EntreContos

Literatura que desafia.

O Homem do Caos (Wilson Barros Junior)

Eu não conseguia afastar os olhos do seu terno amarelo-mostarda.

– Doutor, o senhor já deve ter ouvido falar de Simon de Laplace – perguntei. – O matemático.

O psicanalista respondeu:

– Você é matemático?

– Não – eu disse. – Laplace afirmava que se uma inteligência conhecesse todas as variáveis do universo, nada seria indeterminado para ela.

– Como você se sente a respeito disso? – O psiquiatra perguntou.

– Não há, pode ter certeza, como conhecer todas essas variáveis – ignorei a pergunta -, mas é possível encontrar-se ordem no caos produzido por elas. Mais ou menos como um enxadrista não pode prever tudo que vai acontecer após um movimento, mas consegue atingir o objetivo vários lances depois. E antes que pergunte, não, não sou nenhum mestre de xadrez.

– Você se sente frustrado por isso? – Dr. Jardim mantinha-se impassível.

Respirei profundamente.

– Não. Posso continuar?

– Claro, se é isso que você deseja.

– Há muito – continuei – os matemáticos descobriram que há certa regularidade nos eventos aleatórios. Por exemplo, existe uma teoria, chamada “mundo pequeno”, que diz que os eventos sempre estarão conectados. Daí por que o que chamamos “coincidências” não são tão espantosas assim.

– Aconteceu algo assim com…

– Quem tivesse um talento especial, digamos assim, para mover-se nesse emaranhado de eventos, e processá-los instantaneamente, poderia, como um bom enxadrista, criar uma ponte entre dois acontecimentos.

Tomei fôlego e prossegui rapidamente, sem dar tempo para o Dr. Jardim perguntar mais disparates.

– Na antiguidade, pessoas com esse talento especial eram chamadas “magos”. Conseguiam descobrir eventos que provocavam outros eventos, em uma sequência encadeada, e assim produziam chuvas e boas colheitas.

– O senhor acredita em magia, Sr., aaaahnn… – Dr. Jardim, baixou os olhos para a tela de computador último modelo – Caos? É o nome que está na sua ficha, é isso mesmo?

– É isso mesmo. O que era magia ontem é ciência hoje, doutor. Um cientista chamado Feigenbaum demonstrou que existe uma matemática que pode unificar o caos. Esta matemática foi desenvolvida posteriormente por um jovem brasileiro chamado Artur Ávila. Mas não é preciso conhecê-la para mover-se através do Caos.

– O senhor está querendo dizer que o futuro pode ser matematicamente previsto através dessas teorias?

– Não – respondi. –  O que quero dizer é que as pessoas podem manipular o futuro, mesmo em face da caoticidade dos eventos, se tiverem capacidade suficiente para isso. Tomemos um exemplo, um jogador de futebol. Quando ele vai cobrar um escanteio, não precisa calcular a velocidade do vento, a inclinação da bola, nem o ângulo do seu pé. Seu cérebro processa as informações de outra forma, não-matemática, e ele consegue colocar a bola suficientemente próxima à cabeça do centroavante para que ele faça o gol. Assim, de certa forma, ele criou uma cadeia de eventos que modificou o futuro. Claro que essa é apenas uma analogia. Mover-se em eventos mais complexos requer uma habilidade muito maior.

– E o senhor…

– Sim, Doutor, tenho essa capacidade, em altíssimo grau.

Houve uma pausa, desta vez mais longa. Finalmente o bom do doutor perguntou:

– Mas tal capacidade…

– É divina? Não, doutor, não acho que sou Deus. Apenas consigo pressentir, captar a delicada teia dos acontecimentos. Ela está diante de mim, e geralmente consigo alterá-la, como um programador de computadores inclui linhas de código em seu software.

Finalmente Dr. Jardim parecia interessado. Talvez ninguém houvesse apresentado esta neurose anteriormente. Quando ele falou, foi para dizer:

– Você costuma pensar que, na infância, as pessoas impediam-no de realizar o que desejava?

– Poucos ousariam. Geralmente aconteciam coisas desagradáveis com quem tentava.

– Você disse que consegue criar, manipular cadeias de eventos. Como se sente sobre isso?

– Muito bem. Para mim, é como se tudo acontecesse dentro de um funil. Não importa a forma com que tudo se processa, pois sei que tudo será atraído para o seu fundo. Eu consigo deslocar o funil e os fatos serão levados para onde eu quiser.

– Você se sente bem falando sobre isso?

– Imagine isso, doutor, como um torneira estragada, e você tentando impedir as gotas de cair. Você tenta ajustar o abridor de modo que ela goteje menos, e consegue até certo ponto. Se ultrapassá-lo, ela passa a jorrar água caoticamente e você terá que começar tudo de novo. Alguém com suficiente habilidade conseguiria que ela parasse de gotejar, desde que pudesse sentir o ponto certo em que deve ser posicionada a manivela.

– Você já quis ser encanador? – O doutor não conseguia fugir de sua natureza.

– Não. Sempre me contentei com a capacidade de conduzir qualquer evento e modificar o futuro da forma que eu bem entendesse.

O psiquiatra pensou por mais um instante.

– Você poderia demonstrar sua habilidade?

– Se fizer você se sentir bem, para usar suas próprias palavras.

– Você seria capaz de fazer minha secretária ligar para nós? Por uma questão de honestidade, devo adverti-lo de que ela raramente interrompe as consultas. Tem ordem de não fazê-lo a não ser em casos extremos.

– Isso é fácil demais. Peça algo mais difícil.

– Seria suficiente, no momento.

Sem levantar-me, deixei três moedas caírem no chão, como um intervalo de dois e cinco segundos entre as quedas, respectivamente.

– Não creio que isso será bastante para atraí-la – disse o cético doutor.

Sete exatos segundos depois o telefone tocou. O doutor quase pulou da cadeira.

– Alô? Dona Rosita, o que houve?

– Doutor – pude ouvir a atendente desesperada no viva-voz -, lamento, mas gostaria de avisá-lo de que vou chamar o dedetizador imediatamente. Acabaram de sair dois ratos da parede. – a ligação foi cortada bruscamente.

– Ora, mas… Isso… – O célebre psiquiatra olhava-me agora, um pouco assustado.

– Peça outra coisa. Algo mais difícil.

– Eu… Não… Está bem. Faça minha esposa ligar-me. Ela nunca telefonou para o consultório em todos estes anos.

– Como você se sente em relação a isso?

– Ora… Normal, creio eu.

– Você a trai frequentemente?

– Eu nunca a traí.

– Acha que ela o trai?

– Ora, Sr… Caos…

– Acha ou não?

– Claro que não!

– Como se sentiria se ela o traísse?

O doutor levou dois segundos para responder.

– Bem, eu apenas me separaria dela. Não suportaria uma relação onde não houvesse confiança. Agora chega. Vai fazê-la me ligar, ou irá reconhecer que o que fez há pouco foi apenas um truque que não consegue repetir?

No mesmo instante, o telefone tocou. Ao terceiro toque, o doutor criou coragem suficiente para atender.

– Está bem, querida – sua testa e suas têmporas porejavam suor. – Irei direto para casa. Conversaremos quando eu chegar.

O doutor pousou molemente o fone no pedestal.

– Você disse – Dr. Jardim tentava controlar o nervosismo da voz – que “geralmente” consegue captar a cadeia dos acontecimentos. Em que casos não consegue vê-la?

– Quando existe um profundo amor envolvido. O amor é o caos na ordem do caos. Não há nada que se possa prever quando emergem os confusos sentimentos do amor.

Dr. Jardim ainda tentou refugiar-se em suas perguntas frívolas:

– E… é difícil isso que você faz?

– É fácil, desde que você saiba enxergar através de dimensões fractais, como 3.2, 1.4, etc., no lugar das três inteiras a que está acostumado.

– Preciso de um drinque – o doutor serviu dois cálices de licor de boldo. Tomou o seu e enquanto eu bebericava o meu serviu-se de mais um.

– Doutor, sua companhia é fascinante, mas receio que eu tenha um compromisso inadiável.

Dr. Jardim esboçou um frágil gesto de concordância enquanto eu abria a porta de saída, que dava para um pequeno saguão onde se encontrava a verdadeira porta de saída. Interessante. Saí para o corredor.

Sentia-me bastante satisfeito com o resultado da consulta. Desci pelo elevador. Na portaria do prédio meu celular tocou. Era Dalila.

– Dalila, pensei ter deixado bem claro que havíamos terminado.

– Caos, preciso falar com você. Não estou aguentando.

Suspirei. Nunca conseguia prever nada quando estavam envolvidos tantos sentimentos contraditórios.

– Dalila…

– Caos, se eu não o vir hoje, vou contar tudo ao meu marido.

– Dalila…

– Seu cafajeste.

– Dalila, eu não sabia que você era casada. Como eu ia saber? Não estou preparado para um relacionamento tumultuoso assim.

– Meu amor, não posso mais… – a ligação caiu.

Saí do prédio e fiquei parado do lado de fora, pensando. Uma jovem aceitava ofertas ao lado de um cartaz “Igreja da Exatidão Plena – Empreste para Deus”.

Pobres coitados, nada sabem da natureza do mundo, como podem saber da natureza de Deus?

Subitamente, tudo se fez claro para mim. Entrei novamente no prédio e subi a escada de dois em dois degraus até chegar ao sexto andar. Bati febrilmente na porta do consultório do Dr. Jardim, sem sucesso. A secretária devia ter ido embora há muito tempo. Fui até a porta de saída e esmurrei-a com toda a força, obtendo o mesmo resultado. Em desespero, lancei-me contra ela e não consegui deslocar nem um milímetro daquela porta feita para conter doidos.

Não havia nada a fazer, a conhecida sensação de fatalismo já se apoderara de mim. Desci a escada em um terrível estado de espírito. Ao chegar à rua sequer me voltei para ver a figura amarelo-mostarda voando do sexto andar. Dalila havia cumprido a promessa.

Ao lado, a jovem tinha parado de pedir empréstimos para Deus e corria para ver o que tinha acontecido, ao lado de outros transeuntes. Continuei meu caminho sozinho. A estrada é mais solitária quando sabemos para onde ir.

Este mundo é sórdido, às vezes hesito em pisar sobre ele.

 

********************

 

In memorian “Jack” Holbrook Vance (28/08/1916-26/05/2013),

“Escritor dos Escritores”, conforme Asimov.

Por Maske, Alastor, Tschai e Príncipes Demônios,

Minha eterna gratidão.

Anúncios

54 comentários em “O Homem do Caos (Wilson Barros Junior)

  1. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Dou um sólido 8 a este. Há um quê de bonito neste conto. Os diálogos são intrigantes, as frases bem construídas…parece-me que se respira uma aura absolutamente criativa. Um parágrafo de introdução não faria mal. Mas os diálogos ressalvam o conto. Bem feito, autor. Bem feito.

    Bem jogado! 8

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 3 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .