EntreContos

Literatura que desafia.

Histórias (Chacrinha)

O grupo de feirantes ficou olhando de lado para Jandira quando ela passou. Tinham um jeito reprovador, alguns diziam que ela era uma baita sem-vergonha, mas o pior era o peixeiro, que inventava histórias.

– Deu cabo no marido, hein?

Assim explicava o sumiço de Aulério, que tinha caído no lago. O homem que vendia caranguejos e outros peixes deu por certo que Jandira, ao ver o marido pescando da beira da janela, deu-lhe um solavanco certeiro e assim herdou a famoso Sobrado do Lago.

Talvez se Aulério não fosse tão pão-duro, não tinha morrido. Comprara um terreno a preço de banana na beira do lago e tinha certeza que era esperto. Jandira torceu o nariz para a ideia, mas a palavra do homem valeu mais. Com o tempo, não deu outra. O lago se expandiu como tinham avisado e embocou o sobrado por todos os lados.

Firme em seu passo, a mulher não deu bola para as invenções do peixeiro e nem para as provocações dos homens ao lado. Logo estava à caminho da Colina, uma pequena área comercial da cidade, onde compraria pães no bar do Portuga, entre outras coisas que precisava.

Deu sinal no ônibus e desceu na trilha à beira do seu sobrado. Olhou de longe e sentiu um pouco de pena porque as telhas estavam mambembes. Pegou a canoa pela borda, foi arrastando até o lago e, com a barra da saia levantada, entrou no bote. Já estava anoitecendo.

Um montante de vitórias-régias parecia acompanhar Jandira, que logo aparentou cansaço e parou para tomar fôlego. Mas a canoa continuou deslizando até a entrada do sobrado. A mulher puxou uns pãezinhos e foi jogando no lago. As casquinhas e miolos boiavam e antes de afundarem, sumiam na boca gulosa dos peixes.

Antes que entrasse no sobrado, viu uma porção de rachaduras e as demarcou com os dedos, estavam ficando maiores. Passou pela porta e caminhou até a janela, de onde o marido tinha caído. Do breu da sala, ficou a olhar a cidadezinha, além das margens. Chegou até a se ver jogando Aulério de lá, tamanho era o rumor. Seria possível? Por mais que ele fosse como fosse, aquilo já era demais. Jandira queria era esquecer aquela história maluca, então tirou a roupa e deitou no sofá.

O sono quase chegava quando um estrondo veio de fora, como se um gigante tivesse mergulhado. Tateou pelos cantos, mas não encontrou o vestido. Seminua, puxou a espingarda da parede e, da janela, ficou marcando mira para acertar o invasor. Tudo voltou a ser silencioso, e no lago emergiram centenas de bolhas. Jandira acalmou-se e apoiou os cotovelos na janela.

– É você? – disse.

– Sssou eeeu, Janndiraaa. Vimm te tee verr… – a voz nascia da água.

Isso sempre deixava a mulher assustada, mas também tinha nela um efeito hipnotizante. Jandira pegou uma bituca de cigarro, a mesma que o marido tinha deixado caída no canto da janela quando tombou na direção do lago. O eco das águas invadiu a sala e então Jandira colocou a bituca na boca, acendeu e terminou de fumar por ele.

– Jandira, respondaaa. Mulher, vim te veeeeer… – o som ziguezagueava no ar.

– Hã… Há quanto tempo! Some quando bem entende, volta quando quer, e ainda vem querer conversa?

– Não fique nervosa comigo, Jandira. Jogue-me mais daquele pão. Estou com fome, seus pãezinhos são sempre tão apetitosos.

– Era só o que me faltava, um bicho que nem existe querendo me passar a perna! Mas nem nas histórias da minha avó tinha um Ipupiara tão malandro igual você.

– Jandiraaaa… Ainda sou o Ipupiara de sempreeeee… Jogue o pããããããoooooo…

– Hoje não tem pão e nem nada. Você é muito cheio de mistério.

– Pois eu não sumi à toa, Jandira. Você sabe o que eu fiz hoje? Hoje eu nadei umas bandas por aí. E sabe o quê? Por acaso encontrei um tal de Zé-do-Peixe, de quem você fala muito, mas muuuito bem. Ele estava catando caranguejos no mangue.

– E eu com isso?

– É que eu acho que eu dei uma liçãozinha nele, sabe?

– Mas o que é que você aprontou dessa vez?

– Mergulhei fundo e bem rápido, investi com todo meu corpo nas raízes do mangue. Então a maré subiu e o abobado tentou correr, mas uma onda passou por cima do rapaz, deixando ele todo enroscado no meio das raízes e nos próprios caranguejos que queria pegar, coitados! Os bichos escaparam e se uniram, encheram a cara do Zé de beliscão. Quero ver agora ele falar da vida dos outros.

– Eu não acredito que você fez isso! – disse Jandira, segurando a barriga de gargalhada. – Ele com a cara toda vermelha, hahaha, faço questão de ver! Olha só, você me fez ganhar o dia! – disse ela, enquanto entrava para pegar os pãezinhos.

Jandira tacou com força e o pão girou numa curva até o lago. Após uma explosão de água, uma cabeça avantajada piscou entre as borbulhas, abocanhando o miolo e escondendo-se com rapidez.

– Ah, não me deixa curiosa. Eu sempre quis desde pequena ver um Ipupiara…

– É muita belezura, Jandira. Melhor ficar dentro d’água mesmo.

– Por favor, me deixa ver hoje, nem que for só um pouco.

– Da primeira vez que me meti com uma indiazinha feito você, ela começou a berrar e um português muito do valente tentou arrancar as minhas tripas com uma espada, e depois os índios da terra tacaram quase mil flechas contra mim, a sorte é que entrei na água bem rápido e escapei. Depois dessa, evito muito dar as caras, pois isso sempre acaba mal.

– Não, Ipupiara. Hoje não tem mais português e nem índios, meu filho. Aliás, os portugueses foram que mataram os índios, não se sabe mais deles, não. Ah, não vou ficar explicando, vem pra cá! Você sabe que sou de bem.

– Você é boa mesmo, Jandira. Chegue mais perto, então… – a mancha chegou na pequena ponte nos fundos do sobrado, onde a Lua estava mais forte e clara. – Chegue mais perto… – insistia ele.

– Não posso, não achei minha roupa, você me assustou e tive que sair assim no susto.

– Venhaaaaa, Jandiraaaaaa. Venha ver a minha caraaaaaa… – as bolhas fluíam novamente, liberando agora uma voz doce e ritmada. Aquele parecia ser o trunfo dele.

– Aqui está bom?

– Siiiiiimmmmm…

A palavra saiu grave do focinho enorme que aparecia na água. A luz que vinha do céu, ainda que fraca, revelava para Jandira um tipo de nariz de foca, só que meio desfigurado como de um vira-lata briguento. Um longo bigode rastejava pela superfície da água quando o bicho se mexia.

– Nossa, você é mesmo o cão! O cão de bigode! Ai, Senhor!

– Eu aviseiiiiii, Jandira, eu aviseeeeeeeeiii…

– Hahaha! Onde já se viu peixe de bigode, seu cão?!

– Eu não sou só peixe, Jandira… Não sou nããããooo…

– Mas eu não ligo, não. Me mostra mais, vai, quero ver tudo.

O bicho sumiu na água e soltou um zunido.

– Jandiiiirrraaaa, tire as mãos dos seios…

Jandira revelou os seios, entendendo a barganha. Desceu as mãos para a cintura e encurvou o corpo todo para frente.

– Assim está bom?

O Ipupiara afundou novamente e ficou flutuando perto da superfície, onde Jandira só via um vulto. Ficou ali, como se admirasse a figura da musa. Para o estranhamento da mulher, o ser começou a girar em torno de si mesmo e vários jatos espirraram para o alto. O focinho emergiu novamente, arfando.

A mulher agachou na beirada da ponte, como se fosse fazer xixi, e o bicho se elevou na água. Ele tinha corpo ovalado e cauda que não era de peixe, nem de monstro, nem nada, só a cauda tantas vezes caçada do Ipupiara. A criatura tinha ainda seios, braços humanos, patas alongadas de ave. No meio da barriga, um pênis, exatamente como na lenda.

Jandira ficou olhando o céu, cheio de estrelas. A Lua revelou as cicatrizes que a mulher carregava nas costas, deixadas pela marido. E o corpo dela refletiu o céu, cheio de estrelas.

***

No alto da colina um grupo de homens enchia a cara no bar e parecia bolar um plano. Zé-do-Peixe, com a cara cheia de feridas, dava as coordenadas e rascunhava algo na mesa. Muitos deles estavam armados com espingardas. Apreensivo, o dono do bar fingiu fazer algo e chegou perto para ouvir o papo.

– Então está certo, Zé. Hoje nós vamos dar um susto nela!

– Olha aqui o que essa safada fez com a minha cara, rapaz. Nem falar eu consigo direito – dizia o peixeiro, com diversos calombos amontoados nos lábios.

– Mas você tem certeza que foi ela, Zé? – disse um.

– Eu tenho cara de besta?! O cabra que armou essa pra mim, quando eu tava enroscado e levando beslico, disse algo assim: “Zé-do-Peeeeeeixee, deixa a Jandira em paaaaaaaazzzz”. Agora me diz se não foi ela?!

– O que os marmanjos estão tramando? – intrometeu-se o Portuga e seu sotaque marcado.

– Não se mete com isso! – Zé-do-Peixe respondeu.

– Pois só me digam o nome da pessoa que vão lesar, pois fiquei agora curioso.

– A Jandira, aquela bruxa lá do Lago.

– Jandira? O marido dela morreu e cá deixou uma montanha de dívidas, pois se não se importam, quero ir pregar um susto nela também.

– Então hoje é por conta da casa, rapaziada! – o Zé fechou o assunto.

O comboio embrenhou-se pela trilha na caçada de Jandira. Chegaram à beira do lago e   improvisaram um tronco como canoa para chegar à pequena ilha.

Como primeiro da fila de homens em um dos troncos estava o Portuga, notando que se aproximavam do alvo. Então brincou: “Terra à vista!”. Um objeto foi atirado do fundo do sobrado e explodiu na direção deles, algo enlameado espalhou-se pelo corpo dos marinheiros e gerou um momento de histeria.

– Agora ela passou dos limites! – disse Zé-do-Peixe, pegando o saco de estrume furado que boiava na água.

Foi o suficiente para que apontassem artilharia na direção da casa de Jandira e começassem a puxar o gatilho. O sobrado velho mal se aguentava sozinho e ia ruindo aos poucos.

Os homens adentraram o sobrado e não conseguiam encontrar Jandira. Irritados, começaram a atirar a esmo para todos os lados. Todos foram à janela quando escutaram um zunido estranho que vinha de fora, as caras suadas amontoaram-se na janela e, no lago, viram Jandira sentada na água.

– Sua desgraçada, volte aqui, vamos dar uma lição em você!

– Venham me pegar, seus frouxos!

A mulher virou-se de costas em uma provocação. Foi quando ficaram bastante confusos e não conseguiram mais agir de forma ordenada. Após um estrondo, paus, pregos e vidros começaram a espirrar para os lados, alguns dos rapazes conseguiram pular pelas janelas, outros ficaram presos. E o sobrado todo foi abaixo enquanto Jandira deslizava nas águas.

***

A região era conhecida por ter peixes grandes. Dizia-se até que monstros marinhos existiam lá, e o recém-chegado na cidade estava curioso. Com as varas especiais, cordas e iscas chacoalhando nas costas, estacionou a moto na porta do bar e logo foi atendido por uma jovem muito simpática. Estranhando as vestes e a pele quase transparente do forasteiro, entregou-lhe o café e perguntou.

– Você vai pescar no Lago Grande?

– Sim, mocinha. É o que todos os turistas vem fazer nessa cidade, não é?

– É, mas toma cuidado, viu? Se você ouvir uma mulher cantando, não vai trás dela.

– Como assim?

– É o canto da Jandyara, ela canta pra levar os homens pro meio lago, e depois ela mata eles. Os homens da cidade vivem sumindo.

– Jandyara? Isso é crendice, menina! Agora me traz mais desses pãezinhos gostosos aí!

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.