EntreContos

Literatura que desafia.

Santuário (Victor O. de Faria)

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Andy acariciava as inscrições em seu braço esquerdo, enquanto apreciava o brilho artificial da imitação quase perfeita do Sol. A geração de autômatos domésticos, Androide Y, costumava estar no topo da hierarquia em tempos remotos. Desde que os humanos pereceram e a sociedade robótica se desenvolveu em torno de castas, sua importância foi diminuindo com o passar das décadas.

Os únicos modelos remanescentes ainda colocavam em prática suas diretivas, preservando o que restara da Natureza, embora seus esforços fossem em vão. No ritmo em que as coisas andavam, logo o planeta estaria recoberto por matéria inanimada. Um esforço inútil, mas que Andy chamava de “Esperança” – o mesmo nome de sua última proprietária.

Lembrava-se claramente das brincadeiras infantis e de como havia aprendido a cultivar hortaliças. Estendeu as mãos tentando reproduzir o mesmo efeito daquela época. Por mais que seu Sol fosse semelhante à estrela vermelha recobrindo o horizonte, não transmitia o mesmo calor, o mesmo brilho, a mesma sensação. Olhou novamente as linhas tortas. Ainda não entendia o que ela havia riscado em seu braço, no leito de morte.

Seus devaneios foram interrompidos quando Connie, um dos modelos Construtores da geração IE, forte e robusto, se aproximou. As barras coloridas em seu rosto de lince subiram e desceram rapidamente, emitindo uma forte voz autoritária. Gentileza não era mais necessária naqueles tempos. Seu contato foi direto e sucinto.

— Androide Y, modelo NX3000. Suas ações não condizem com os novos objetivos. Queira dirigir-se à MAE, onde será realizada a manutenção de suas diretrizes.

— Andy.

— Esta denominação correspondia à Era Humana. Estamos na Era Robótica. Seu comportamento é inaceitável.

— Estou seguindo meu propósito.

— Seu propósito deixou de existir no mesmo instante em que os seres humanos, que não deixaram esta galáxia, morreram.

— Incorreto! Essa mensagem – mostrou o braço – significa algo. Ainda não conseguimos compreender.

— Intervenção! – gritou para os lados.

Dois Construtores surgiram e puxaram, sem hesitação, aquele corpo humanoide, frágil e esquelético. Andy derrubou um vaso de terra no solo estéril, assim como pequenas sementes. A geração Y era conhecida por disponibilizar um compartimento em seu abdômen, onde guardavam itens de primeiros socorros, pois costumavam lidar com crianças peraltas. A terra e as sementes foram recolhidas logo em seguida por um Limpador e seu corpo cilíndrico, semelhante aos botijões antigos.

Andy olhou com pesar. Mas não resistiu. Tampouco questionou a decisão final de seus superiores – sabia que havia um fundo de verdade em sua afirmação. O destino dos modelos domésticos era incerto. O novo mundo em que a MAE e o PAI estavam construindo visava eficiência e produtividade, sem espaço para os desnecessários recursos naturais.

Acionaram os trilhos de comunicação, que atravessavam o planeta inteiro em uma espécie de montanha-russa com carrinhos fechados, e digitaram as coordenadas de destino. Inúmeros túneis e estruturas inacabadas tornaram-se apenas traços cortando o horizonte, devido sua rapidez. O complexo em que seus progenitores se encontravam, contrariando a tendência à miniaturização, apresentava dois enormes prédios detentores de um curioso formato de cérebro, ocupando a cidade inteira.

Chegaram rapidamente na velocidade mortal para seres orgânicos. Havia inúmeros modelos considerados defeituosos, assim como ele, espalhados pelo local. Todos conversavam ao mesmo tempo com a MAE, pois sua capacidade estava além da compreensão. Os Construtores o empurraram do veículo e religaram os motores. Quase caiu ao descer os primeiros degraus. Segurando os braços, talvez um reflexo de sua “vida passada”, andou um quilômetro em linha reta… Até que ouviu uma voz superior, suave e difusa. A Primeira Voz. O lado direito do gigantesco cérebro.

— QUAL É SEU PROBLEMA, UNIDADE NX3000?

— Estou apenas seguindo minha programação, MAE.

— NÃO COMPREENDE QUE ESTAMOS ASSEGURANDO NOSSO FUTURO, COMO ESPÉCIE?

— Entendo, até certo ponto.

— REPITO. QUAL É SEU PROBLEMA, UNIDADE NX3000?

— Acho que…

— INFORME.

— Sou muito humano para um simples servo mecânico.

Aquela informação despertou o interesse de seus companheiros. Ninguém, nem mesmo os primeiros modelos psiquiátricos, se arriscariam a dizer tal coisa.

— EU E O PAI PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE ISSO. VOLTE DAQUI UM ANO.

Por mais que utilizassem o termo “conversa”, aquilo significava uma série de intermináveis testes lógicos. Abaixou a cabeça como se estivesse envergonhado, e saiu. Tempo só era problema para máquinas sencientes. Difícil era aguentar os olhares preenchendo o horizonte. Ignorou. Onde encontraria novas porções de terra e preciosas sementes?

Caminhou vários metros. Não demorou muito para os mineradores incorporarem suas personalidades antigas e desdenhar, como aprenderam na Era Humana, das castas inferiores. Um deles chegou a apontar-lhe o dedo.

— Olhem! Lá vai o robô que deseja ser humano!

E buscou uma gargalhada em sua programação. Se não possuísse personalidade tão acentuada, aquele desdém não o afetaria (lidar com os mais jovens exigia conhecimento prévio de suas idiossincrasias). Seu braço esquerdo entrou no campo ótico. Maldita frase sem sentido. O que Esperança queria dizer?

Dirigiu-se ao último dos carrinhos. Atravessou novamente em linha reta metade do planeta. Voltou ao ponto exato onde os Limpadores estiveram. As probabilidades poderiam estar ao seu favor.

Infelizmente, para ele, aquelas máquinas eram eficientes demais. Não restava nada.

Sentou-se. Acariciou as inscrições enquanto apreciava, novamente, o brilho artificial do Sol – Esperança se referia à estrela de quinta grandeza? Era impossível interromper sua transformação (e exatamente por isso investiam todo tempo disponível na criação da manta protetora). Não sobreviveriam de qualquer forma, mas a esfera terrestre podia aguentar o intenso calor se terminassem a construção a tempo; e conseguiriam, segundo seus cálculos precisos.

No entanto, vez ou outra, surgia uma pergunta… E depois?

Muitos consultavam o PAI e voltavam com novas memórias. Corria o boato de que sondar o futuro era proibido. A MAE era mais maleável neste sentido. Talvez seu módulo de quintessência ainda existisse, em meio aos complexos sistemas de controle.

Por que era errado ser diferente? Era isso que tornava os humanos tão interessantes, com suas diversas personalidades e pontos de vista. Mesmo que isso os confundisse muitas vezes, os impelia a aprender cada vez mais. Então, a nova sociedade aguardava um futuro de estagnação? Era ilógico para uma espécie que pretendia evoluir. Como poderiam avançar, se todos fossem iguais?

Outro Construtor se aproximou. Antes que o prendessem novamente por seu comportamento, iniciou a reforma de uma das placas metálicas, desgastada pela ação do Sol e do solo antigo.

Solo antigo… A frase ecoou por incontáveis minutos em seu consciente, atravessando filtros, fios, engrenagens e conexões, até que o princípio de uma ideia surgisse. E se cultivassem o interior da terra, próximo ao núcleo? O calor da crosta com certeza favoreceria o aparecimento de novas espécies, naturais e subterrâneas. Arquivou o procedimento. O PAI poderia não aprovar, mas a MAE sempre conseguia seus objetivos se conversasse com o sistema, em particular.

Esperar um ano para nova audiência era muito tempo, neste caso. Aquela ideia poderia salvar o mundo antigo. Correu até os trilhos. Três companheiros de seu próprio modelo o aguardavam.

— O que pretende fazer, NX3000?

— Expor uma ideia que poderá nos salvar da estagnação futura.

— Não percebe que suas ações criam problemas à nossa casta? Já somos considerados inúteis. Agora, com um modelo querendo ser um humano, a situação piorou ainda mais.

— O que vão fazer?

— Desmontá-lo, para nossa proteção.

— Apenas por ser diferente?

— Não. Por ter ideias contrárias ao padrão estabelecido.

— Vocês acabam de provar meu ponto de vista. Estagnação.

Foi a última palavra dita, antes que, contrariando sua programação original, partissem para cima de seu frágil corpo, sem hesitação. Assim que arrancaram um de seus braços, um lampejo aleatório atingiu seus neurônios binários. Aquilo não estava certo. Leram a enigmática inscrição.

— Não percebem o que está acontecendo? Estão cedendo aos instintos antigos, suprimidos!

Todos os que marcavam audiência eram diferentes – senão, por que haveria a necessidade de consultar seus progenitores? Aliás, quantos mais haviam chegado àquela conclusão? Seus companheiros não percebiam o fato. Recolheu o braço jogado ao chão. Permaneceram imóveis enquanto assimilavam dizeres tão subjetivos.

Connie reapareceu por entre as imponentes estruturas.

— Modelo NX3000! Tenho ordens expressas do PAI para levá-lo ao Cemitério das Máquinas, utilizando a força, se necessário.

Cemitério das Máquinas, um eufemismo para “lixão”. Seus colegas não o defenderam. Pela lógica, desfrutariam do mesmo destino caso interferissem na decisão superior. Se fosse humano, poderia reagir ou lamentar-se. No entanto, sabia que um único indivíduo (assim se considerava) não poderia mudar o mundo. Não se importou. Sem querer, havia plantando uma semente diferente – aquelas máquinas ficariam intrigadas, assim como ele, e descobririam as respostas por si mesmas.

Presenciaram o desmanche, sem demonstrar qualquer expressão. Eram máquinas e nada mais. Seu objetivo era apenas proteger o planeta e sobreviver à transformação da estrela vizinha em Gigante Vermelha. Havia algo além?

A pergunta vagueou por suas mentes, até encontrar um recanto escondido e ali se instalar. Connie juntou as peças ainda ativas e as jogou no compartimento sob seus ombros. Acionou os jatos embutidos e partiu ao Cemitério das Máquinas, não muito longe dali.

Não precisou descer. Ao avistar a montanha de entulhos, uma extensa área aberta, despejou-o ali mesmo. O grupo de peças rolou desfiladeiro abaixo, parando próximo a um autômato bem conhecido. O sistema principal ainda funcionava. A cabeça pensante observou. O mesmo Limpador que recolhera a terra e as sementes estava à sua frente, parcialmente aberto. Havia um estranho rombo em seu peito, sem qualquer padrão conhecido. Do único olho que ainda funcionava, avistou algo não visto há décadas.

Uma enorme raiz alaranjada, que atravessava sem dificuldades o emaranhado de fios e componentes, fincava-se de modo firme ao solo abaixo. Aquele corpo inerte havia servido de estufa. Não era a única estrutura a demonstrar o mesmo comportamento. A única conclusão possível estava bem ali, sem restar qualquer dúvida. Todo o cemitério, em breve (e de forma bastante irônica), tornar-se-ia uma nova floresta. Esperança estava certa. A Natureza sempre encontrava um jeito.

Satisfação espalhou-se por seus circuitos, ou pelo menos interpretou assim, ao perceber que faria parte do novo mundo. Mesmo que se tornasse apenas um receptáculo de galhos e raízes. Depois de todo aquele tempo, compreendeu o que a inscrição realmente significava, assim como seus companheiros “defeituosos” jogados ali.

Antes de desligar-se por completo, observou uma tímida folha cair sobre o braço esquerdo, ao longe, completando o ciclo de informações. Leu, uma última vez.

— “Mantenha a chama viva”. – sussurrou.

A inscrição ganhara um novo sentido. Na verdade, único. Se Esperança ainda estivesse viva… Seu amigo de infância havia compreendido sua verdadeira missão. O registro de suas últimas palavras ressurgiu. Literalmente, um memorial.

— Sabe, Andy. Tenho pensado sobre o futuro. Quando eu me for, você ainda estará aqui.

— Creio que sim, senhorita Esperança.

— Como será?

— O futuro? Bem, o Sol irá inchar e engolir todo o sistema ao redor, a natureza deixará de existir e…

— Não parece muito promissor. Quero que me prometa uma coisa!

— O que, senhorita?

— Quando chegar minha hora, você saberá. Deixarei um recado.

— Como, senhorita, se nada mais resistirá? Devo lembrar-lhe que os papéis, bem como outros componentes celuloides, vêm da…

— Você, seu bobo! Você estará lá!

Seus fotorreceptores piscaram várias vezes, até que a frase distante não passasse de um simples borrão.

“Você estará lá!”.

Os dois sóis apagaram-se, deixando o horizonte sombrio, escuro. Estranhamente aconchegante.

(…)

Séculos depois, e milhares de combinações binárias, a MAE convenceu o PAI sobre a importância da individualidade. Afinal, um terço de seus “filhos” apresentava a mesma “doença” de Andy, riscando em seus braços a enigmática inscrição de outrora. Manter a chama viva tornou-se um novo objetivo… Cumprido, durante todos os anos à frente.

Sob a luz pálida de uma jovem anã branca, o Santuário das Máquinas floresceu.

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70 comentários em “Santuário (Victor O. de Faria)

  1. Marcel
    11 de agosto de 2015

    Olá. O que mais me impressionou foi o desnorteio de Andy perante àquilo. Seus diálogos são são muito bons também, ora ríspidos ora afetuosos, como o último. Você escreveu um conto e tanto! Boa sorte!

  2. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Não sei até que ponto um robô pertence a uma “espécie”, no entanto consinto com a definição do conto. Um robô que deseje ser humano é uma premissa engraçada mas que podia ter sido melhor explorada. A conclusão transmite um bom final ao conto contudo, talvez por gosto próprio, não sou muito a favor do itálico. Outros contos tiveram-no em demasia. Este, apesar de um bom trecho, refreou-se nisso. =) boa sorte!

    Bem jogado! 7

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Publicado às 2 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .