EntreContos

Literatura que desafia.

Escuro da noite (João Negão)

A mãe já tinha avisado: tenha modos que mais tarde tem visita. Quando chegaram, a janta tava pronta. Panelas quentes e todo mundo ao redor da mesa. Mãe puxou reza. Fingi que acompanhava, a boca mexendo pra dar o jeito das palavras e ninguém perceber que eu dizia oração nenhuma. Depois um amém cheio de eco que tentamos falar ao mesmo tempo mas faltou combinação pra ficar bonito, sabe? Se comportei? Comportei. Fiquei quieto que nem bicho de butuca, a mãe servindo Dona Glória, concha rapando na panela, uma fumaça cheirosa bailando e eu fingindo que ligava não. Quando foi Reginaldo, o maldito desembestou a falar dos negócios com o pai. Ficou mexendo o feijão enquanto proseava e a gente esperando nossa vez de servir. A barriga implorando por um grãozinho e o cabra falando de coisa que ninguém entendia. Distraí a fome olhando pra Rosinha, fazendo plano pra quando a gente casasse e tivesse uns dois-três filhos tudo com a cara e o riso dela. O pai lasqueira, a filha bonita que nem dele parecia que era. Bonita e rápida que nem calango fugindo pro mato. Foi o pai largar a concha que a danada já foi avançando, fazendo tudo errado e fora de ordem, colocando feijão primeiro, depois couve e só no fim o arroz. Servia da comida e olhava pra mim com uns olhos que eu podia jurar que eram deboche. Foi na vez de meu pai tirar o prato que fiquei preocupado mesmo, a travessa já desfalcada pelos convidados e a panela de feijão pela metade, eu fazendo reza nova, pedindo ao outro pai-todo-poderoso pra não faltar comida justo na minha vez.

Deu pra todo mundo e anda sobrou um pouco. Seu Reginaldo até repetiu. Fiz que ia repetir também porque tinha colocado pouco no prato pra enganar que a gente come educado que nem novela. Intenção minha que morreu na véspera. Mainha arregalou uns olhos de coruja que lê pensamento e eu fui logo disfarçando, a mão que era da concha indo parar no copo d’água. O líquido desceu a goela pegando o gosto da comida e deu foi mais fome ainda.

Meu pai saiu com seu Reginaldo logo depois do café e eu fiquei na sala, junto com Dona Glória, mamãe e Rosinha. Ligaram a TV e ficaram conversando um monte sobre o povo que aparecia na novela. Cinco minutos e eu parei de prestar a atenção. Fingi que via o programa, mas ficava era atento a Rosinha, os olhos meio hipnotizados igual a cupim em volta de lampião. Ela virava a cabeça pra ver se eu tava olhando e eu tentava disfarçar, gato e rato que nunca se chegavam a se bater. Durou pouco e Rosinha me flagrou. Chamei pra ir lá dentro ver meus brinquedos pra puxar conversa. Ela ficou sem responder na hora, mas depois se levantou e ficou esperando na frente do corredor.

Você só tem brinquedo chato, ela disse depois que eu já tinha tirado um tanto de coisa do baú. Fui lá na prateleira e peguei o caminhãozinho de madeira que meu pai tinha feito mês passado. O brinquedo mais legal que tinha e ela com a mesma cara de quem não via valor na portinhola da caçamba que até abria pra pôr coisa dentro. Peguei umas vaquinhas de plástico do fundo do baú, uma de cada cor, e meti tudo dentro do caminhão, mas nada daquilo fez Rosinha desmanchar a cara de braba. Ficou parada olhando pra dentro do baú com indiferença e depois foi pra parede ver o pôster do futebol.

— Gosta?

—  Gosto do Cristiano Ronaldo.

— Prefiro o Neymar.

— O Cristiano joga no Real Madri e é muito mais bonito.

— Quando crescer eu também vou jogar.

— Vai nada.

— Vou sim. Faço gol pra você.

— Faz nada, nem consegue, gorducho desse jeito.

Tive nada pra dizer. Se tive, faltou pensar na hora. Calei, judiado com o comentário de Rosinha. Olhei pro espelho do armário e vi a camiseta já meio apertada tentando acomodar minha barriga crescida. Voltei pra perto do baú e comecei a catar os brinquedos do chão, vontade de me jogar ali dentro ficar trancado até a hora que as visitas fossem embora. Então tive ideia e pensei num tantão de coisa pra dizer Rosinha, mas Dona Glória apareceu e falou que já era hora de ir, que ela despedisse de mim que o pai tava esperando.

— Tchau, gorducho — a segunda palavra ela disse baixinho, como que Dona Glória não escutasse.

— Rosinha! — Dona Glória ouviu e fez questão de repreender.

— Brincadeira, mãe. Né, Frederico?

— Não se brinca assim, menina. Vamos antes que o pai reclame.

Gorducho é a putaqueopariu, deu vontade de dizer. Trepo em árvore mais rápido que mico e corro mais que Messi e Neymar junto. Mas foi pensamento que veio atrasado sem combinar o momento e já não tinha ninguém ali pra ouvir desabafo. Covardia de Rosinha dizer aquelas coisas logo no dia que tinha comido quase nada porque a família calhou de aparecer.

Mainha veio no quarto e disse para eu arrumar tudo e ir me deitar que já era hora. Obedeci e a fome veio forte. Dia pior do mundo, vontade de levantar, esquentar as sobras da janta e comer até arrebentar a cintura da bermuda. Mas se a vontade de comer era grande, era pior a lembrança de Rosinha xingando de gordo, imaginar que se comesse ia ouvir dela pra sempre que o gorducho joga bola é nada.

Fiquei deitado um tempo, pensamento na janta pouca e em Rosinha, o som dos grilos lá fora misturado com o marretar de uns sapos ali do brejo. Depois a casa mudou seus silêncios. Nada da louça da mãe batendo em talher, a TV com o jornal do pai dando lugar ao ronco pesado que se espalhava pela casa. Tentei dormir, mas a fome castigava as ideias, uma luta pra segurar a fissura de comer mais um pouquinho que fosse. Cochilei, mas acordei logo depois. Pouco tempo passado e não consegui segurar. Levantei mansinho e coloquei a panela de feijão no fogo com cuidado pra não fazer barulho.

Comi pouco, juro. Bem pouquinho mesmo. Mas o pouco que comi não calmou a fome não. Bebi uns dois copos de água pra encher o bucho e ver se passava, mas o que tinha na barriga era espaço sem fim. Então servi mais um pouquinho no prato e comi, o feijão gostoso e fresquinho que a mãe tinha feito naquele dia mesmo. Taquei até um pouco de farinha pra engrossar a mistura, mas depois botei mais colher de arroz, mais caldo de feijão e quando vi já tinha era comido mais que devia. Lavei tudo na calada depois, a bucha quase seca ariando prato e talher pra não fazer barulho no fundo da pia. Depois sequei tudo e arrumei no escorredor como via mainha fazer.

A barriga tava era cheia. Tão pesada que precisei ficar com o bucho pra cima pro sono chegar. Depois dormi fácil, o corpo frouxo por conta da hora. Achei que tinha escutado um barulho no forro da casa, como se um bicho andasse por ali, mas já tava era pra lá do sono. Não sei quanto tempo dormi, mas sei que aconteceu. Despertei com um zumbido no pé do ouvido e um sufocamento no peito, a barriga espremida como se tivesse alguma coisa trepada em cima de mim. Tentei abrir os olhos, mas tava era paralisado, vendo tudo por dentro como o escuro da noite. Mexer também não podia, preso na cama como se amarrado tivesse. Abri a boca pra gritar, mas a coisa segurou minha língua e empurrou um troço áspero pra dentro de minha garganta. Gritei, mas som não saía. Os músculos travados e a coisa mexendo por dentro de mim. Durou pouco, mas parecia que o coisa ruim tava ali montado em mim como peão valente. Levantei vomitando, o arroz e o feijão em uma massa escura pelo chão do quarto, travesseiro e lençol sujos com resto de alimento. Tava tonto ainda, tentando respirar, e mesmo assim deu pra ver: a sombra na parede com o formato de um corpo envergado, parte da coisa escapando pelo batente com aqueles dedos fininhos que tinham entrado pela minha garganta. E depois o som daquilo correndo pelo telhado. E os gritos que acordaram tudo pela casa.

O pai chegou logo depois dos berros. Mainha veio também. Viu o vômito pelo chão e saiu reclamando: esse moleque come tanto que passa até mal de madrugada. O pai passou a mão pela minha testa e carinhou meus cabelos. Vou pegar água pra você, filho. Eu fui atrás, um cagaço danado de ficar ali sozinho. Esbarramos com a mãe na cozinha. Assaltou de novo as panelas, moleque? Já não disse pra não comer de madrugada? Esbravejou e saiu pro quarto, limpar o chão, recolher lençol e travesseiro. Mainha era uma santa, mas ralhava como o diabo.

Tonho disse na escolha que a velha pisadeira vem de madrugada pra roubar a comida que tá na barriga de quem come demais e vai dormir.

— Só se comer muito, é?

— É sim.

Então nunca mais comi daquele jeito. Nem na janta, nem antes do cochilo da tarde. Tinha gula, mas o medo era maior. Era fechar os olhos e ver a coisa trepada em minha barriga com os dedos puxando a comida pela garganta. Dormi mal por um tempo, mas depois passou. Cansaço que vence medo que vence fome. A barriga foi diminuindo, a camiseta ficando cada vez mais larga e a bermuda precisando de aperto. Nunca mais vi a pisadeira. E fui ficando mais rápido que mico, mais habilidoso que Neymar e Messi tudo junto. Um dia ia fazer um gol pra Rosinha, mas bola mesmo ela nunca me deu.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.