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Detox Literário.

Reflexo de Um Sonho – Conto (Gustavo Araujo)

vangogh-starry_night_ballance1Todas as manhãs, ao abrir os olhos, o pequeno Érico via a mesma coisa: uma imensidão negra pontilhada por galáxias distantes, que lembravam um gigantesco manto com diamantes pendurados. Nada havia ao redor. Só o vazio.

A única distração de Érico era caminhar e contar os astros no céu escuro, lá em cima. Depois dormia. E quando acordava, começava tudo de novo.

Um dia, encontrou um espelho. Era enorme, pois o menino podia se ver de corpo inteiro.

Feliz, Érico passou a se sentar em frente ao objeto, todos os dias, as pernas encolhidas em um abraço, os joelhos roçando o queixo. No início, apenas admirava seu reflexo, mas logo começou a contar histórias para si mesmo. Falava de cometas, mundos e luas esquecidas. Ensaiava caretas, fazia vozes e gesticulava muito. No fim, caía na risada.

Depois de um tempo, porém, a graça foi acabando. E Érico passou a fitar sua própria imagem em silêncio.

Até que certa feita, algo aconteceu. Assim, sem aviso algum, viu seu reflexo se desvanecer. Seus contornos foram se tornando cada vez menos nítidos, até desaparecerem por completo. No lugar, uma imagem completamente diferente surgiu.

Era um quarto. Um quarto de dormir bastante simples. Dava para ver a cama, o criado mudo, um quadro e uma cômoda. Érico olhou aquele lugar com curiosidade, sem entender direito o que acontecia.

Então, ela apareceu.

A mulher mais linda do mundo.

Tinha o seu rosto redondo, a boca entreaberta, os olhos tristes, brilhantes como estrelas cadentes, a expressão perenemente carregada de melancolia.

No instante em que a viu, Érico sentiu vontade de abraçá-la com toda a força que tinha.

A mulher aproxinou-se do espelho. Por um instante, Érico pensou que iria chamá-lo. Mas, ao invés disso, ela começou a pentear os cabelos.

Talvez, para ela, o espelho fosse só um espelho.

Érico levantou-se e aproximou-se da imagem. A mulher, mesmo alheia à presença do menino, tocou o vidro com suavidade e começou a fazer desenhos imaginários, o olhar perdido em pensamentos insondáveis.

Érico pensou em dizer alguma coisa. Queria chamá-la mas, ao mesmo tempo, tinha medo de que ela se assustasse. Sem pensar, o menino, com os próprios dedos, passou a seguir as linhas invisíveis que mulher bonita traçava, imaginando que tocava sua mão.

Por fim, a imagem desapareceu, devolvendo ao menino seu reflexo de frustração. Ele sentou-se novamente em frente ao espelho e decidiu esperar. Se tivesse sorte, ela apareceria de novo.

***

Todas as noites, antes de se deitar, Cecília cumpria um ritual. Diante do espelho, analisava em seu rosto o avanço do tempo. Examinava as rugas, os vincos e as manchas que surgiam em sua pele, outrora imaculada. O nariz, a boca e o pescoço, tudo sucumbindo à ação inexorável dos anos. A vida, o viço e a beleza evaporando-se em gotas invisíveis, lentamente, dia após dia.

Às vezes, tentava tocar o seu próprio reflexo, refazendo os contornos de seu próprio rosto no vidro, recordando os traços de sua juventude.

Contudo, assistir ao próprio envelhicemento não fora, jamais, um problema. Para Cecília, o verdadeiro martírio era ver negada a si a razão de viver de qualquer mulher.

Quarenta e cinco anos tinham se passado. O espelho não a deixava esquecer.

E Cecília não conseguia ter filhos.

Sua vida amorosa tinha fracassado. O marido pedira o divórcio, alegando diferenças irreconciliáveis – um nome bonito para a insatisfação que ele não mais conseguiu esconder.

Para falar a verdade, Cecília não sentia falta de romance. Pelo menos não desses, de contos de fadas.  Seu único desejo na vida era amar, só que amar de uma maneira que só as mães são capazes.

Frequentemente, acariciava seu ventre diante do espelho imaginando uma barriga. Nessas horas, sua mente divagava e ela quase enxergava as pessoas nas ruas, apontando para ela, admiradas, como se dissessem vejam, ela está grávida”.

Em seguida, voltava à realidade e punha-se a chorar em silêncio, lamentando os desígnios superiores que, por algum motivo, haviam lhe roubado a capacidade de gerar outra vida.

***

Para a felicidade de Érico, a imagem da mulher mais linda do mundo voltou a aparecer. Dia após dia, sempre à mesma hora. Feliz, o menino se sentava em frente ao espelho, para contemplá-la, como quem admira uma flor que não se pode tocar.

Certo dia, porém, Érico pensou em um plano para fazer contato com ela.

A inspiração surgiu assim, do nada, como sempre acontece com as boas ideias.

Pois bem, quando ela aparecesse à sua frente, ele chegaria bem perto do espelho e, com seu hálito, provocaria uma fumacinha para embaçá-lo. Em seguida, desenharia um coração.

A mulher bonita ficaria surpresa, ele acreditava, mas, no fim, seria capaz de entender o sinal. Sim, isso podia funcionar. Não custava nada tentar.

Se tudo desse certo, em breve ele poderia perguntar a ela por que se sentia tão infeliz.

***

Tempos depois do divórcio, Cecília havia se submetido a um tratamento para engravidar. Produção independente. Contudo, o resultado não fora o esperado. Seguiram-se mais duas tentativas. E nada. Ela já havia decorado o teor daqueles laudos médicos impiedosos, que insistiam em destruir suas esperanças.

Os próprios especialistas já tinham admitido que quanto mais velha fosse a pessoa, menores seriam as chances de sucesso.

Mas Cecília decidiu tentar uma última vez. A derradeira, prometeu a si mesma. E assim foi.

Semanas mais tarde, de volta à sua casa, enquanto se olhava no espelho, Cecília percebeu uma pequena mancha na parte baixa do vidro. Abaixou-se e, com a manga de sua camisa, tentou esfregá-la. Tinha a curiosa forma de um coração.

Então, sem qualquer aviso, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, espalhando-se pelos ombros delgados, fazendo com que se contorcesse. Viu-se obrigada a ficar em pé e quando deu por si, encarava o próprio reflexo.

Sorriu e levou a mão à boca, como se envergonhada com o pensamento que lhe cruzou a mente.

***

Érico nunca tinha visto a mulher mais bonita do mundo sorrindo. Para ele, foi como se o sol se abrisse depois de um mês de chuva. Sentiu-se inundado por uma alegria infinita.

 

Talvez seu plano tivesse funcionado. Talvez ela tivesse visto seu desenho.

Levantou-se e acercou-se do espelho. Com os nós dos dedos bateu no vidro e gritou por ela. Em vão. Tentou fazer outro desenho, o mais rápido que pode, mas a mulher virou as costas.

Com um sentimento de urgência, o menino passou os dedos pela borda do espelho, procurando uma falha ou uma abertura. Não encontrou coisa alguma.

Contrariado, viu a imagem da mulher desaparecer do espelho, uma vez mais.

***

Na noite seguinte, Cecília sentou-se diante do espelho e fitou-se demoradamente. Nas mãos, tinha um teste de gravidez, desses que são vendidos em farmácias.

Abriu a caixa e leu as instruções. Já conhecia de cor. Engoliu em seco. Diferentemente das outras vezes, havia agora uma pontinha de esperança. Mas ela não permitiu que o otimismo crescesse. O tombo seria muito grande no caso de um resultado negativo.

Sabia exatamente o que fazer. Respirou fundo, tomou o pequeno aparelho nas mãos e dirigiu-se ao banheiro.

Era a hora da verdade.

***

Enquanto procurava uma brecha no espelho, Érico foi surpreendido por um imenso clarão, branco como uma folha de papel. Parecia que o sol tinha sido guardado lá dentro e, agora, queria sair a todo custo.

Sem entender, o menino afastou-se, assustado. Curioso, contudo, estreitou os olhos e colocou uma das mãos na testa, imitando a aba de um chapéu. Queria enxergar o que havia lá no meio daquela brancura toda. Nada viu. Esticou o braço e fez menção de tocar o espelho.

Ao fazê-lo, seus dedos foram envolvidos por uma espécie de líquido gelatinoso e elástico, como se o vidro tivesse ganhado vida e quisesse, a todo custo, puxá-lo para aquele universo sem cor. Seu coração disparou. Uma sensação de urgência alastrou-se em seu peito, fazendo-o retesar os músculos. Julgou ter ouvido um chamado, um sussurro.

***

Um minuto.

Era o que demorava a resposta do teste. Uma eternidade com toda a certeza.

O mostrador do aparelho tinha duas janelinhas. Um risco vermelho em cada qual indicaria que o resultado era positivo. Qualquer coisa diferente disso significaria outra frustração.

Com medo, Cecília tinha deixado o aparelho ao seu lado, na cama. Não conseguia olhar para ele. Distraía-se, mirando o próprio reflexo no espelho em frente, contando os segundos mentalmente.

Inspirou e prendeu a respiração, fechando os olhos. Noventa segundos tinham se passado. Certamente, o aparelho já estaria mostrando o resultado. Dois riscos significavam uma vida nova a caminho.

Exalou o ar de seus pulmões. Um resultado negativo se traduziria em um atestado de sua ruína como mulher.

Por fim, entregou-se. Toda a sua existência concentrada naquele instante. Baixou os olhos e encarou o aparelho.

***

Érico flutuava. Não havia noção de tempo ou de espaço, apenas aquela sensação cálida, como se estivesse envolvido por um abraço protetor. Encontrava-se em um estado permanente de felicidade, talvez como nunca antes. Ouvia canções, murmúrios, músicas.

Não se lembrava como nem por que estava ali. Mas sabia: era impossível existir lugar melhor.

***

O pequeno aparelho que confirmou a gravidez de Cecília, contra todos os prognósticos, foi guardado como uma joia.

O bebê viria ao mundo por parto cesárea, uma opção da mãe, que preferia não arriscar. Nove meses se passaram onde o sonho de gerar uma criança se tornou real para Cecília. Agora havia uma barriga para acariciar, uma vida se formando lá dentro.

Ela frequentemente cantava-lhe canções de ninar, lia histórias infantis. Sonhava com o dia em que brincariam juntos. Andariam de patins, de mãos dadas. Quando a chegasse a época de ir para a escola, Cecília estaria presente, incentivando, ajudando em tudo.

Seria a melhor mãe do mundo. Disso tinha certeza. E aquela barriga enorme, que ela não se cansava de admirar diante do espelho, não a deixava esquecer disso nem por um segundo.

***

A primeira coisa que o pequeno Érico viu ao abrir os olhos foi uma imensidão negra, pontilhada por astros distantes, como um gigantesco manto escuro onde diamantes haviam sido pendurados.

Nada havia ao seu redor. Só o vazio.

Contemplando as galáxias, sentiu a angústia esmagar-lhe o peito.

Esfregou a vista e sentou-se. Aos poucos, enxergou seu próprio reflexo nas estrelas.

Sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Virou-se e, para seu espanto, viu que a mulher mais linda do mundo estava ao seu lado, sorrindo. Era o sorriso mais acolhedor que ele já tinha recebido.

Em seguida, abraçou-a com toda a força que tinha, sem se preocupar em conter as lágrimas.

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Este conto foi escrito por Gustavo Araujo, autor deste blog.

Um comentário em “Reflexo de Um Sonho – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Thamiris Maciel
    11 de julho de 2013

    Lindissimo conto! Parabens …

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Informação

Publicado às 14 de julho de 2012 por em Contos Off-Desafio e marcado .