EntreContos

Literatura que desafia.

A Verdadeira História (Fabio Baptista)

a_verdadeira_historia

Quando você é jovem, só quer saber de festas, bebedeiras, namoradas, diversão, drogas, curtição, amigos, putaria e todas as outras coisas boas da vida, que normalmente também são as que te fazem gastar mais dinheiro. Bom, depois de velho não muda muita coisa, mas as obrigações, responsabilidades e, principalmente, as cartas de cobrança ameaçando te jogar na sarjeta por causa das contas vencidas, acabam te forçando a mudar um pouco o foco.

Nunca gostei de estudar. Nunca. Quem vai querer ficar estudando quando tem 16 ou 17 anos e pode ir às festas, beber e ficar com uma mulher? Ou só ir à porra da festa e beber, sem pegar mulher nenhuma, como infelizmente acontecia na maioria das vezes comigo. Minha mãe sempre ficava me enchendo o saco porque eu não estudava, e não adiantava explicar que minha natureza era assim, que não ia resolver nada ficar forçando a barra. Sempre vinha com o papo de que uma hora eu ia precisar ganhar a vida, que um dia ela ia morrer e não ia ter mais quem me sustentasse, essas coisas que quando você é jovem chama de “papo furado”, mas depois acaba percebendo que é verdade. Não admite pra não dar o braço a torcer, mas percebe que é verdade.

Pra não ficar ouvindo todo aquele “blá blá blá” na minha orelha todos os dias, decidi arrumar um emprego e mostrar à velha que eu conseguia me virar sozinho. Daí me dei conta que não sabia fazer nada. Minha mãe falou que eu tinha que começar por baixo, mas eu que não ia ficar trabalhando de office-boy, entregando cartinha pra cá, levando papelzinho pra lá, pedindo assinatura em documento aqui, despachando não sei o quê ali. Não, eu não. Nunca. Sempre soube que tinha um tremendo potencial escondido, só precisava descobrir pra quê exatamente. Trabalhando em algum serviço desse tipo estaria apenas desperdiçando meu tempo e esse potencial adormecido. E, além do mais, que mulher se sentiria atraída por um office-boy? Não, de jeito nenhum. Precisava arrumar alguma coisa pra fazer, algo que me realizasse, me completasse, me fizesse sentir pleno.

E que me ajudasse a pegar mulher.

Pensei em tocar algum instrumento, então peguei um violão que estava juntando poeira na garagem e comecei a arranhar. Um amigo tentou me ensinar, mas logo percebemos que definitivamente eu não tinha nenhum talento musical. Bola eu nunca soube jogar, nem na linha, muito menos no gol. E se você não sabe tocar música, nem jogar futebol, suas chances de levar uma vida fácil diminuem drasticamente. Estava considerando a hipótese de fazer musculação e ganhar um pouco de massa pra tentar vender o corpo, quando assisti a um filme que mudou minha vida.

Eu vi aquele ator de presença, que eu sempre esqueço o nome, jogando garrafas pra cima, rodeado pelo mulherio, todo mundo dando risada, se divertindo. Foi como se Deus tivesse enviado um de seus anjos mensageiros descer voando do céu pela trilha do arco-íris pra me dizer em alto e bom som – “você nasceu para ser Barman”. Falei isso pra minha mãe. Ela fez uma cara de decepção que me doeu na alma. Isso que me deixava puto, a velha nunca incentivava nas minhas decisões, sempre achava que minhas ideias eram absurdas e ainda ficava me ridicularizando – “Barman? Onde já se viu uma coisa dessas? Vai trabalhar onde depois? Só se for na zona!”. Mas dessa vez eu insisti, perseverei mesmo, e acabei conseguindo que ela liberasse a verba para o curso. E, pela primeira vez na vida, me dediquei aos estudos. Aprendi tudo, senti fluir em minhas artérias o talento para a coisa, para o malabarismo com as garrafas, a preparação dos drinks e cocktails. Estava me sentindo dentro do filme, minha mãe até falou que eu parecia um pouco com o ator principal (meu nariz realmente é igualzinho) e pareceu até um pouco orgulhosa. Cheio de talento e confiança, logo arrumei meu primeiro emprego.

Na zona.

Bom, como minha mãe dizia, a gente tem que começar por baixo. Precisava pegar experiência e abracei a primeira chance que me apareceu. Na verdade, fiquei empolgado, imaginando ver mulheres maravilhosas fazendo shows todas as noites, dançando no pole dance e tudo mais, os clientes ficariam impressionados com minhas peripécias, todo mundo ia se divertir sempre, igual nos filmes. Só que a realidade é um pouco diferente. O puteiro era de quinta categoria (realmente – “a gente tem que começar por baixo”), as mulheres não eram nada maravilhosas (a mais em forma tinha IMC 29) e nem sabiam dançar no pole. Aliás, nem tinha pole. A clientela era barra pesada e não queria saber de malabarismos, dos quais desisti no terceiro dia, depois de ouvir meu chefe dizer em tom bastante amigável – “magrelo, para de jogar essa merda pro alto e serve logo a porra da bebida antes que eu perca a paciência e te encha de porrada. E se tu continuar com essa putaria e me quebrar uma garrafa, vou te encher é de bala”. Nada como um bom patrão, disposto a ensinar e compartilhar seus conhecimentos pra nos motivar!

Fiquei lá por um ano, só pra poder colocar no currículo – “Um ano de experiência”, que era o que a maioria dos lugares pedia. Logo me chamaram pra fazer entrevista, minha carreira parecia que ia deslanchar. Fui pra outra zona, mas dessa vez uma de primeira linha. As mulheres eram maravilhosas, dançavam no Pole Dance, os clientes eram educados, gostavam dos meus malabarismos e até me davam boas gorjetas quando gostavam dos meus drinks. Eu realmente era bom naquilo, então eles gostavam quase sempre e ganhei um bom dinheiro naquela época. Não juntei nada, porque acabava repassando a maior parte para as minhas colegas de trabalho. Mas foi uma época boa, acho que a melhor da minha vida. Conheci muitas pessoas, me diverti um bocado, ouvi muitas histórias. Também vi muitas meninas novas, de beleza absolutamente arrebatadora, se afundando na cocaína, muita gente se endividando por causa da bebida que eu servia, muitos clientes “VIPs” sendo espancados pelos seguranças depois de não terem mais dinheiro para sustentar os vícios. Eu vi todo o “glamour” e também a parte podre do negócio, a parte que não costuma aparecer na televisão. Tomei tudo como aprendizado, amadureci como pessoa. Pensei em largar o ramo por diversas vezes, mas percebi que há 25 anos fazia a mesma coisa e nunca soube fazer nada diferente. Minha mãe se foi e eu tinha que me sustentar sozinho.

Então continuei.

Quando fiz 45, fui mandado embora do prostíbulo. O dono me disse que fui um bom funcionário por muitos anos, mas já estava velho, não fazia mais o perfil da casa. Só queriam trabalhar com gente jovem. Decidi que, exceto em último caso (tipo alguém querendo me matar por causa de dívidas), não trabalharia mais em lugares vinculados à prostituição. Pulei algum tempo de boate em boate, pub em pub, até que me fixei aqui, nesse clube de dança. E essa é a minha história, sem qualquer relevância para a trama principal. Contei porque… bom, quem não gosta de falar sobre si mesmo, não é verdade? Mas agora a coisa vai esquentar (talvez nem tanto, mas toma um Dry Martini que ajuda).

Primeiro uma rápida descrição do meu atual local de trabalho – o lugar é frequentado basicamente por quarentonas solteiras ou, na maioria dos casos, separadas, que negam até a morte, mas vêm até aqui na esperança de achar um marido, e por quarentões e cinquentões que vêm até aqui para conquistar as quarentonas, ter uma noite de prazer e depois dispensá-las. Eu me casaria com elas, mas sou só o Barman, eles são magnatas, com caras bonitas, roupas e relógios caros. Elas gostam das minhas estripulias com as garrafas (é, estou velho, mas ainda não perdi a habilidade), gostam das bebidas que preparo e de me contar suas decepções amorosas (eu deveria cobrar um adicional por consulta psicológica, sério mesmo). Mas já cansei de me iludir que estava criando algum tipo de vínculo para logo em seguida chegar um solteirão (ou muitas vezes um “casadão” disfarçado, sem aliança), puxar papo e levá-las embora, rumo a mais uma decepção. Agora só fico aqui, preparando minhas bebidas, fazendo minhas artes e ouvindo as histórias que são contadas do outro lado do balcão, sem me envolver. E uma dessas histórias, aliás, um desses contadores de histórias, tem me intrigado nos últimos tempos. E é sobre esse cara que eu quero falar.

Ele vem aqui há um ano mais ou menos. É o sujeito com a pele mais escura e os dentes mais claros que eu já vi. Sempre impecavelmente trajado, todo de branco – sapatos, calça, terno, camisa, gravata e chapéu (é, o cara chega e sai daqui de chapéu, como se estivéssemos em 1930). Ele é alto, esguio e chama atenção naturalmente. Só vem às sextas, fica sentado no balcão e me pede um “bloody mary“ ou um “sex on the beach” (não é o tipo de bebida que combina com um negão desse tamanho, mas eu que não vou dar pitaco) enquanto aguarda. Nunca falha, parece mágica. Sempre alguém senta do lado e começa a falar com ele. A mulherada parece atraída por um imã que as obriga a puxar papo com o cara. E ele conta uma história diferente para cada uma.

Já ouvi contar que era médico e atuava como voluntário em algum país que eu não vou lembrar o nome, assolado pela guerrilha e pela AIDS, no meio da África. Descreveu perfeitamente o cenário, a quantidade de pacientes e os tipos mais comuns de doenças que atendia, o nome do ditador que aterrorizava as pessoas, tudo. Já o ouvi detalhar minuciosamente toda a rotina de um navio de guerra antes de dizer que era Almirante de esquadra e por isso, mesmo nas horas vagas, não conseguia largar as roupas brancas. Já disse que era pai de um jogador de futebol famoso, contando com riqueza de detalhes sobre a infância do garoto, a dificuldade para avançar nas categorias de base e o sofrimento com a lesão que quase o afastou dos gramados. Corredor de 100 metros rasos, medalha de prata. Físico que revolucionou as teorias do mundo quântico, astronauta cotado para a primeira viagem tripulada a Marte, mergulhador que só faltou ver a porra do Kraken, ativista defensor dos animais e da natureza, que afundou sozinho um baleeiro, médium que já incorporou todos os espíritos do universo, exorcista do Vaticano, guerreiro Zulu.

Tudo, absolutamente tudo o que se possa imaginar o cara já fez, já foi, já vivenciou. E o pior é que ele conta de um jeito, que todo mundo acredita. Até eu! Claro, sei que é impossível que todas as histórias sejam verdadeiras, não há a menor possibilidade de alguém viver tudo isso, mas fico pensando, de onde ele tira tanta coisa? E qual dessas histórias é a verdadeira? Bom, falando no diabo… tá aqui bem na minha frente e tem uma coroa enxuta sentando do lado dele, logo vou ouvir mais uma.

– Olá.

– Olá.

– É um Bloody Mary isso aí que você está tomando? – a loira perguntou, já se arreganhando toda.

– É sim. Você gosta?

– Ai, até gosto, mas prefiro algo mais docinho… há há há há…

– Doce? Já experimentou um “Russian Bear”? – É, ele conhece a bebida. Essa aí é doce mesmo.

– “Russian Bear”? Não, nunca tomei esse não. É bom?

– É sim, tenho certeza que você vai gostar. Só devo alertá-la que esse drink possui um certo poder afrodisíaco.

– Ui, que delícia. Há há há há! Doce e afrodisíaco, tudo que eu preciso hoje! – Putz grila, tem uns caras que nascem com o rabo virado pra lua mesmo.

– Sabe preparar um “Russian Bear”, barman? Manda um aqui, para essa bela moça sentada ao meu lado. Por minha conta.

– É pra já, senhor! – Respondo enquanto giro a garrafa de vodka e a de licor de cacau.

A coroa está acesa, observa as garrafas rodopiando sob as luzes coloridas e aplaude com empolgação quando termino o cocktail. Ela prova e faz uma cara de satisfação que deveria ser gravada para passar em um comercial na TV.

– Meu Deus, que coisa boa! É o meu preferido de hoje em diante. Ui, deu até um calor. Há há há há há.

– É o efeito afrodisíaco do qual havia lhe alertado.

– Há há há há há. Ai, deve ser! Mas é bom! Nunca tinha ouvido falar desse drink, como você descobriu sobre ele?

– Foi na Rússia.

– Na Rússia? Você já esteve na Rússia?

– Sim, já estive em muitos países. Faço parte da guarda de elite das tropas de paz da ONU.

– Nossa, sério? E o que você foi fazer lá na Rússia? – Pronto, era a deixa que o Forrest Gump negro precisava…

– Bom, você sabe que depois da separação da União Soviética aquela região virou terra de ninguém. Nos lugares mais afastados, acontecem coisas que até o bom Deus deve duvidar e nós da ONU somos obrigados a intervir. Nesse caso específico, estávamos combatendo uma rede de prostituição, que aliciava meninas nos locais ermos e congelados para vendê-las como escravas sexuais na Europa. Meninas de 10, 11 anos, uma coisa terrível.

– Meu Deus, que horror. E vocês conseguiram cumprir a missão?

– Sim, conseguimos desmantelar o cartel e resgatar algumas meninas. Infelizmente não todas. O último membro da quadrilha, quando percebeu que tudo estava perdido, colocou três garotas no porta-malas do carro e fugiu para a floresta congelada, tentando nos despistar no meio da neve. Meus companheiros disseram que era loucura persegui-lo, mas eu jurei que iria resgatar até a última garota que conseguisse, então comecei a caçar o bandido naquele mar de gelo. Duas horas de busca cega, guiado apenas por instintos e uma tênue marca de pneus, que em poucos minutos era completamente coberta pela tempestade. Então aconteceu o que eu temia, meu carro ficou irremediavelmente atolado. Pensei em chamar ajuda pelo rádio, mas não podia esperar, não podia permitir que o facínora se distanciasse demais. Desci do veículo e comecei a correr. O esforço do deslocamento na neve é brutal, você corre, corre, corre e parece não sair do lugar. A neve estava até a altura das minhas coxas e…

– Putz, e olha que você é alto hein!

– Pois é, para você ter uma ideia.

– Ai, desculpa interromper. Moço, faz mais um desses aqui pra mim, faz? Que delícia essa bebida. E daí, conta, conta. O que aconteceu?

– Continuei naquela maratona por mais 45 minutos, já praticamente sem esperanças de encontrar alguém. Mas então, em meio à neblina e à tempestade branca, vi sinais de fogo, um pouco à frente. Segui o mais rápido que pude e logo notei que o bandido tinha batido o carro numa árvore. Tinha que tirar as meninas do porta-malas, antes que explodisse. Estavam roxas, com hipotermia. Mas eu não tinha o que fazer, peguei duas, uma em cada braço e as deixei na neve, cerca de dez metros longe do veículo. Virei para correr e pegar a outra, mas o pior aconteceu. O carro explodiu e ela morreu carbonizada.

– Ai, que horror! Meu Deus! Mas se não fosse você teriam morrido as três, você é um herói.

– Só estava fazendo meu trabalho. E me culpo por ter sido tão vagaroso em minha caminhada na neve. Desde então me exercito cada vez com mais vigor, para que minhas limitações físicas não me impeçam de salvar vidas novamente.

Ele já conquistou a coroa. Essa de se “exercitar com vigor” foi uma cartada de mestre, tenho que admitir. Ela acaricia o rosto dele e tenta consolá-lo, ressaltando as virtudes do ato heroico. O pior é que eu estava curioso, ele contava de um jeito que parecia verdade, dessa vez podia até ser a história real. Eu queria saber o final e acabei me empolgando e me envolvendo, mais do que deveria. Quando me dei conta, já estava perguntando:

– E as duas meninas, como você fez para que elas não congelassem?

Pensei que ele iria virar com cara de poucos amigos, me fuzilando com o olhar por ter atrapalhado o momento romântico, mas arregalou o olho com empolgação, apontou o copo vazio de Bloody Mary e continuou a contar com entusiasmo:

– Sim! Precisava agir antes que elas congelassem na neve. Tirei meu casaco e coloquei em uma. Abracei a outra, enquanto tentava comunicação com a base. Mas percebi que meu rádio não iria funcionar, estava muito afastado e com muita interferência da tempestade. Comecei a pensar no que poderia fazer, quando ouvi algo que me amoleceu a alma, algo que só podia ter saído das profundezas mais mordazes do inferno, o urro de uma besta atroz, que fez o mundo tremer e a neve cair da copa das árvores.

Ele imita a porra do urro, chamando atenção e assustando todo mundo em volta. Eu inclusive. Não é possível que esse cara não estava lá de verdade, de onde que ele ia tirar esse berro? Quando todos se recuperam do susto, ele se desculpa e continua.

– Em meio à névoa e ao frio que congelava até o tutano, irrompeu o maior urso que já vi na minha vida. E, acreditem, já vi muitos. Provavelmente atraída pelo barulho da explosão, a criatura veio esfaimada até nós. Saquei minha arma e tentei disparar, mas percebi que estava travada. Puxei a faca e aguardei o momento de estocar, esperei um milagre. Mas é claro que o urso me acertou primeiro, uma patada poderosa bem no meu peito, guardo a cicatriz até hoje, vejam…

Ele afrouxou a gravata, desabotoou a camisa e mostrou o peito. Realmente havia uma cicatriz que atravessava todo o tórax. Então era verdade! Aquela história era verdade! Perguntamos em uníssono:

– E AÍ, O QUE ACONTECEU????

– Daí eu voei e bati as costas na árvore, quase desmaiando. O urso começou a cheirar as meninas, mas percebeu que estavam inconscientes e voltou a atenção para mim novamente. Meu peito sangrava e meus ossos estalavam como galhos secos pisoteados por um gigante. Fiquei na mesma posição de antes, mas desta vez com a árvore bem atrás das minhas costas. O urso veio com a intenção de aplicar o mesmo golpe, mas dessa vez, ao invés de tentar estocá-lo, apenas esperei o último instante e me joguei para o lado. A patada então atingiu a árvore, que tremeu da raiz até a última folha, pensei até que cairia, tamanha a força do impacto. A criatura emitiu um terrível grito de dor e me olhou com ferocidade, de pé. Quando apoiou a pata dianteira para se deslocar em minha direção, caiu para o lado. Provavelmente havia quebrado algum osso. Busquei a coragem dos antigos guerreiros zulus, dos quais sou descendente, e aproveitei aquela chance única, lançando-me sobre a criatura. Cravei a faca no seu olho direito e girei, fazendo-o urrar de dor novamente. Ele tentou me dar uma última mordida, antes de finalmente tombar.

– Meu Deus do céu! Eu já teria morrido de medo há muito tempo. Moço, me dá mais um desses aqui, por favor? E depois, como você saiu de lá?

– Quando a adrenalina baixou, percebi que estava quase congelado. Mas ora, havia um enorme casaco caído ali, bem na minha frente. Tirei a faca do olho do bicho e comecei a remover sua pele. Peguei meu colete de volta e deixei as meninas juntas, cobertas pelo novo edredom. Voltei até o carro e usei o rádio do veículo, solicitando ajuda e passando a localização de onde havia deixado as garotas. Depois apaguei e só acordei numa cama quente no hospital da ONU. As meninas foram salvas e estão bem, vivendo com os pais em alguma fazenda perdida no meio da neve lá na Rússia. Quando pude beber novamente, meus amigos me prepararam um “Russian Bear”, em homenagem ao urso que enfrentei na floresta. E foi assim que conheci esse cocktail doce e delicioso que você está tomando nesse exato momento.

Ele paga a conta, deixa minha gorjeta e vai embora, levando a quarentona bêbada junto. Sempre sai com uma mulher daqui, sempre. E eu nunca as vejo novamente. Talvez seja um serial killer, isso sim. A rotatividade de clientes é grande, mas não deixa de ser estranho. Porém, agora estou completamente convencido que ele é soldado da ONU. Assim como semana passada tinha certeza que trabalhava numa plataforma de petróleo e conseguiu evitar uma grande catástrofe ecológica, sozinho. Não vou resistir mais tempo, na próxima sexta vou perguntar qual é a história real.

“A curiosidade matou o gato” – a voz da minha mãe parece soprada em meus ouvidos como um presságio de mau-agouro. Dá licença, nem depois de morta a velha me deixa em paz!

* * *

A semana passa sem novidades. A loira que saiu com meu cliente contador de histórias aparece na quarta. Então ele não é um serial killer, afinal. Ou essa aí conseguiu escapar. Sinto uma grande vontade de perguntar a ela o que aconteceu, mas seria muita ousadia, não posso arriscar meu emprego. Consigo controlar meu ímpeto até sexta. Ele aparece, nos mesmos trajes. Tira o chapéu, senta no mesmo lugar de sempre e pede um “sex on the beach”. Enquanto preparo o drink doce e barato, tomo coragem e pergunto, antes que alguém sente ao lado dele e puxe conversa.

– Olha, senhor… me desculpe a ousadia, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.

– Claro, meu bom barman, vá em frente.

– O senhor vem aqui todas as sextas, há um ano mais ou menos. Em todos esses dias, conversou com pelo menos uma pessoa enquanto bebia seus drinks. Para cada uma dessas pessoas, contou uma história diferente. E cada história foi contada de uma maneira tão viva que eu acreditei em todas elas, mesmo sabendo que é impossível que todas sejam verdadeiras. Então minha pergunta é a seguinte – qual é a verdadeira história? Quem é o senhor?

Ele me lança um olhar malicioso e sorri, tomando o primeiro gole do drink.

– Você tem certeza que quer saber isso, meu amigo?

Aqueles olhos e dentes se destacam amedrontadores, saltando no meio da pele negra. Seu semblante soa quase maligno e sinto um calafrio percorrer minha espinha. Engulo seco, quase desistindo, mas continuo, mesmo tendo certeza que a resposta não irá me agradar.

– Tenho certeza sim, senhor. Caso não se importe de contar, é claro…

– Não, eu não me importo. Só preciso alertá-lo que depois que contar, não haverá mais volta. Sua vida não será a mesma. Essa é a última chance de desistir… e então?

Que maldito suspense. Esse cara só pode ter feito teatro, está perdendo dinheiro aqui, deveria estar atuando em alguma peça, algum filme, novela, sei lá. Confesso que estou inexplicavelmente tremendo de medo, mas agora a curiosidade já chegou a um limite irreversível.

– Eu quero saber, não me importo com as consequências. Diga de uma vez, quem é você?

– Eu sou o diabo.

Meu corpo congela, como se eu estivesse nu, bem no meio da maldita floresta russa. Aqueles olhos malignos, a expressão maliciosa, a voz fria. Era verdade, com certeza aquela era a verdade. Meus ossos me diziam isso. Fazia sentido, explicava tudo. Após alguns segundos, consigo balbuciar algo, gaguejando.

– O di-diabo?

– Sim, o diabo. Você deve imaginar que eu provavelmente não conseguiria conquistar nenhuma mulher se dissesse isso para elas logo de cara, não é mesmo? Então tenho que contar histórias, algumas inventadas, algumas que já acompanhei de perto. A do urso era real, só dei uma floreada. O animal não era muito grande e a arma do soldado funcionou logo de cara, não teve aquela batalha toda. Daí eu as levo para casa, as seduzo, lhes dou amor, carinho e sexo selvagem. Depois me revelo e faço uma proposta por suas almas. A maioria aceita. A da semana passada não aceitou, infelizmente. Vou querer um Bloody Mary. Capricha no molho inglês e no limão.

Sabe quando você deixa de ouvir os sons, sentir os gostos, enxergar as coisas, como se estivesse em um universo paralelo? Estou assim agora. Meio tonto, vendo aqueles dentes brilhando na minha frente. Minha mão treme ao pegar o suco de tomate e quase derrubo a garrafa de vodka. Ele ri, com maldade. Minha alma está paralisada. Quando consigo voltar um pouco à realidade, pergunto:

– V-você, di-digo, o s-senhor, disse que minha vida mudaria. O que quis dizer e-exatamente?

– Bom, sempre que me revelo, tenho que fazer uma proposta pela alma da pessoa que descobriu meu segredo. Então farei uma proposta pela sua alma, mas não agora, não assim, nessa forma humana. Vou até sua casa, na quinta-feira, que é o seu dia de folga, não é? Vou até lá, na minha forma original, fedendo enxofre e maldade, exalando pecado pelos poros. Você vai deitar na cama, encostar a cabeça no travesseiro, desejando que isso seja apenas uma lorota, mas no seu íntimo saberá que não é. Você ouvirá seus móveis rangendo, ouvirá uma criança chorando, ouvirá água escorrendo. Então você vai ouvir meus cascos, estalando no chão enquanto caminho no corredor em direção ao seu quarto. Verá a sombra dos meus chifres e sentirá a cama afundando quando eu me sentar ao seu lado. Então farei minha proposta. Pode beber o Bloody Mary, por minha conta. Você está meio pálido, precisando de um pouco de tomate e vodka para esquentar. Vou indo mais cedo hoje, nos vemos na quinta. Nem adianta tentar fugir, te garanto que será pior.

Diz isso, coloca o chapéu e vai embora. Seus olhos estão vivos, assim como estavam em todas as outras histórias. E eu acredito, assim como acreditei em todas as outras histórias. Com a diferença que nunca tinha ficado com medo… dessa vez estou quase me borrando. E continuo assim no decorrer da semana, na verdade o medo só piora conforme os dias passam. Sábado, Domingo, Segunda, Terça, Quarta… Quinta. Meu dia de folga. Penso em procurar um padre, comprar um crucifixo bem grande, água benta, alho, sei lá. Penso em fugir, mas me lembro dele dizendo que não adiantaria nada. Dou uma volta no quarteirão, tentando disfarçar o medo e a ansiedade, mas está caindo uma garoa fina e logo volto pra casa e tranco a porta, com duas voltas na chave (como se isso fosse fazer diferença pro diabo). Assisto TV, mas nem consigo prestar atenção no que estão dizendo. Preparo um Dry Martini duplo e bebo em um gole só. Fico meio alto e vou pra cama, esperando dormir logo, mas simplesmente não consigo. Meus olhos ficam virando de um lado para o outro, meus ouvidos parecem mais aguçados, minha respiração pesada, meu coração bate como um tambor.

Quando o prédio se aquieta, todas as luzes são apagadas e todas as televisões desligadas… eu ouço. Meus móveis começam a estalar, como fazem todos os dias, mas dessa vez é diferente, não sei o porquê, mas é diferente. Na verdade eu sei o porquê sim, é porque a porra do diabo tá vindo me pegar, meu Jesus de Nazaré, SOCORRO… Calma. Respira. Respira. Tento manter a racionalidade, mas é impossível. Principalmente quando ouço o filho da vizinha chorar. Penso em me levantar, mas começo a ouvir água escorrendo pela calha do prédio. Criança chorando, barulho de água. Estou paralisado, aterrorizado. A situação chega num grau de medo absoluto quando ouço os cascos. Deus do céu, os cascos. Ele está caminhando no meu corredor.

Não, não são cascos. É a vizinha de cima, chegando em casa com o salto alto. Vagabunda, quase me matou de medo. Já cansei de reclamar sobre esse salto e ela não perde essa mania. Respiro aliviado, mas logo a tensão volta. Passo a noite mais aterradora da minha vida, não durmo nada, quase desidratei de tanto suar. À beira da loucura, pensei em me levantar e gritar alguma bobagem do tipo “se tiver que vir então vem logo, seu filho da puta! Tá esperando o quê?”. Mas fiquei deitado e quieto o tempo todo. As horas passam, o dia amanhece, o sol nasce. Nada do diabo. Apenas sono. E raiva. Juro por Deus que vou quebrar a cara daquele filho da mãe se ele aparecer no bar hoje. Que brincadeira mais idiota, onde já se viu uma coisa dessas?

Chego mais cedo, começo a atender os clientes e olho pra porta a cada dois segundos. Passa da hora em que ele normalmente chega. Acho que não vai aparecer mais, covarde. Mas ele aparece. Com a mesma roupa e a mesma cara deslavada. Senta no mesmo lugar e me pede um Bloody Mary, com bastante molho inglês e limão. Minha vontade é de matar o desgraçado. Ele me olha e sorri com aquela boca cheia de dentes.

– Parece cansado, meu amigo barman. Não dormiu direito hoje?

Dá uma gargalhada ao ver minha cara de ódio. Droga, ele me pregou uma peça. Uma bela peça. Mas eu fui culpado por levar tão a sério. Melhor rir de mim mesmo e tirar o rancor do coração. Acho que é o que minha mãe recomendaria.

– Você me assustou, seu filho da mãe… digo… com todo respeito, senhor.

Ele gargalha com gosto. Agora dou risada também. Foi engraçado, devo admitir. Preferia que a pegadinha tivesse sido feita com outra pessoa, mas agora passou e está tudo bem.

– Só não vai cuspir no meu Bloody Mary, hein?

– Não, senhor. Tinha pensado em colocar um pouco de cianureto pra ver se ficava bom, mas pode ficar tranquilo, já desisti dessa ideia.

Sirvo a bebida e rimos mais um pouco. Conto sobre a coincidência da água escorrendo, da vizinha chegando com salto alto e ele quase rola no chão de tanto gargalhar. Ele me conta que já me ouviu reclamar sobre todos esses barulhos. Também conta como descobriu sobre meu dia de folga – faxineiras falam tudo pra qualquer um, nunca vi coisa igual. Conversamos com animação por mais um bom tempo, mas daí veio a pergunta inevitável, que fez as risadas cessarem:

– Mas então, quem é o senhor? Qual das histórias é a verdadeira?

– Qual história é a verdadeira? Nenhuma que contei aqui até hoje. Quem sou eu? Sou só um cara que largou a mulher e os filhos pra viver em “liberdade” e agora se arrepende disso todos os dias. Sou só um negro aposentado, vivendo em um país que tem preconceito contra negros e contra aposentados, vivendo da esmola do governo após anos de trabalho duro, torcendo para que esse meu único terno não rasgue, economizando a semana inteira para vir até aqui, beber, conversar, conhecer uma mulher vazia que me faça esquecer tudo por pelo menos uma noite. Só um cara que cortou o próprio peito com uma faca quando se deu conta de que nunca mais veria os filhos e agora fica inventando lorotas sobre isso. Só um cara que engana os outros e a si mesmo, todas as sextas-feiras à noite. Acho que eu não ganharia nenhuma coroa com essa, não é mesmo?

Enquanto fala, seu olhar é indiferente. As palavras soam artificiais, parece que não viveu isso, parece que está contando a vida de outra pessoa. Parece mentira.

E isso me faz ter certeza que é verdade.

Isso me faz ter certeza que essa é a verdadeira história.

Anúncios

20 comentários em “A Verdadeira História (Fabio Baptista)

  1. tamarapadilha
    12 de julho de 2014

    Bacana mas muito enrolado. Deu muitas e muitas voltas para chegar a esse final, embora a lição de que contar a verdade as vezes afasta as pessoas tenha sido interessante mas poderia cortar a história pela metade, enxugar um pouco isso tudo.
    Confesso que quando o cara disse ser o diabo eu até acreditei, rs.
    Ah, e outra coisa desnecessária foi a grande história do garçom no começo.
    Boa sorte

  2. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Muito bom! Comecei achando divertida a história de vida do barman. Depois achei interessante quando “a outra parte” começou, mas confesso cansei um pouco antes da história do negro começar. Depois me envolvi e achei muito legal a questão da verdade/mentira por trás daquilo tudo que o cara contou. Enfim, acho que a segunda parte não precisa da primeira, embora eu também tenha gostado da narrativa desse trecho. Mas foi bom acompanhar o conto todo, a verdade história. Parabéns! =)

  3. Cristiane
    2 de julho de 2014

    Achei a ideia muito boa mas cortaria vários trechos para deixá-la menos longa e menos cansativa.

    O senhor misterioso é muito bem desenhado.

    Meus parabéns!

    Abraços e boa sorte.

  4. JC Lemos
    30 de junho de 2014

    Gostei da narrativa e dos personagens. O senhor misterioso me lembrou muito Anansi. Talvez Gaiman tenha tido um pouco de influência aqui, quem sabe…
    A narrativa foi simples, mas limpa. Não foi o melhor, para mim, mas pelo que vejo aqui, estará entre os melhores.

    Parabéns pelo conto e boa sorte!

  5. Thata Pereira
    30 de junho de 2014

    Muito bom! Divertido e pode-se dizer que é até bonito. Fiquei muito envolvida com as histórias, do barman e do homem misterioso. Parecia que eu estava assistindo um filme. Muito, muito bom!! Parabéns!!

    Boa sorte!!

  6. rsollberg
    28 de junho de 2014

    Realmente muito bom.
    Adorei a ironia, o sarcasmo.
    Esse trecho é sensacional: “astronauta cotado para a primeira viagem tripulada a Marte, mergulhador que só faltou ver a porra do Kraken, ativista defensor dos animais e da natureza, que afundou sozinho um baleeiro, médium que já incorporou todos os espíritos do universo, exorcista do Vaticano, guerreiro Zulu.”

    Os personagens são deliciosos, que bela construção. (imaginei o negão como um Zé Pilintra)

    A “história” e as estórias são fantásticas.
    O final é ótimo, surpreende pois revela o outro lado. A realidade chata, crua, sem qualquer traço de fantasia. A tristeza e indiferença do personagem quando é “obrigado” a contar a verdade, e a melancolia do próprio Barman que vivia todos os causos por seu intermédio. O protagonista também conhece esse lado real e brutal, por isso não tem qualquer dúvida de que o relato final não é mentiroso.

    Certamente um dos melhores contos deste desafio.
    Desejo bastante sorte e meus sinceros parabéns.

  7. felipeholloway2
    25 de junho de 2014

    O texto é ótimo porque funciona nos níveis literal e alegórico. O método do negro como alusão oblíqua ao fazer literário e a inquietação do barman refletindo a postura dos leitores que sempre tentam depreender traços autobiográficos da ficção alheia — tendo, no mais das vezes, a frustração como recompensa.

    No entanto, creio que a primeira parte seja dispensável. Numa narrativa curta, em que, ao contrário do romance, raramente se pode vencer o leitor por pontos (para usar a metáfora lítero-boxeadora do Cortázar), é preciso cortar tudo o que não contribua para o desenvolvimento do conflito central (do “nocaute”), ou que a ele não se ligue de modo implícito, pelo menos. Não vi de que forma a história do barman se faz necessária para a exposição ou compreensão do causo do cliente misterioso. O paralelo entre as duas vidas tampouco me pareceu orgânico.

    Também achei excelente a estrutura do clímax-anticlímax mencionada pelo Rubão. O cliente que expõe suas narrativas fantásticas sem perder a fleuma me fez lembrar do Barão de Münchhausen, célebre mentiroso da literatura e historiografia alemãs.

    Um texto muito acima da média, com certeza. Parabéns ao autor.

  8. Tiago Quintana
    23 de junho de 2014

    Gostei bastante! Mas creio que se fosse encurtado um pouco – diria que no início, quando o barman está falando de sua vida, e na história do negro -, fluiria ainda melhor. Também sugeriria cortar a última linha, “Isso me faz ter certeza que essa é a verdadeira história.”; não acho que precisa de ênfase aqui, a frase anterior já tem bastante impacto.

  9. Edivana
    15 de junho de 2014

    Olá,
    Gostei muito do conto, sério! Engraçado, bem escrito e com uma história, que eu diria simplista, mas muito boa. As personagens são cativantes, uma bela criação. Sucesso!

  10. Anorkinda Neide
    14 de junho de 2014

    Olha, dos 12 contos que li até aqui, este é o melhor.
    Fabulosamente bem escrito, eu acredito. Envolvente a narrativa, a gente simpatiza com o barman pela fluência da linguagem dele.
    E o negrão é um encanto, um personagem perfeitamente real, há muitos tipos como ele pelo mundo afora.
    Eu, como quarentona, já caí na lábia dele, tô entregue!
    hiahuihua

    Parabens pelo conto!

  11. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Gostei do texto, apesar de longo ele me prendeu.
    Gostei.
    Boa sorte no desafio.

  12. Brian Oliveira Lancaster
    10 de junho de 2014

    Impressionante. E os dois plot twists são a cereja do bolo. São poucas histórias “comuns” que me prendem como essa fez. O tom irônico e sarcástico também fez toda a diferença.

  13. Claudia Roberta Angst
    8 de junho de 2014

    Muito bom o seu conto, Batman, digo Barman. Eu diria que é um tanto longo demais e que poderia condensar algumas passagens. Gostei principalmente do susto dado, do suspense criado entre o possível fantástico e a pura zoeira. Boa sorte!

  14. Pétrya Bischoff
    7 de junho de 2014

    A princípio, não gostei da maneira do personagem falar; essas coisas para caracterizar o conto não me agradam, pelo contrário. Quando nas narrativas, foram engraçadas. Também não seria tão legal se fosse mesmo o Diabo, mas a sacada de deixar o Barman apavorado foi boa. Achei o final meio fraco, mas no geral gostei 😉

  15. mariasantino1
    6 de junho de 2014

    Acredita que eu li A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BATMAN? kkk. Pois sim, gostei muito do início, o modo despojado de falar, depois vem a intervenção (nada contra falar com o leitor, mas aqui me incomodou). A segunda parte também é bacana, mas acho (só acho) que poderia ser mais direta a narrativa. Não gostei do final, mas grande parte do conto me agradou e retirou risadas.
    .
    Abraço e Boa Sorte no Desafio.

  16. Jefferson Reis
    6 de junho de 2014

    É uma ótima narrativa, atraente e cheia de suspense.

    Como disseram, o contador de estórias pode servir como referência para o ficcionista. Temos este velho e bom mentiroso dentro de nós, falando pelos cotovelos ou nos revelando enredos no sorriso e no olhar.

    A escrita do contista é boa. A linguagem coloquial é um dos charmes do conto, assim como a linguagem popular, em algumas passagens.

    Só não gostei da introdução relativamente demorada. Também não gostei da forma como o personagem do Negão Misterioso conta sua vida “verdadeira”, quase no desfecho.

    Mesmo assim, ual, e parabéns!

  17. Eduardo Selga
    6 de junho de 2014

    Não é apenas um conto: é uma referência àquele grande mentiroso, no melhor dos sentidos, que todo prosador ficcionista traz dentro de si, o narrador primordial que o indivíduo guarda consigo e que às vezes aflora no papel em branco ou numa conversa de bar, e que sobrevive na memória do povo (as estórias de pescadores, por exemplo) e na ficção, como Pinóquio, Forrest Gump e tantos outros.

    Por isso, evidentemente, o coloquialismo, essencial nesse tipo de narrativa, imitando a naturalidade da fala. Claro, por ser ferramenta narrativa, esse ar “natural” é uma farsa, pois não se pode esquecer a existência de um autor controlando as cenas, as falas, administrando o enredo.

    Alegoricamente, o homem negro é esse instrumento. Ele, assim como o autor “de carne e osso”, controla os enredos, os tem nas mãos, põe e tira personagem. A sedução das mulheres (e do protagonista) é a sedução do leitor diante de um texto que considera bom. Também muito significativo foi fazer desse homem um negro: toda narrativa oral com ares espetaculosos traz em si a instabilidade de seduzir pela incerteza da palavra, um lugar onde se pisa com prazer sem se importar muito com a segurança desse território. É o risco do pecado, do mal etc, e, por questões históricas, a cor negra é associada a toda essa quebra de paradigma, à fuga das regras. Se por um lado talvez possa ser entendido como um fator a reforçar o estereótipo negativo atribuído à raça negra, por outro ganha verossimilhança. prefiro a segunda interpretação. Mesmo porque o “politicamente correto” precisa ser visto com reservas quando falamos de ficção.

    Destaco a saudável ambiguidade do texto. Ao término do conto não é possível afirmar indubitavelmente que o homem seja ou não o Diabo, uma vez que ele pode ter mentido nas duas vezes em se identificou, afirmando ser o Diabo e depois negando. E, ao fim das contas, a “verdadeira” identidade dele não interessa nem um pouco à trama, muito ao contrário: tanto mais firme ficará a estória na preferência do leitor quanto mais a névoa permanecer. O suspense precisa dessa indefinição.

    Mas o conto peca em demorar a entrar no núcleo dramático central. Toda a lenta preparação até chegar nesse ponto me pareceu redundante e com pouca função no todo.

  18. Swylmar Ferreira
    5 de junho de 2014

    Muito bom o conto Barman
    Enredo bem construido com uma narrativa envolvente. Como falou o Fabio, os palavrões não incomodam, ao contrário, em minha opinião fazem parte do texto.
    Parabéns!

  19. rubemcabral
    5 de junho de 2014

    Resolvi adotar algum critério de avaliação, visto que costumo ser meio caótico para comentar.

    Pontos fortes: o enredo, a boa construção das personagens, a criação de expectativas e a escolha por caminhos pouco óbvios, gerando clímax e anticlímax no mesmo conto. A verossimilhança do discurso oral também foi um ponto de destaque.

    Pontos fracos: não tenho muito o que destacar. Incomodei-me somente com o “Há Há Há”, pois eu grafaria de forma diferente, sem acento e com vírgulas ou hífens.

    Sugestões de melhoria: achei o texto muito bom, há pouco o que melhorar. É longo, mas não perdeu o ritmo, construiu a personagem do barman primeiro, depois o homem negro misterioso, criou tensão com a possibilidade sobrenatural (que eu havia inicialmente imaginado), mas fugiu do clichê ao abrir mão do fantástico no final. Pessoalmente, eu enxugaria um pouco o inicio.

    Conclusão: muito bom texto.

  20. Fabio Baptista
    4 de junho de 2014

    Muito bom!

    Um texto longo, mas que consegue manter a atenção, mudando a dinâmica e criando ganchos em pequenos intervalos.

    A narração do barman é divertida e soa natural. A “coroa enxuta” ficou bem caricaturizada (no bom sentido) e o cara que conta as histórias parece convincente (eu acreditei em tudo! :D). Talvez alguns leitores se incomodem com os palavrões, mas não é meu caso.

    Entendo a opção por ter escrito metade no passado (a parte que conta da mãe) e metade no presente (do Forrest Gump para frente)… mas é um recurso meio arriscado, porque para se embananar todo não custa muito. Aqui até acho que o autor conseguiu manter as coisas no lugar e sempre ao menos passar a impressão de que estava com o controle da variação dos tempos, mas eu sinceramente não arriscaria.

    Abraço!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 4 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .