EntreContos

Detox Literário.

O Ancestral (Daniel Dutra)

Aline acordou. Nua e abraçada a Eduardo, ela não sabia quanto tempo havia dormido, mas estava acostumada. Era comum ao casal, após a terceira ou quarta relação sexual consecutiva, dormirem horas a fio.

Ela teve um sobressalto quando ouviu a batida na porta.

Aline abriu a bolsa. Retirou um calibre 38. Ela se pôs ao lado da porta e perguntou em voz baixa quem era.

– Comandante Liebmann. Sou eu, Nicolas. Abra – disse a voz em um idioma estranho, mas semelhante ao português.

Aliviada. Ela abriu a porta.

Para sua surpresa a figura perante ela nada lembrava Nicolas. No lugar do negro robusto e intimidante, havia um idoso mulato de pele quase alva. O ar cansado e a lentidão de seus movimentos denunciavam uma saúde frágil.

– Este homem de 87 anos é o meu único ancestral nesta cidade – ele explicou, frustrado.

– Como você me achou? – perguntou, no mesmo idioma do idoso.

Após mais de um ano falando a língua arcaica de 2014, Liebmann experimentava dificuldades em voltar a falar no seu português nativo.

– Não foi fácil. Você está fazendo um bom trabalho em se esconder.

– Vamos para fora. Não quero acordar Eduardo.

Apoiada na varanda do segundo andar, ela observava a piscina localizada no centro do motel, o qual os quartos formavam um círculo em volta. Aline não conseguia deixar de se sentir levemente excitada ao ouvir os gemidos dos casais nos quartos vizinhos.

– Já encontrou Dantas? – perguntou o idoso.

– Não, desde que cheguei nesta época estou pesquisando por possíveis ancestrais de Dantas. Mas você sabe que A Guerra que Terminou com Todas as Guerras acabou com muitos registros históricos desta época.

– Ele já tentou te matar?

– Não. E esta é a parte mais estranha. Estou há mais de um ano deste corpo e até agora nada aconteceu. Talvez Dantas não tenha encontrado meu ancestral ainda.

– Como isso é possível? – indagou Nicolas perplexo – ele sabe exatamente quem você é. O homem que torturamos confessou.

Aline permaneceu em silêncio. Ela observava de soslaio pela fresta da porta o corpo nu de Eduardo entre os lençóis.

– Parece que você está mais preocupado com outras coisas – insinuou Nicolas.

– Explique-se.

Aline adotou um tom de voz ameaçador, e o encarou com um olhar fulminante. Ela se surpreendeu ao descobrir que, mesmo naquele frágil corpo feminino, seu subordinado a temia.

Nicolas era seu guarda-costas e homem de confiança. O futuro de onde ambos vieram era um mundo completamente diferente do Brasil de 2014. Nestes 300 anos que separava o ano de 2014 do século 23 muito havia mudado. Línguas, costumes, religiões… Liebmann se sentia num mundo alienígena.

Porém, uma constante permanecia: a luta pelo poder.

O general Dantas era seu adversário político. O militar perderá a batalha pelo poder no mundo não democrático do futuro. A nação brasileira, ou pelo menos o que sobrou após a Guerra que Terminou com Todas Guerras, estava sob o poder ditatorial de Liebmann.

Porém, Dantas não desistira.

Em sua busca pelo poder ele teve acesso a uma tecnologia banida após a Guerra que Terminou com Todas Guerras: um aparelho capaz de transportar a consciência do usuário para o corpo do antepassado de sua escolha.

Felizmente, nem todos os homens de Dantas eram fiéis a ele. Um deles era um agente duplo a serviço de Liebmann, e conseguiu avisá-lo dos planos de Dantas de viajar ao passado e matar um ancestral de Liebmann, e desta forma, finalmente tomar o poder que tanto desejava.

Liebmann, ao saber dos planos de seu arqui-inimigo, ordenou a invasão ao laboratório secreto. Mas era tarde, o corpo de Dantas era uma casca vazia e sua consciência estava no ano de 2014, confessou um dos cientistas, após uma longa sessão de tortura.

– Afinal, porque você está aqui? Dei ordens claras para que ninguém mais viesse ao passado.

– Você precisa saber de algo importante. Descobri quem é o pai de seu filho.

Nicolas, como homem fiel ao seu governante, ofereceu-se para retornar ao passado, encontrar o ancestral de Liebmann, e protege-lo. Todavia, Liebmann sabia que era complicado. Dantas, conforme o torturado informou, sabia exatamente a quem procurar, pois investira muito tempo planejando o atentado. Porém, o torturado não sabia quem era o ancestral de Liebmann.

Por outro lado, Liebmann sabia que não havia tempo para pesquisas arqueológicas extensas e demoradas para identificar o seu ancestral. Portanto, ele concluiu que a melhor opção era retornar ao corpo de seu antepassado e garantir a sua proteção ele mesmo.

– Isso é ótimo – ele sentiu um alívio ao ouvir a notícia.

Liebmann sabia que retornar ao passado significava modificar o futuro. O risco de alterar o passado de modo que ele nunca viesse a existir no futuro era uma constante que o atormentava tanto quanto a ameaça de Dantas.

– Nesse envelope está tudo o que você precisa saber – antes que Liebmann pudesse abri-lo, Nicolas prosseguiu – em resumo, sua ancestral Aline conhecerá o homem cujo nome e foto está no envelope e terá um filho com ele. Este filho terá descendentes e um destes descendentes é você. Portanto, quando você cruzar com este homem, não dê um fora nele!

Nicolas despediu-se. Aquele corpo idoso o deixara exausto e ele tinha que retornar ao seu tempo. Eduardo ainda dormia. Liebmann retornou ao quarto e olhou-se no espelho.

Liebmann não tinha problemas em dormir com homens, pois em seu tempo homossexualismo não era mais tabu, e ele próprio já havia já experimentado com ambos os sexos. Contudo, fazer sexo com homens no corpo de uma mulher era uma experiência que ele jamais imaginava que um dia teria, e esta o havia viciado. Talvez Nicolas estivesse certo. Ele estava preocupado demais com prazeres carnais e perdido o foco. Mas ele não se sentia culpado. O prazer com Eduardo era maior que tudo e ele até pensava em não retornar ao futuro. Desejava permanecer em 2014 com seu amante.

Todavia, Liebmann se lembrou do homem no envelope. Este seria o futuro pai do filho de Aline e, sem ele, não haveria Liebmann. Ele abriu o envelope e começou a puxar a foto, ansioso em conhecer o rosto. Quando a foto estava metade fora, Liebmann sentiu uma mão forte segurar sua boca e puxar seu braço esquerdo para trás, impedindo-o de vê-la.

– Está confortável, querida? – disse um irônico Eduardo.

Amarrado numa cadeira, e amordaçado, Liebmann tentava se soltar, mas aquele fraco corpo feminino nada podia fazer contra as cordas.

– Preste atenção! – Liebmann parou de se digladiar – aposto que você deve estar se perguntando, “porque o Edu está fazendo isso comigo?”. Não é mesmo, Aline, ou devo dizer Liebmann?

Liebmann ficou pálido ao ouvir seu nome.

– Como sei o seu nome? Simples. Nos conhecemos há muito tempo. Pode-se dizer que nos conhecemos há séculos – sua expressão sádica ficou mais soturna – sim, é exatamente o que você está pensando, eu sou Dantas.

– Liebmann desabou em lágrimas. A despeito de ser um homem, os hormônios femininos influenciavam seu comportamento. Ele descobrira isso ao experimentar a menstruação pela primeira vez.

– Você deve estar se perguntando por que eu não te matei quando nos encontramos pela primeira vez? Eu ia, mas quando vi o quanto você era bonita, decidi que te seduzir, para depois te matar quando fosse oportuno, seria mais cruel. Não queria apenas te matar, quero te humilhar! Como foi ótimo fazer você se apaixonar por mim, se entregar a mim, apenas para, agora, eu poder saborear esse momento!

Liebmann não conseguia controlar seus hormônios e chorava com mais intensidade.

– Isso, chore bastante! Sua vagabunda! – Dantas esbofeteou Aline.

Dantas observou, por alguns minutos, e com uma felicidade cruel, o seu adversário político em desespero. Então, ele pegou a arma que Liebmann havia colocado de volta na bolsa, e após colocar um travesseiro no rosto de seu inimigo, apertou o gatilho.

Entretanto, Dantas soltou um grito de dor no exato momento em puxou o gatilho. Uma dor lacerante atravessou seu corpo.

Ele caiu no chão.

Dantas sentia sua consciência esvanecer aos poucos. A vista estava ficando nublada. Os pensamentos confusos. Ele percebeu, a cerca de um metro e meio, o envelope caído. Ouvira toda a conversa entre Liebmann e Nicolas na varanda enquanto fingia dormir. Ele usou o pouco de força que ainda tinha para rastejar até o envelope e puxou a foto para fora.

Ele agonizava diante da verdade deprimente e irônica que a foto lhe relevou. Dantas morreu enojado e revoltado.

A foto no envelope era de Eduardo.

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54 comentários em “O Ancestral (Daniel Dutra)

  1. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 6/10

    → Criatividade: 7/10 – Houve uma tentativa de criar uma história mais complexa, mas esse tipo de história precisaria de mais espaço. Porém, há bastante criatividade.

    → Enredo: 6/10 – Simplesmente não agradou. Não consegui gostar da história. Talvez, com mais espaço para o desenvolvimento, isso poderia ser diferente.

    → Técnica: 5/10 – Poucos erros, em geral bem escrito. No entanto, não há nada que encha os olhos.

    → Adequação ao tema: 10/10 – A história está adequada ao tema.

  2. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Gostei do conto. Bons diálogos, boa linguagem, boas personagens. A qualidade da escrita é, ainda que simples, muito bem empregada, com frases muito gráficas e compreensíveis. O conto entra bem e termina de forma semelhante. Estou inclinado a dar um nove. Veremos o que sai =P

    Bem jogado eheh !!! =DD

  3. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    O início complicado desafia a inteligência, uma característica de grandes como Asimov, que foi transmitida aos discípulos. O estilo é altamente erótico (sexo vende), incluindo o sadomasoquismo no final. A história é muito grande para um conto, e o autor teve que descrever fatos passados como um resumo. Não é o ideal, mas já vi isso em muitos livros hoje em dia, onde o objetivo é o que está no conto, quase como um capítulo final. O fim é bom, o sugestivo parentesco entre dois ditadores. Em resumo, o conto me pareceu daqueles populares, daqueles que vendem bem, lembrando-me “Clark Carrados” e “Curtis Garland”, da antiga Cedibra, com um toque erótico.

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Publicado às 2 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .