quiseram admitir a presença magérrima daquele sujeito a manobrar canoa, cadáver em pé, sorriso de quem febril, esmolambado, acenando para todos eles, entusiasmos.

— Ei! Aqui! Pessoal, estou de volta!

A princípio, disfarçado assombro; logo depois, sem haver troca de palavras entre eles, a intransigente e íntima negação da realidade. A lenda de volta? Inadmissível! Naufragante foi a tristeza que o pescador sentiu quando se percebeu  ignorado. Mamãe Oxum, valei-me… Tenha piedade. Já fui condenado o bastante neste rio pelourinho, não me mate ainda mais com o povo me ignorando… Imploro devolva minhas peles e carnes… Afogue minhas dores… Se a mãe-d’água não foi possível, preciso ao menos abraçar o povoado onde nasci… Pelo amor do Sagrado…

O apelo tombou no vazio. Enquanto os outros fingiam não ver e até achavam graça da suposta doidice, ele paulatinamente perdia materialidade. Seu barco, entretanto, prosseguia sólido, aproximando-se até chegar à prainha. Saltou da embarcação, sem se perceber invisível, e muito menos sem dar-se conta de que isso ocorrera após os outros pescadores se negarem a enxergá-lo.

— Ei, pessoal, não estão me vendo?! Seus pais e avós devem ter contado minha história! Tentei sequestrar a mãe-d’água! Bobagem, hoje eu sei, mas quero recomeçar a vida, ser um pescador de verdade. Tanto surubim por aí, não é verdade?

Ninguém escutou. Ninguém viu. Continuaram a trabalhar, indiferentes, até que todos os barcos, enfim, no Solimões. Alguns tão distantes que pareciam acenar adeuses, tornando-se indistintos das águas como numa pintura impressionista. Ficou sozinho, cismando quase em voz alta, inquieto e desnorteado. Praga! Não sou assombração, como nenhuma vivalma me viu?! Resolveu tornar ao antigo casebre, talvez ainda em pé se o tempo não foi carrasco.

Atravessou o pátio onde alguns meninos e meninas eram crianças, a floresta aproximando-se da casa. Sensação forasteira, de má qualidade, ao avistá-la de longe. Praticamente intacta, apesar do tempo, com o mesmo rosto de quando ele saíra rumo ao seu infortúnio. Pareceu-lhe absurdo, a menos que sua ausência tenha sido muito menor do que presumia.

Ao empurrar com os pés a porta entreaberta, abandono. Sensação de túmulo. Deslizou os olhos em tudo, e as coisas estavam como havia deixado, apenas envelhecidas e sujas. O tempo, dentro da casa, passou. E muito. Viu-se a si mesmo, após a cortina de conchas, diante de um pequeno altar dedicado à Oxum e acompanhado pelas teias de aranha que transbordavam dos caibros.

Aproximou-se de si, silenciosamente. Concentrado na cena fundamental de sua desgraça particular, balançava negativamente a cabeça na tentativa de esquecer a estupidez feita, e que se repetia perante seus olhos. Ele, ruína, sorria.     

Estava bonito, hércules, jovem, físico arrogante, impetuosidade nos gestos, nos olhos a ambição de quem nunca aceitou a própria miséria, a vida de só comer peixe e mais peixe. Velas acesas, imagens, copo de vidência, colares, incensos… Argumentando, gesticulava muito, cuspia, artérias do pescoço revoltadas. Agitado diante d’Oxum, como quem tratasse demanda urgente, mas por vezes brando.

— Mãe Oxum, nas últimas noites a gente tem conversado sobre aquele favorzinho… Tumultue o juízo da sua amiga, a mãe-d’água, e faça com que se embarace em minha tarrafa na próxima lua cheia… Careço tanto da belezura que é ter muito cobre no bolso, a ponto de nunca mais derreter, sol e tanto sol, nessa labuta cachorra… Pescador lá é vida?!… Não, me diz! Olha, a gente combina assim: a senhora me deixa pescar a sua colega; quando estiver enricado bastante, eu solto. Palavra! Negócio amarrado? Dá um sinal, que eu faço ainda hoje a última oferenda. A mãe-d’água vai ficar presa só por um nadica de tempo, sequestrozinho à toa, juro. Eu…

O pescador ia argumentar outras tantas coisas à imagem d’Oxum, porém sentiu uma súbita friagem no quarto, um enregelamento nas mãos, vizinha presença estrangeira, motivo pelo qual, subitamente, virou-se. Mas não viu ninguém, tampouco ouviria a súplica de seu fantasma. Supôs, satisfeito, ter sido aquele estranhamento o sinal pedido à Oxum. Era caprichar na oferenda, portanto.  

—  Largue mão da ideia, Eu. Brincar assim é salgar a vida. Conheço o fim, o jeito como acaba. Eu, ouça: é morrer. Morrer demais da conta…

Desde que entrou em sua choupana, nas primeiras horas da manhã, uma estranheza ocorreu com a velocidade do tempo. Subverteu-se, de algum modo. Tanto que durante os poucos minutos nos quais esteve diante de si próprio, a noite caiu. Ela de repente já adormecia sobre aquele pedaço de lugar no mundo, estrelas todas sorridentes e piscando cílios, insinuantes. Os ventos que o machucaram tanto em sua busca insana estavam de volta, mas nem de longe eram navalhas. Apenas abanavam as labaredas da fogueira que pescadores, esposas e filhos haviam feito para bebericar aguardente, costurar tarrafas, cantar acompanhamentos de violas brincadas. As pupilas da noite se alegravam no céu, incontáveis. E alegres pareciam dançar folguedos, brilhando mais que nunca. Alguns grupos bebiam e dançavam; outros proseavam, ora sérios como quem teme, ora gargalhando como para quem viver é espetáculo que merece aplausos efusivos. Talvez ele, o pescador nem muito real nem muito lenda, fosse um dos infinitos assuntos ribeirinhos, até que o sono atracasse. Teriam mesmo visto o pescador desaparecido? De quem seria aquela canoa que chegou sozinha à prainha?

O pescador não viu a noite atrás de si, a porta deixada aberta. Estava entristecido demais, gritando para ele mesmo, com exasperação, porque parecia impossível encontrar jeito de fazer aquele jovem (que outra pessoa não era senão ele, quando dum tempo antes), ouvir a voz do arrependimento.

– Eu, acorde! Ei, Eu! Pela última vez, pelo Sagrado…  Arranca essa teima do coração, que é morte, Eu… É morte todo santo dia, sem alívio.

Lá fora, enquanto uns poucos já se recolhiam às suas casas, descansar para o dia seguinte, houve quem garantisse ter visto, próxima à estranha canoa, a mãe-d’água. Adornados e longos cabelos sob a lua cheia, um sorriso zombeteiro nos olhos e nos lábios.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.