EntreContos

Literatura que desafia.

Estranha é a Matinta (Boto Roxo)

matinta-pereira

“Criatura horrenda que caminha por minha vila, deixe os pobres e trabalhadores repousarem a cabeça no colo de suas esposas, deixe as crianças sonharem com doçuras e brincadeiras e deixe o velho que sou descaçar em sua cama de papelão.”

Esbravejou o andarilho barbudo para as sombras que espreitavam a praça deserta.

“Sei que está aí, sua ave feia, porque quando é o raiar da minha Lua é o anoitecer do seu Sol, e hoje, diferente de todas as outras noites, não me afoguei na água forte das esquinas só para acertá-la com as minhas botas.”

Diferente do anterior, esse grito teve um assovio estridente que assassinou o silêncio pacífico da praça e serviu como resposta.

“Ora essa, sua velha assoviadeira, me de paz, me abandone como todos os outros que me amaram já fizeram e me deixe apenas com a companhia da solidão que tenho como amiga por todos esses anos.”

Da escuridão saiu uma velha mirrada, tremula e coberta de xales.

–Porque vosmicê me ofende de velha, ave e horrenda? Sendo que ofende sua própria alma repousando numa praça, trabalhando como pode e esmolando como pobres?—

“Sua velha caduca, me deixe em paz, não vê que estou ocupado esperando para abater a coruja que ao voar parece rasgar até as mais resistentes malhas?”

–Então o azar é de vosmicê, que escolheu repousar nessa praça ao invés de dormir do lado dos muros da igreja, mais azar ainda para vosmicê que é um retirante que nem para retirar presta, pois se tivesse se tivesse largado a Bahia ao invés de vir para o Amapá e se aventurado no sul, jamais seria incomodado por mim, pois teu estômago jamais estaria cheio…—

“Você é uma velha estranha, isso sim, que ousa citar a igreja de Nosso Senhor e ainda tenta me perder em tua língua afiada, pois afinal o que meu estômago tem haver com tuas palavras?”

–Para que serve o estômago cheio senão para eu pisar? Ou para que vale minha porca com seus leitõezinhos senão para incomodar os bêbados nas ruas de pedras? E comece a ter respeito, sou muito mais velha que você e exijo que me chame por meu nome, exijo que me chame pelo nome de Matinta Pereira.—

“A única coisa que chamarei para você é minha bota, que voara como essas corujas que te acompanham até te acertar.”

O andarilho arqueou o braço e lançou o seu calçado, mas errou.

–Enquanto rio de vosmicê tomarei de teu fumo e partirei, sortudo é vosmicê por que não sou aquele negro aleijado que corre por aí chupando o sangue dos cavalos, senão nesse momento já estaria planejando contra vosmicê por ter me atirado sua bota.—

E a velha saiu escuridão adentro, fumando e soltando assovios estridentes para acordar toda a vizinhança e assustar os animais.

De manhã o andarilho acordou desnorteado e pensativo com o que era a realidade e a fantasia da noite que passou sóbrio, mas decidido a voltar para sua terra baiana, nem que fosse para morrer.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.