EntreContos

Detox Literário.

A Canção de Catarina – Conto (Gustavo Araujo)

capa02Perdi a conta de quantas vezes ouvi Nina contar essa história. Era sempre assim antes de dormir, quando eu e meus irmãos íamos passar as férias em sua casa, no interior. Nina — como a chamávamos — era nossa avó.

Sem cerimônia, sentava-se entre nós e punha-se a contá-la como se fosse a primeira vez. Nós — por respeito, pena ou uma mistura dos dois, já que Nina era bem velha — a escutávamos também como se nunca tivéssemos ouvido aquilo. 

Talvez por isso eu ainda lembre de cada palavra, da voz trêmula de Nina e de seus olhos azuis perdidos no infinito, cada vez que ela começava.

***

 Catarina quase não acreditou. Tinha acabado de amarrar seus cabelos pretos em um rabo-de cavalo quando o passarinho surgiu assim, do nada. Um canário belga. Igualzinho ao que ela vira em um livro ilustrado: o peito amarelo, estufado, e as asas rajadas. E havia pousado ali, no parapeito de sua janela. Lentamente, a menina moveu-se, pé ante pé, tentando não fazer barulho. Queria chegar mais perto. Por sorte, estava de meias. O canarinho cantou, indiferente à sua presença, um assobio forte e melodioso, como se soprasse alegria. Ela deslizou por trás da cadeira, agachando-se. Por fim, deteve-se.

Que passarinho lindo…

O canário cantou outra vez, finalizando com um gorjeio de barítono, o ápice de sua performance. Catarina sentiu vontade de rir, de chamar alguém — qualquer pessoa — mas não podia. Não queria assustar o bichinho. De supetão, saltou na direção do pássaro, tentando agarrá-lo. Ele, porém, foi mais rápido. Alçou voo e sumiu em direção ao bosque, rua abaixo. Catarina balançou a cabeça, contrariada. Sem perder tempo, vestiu um casaco velho, calçou os sapatos e desceu as escadas, martelando os degraus de madeira. A casa era grande, mas ela não demorou a sair. Ainda ouviu a governanta gritar:

— Catarina, aonde você vai? O almoço já está quase pronto! É tutu de feijão!

Aonde você vai… Ora, sim… Por que todo mundo queria sempre saber aonde ela ia? Por que tinha que dar a todos satisfação de seus atos? Já estava farta de tantas ordens, de tantas obediências. Já não era mais criança. Por que não podia simplesmente ir e ser livre? Sua vida era realmente muito chata, aquela casa enorme e vazia, o isolamento de tudo, a indiferença dos pais, a ausência de amigos. Talvez por isso invejasse os passarinhos. Quem dera pudesse ser como eles.

Desceu a rua de terra, repleta de poças de lama, desviando de galhos e de pedras. Impossível não sujar a barra das calças e os sapatos. Com toda a certeza, seria chamada a atenção por causa disso. Pouco importava. Iria até o bosque logo abaixo, como de costume. Seu local favorito. Queria encontrar aquele canarinho belga outra vez, ou simplesmente ficar sozinha.

Ao chegar à trilha que se insinuava entre as árvores, parou um instante. Lembrou-se da primeira vez em que estivera ali. Naquela ocasião, sentira um leve receio por causa de toda aquela imensidão verde: os inúmeros pinheiros, que pareciam lançar olhares severos na sua direção, como sentinelas mal humoradas; os raios de sol, que mal penetravam por entre as copas, dando ao bosque um aspecto sombrio. Mas Catarina logo aprendeu a gostar daquele cenário e com o tempo ganhou a coragem para desvendá-lo por completo. Era, no final das contas, um lugar só dela, onde tinha a solidão como melhor companhia.

Deixou as divagações de lado e entrou no bosque. Não teve dúvidas: assobiou, tentando imitar o canto do passarinho amarelo. Contudo, não houve resposta. Apenas o vento balançando as folhas e os galhos mais altos dos pinheiros. A menina não desanimou, seguiu caminhando e olhando. Nada. Até que chegou à clareira, numa pequena elevação. Por fim, sentou-se em uma pedra e afundou as mãos nos bolsos, disparando olhares em todas as direções. Ao erguer a cabeça, sentiu a força do sol e protegeu a vista, levando a mão à testa. Não havia sinal de qualquer passarinho. Mesmo assim, continuou assobiando, concentrando-se para soar como exatamente igual àquele canarinho.

— Que música esquisita — disse alguém, às costas dela.

Catarina virou-se, um tanto surpresa, e viu um menino mais ou menos da sua idade.

— Não é música… — retrucou, um pouco envergonhada com a surpresa. — É o canto de um passarinho.

— Ah, sim… Desculpe… — disse o garoto, aproximando-se. Vestia camisa branca e bermudas de cor cinza, com suspensórios, onde apoiava os dedos. Seus os olhos eram pretos como jabuticabas, o nariz, arrebitado, e os cabelos, amarelos como palha de milho.

— Quem é você? — indagou Catarina, tentando se colocar na dianteira da conversa. Não gostava de ficar na defensiva. Além do mais, sentia que seu território havia sido invadido.

— Meu nome é Rafael. E o seu?

— Eu sou Catarina — respondeu ela, baixando os olhos, experimentando uma timidez involuntária.

— Onde você mora? — perguntou ele, sentando-se em uma pedra ao lado dela, cruzando as pernas.

— Subindo a rua… Não é difícil. É a única casa perto daqui. E você? — devolveu ela, levantando-se, um pouco desconfortável.

— Ah, eu também moro aqui perto, só que do outro lado — respondeu ele apontando com o queixo para uma direção qualquer, enquanto desenhava círculos na terra com os pés.

— Faz tempo que você se mudou para cá? — indagou a menina, cruzando os braços, assumindo a mesma pose que a governanta fazia quando ela se atrasava para algum compromisso.

— Bem, faz algum tempo, sim — disse o menino, voltando-se para ela.

Catarina observou-o por um segundo. Tinha vontade de mandá-lo embora dali. Que ousadia aproximar-se assim, sem mais nem menos. Aquela clareira era dela e de ninguém mais. Quem esse garoto pensava que era? Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, sentiu algo riscar o ar.

O canário belga.

Sim, era ele. Acabara de dar um rasante sobre suas cabeças. Catarina esqueceu-se imediatamente do papel que se propusera a representar diante daquele garoto impertinente. Com os olhos fixos no passarinho, deixou o menino em segundo plano. Em último plano, na verdade.

Para surpresa dela, o canarinho deu algumas voltas no ar e pousou em um galho junto ao chão, bem em frente ao menino. Catarina fez menção de se aproximar, mas seus pés arrastaram algumas folhas. O passarinho olhou para o lado, e pendeu a cabeça de lado, como se olhasse inquisitivamente para ela. Mas não bateu asas. Continuou ali, saltitando próximo do menino e ciscando a terra.

Rafael olhou para ela com uma expressão de surpresa. Então, fez um sinal com a mão, para que Catarina ficasse onde estava. Com os olhos, pediu a ela silêncio. Abaixou-se lentamente, até que seus joelhos encostassem na terra. Mordeu os lábios e estendeu o braço na direção do passarinho, tão devagar que uma uma vida inteira poderia ter-se passado. Catarina assistia à cena, atônita, com receio até de respirar Ele vai pegá-lo. Ele vai pegá-lo. Por favor, não o machuque.

De repente, o mais incrível aconteceu: o canarinho subiu na mão do menino. Assim, com um salto, como se o dedo do garoto fosse um galho ou um graveto. Rafael sorriu, meio sem jeito, e olhou para Catarina.  A menina não sabia o que fazer. Queria rir, mas tinha medo de espantar o passarinho. Queria, mais do que isso, ela própria, estender sua mão para ele.

Com a outra mão, Rafael fez sinal para que ela chegasse perto. Bem devagar. Naquela mesma velocidade de tartaruga, ela se aproximou. Lentamente, levou a mão até a altura dos dedos do menino. O passarinho continuava ali, impassível. O bichinho assobiou, aquele canto potente, lindo, que ela adorava e, sem o menor aviso, com um novo pulo, ajeitou-se nos dedos dela. Catarina podia sentir o aperto, os pés do canarinho lhe pinicando a mão. Olhou para ele e em seguida para Rafael. Soltou um riso, não conseguindo conter tanta felicidade. Foi o que bastou para que o canarinho batesse asas e voasse na direção das árvores.

***

treefgFazia uns três meses agora. Logo, as férias estariam terminadas e Catarina voltaria à escola. Um Colégio para Moças, como vinha dizendo seu pai. Indiferente a isso, a menina ia todos os dias ao bosque. Rafael estava sempre lá. Juntos, conversavam sobre qualquer assunto, mas principalmente sobre passarinhos. Às vezes, davam sorte de ver um ou outro mais colorido, porém nunca mais encontraram algum com a coragem daquele canarinho belga.

— Como são seus pais? — Quis saber Catarina, certa vez.

— Bem… São legais, eu acho… Minha mãe é meiga e compreensiva e meu pai… Bem, meu pai é muito inteligente, mas muito severo também.

A menina sentiu-se picada pela curiosidade. Pareciam ser pais normais, legais, ele disse, algo muito distante da realidade que ela própria vivia.

— Podemos ir até a sua casa para que eu possa conhecê-los? — pediu ela

Rafael pensou por um instante e enfim olhou para a menina, um tanto constrangido.

— Não sei… Acho melhor não… Não tenho permissão…

— Mas qual o problema? — indagou ela, à queima-roupa.

— Eu… Não sei qual o problema… Só posso conversar com você aqui. É algo que preciso obedecer.

Para ela, aquilo era algo inusitado. Não conseguia entender como alguém podia aceitar uma ordem tão sem sentido. Decidiu tentar outra abordagem:

— Rafael, você gosta de mim?

A indagação pareceu desnorteá-lo. Sem saber como responder, ele ensaiou algumas palavras, baixando os olhos e tropeçando em sílabas. Finalmente disse:

— Eu… Eu… Sim, você é… Uma boa amiga e eu…

— E você gosta dos seus pais?

Dessa vez, a resposta veio rápida, sem hesitação:

— Eu amo meus pais.

Catarina não esperava uma resposta como aquela. Jamais ouvira alguém dizer que amava os pais, assim, de modo tão cristalino, ingênuo até, puro e sem qualquer receio de parecer sentimental demais. Sentiu aflorar uma inveja, tanto por não saber o que dizer como por não ser capaz de responder nos mesmos termos. Uma sensação de raiva, impossível de conter, tomou conta dela

— Por que todo sacrifício sempre cabe a mim? — perguntou, atirando a pergunta na direção do garoto, como se quisesse lhe desferir um golpe por fazê-la sentir-se tão frustrada. — Por que sempre eu é que tenho que desobedecer meus pais e descer essa estrada imunda e cheia de lama? Por que eu é que sou chamada à atenção por estar suja? Todos os dias…

Rafael olhou para ela, encolhendo os ombros, sem dizer coisa alguma.

Catarina encarou-o por alguns instantes. Talvez ele não pudesse ser culpado pela indiferença dos pais dela, mas, fora ele, de todo modo, quem a fazia perceber, agora, o quão vazia era sua vida como filha.

— Quer saber, Rafael? Eu moro estrada acima. Você sabe, a casa branca, de dois andares da qual lhe falei. Se quiser me ver, terá que ir até lá me chamar. Até que isso aconteça, não venho mais aqui.

Dizendo isso, pôs-se em marcha na direção de sua casa. Sem olhar para trás.

— Não, por favor — pediu o menino. — Eu não… Eu não posso ir… Você não entende… Meu pai…

Catarina parou. Fez menção de se voltar para Rafael mas deteve-se a tempo. Tem razão. Eu não entendo. Sentiu uma mistura de raiva e pena do menino. Talvez até gostasse dele. Mas agora era tarde e nem mesmo se um passarinho falasse, ela mudaria de ideia. Era isso. Se quisesse vê-la, ele que viesse ao seu encontro. Fim de história. Continuou a caminhar, mas ainda ouviu-o dizer “Volte… Por favor…”

***

Semanas se passaram e Catarina manteve-se fiel à sua resolução. Não regressaria ao bosque até que Rafael viesse até sua casa. Talvez por isso andasse de péssimo humor. E, para tornar as coisas ainda piores, vinha sentindo algo estranho nos últimos dias. Era como se uma bola de fogo a consumisse por dentro, levando-a a irritar-se por qualquer motivo. Na verdade, jamais se sentira tão sensível. Sua mãe havia dito algo sobre isso, que era parte da vida de qualquer garota, como uma provação no “caminho para se tornar uma mulher”.

Catarina não compreendia e, na verdade, apenas desejava que essa sensação passasse. Para ela, o verdadeiro motivo da tormenta que a consumia era bem outro. Precisava admitir: tinha saudades de Rafael… Todas as noites, quando ia dormir, lembrava-se dele. Daqueles olhos pretos como carvão e daquele nariz pontudo e engraçado. Nessas horas, encolhia-se sob os cobertores e tratava de pensar em outra coisa. Mas sempre adormecia com o rosto de Rafael. Seu melhor amigo. Seu único amigo.

Certa noite, uma chuva imensa castigou o lugar em que Catarina morava. Encolhida em seu quarto, já na cama, a menina não conseguia dormir. Puxou o cobertor até a orelha, como se aquilo pudesse protegê-la da fúria dos trovões. Raios iluminavam de quando em quando seus brinquedos nas estantes.

Lá pelas tantas, de madrugada, levantou-se. Por causa de seu sono entrecortado, não tinha noção de que horas eram. Percebeu que a chuva havia parado. Ou quase, já que uma garoazinha tamborilava no telhado. Foi até a janela de seu quarto e espiou. Havia algo estranho lá fora. Ainda que fosse noite escura, um brilho, algo inusitado, parecia vir da rua.

Curiosa, Catarina foi até a porta da varanda e girou o trinco devagarinho, para não fazer barulho. Não queria acordar ninguém. A porta rangeu, reclamando, mas a menina só precisava de um espacinho para passar. Lá do alto, enfim, ela viu. A rua em frente à sua casa, que àquela altura deveria estar coberta de lama, reluzia como se coberta com um calçamento de pedras brilhantes. Esfregou os olhos. Era difícil de acreditar, mas era a mais pura verdade. Ladrilhos cobriam a rua que agora cintilava com a água acumulada, refletindo as estrelas que surgiam por trás das nuvens.

Sem qualquer aviso, porém, o deslumbramento deu lugar a um sentimento de urgência, dessas que queimam por dentro. Foi como se alguém tivesse lhe dado um tapa no rosto. Sem saber o motivo, Catarina compreendeu que precisava ir até lá. Até o bosque. Não podia esperar, tinha que ser agora. Sentiu o coração acelerar. Não havia tempo a perder. Voltou ao seu quarto, em silêncio, e vestiu um casaco comprido e pesado por cima do pijama com desenhos de crisântemos. Desceu as escadas com os sapatos nas mãos para não fazer barulho. Abriu a porta da frente e sentiu o vento gelado da madrugada atingir-lhe o rosto. Calçou-se. Caminhou rapidamente até o portão e abriu-o.

Podia dizer que era a rua mais linda que já havia visto. A sua rua, coberta de ladrilhos brilhantes. Passou a mão nos cabelos. Então, lembrou-se e pôs-se a correr. Rafael.

Catarina correu o mais rápido que podia. O ar frio lhe queimava os pulmões, mas a sensação de urgência, como se soubesse que algo estava prestes a ser-lhe tirado, era ainda maior. Percebeu as primeiras lágrimas aflorarem assim que chegou à trilha do bosque, com o amanhecer que se anunciava. Afastou os galhos e seguiu.

A pressa lhe embaralhava os sentidos. Já tinha passado mil vezes por ali, mas o caminho parecia diferente. Curvas se alternavam, galhos e raízes a faziam tropeçar. Sentia-se observada e até mesmo acusada pelos pinheiros. Enfim, quando a noite se despedia, chegou à clareira. Não havia ninguém ali. Lentamente, Catarina caminhou até sua pedra e sentou-se. Suas calças estavam imundas. Deixou os olhos se perderem no chão que ganhava as primeiras cores do dia. Logo a visão estava borrada, com lágrimas que rolavam e faziam linhas em seu rosto. Com as costas das mãos enxugou os olhos.

— Rafael! — chamou ela, enfim, libertando toda a angústia.

Em algum lugar, um passarinho cantou. Mas ela não se moveu.

— Rafael! — repetiu ela, soluçando. — Não vá embora!

Chorava agora em profusão, sem qualquer vergonha. Sabia, em seu íntimo, que não teria resposta.

— Desculpe… — dizia ela. — Não queria brigar com você.

Algum tempo se passou e uma chuva leve voltou a cair.

— Volte, por favor — murmurou, enfim, deixando a voz morrer. Era como se faltasse uma parte de si, como se lhe tivessem roubado o coração.

***

Rafael estava ali. Ao lado dela. Catarina não podia vê-lo. Nem senti-lo e nem escutá-lo. O menino tinha asas agora. Seu pai o havia chamado à casa. Com a expressão triste, ele a contemplava.

— Vou sentir sua falta também — sussurrou, mesmo sabendo que ela jamais o escutaria.

Também ele tivera o coração roubado.

***

Não era sempre, mas com frequência, Nina, ao contar essa história terminava com os olhos marejados, com um quê de tristeza na voz. Depois, olhava para nós e sorria sem jeito, um sorriso constrangido. Não demorava a nos dar boa-noite e a apagar a luz do nosso quarto.

Mas toda vez — e isso não falhava nunca — ela fechava a porta cantando os primeiros versos de uma antiga canção.

“Se essa rua, se essa rua fosse minha…”

……………………………………………………….

Check this short story in English!

Um comentário em “A Canção de Catarina – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Thamiris Maciel
    9 de julho de 2013

    Nossa que história linda para se começar o dia ! Muito Obrigada de Verdade!!!! Me encantei e me apaixonei por essa história!

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Informação

Publicado às 8 de julho de 2012 por em Contos Off-Desafio e marcado .