EntreContos

Literatura que desafia.

Na desesperação da glória suma (Alair Monteiro)

Há semanas andava meio apaixonado pela funcionária nova. Lucas, extrovertido como era, logo fez amizade com a moça, mas Gregório não tinha tal habilidade. Toda vez que Maira lhe dirigia a voz doce e melodiosa, ficava vermelho como um tomate e tinha de se esforçar para não gaguejar.

De sua mesa, conseguia espiar Maira com o rabo de olho. Ela era absolutamente perfeita. Sua pele tinha uma cor morena e bronzeada. Os olhos grandes e verdes eram tão sedutores quanto a boca, extremamente vermelha e convidativa. Seu olhar seguia-a indiscretamente onde quer que ela fosse, enquanto a pouca razão que lhe restava, tentava fincar os olhos no trabalho para que ela não notasse o assédio.

O pequeno escritório de publicidade numa cidade de interior tinha apenas quatro funcionários e o dono, Sérgio. De maneira que a sala era pequena e dividida para os quatro; Gregório, Maira, Lucas e Tiago.

Tiago sentava-se ao lado de Gregório, e embora em menor intensidade que o colega, também se sentia atraído pela moça. Ambos conversavam, quando Lucas adentrou o escritório cumprimentando-os. O rapaz passou por eles com a pasta de couro marrom pendurada a tiracolo, largou-a em sua mesa e veio se juntar aos colegas na copa. A conversa girou nas investidas dele contra a novata. Como ela costumava chegar mais tarde, pelo fato de morar fora da cidade, os três conversavam e riam ruidosamente, mas silenciaram quando ouviram a porta. Ela chegara.

Maira adentrou a sala que dava para a copa. Sua mera presença demandava a atenção dos rapazes. Vestindo uma elegante camisa social e uma saia que teimava em agarrar-se ao volume de seus quadris, a mulher era espetacular. Sua voz cativante cantou o bom dia que saiu de seus lábios. Era quase como uma melodia que os guiava a sonhos profundos.

No final do dia, Gregório e Tiago se despediram de Maira enquanto Lucas ajeitou suas coisas na mesa rapidamente e fez um sinal conhecido para Tiago, indo atrás da moça, com um sorriso de cumplicidade para os colegas.

Já em casa, o celular de Gregório vibrou sinalizando uma nova mensagem. Era Lucas exaltante anunciando que estava na casa de Maira e que ela o havia convidado para um banho de rio à luz do luar. Maldito sortudo! – Pensou –  Além da beleza da mulher, desfrutaria também de uma noite romântica, numa casa que até rio tinha.

Gregório mal acreditou quando viu a imagem enviada por Lucas: Maira sentada de costas numa pedra à beira do tal rio. Os cabelos dela caiam a frente do corpo, deixando suas costas desnudas. O miserável sorrateiramente conseguiu tirar aquela foto.

No dia seguinte, chegando ao trabalho sozinha, Maira o cumprimentou como se nada tivesse acontecido. Que dissimulada! Na certa, Lucas fora para casa tarde e passara da hora. Tentou manter a mente no trabalho. Mas seus olhos, ávidos, acompanhavam a morena, atentos a cada movimento.

A mulher sentou-se em sua mesa e, subitamente, ergueu os olhos colidindo-os com os de Gregório. O rapaz empalideceu ante aquele olhar que lhe seduzia e assustava, mas lembrando-se da aventura do colega, forçou-se a encará-la. Os lábios dela esboçaram um ínfimo sorriso e Gregório permaneceu alguns instantes estático, até que Sérgio adentrou o escritório, trazendo-o de volta a realidade. O que fora aquilo?

Tiago chegou pouco depois, contando que havia sido assaltado e que levaram seu carro, mas Gregório só queria um momento a sós com ele para fofocar sobre a noite de Maira e Lucas. Os dois saíram juntos para almoçar e riram ainda mais com a história quando Gregório mostrou a foto ao amigo, que também praguejou a sorte de Lucas.

Quando voltaram ao trabalho, a morena já estava em sua cadeira, penteando suas belas madeixas com um pente dourado e se olhando num espelho de mão. Ela cumprimentou novamente os dois, e aos olhos de Gregório, ela se demorou um pouco mais olhando para ele. Em sua mente ele dizia: “- Eu sei.” Mas imaginava a resposta dela: “Eu sei! ”.

Maira no meio da tarde começou a cantarolar alguma canção. O som que vinha daqueles lábios, penetrava sua cabeça desorganizando seus pensamentos. Ele piscou fortemente, tentando dispersar a névoa que se formava em sua mente. Estava ficando aficionado! Pegou os fones de ouvido na gaveta e colocou o rock o mais alto possível, se livrando da cantiga. Finalmente podia trabalhar. Foi quando pela visão periférica, viu Tiago ir em direção à mulher em passos vacilantes, como se estivesse mesmerizado. Gregório retirou um dos fones para ouvir a conversa.

– Sua voz é linda hein, Maira!

Ela sorriu aquele sorriso perfeito e maldito:  ̶  Obrigada.

A conversa continuou, mas Gregório não ouviu mais, voltando ao seu som e ao trabalho. Tiago agora seria outro a tentar algo com a morena…

Dias se passavam e Lucas não aparecia, deixando seus colegas preocupados. Sérgio havia avisado que ele mandara um e-mail informando que estava doente e que precisaria ficar uns dias fora. Em anos de empresa, Lucas jamais faltara tantos dias. Gregório agora começava a se preocupar com os dois amigos, pois Tiago estava cada vez mais próximo da misteriosa mulher, e tinha a forte impressão de que ela tinha algo a ver com a “doença” de Lucas.

Sem seu carro, Tiago passara a pegar carona com Maira. Primeiro Lucas e agora Tiago, a mulher não tinha limites? Ou será que ele apenas estava com ciúmes? Não… aquela mulher não era normal… ele sentia algo, além do desejo.

Gregório pesquisava em casa sobre a vida da morena. Ela tinha perfis em redes sociais, mas tudo muito superficial O que será que ela tinha que atraía tantos os homens. Sorveu um gole de café e buscando referências, encontrou imagens de beldades marinhas, quando uma lhe chamou a atenção. Entrou no site e junto da imagem, uma poesia de Olavo Bilac. Leu-a e quedou-se fitando a tela iluminada, pensando em nada e pensando em tudo.

Passara a chegar ao trabalho cansado, com os olhos fundos graças as pesquisas incessantes. Aquela mulher não poderia lhe tomar tanto os pensamentos. Lucas estava apenas doente, nada mais. Tiago pegava carona com ela há quase uma semana e nada havia acontecido. Aquela obsessão tinha de acabar.

Colocou as mãos no rosto tapando os olhos e suspirou fundo, quando ouviu um som que o arrepiou:

– Tá tudo bem Gregório?

– Tudo sim Maira. – É que ando meio cansado… muito trabalho.

Maira se inclinou ficando com o rosto a dois palmos do dele e pousou a mão macia em seu braço, eriçando todos os pelos de seu corpo. O decote generoso da mulher agora estava à altura de seus olhos lhe dando um vislumbre tentador. Ela o fitou com aqueles olhos, e ele sentiu-se como se perdesse naquela misteriosa floresta verde. O silêncio de um segundo pareceu uma hora, e ela finalmente falou:

– Se precisar de algo, me diga, tá?!

Ela sorriu e seguiu para sua mesa, sentou-se puxando da bolsa mais uma vez o pente dourado e passou entre os cabelos. Parecia algum tipo de ritual. Aquela mulher definitivamente não era normal. Precisava imediatamente alertar ao amigo sobre suas conjecturas, mas entrou uma reunião com Sérgio e ficou ocupado a tarde inteira.

Ao retornar, consternado, percebeu que eles já haviam partido. De amanhã não passa! Preciso falar com ele. Tentou voltar ao trabalho, rezando para que o amigo estivesse a salvo.

No dia seguinte, ansioso ficou esperando por Tiago. Mas Sérgio irrompeu pelo escritório, praguejando:

– Lucas doente e agora essa. Tiago com a mãe no hospital. Assim fica impossível trabalhar!

Mais uma desculpa esfarrapada! Um arrepio de horror desceu pela espinha de Gregório. A miserável levara seu amigo para casa. Para aquele rio amaldiçoado.

Maira adentrou o escritório cumprimentando-o com a voz sedutora. Mas ele permaneceu mudo o resto do dia, imaginando ser o próximo. Sua tensão só aumentava. E na hora de ir, Maira se aproximou:

– Posso te dar uma carona hoje? Tiago não veio e detesto dirigir sozinha…

O sorriso da morena o penetrou como uma faca afiada, e enquanto seu cérebro desajeitadamente tentava negar, sua boca aceitava o convite.

No carro, enquanto a mulher falava, seus olhos viam que o caminho se afastava de sua casa, mas seu corpo negava-se a sair dali.

Sobressaltou-se quando olhando ao redor viu diversas árvores. Estavam bastante afastados do centro. Ela entrou com o carro na garagem de uma casa estilo colonial e ele saiu do carro acompanhando-a até a casa. Já mal raciocinava.

Ela entrou no banheiro, e Gregório voltou a realidade suando frio. Estava sentado no sofá daquele monstro! Correu para a porta principal, trancada. Sons no banheiro. Ela não demoraria. Olhou ao redor com adrenalina regando seu sangue. Não poderia voltar a ouvir aquela voz ou perderia a razão de novo. Correu a toda até encontrar uma porta de um quarto aberta. Entrou impulsionado pelo terror e se escondeu embaixo da cama. Como deixara a situação chegar àquilo?

Agora, em total estado de horror, Gregório segurava o celular fortemente com uma das mãos esperando o desfecho terrível daquela cena. Foi quando o aparelho vibrou. Ele olhou avidamente esperando que fosse o anjo de sua salvação, mas na tela apareceu o rosto sorridente de Tiago. Seu coração diminuiu a força dos impactos em seu peito. Tiago tivera o mesmo destino que ele estava prestes a ter… Assim, estupefato, atendeu.

– Fala Greg, é o Tiago. Vi que você ligou. Minha mãe teve um infarto e estou aqui no hospital. Desculpa, nem tive tempo de te atender cara… Tá tudo bem?

– Er… t-tá sim…

– Ok. Depois nos falamos, amigo. Abraço.

Gregório desligou o telefone totalmente desorientado. Tiago? Vivo? A história era verdade.Foi quando ele viu os pés morenos da mulher parados à beira da cama e seu coração congelou novamente.

Maira se ajoelhou e olhou para Gregório. Aquele sorriso cativante.

– O que está fazendo aí, bobo? Vem!

Ela deu a mão para o rapaz ignorando o fato dele estar escondido embaixo de sua cama. Gregório tomou a mão da mulher saindo desajeitadamente e se levantou.

– Vem, vamos tomar banho no rio. – Sem largar sua mão, mas sem fazer qualquer esforço, a mulher guiou o rapaz para os fundos da casa.

Gregório estava em estado de estupor. Não sabia o que pensar. O amigo que dera como morto estava vivo e bem, e ele estava ali com Maira enrolada numa toalha.

Há um mês isso era seu sonho. Há alguns dias isso era seu pesadelo. Agora, era a realidade! Finalmente poderia apertar o corpo da mulher contra o seu e beijar seus lábios carnudos incansavelmente.

Os dois agora atravessaram a porta seguindo pelo quintal iluminado pelo luar. Gregório ria enquanto ouvia o doce cantarolar de Maira. Agora aquele som era só dele. Como pudera ser tão tolo? Passara dias à beira da loucura imaginando fantasias.

A mulher deixou cair a toalha na grama, ficando com o corpo inteiramente nu, pouco antes de pôr os pés na água. Gregório a seguiu de Tênis, jeans e tudo. Quando a água chegou à altura da cintura, Maira, exibindo um sorriso maravilhoso, virou-se e enlaçou seus braços no pescoço do rapaz, trazendo seu rosto gentilmente para seu colo.

Gregório sentiu seu perfume, capaz de fazer inveja à mais fragrante flor, e sentiu como se levitasse num oceano de prazer e felicidade. Desprezou a temperatura que caíra subitamente quando suas roupas se agarraram à pele, enquanto seu corpo imergia entre mil borbulhas.

O rosto de Maira parecia disforme por entre o ambiente translucido, mas seus olhos verdes brilhavam. Os cabelos dela dançavam em meio ao ambiente fluido e pequenos peixes roçavam nas pernas dele e escamas dela, testemunhando novamente o espetáculo.

Gregório continuava sem se importar. Ele sorriu e puxou o ar pelo nariz enchendo os pulmões de água. Com os olhos vermelhos, beijou o colo da mulher e apertou-a com firmeza contra si.

E os dois, apaixonados, continuaram a descida em espiral, rumo ao fundo do rio.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.