EntreContos

Detox Literário.

Ecos da Colônia (Rubem Cabral)

ecos

Xenozoobotânico Tibor Simón, log pessoal #489.

O que posso dizer é que é insano, muito bizarro mesmo, visitar outro planeta habitável. A gravidade aqui em Kepler 977d, que carinhosamente apelidamos de “Limo”, é vinte por cento mais forte e o ar, embora certamente respirável, é denso e tem vapor d’água e oxigênio em demasia, causando um tanto de euforia no início; você se sente meio “ligado”, sei lá. E os cheiros e sons? Deus, eles não te permitem dormir direito! É tanto chiado, assobio, uivo! Tudo é louco: há insetos com características de répteis e anfíbios, pássaros com cascos e dentes de ligas organometálicas, plantas que migram de lugar… Pelo menos as sondas robôs pioneiras nos garantiram que não haveria muitos perigos; nada de grandes predadores carnívoros, digo, fora as margaridas-barril, mas elas são sésseis e não atacam ninguém que não se aproxime demais.

***

Na rotina de hoje colhi um bocado de novos frutos e vegetais para análise. Dois dos primeiros, vermelhões e ricos em minerais e proteínas, são bastante promissores como fonte de alimento da futura colônia. Parecem, em verdade, feitos de carne macia e suculenta e, felizmente, não aparentam ser cheios dos usuais aminoácidos dextrógiros que poderiam causar intoxicação.

***

Minha nossa, um bando de macacos-escamosos passou pelas copas das árvores, justo em cima de mim! Vou avisar à supervisão e segui-los. Szar! Esses bichos são rápidos demais!

Hum, tem um cheiro ácido no ar, estou provavelmente invadindo o território de uma margarida-barril: armar a pistola de eletrochoque. Ah, feito eu desconfiava: lá está ela, plantada no meio da clareira, ‘tão vendo? Essa é até um espécime mediano; tem uns três metros de altura e o tronco é gordo e espinhoso. No topo da coisa há uns tentáculos amarelos e achatados que escondem a boca cheia de presas. Assemelha-se mais a uma anêmona do que a uma margarida, mas o nome inventado pelo Rogério Dantas foi o que “pegou”.

Os macacos (outro nome indevido; são prateados feito peixes e não têm boca, apenas enormes olhos compostos e narinas na testa) fazem fila e se aproximam. A margarida emite alguns cliques estranhos e arrota um perfume adocicado. Seus tentáculos dançam, deve estar ansiosa pelo que virá depois.

Uma a uma, as criaturas saltam acrobaticamente no ar e pousam na bocarra aberta da margarida-barril, que as engole prontamente. Já se havia testemunhado o suposto ritual de suicídio coletivo duas vezes, porém é emocionante fazê-lo ao vivo, pela primeira vez! Oh, hã… Algo, caramba, nunca visto antes acabou de ocorrer: um dos bichos suicidas foi “recusado”. A coisa o vomitou e o animal, muito confuso, foi para o fim da fila, para tentar outra vez. Novamente, foi rejeitado. Agora caminha em círculos, sem saber o que fazer. Oh, caiu estatelado no chão!

A Diretiva de Interferência Mínima recomenda não causar dano desnecessário e não recolher espécimes vivos de animais, mas não há nada de errado em se examinar um indivíduo morto. Se eu for rápido o suficiente, a margarida não reagirá.

Cara… Droga, droga, droga! Vi-viram?! A maldita cuspiu alguns daqueles globos purulentos em minha direção! Um explodiu e respingou ácido e, por um triz, não fosse o uniforme reforçado, teria me derretido o pé direito. Bem, ao menos consegui resgatar o corpo do bichinho… Pode crer, quando os colonos chegarem, muitos vão querer erradicar essas coisas!

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Doutora Tsuki Fratelli, log pessoal #258.

Vinte e oito horas e sete minutos, hora local do Assentamento Asimov. Iniciando necropsia de um exemplar de Pseudosimius squamea.

Nove quilos e duzentos e oito gramas, peso ajustado segundo a gravidade local. Sem marcas externas ou lesões. Como no animal anterior, dentro do tórax e abdômen há somente um coração de duas válvulas e um pulmão esponjoso. Isso, claro, além desse enorme órgão, a bolsa, que devia estar cheia de gordura amarela. Nem sinal de sistemas digestivo, excretor ou reprodutor. Na Terra, alguns animais recém-nascidos têm sacos vitelinos, para sustentá-los até que consigam alimento. Estes bichos daqui, porém, só devem viver enquanto têm reservas, já que não podem comer ou beber. Ainda que tenham metabolismo lento, não creio que possam sobreviver mais do que algumas semanas. Irei recolher amostras de vários tecidos para análise. Segundo os registros do Doutor Gamba do Assentamento Sagan, o primeiro espécime tinha níveis alarmantes de cobre em praticamente todo o corpo.

***

Oba! Análise concluída. Hã, nada de demais com o cobre, mas há nióbio suficiente neste corpinho para se fazer um monte de imãs supercondutores. Questo è molto strano! Como diabos pode a química variar tanto de um indivíduo para o outro? E por que nunca encontramos um filhote? Como será que eles nascem e de onde vêm?

Mistérios, sem dúvida, que talvez só os colonizadores definitivos venham a esclarecer. De qualquer forma, só faltam menos de dois anos terrestres até eles chegarem. Vai ser bom ver algumas caras novas! Acreditem: sessenta pessoas é um grupo bem pequeno, em especial depois de tanto tempo de convívio.

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Engenheiro Pawel Schoupinski, log pessoal #975.

Sabe, Rogério, se há uma coisa que me intriga neste planetão é a sua órbita: quase que perfeitamente circular, sem inclinação do eixo e, portanto, sem estações. Contraria os modelos clássicos de formação planetária, sabia? Isso sem nem citar a influência do Kepler 977e, esse puta gigante gasoso com quase o dobro da massa de Júpiter, que deveria afetar, desestabilizar a trajetória de “Limo” totalmente! Mas não: alguma outra força compensa a atração. Mesmo o relevo do planeta é modesto em demasia, praticamente não há montanhas ou grandes depressões, olha só este mapa… A paisagem se resume aos oceanos e aos dois supercontinentes, homogeneamente cobertos de florestas. Não é esquisito? Olha esse gráfico de médias históricas: a distribuição de chuvas é extremamente regular, as temperaturas não flutuam muito… Nada de desertos, nada de savanas ou calotas polares. Nenhuma maldita cratera de impacto! Ainda conta com um campo magnético fortíssimo, gerador de auroras incríveis, que protege a superfície de toda radiação.

“Limo” consegue ser muito melhor como habitat do que a própria Terra! Alguém mais paranoico diria até que foi arquitetado e criado. Isso! Feito nas ficções científicas sem muito fundamento dos séculos vinte e vinte e um. Os deuses-astronautas, os grays, tã-tã-tã-tã… Ha-ha!

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Capitã Lorena Gomes Simón, log pessoal #1325.

Não! Co-como se desliga esta coisa? Merda! Ah, meu Deus, mas eu sou mesmo uma imbecil! Cruzar mais de vinte anos-luz para descobrir que meu marido me corneia com aquela vaca nipo-italiana! Será que é por que já tenho quarenta e oito? Estou gorda? Burra! Eu deveria ter escutado minha mãe: “homem muito mais novo e bonito vai encher você de chifres!”. Tibor: você não podia ter feito isso comigo! Não aqui, não agora, justo quando não tenho o apoio de ninguém.

***

“É meu troféu, é o que restou, é o que me aquece sem me dar calor. Se eu não tenho o meu amor, eu tenho a minha dor…”. Ah, não: escutar velhos sucessos, chorar e encher a cara, na frente dos meus subordinados? Nunca! Preciso de ar, necessito esfriar a cabeça e pensar como dar o troco, talvez. Tem aquele garoto lindo, dos sistemas de monitoração; o polaco baixinho, Pawel Sei-Lá-O-Que “Inski”.

***

Ai, acho que dormi… A noite tá tão linda, tão clara! A segunda lua tão alta no céu, a primeira, rosada, um rubi correndo junto ao horizonte. E o Tibor? Por que não respondeu aos meus chamados? Será? Não, ele não ousaria! Não pode estar com ela! São oito anos de casamento, pelo amor de Deus. Ele não pode terminar comigo assim! Não pode me humilhar e expor deste jeito!

O GPS ainda não funciona bem só com dois satélites. A última posição dele, há uma hora e meia, foi a seis quilômetros a noroeste daqui. São quase quinze para as trinta e oito: todos já estão dormindo! Eu não deveria sair, mas nunca fica realmente escuro aqui…

***

Este uísque, definitivamente, é muito bom! Depois de uns três goles já não queima mais… Deixa um gostinho até doce no final. Droga! O maldito GPS agora me diz que ele voltou pro Assentamento! Que remédio? Tenho que voltar. Hum, que cheiro forte é esse? Parece que derramaram um pote de picles no mundo!

Não! Socorro! O que… Alguma coisa me agarrou! Ai, tá queimando! Me solta! Me solta! Não! Minha pistola, merda, não posso dar um choque na coisa se ela me segura… Ah, foda-se a Diretiva!

Oh, meu Deus! Ai, graças… Explodi essa flor infernal em mil pedaços! “Central, aqui é a Capitã Lorena chamando, coordenadas, hã, 34°58′34″S/58°05′50″W. Preciso de socorro imediato!”

Tibor, você me paga!

***

Engenheiro Pawel Schoupinski, log pessoal #977.

Rogério, corre aqui! Tem um monte de alarmes bipando! Olha a porra deste mapa térmico! Ou o satélite pirou ou… Tem, sei lá, uma centena de pontos quentes surgindo ao redor das regiões dos dois Assentamentos! Zoom?! Boa ideia! Óbvio! Vamos ampliar um destes pontos.

Mas que diabos é essa coisa? É imensa! De-deve ter uns trinta metros de altura, está acima das copas. É um tipo de organismo unicelular? Uma água-viva redonda? Por que nunca vimos nada parecido? Deus, estão por toda parte!

Você sentiu isso? O prédio todo tremeu! As luzes estão… O pré… Ahhhhhh!

***

Doutora Tsuki Fratelli, log pessoal #265.

Foi há umas seis horas. Ninguém, ninguém responde ao rádio. Nem mesmo o pessoal do Sagan. Consegui me esconder numa gruta que eu conhecia perto do laboratório. Quando os globos gigantes surgiram, dei sorte: estava do lado de fora e corri. Deveria ter tentado ajudar, eu sei, mas só pensei em me salvar. Cheguei a ver de relance quando um dos globos rolou sobre o edifício, feito uma onda de gelatina. Foi horrível! O laboratório e todas as pessoas, sendo digeridas e sufocando dentro daquela bolha semitransparente!

Nós provocamos alguma coisa, uma reação. De algo muito maior e incompreensível. Talvez, talvez, existam relacionamentos simbióticos que desconhecíamos. As flores, os macacos, estas criaturas do subsolo. Alimentando-se, defendendo-se. Feito uma colmeia! Soldados, operários, zangões. Ou algo completamente diferente… Hã, macacos levando metais em sua própria carne, de uma região para outra. Nióbio em uns, cobre em outros. Pode ser que até levem mais oligoelementos: zinco, selênio, manganês… Nutrientes, circulando de um ponto onde são ricos até onde não o são… Com destino certo, cada margarida especializada num metal diferente, rejeitando o que não sabem processar! Feito, feito… Mas isso então explicaria a órbita impossível, explicaria tudo! É intencional, é vivo, é inteligente! Nós fomos tolerados, mas depois que abusamos fomos talvez marcados como invasores! Ativamos uma espécie de resposta…

Não! Me encontraram! Escuta-me: eu não quero fazer mal, me poupe, nem todos nós somos ruins. Você consegue me entender? Não, não! Gasp! Eu…

***

Epílogo.

Houve um dia em que vocês foram muitos, que atendiam por nomes que identificavam suas individualidades. Agora não há mais “eu”, há apenas “nós”. É bom tê-los aqui, conhecê-los tão intimamente. Partilhemos, irmãos! Permitiremos que vaguem por cinco bilhões de anos de nossas memórias. O começo dolorido, a formação da consciência, a solidão ao nos descobrirmos únicos… Acessamos suas existências efêmeras, mas tão singulares, tão ricas. “Amor” é muito interessante, “medo” também. Ainda não compreendemos bem o “ciúme”, mas parece-nos associado aos seus rituais de acasalamento.

Observem, amados, como desviamos aquele cometa em rota de colisão, como compensamos o poço de gravidade do gigante gasoso que nos expulsaria do sistema, como bloquemos completamente outra explosão solar esterilizante.

Ah, é glorioso ter companhia tão distinta de nós, ter contato com facetas do “ser” que nos são inéditas. Estamos ansiosos pela iminente chegada de mais. Criaremos novos corpos para vocês em nossos úteros, para não assustarmos nossos futuros amigos com suas ausências. Ofereceremos a cada um uma fração de nosso espírito e apagaremos as inúteis lembranças ruins. Claro, faremos o mesmo também com todos os arquivos digitais desnecessários.

É nosso desejo. É bom, é certo, é justo, é incontestável. Agora, vão!

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53 comentários em “Ecos da Colônia (Rubem Cabral)

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Publicado às 3 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .