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Detox Literário.

A Nave (Catarina Cunha)

A nave

A Nave foi criada através de um estudo que durou meio século. Dotada de atmosfera autorregulável e autolimpante prescindia de filtros. Transparente em toda sua circunferência recebia luz natural regulada alimentando seus geradores dia e noite. Gerava sua própria água a partir fusão da luz com o oxigênio artificial. As hortas não manipuladas eram semeadas, nasciam, cresciam e eram colhidas pela própria nave, evitando assim contaminação cruzada. Estava preparada para uma longa viagem.

O feito inédito, visitar um planeta de outra galáxia, exigiu um plano de exatidão matemática. A nave seria lançada através do grande arco atmosférico que se abria periodicamente. Uma grande massa de ar empurraria a densidade da nave maleável para o espaço. A viagem seria lenta e longa. O pouso estava previsto para  09:42:12 horas de 03/07/2463 – hora local – em um campo  de luminosidade intensa porém fresca, solo macio apenas o suficiente para suavizar o impacto do pouso.

O lançamento foi perfeito. A equipe comemorou emocionada. As condições atmosféricas estavam dentro do previsto. A nave cumpriu sua função em todos os setores. O comandante, exultante, mandou que todos se preparassem para o pouso. Não havia o que fazer. A própria nave estava programada para pousar sem a interferência da tripulação, basicamente de cientistas.

O comandante, horrorizado, viu o campo de pouso se aproximando inexoravelmente. Convocou toda a tripulação com urgência.

Senhores houve uma falha inexplicável no projeto. A nave está condenada. Foi uma honra fazer parte desta equipe de bravos que deram suas vidas pela ciência. Nosso planeta nunca mais será o mesmo depois de todos esses avanços. Mas como não previmos esta variável?

Uma menina sopra numa argola. Uma bolha de sabão é lançada no ar e viaja pelo céu do jardim. Um grande pastor alemão dorme no gramado de barriga para cima, com a boca aberta e a língua pendurada. A bolha de sabão explode na sua boca. Ele abre um olho, boceja e volta a dormir.

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122 comentários em “A Nave (Catarina Cunha)

  1. Reinaldo Silva
    15 de agosto de 2015

    Catarina, o comandante Rex foi muito claro. Colega Wilson, obrigado pela dica em adequação de micro conto ao gênero futurista.
    Odlanier.

  2. catarinacunha2015
    14 de agosto de 2015

    Fabio,
    A intensão era dar um soco no estômago do leitor mesmo. Pena que errei e acabei levando um direto no queixo. Estou reescrevendo este conto para desenvolver melhor a trama e o personagem principal.
    Grata pelo comentário.

  3. catarinacunha2015
    12 de agosto de 2015

    Quase todas as chibatadas que levei foram merecidas e vão me ajudar a melhorar este conto. Com alguns comentários cheguei a me sentir genial. O André Luiz foi quem conseguiu traduzir, mesmo com todas as minhas falhas, o meu objetivo. Grata, a todos, pelo retorno.

  4. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Que giro. A circularidade da vida. Uma premissa que faz pensar. O conto, no entanto, é curtíssimo. Tomara que o autor tivesse usado mais do tempo para desenvolvê-lo. Uma pena.

    Bem jogado! 5

    • catarinacunha2015
      13 de agosto de 2015

      Fábio,
      Você pegou a ideia no ar e tem razão, eu poderia ter desenvolvido melhor a trama. Grata pelo comentário.

  5. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 4/10

    → Criatividade: 4/10 – Criatividade mediana… um pouco abaixo da média, inclusive.

    → Enredo: 4/10 – Foi de lugar nenhum a nenhum lugar. Sinceramente, odiei.

    → Técnica: 4/10 – Tenho plena convicção de que você é capaz de expandir sua técnica de escrita, dada a vastidão de espaço que ainda pode ser preenchido.

    → Adequação ao tema: 10/10 – É…

    • catarinacunha2015
      13 de agosto de 2015

      Luan,

      Defendo o seu direito de odiar, até porque é um sentimento profundo que poucos conseguem expressar com sabedoria.Considero a opinião pessoal e não técnica. Mas está valendo.

      Os demais comentários são pertinentes e me serão úteis.

      Grata,

  6. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    Um miniconto perfeito, no mais puro estilo Jacques Sternberg. Interessante como os contos curtos adaptam-se à ficção científica muito mais que a outras modalidades. Entre os de Isaac Asimov citam-se o do “Bardo Imortal”, “Muito Barulho para nada”, “Então foi Assim”, e outros. Veja como este conto do escritor Belga que citei no começo parece com o seu:

    “A Criatura (Jacques Sternberg)

    Como era um planeta de terra fina, falésias douradas, água verde e recursos naturais praticamente inexistentes, os homens tinham decidido transformá-lo em uma encantadora estância de turismo, em vez de tentar explorá-lo ou trabalhar a terra, aliás estéril.

    Foi no outono que desembarcaram os primeiros pioneiros. Edificaram algumas estações balneárias, com cabanas para milionários no gênero da Torralta, e chegando o Verão, as aldeias improvisadas já podiam receber milhares de veranistas. Naquele verão chegaram logo dois mil. Passaram semanas formidáveis, bronzeando-se aos três pequenos sóis, pois eram deste número naquele mundo, extasiados com a paisagem, a calma, o clima e o fato tranquilizador de não haver no planeta nem insetos, nem carnívoros, nem peixes ferozes nem qualquer forma de vida animal.

    Mas na madrugada de 25 de agosto aconteceu o imprevisto: de uma só vez, em questão de segundos, o planeta engoliu todos os veranistas de uma só vez.

    O planeta não abrigava de fato nenhuma forma de vida a não ser a sua. Era a única criatura daquele mundo. Gostava muito de seres vivos, principalmente humanos. Mas gostava deles bronzeados, bem limpos pela água e pelo vento, quentes e bem cozidos.”

    • catarinacunha2015
      13 de agosto de 2015

      Wilson,
      Que obra prima maravilhosa você nos presenteou!
      Os minicontos sofrem um certo preconceito até por quem faz. Apanhei tanto por aqui ( com um certo merecimento) que precisava que alguém mostrasse um bom referencial.
      Grata por meu humilde conto ter te despertado tão digna lembrança.

  7. Gustavo Castro Araujo
    11 de agosto de 2015

    Bacana a ideia de dizer muito com poucas palavras. A metáfora da nave com a bolha de sabão funcionou legal. No início, o microconto me lembrou a animação Wall-E, em que a humanidade abandona a Terra em direção ao espaço. Gostei das descrições, tanto da nave como da revelação – a criança e o cachorro, principalmente – no fim. No entanto, há que se dizer que, como conto de FC, fica muito aquém da capacidade de quem escreveu. Pela qualidade do riscado, poderia ter nos oferecido mais. Bem mais.

    Nota: 6

    • catarinacunha2015
      13 de agosto de 2015

      Gustavo,
      Você sabe que esta é a minha paixão: dizer pouco com poucas palavras, mas neste caso houve uma falha técnica assumida no controle do pouso da NAVE.
      Grata pelo comentário,

  8. Bia Machado (@euBiaMachado)
    10 de agosto de 2015

    Não houve tempo de me cativar, desculpe. E não foi o tamanho o grande culpado. O enredo é muito bom, mas a execução não foi legal. Ou não merecia ser tão curta. Os personagens são importantes pra mim em um texto. Aqui eles estão nulos. Tinha tudo para ser um ótimo miniconto. Mas faltou um pouco de emoção, a meu ver. Um sentimento a mais. Então se precisava de mais, podia ter escrito o que faltou. Trabalhe nessa história, acrescente vida às personagens. Acredito que valerá muito a pena!

    • catarinacunha2015
      13 de agosto de 2015

      Bia,
      O personagem principal aqui é a Nave e sim, faltou emoção na falha técnica que a Nave sofreu. Eu deveria ter desenvolvido o drama até chegar no clímax. Não pretendo desenvolver os outros personagens porque são secundários para um miniconto e sim intensificar a trama para culminar numa tragédia. Tinha espaço, vou trabalhar isso! Grata pelos comentários.

      • Bia Machado
        15 de agosto de 2015

        Se a nave é a personagem principal, basta potencializar isso, como você disse, desenvolver. Eu acho isso muito bacana, essa coisa de objetos, lugares serem as personagens. King faz isso em “O Iluminado”. O Hotel Overlock (é assim mesmo que se escreve?) é a personagem principal, mesmo não fazendo nada. As personagens trabalham pra isso. Até o próximo desafio! 😉

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Informação

Publicado às 3 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .