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Literatura que desafia.

“A Arte de Viajar” – Resenha (Gustavo Araujo)

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Confesso que sempre torci o nariz para livros que tratassem do ato de viajar em si. Talvez por preconceito ou por considerar que os autores fossem pretensiosos demais. Mas, pensando bem, poderia ser algo do do gênero “por que eu nunca pensei em escrever algo assim?”

Ou seja, minha má vontade quanto a esse tipo de literatura nada mais seria do que a manifestação daquele sentimento puro e simples que se apodera de nós devagarzinho em momentos de baixa imunidade: a inveja.

Comecei a ler “A Arte de Viajar”, do autor inglês Alain de Botton, cheio de reservas. Quem era esse sujeito, afinal, para querer ensinar a qualquer um os segredos impossíveis que o mero deslocamento espacial para outras paragens pode proporcionar?

Por que alguém deteria o monopólio de pensar o que se esconde na filosofia que nos impele adiante, na busca pelo que não conhecemos?

Enfim, comecei.

De Botton divide o livro em 5 capítulos que falam da partida, das motivações, da paisagem, da arte e do retorno. Em cada um deles ele faz um paralelo entre experiências próprias e de outras pessoas que, de alguma forma, acabaram por inspirá-lo.

O que nos leva a viajar, afinal?

Para minha surpresa, De Botton explora muito bem essa questão. Seria porque idealizamos um lugar? Imaginamo-nos como parte daquele cenário perfeito que nos conquista no exato momento em que pousamos os olhos sobre uma brochura, um quadro ou mesmo uma foto? A partir do instante em que somos fisgados, só há espaço para a perfeição. Ninguém pensa nos aspectos não-tão-apreciáveis que envolvem o “chegar lá”, e nem mesmo nos detalhes não-tão-aprazíveis que costumam cercar o paraíso idílico que nos embota os sentidos. É a mais pura verdade.

William Hodges Tahiti Revisitado, 1776

Quando se fala: “vou para o Tahiti”, a imagem que nos surge é de uma praia maravilhosa, algo que beira éden. Não há espaço para pensar nos táxis malcheirosos e nas baratas que podem aparecer mesmo nos mais caros dos hotéis. Ninguém pensa nisso. Ninguém quer pensar nisso. Para quê? O que realmente interessa é o coqueiro sobre a areia branca, o mar azul transparente.

Edward Hopper, Falcões da Noite, 1942

Mas há algo mais que nos força a seguir adiante. E isso se refere à necessidade de nos distanciarmos de nós mesmos, de nossa vida corriqueira, de nossa rotina maçante. Viajar nos transporta a outras realidades, não necessariamente melhores do que as nossas, mas diferentes. Essa sensação de não sermos iguais àqueles que habitam o nosso destino é que nos faz perceber o quanto podemos estar sozinhos, um sentimento que acompanha muitos viajantes, apesar das muitas amizades construídas na estrada.

Edward Hopper, Gasolina, 1940

Edward Hopper, A Casa junto à Ferrovia, 1925

Todavia, no fundo, viajar é uma experiência de autoconhecimento. E nisso De Botton acerta em cheio, inclusive por ilustrar o capítulo dedicado a essa discussão com obras de arte fantásticas de autoria de Edward Hopper. As descrições que feitas dos quadros é também impressionante, transmitindo a angústia e a melancolia que permeiam as cenas.

Edward Hopper, Cafeteria Automática, 1926

Claro, De Botton reconhece que a inspiração passa pela busca de exotismo. Nesse ponto, descreve a fantástica viagem de Gustave Flaubert ao Egito. Conta, em detalhes, a ânsia que o futuro autor de “Madame Bovary” alimentava por conhecer aquela civilização e, para mim uma surpresa, como ele desprezava profundamente a França, os franceses, enfim, o modo de vida europeu.

Por que sempre estamos buscando algo diferente? Por que, em uma viagem qualquer uma simples placa de sinalização nos fascina, a ponto de nos colocar boquiabertos, espantados porque em Amsterdã existem várias palavras em que o “a” aparece dobrado? Por que esse “aa” nos hipnotiza quando os holandeses simplesmente passam direto, ignorando-os por completo?

Evidentemente, o exotismo é irmão da curiosidade. E nisso, lembra De Botton, Alexander von Humboldt surge imbatível. Citando Emerson, De Botton descreve a vida de Humboldt, explorador da América do Sul, responsável por descobertas científicas que abrangeram geografia, botânica, zoologia, meteorologia, antropologia e muito mais: “uma dessas maravilhas do mundo, como Aristóteles, como Julio César, como o Admirável Chrichton, que aparecem de tempos em tempos como que para nos mostrar as possibilidades da mente humana, a força e o alcance de suas faculdades – um homem universal”. Nesse ponto, De Botton lamenta não haver espaço para novos Humboldts.

Albert Bierstadt, Niagara, 1869

Hoje tudo está descoberto, tudo foi catalogado, exaustivamente descrito, explorado. Não há mais novidade. Qual a graça de se visitar Paris ou Madri se nos guias de viagem já há informações suficientes para que saibamos a metragem exata da Plaza Mayor, sobre os arquitetos responsáveis por sua construção, sobre as figuras históricas montadas em imponentes cavalos?

Friedrich Georg Weitsch, Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland ao pé do Chimborazo, 1810 

Aludindo ao Distrito dos Lagos, na Inglaterra, De Botton busca as razões pelas quais a natureza exerce tanto fascínio sobre nós. Para tanto, relembra a história de William Wordsworth, o poeta inglês que, no início do século XIX, dedicou versos aos então insignificantes detalhes do mundo de plantas, árvores, insetos e cachoeiras, algo que buscamos com todas as forças nos dias atuais.

Albert Bierstadt, Lake Tahoe, 1868

Há descrições de poemas incríveis que no início foram motivo de piadas na sociedade inglesa, mas que, trinta anos depois, fizeram de Wordsworth um dos mais amados e respeitados autores ingleses. Se fosse possível apontar o momento em que a humanidade foi arrebatada pela natureza, este seria forte candidato.

Asher Brown Durand, Espíritos afins, 1849

Isso serve de motivo para que De Botton dedique um capítulo inteiro ao “sublime”, mencionando uma viagem que fizera ao deserto do Sinai, um cenário que, segundo ele, aproxima qualquer ser humano do que se entende por “Deus”. A amplidão dramática, o calor arrebatador, a força angustiante e o poder imensurável do deserto refletem exatamente o quão insignificante somos, dando-nos conta de que há forças muito maiores que nosso vão egoísmo.

De qualquer maneira, chega o momento em que precisamos ter um motivo para sair de casa, uma razão especial que ultrapasse os folhetos e as promoções de agências de viagem. De Botton encontrou isso na Provença, a região da França que traduz o ideal de perfeição climática com que sonha qualquer viajante.

Vincent van Gogh, A Casa Amarela, 1888

Mais do que isso, contém uma razão verdadeiramente interessante para nos tirar da mesmice e do conforto que só nos levam às preocupações ordinárias. Especificamente em Arles, o local em que Vincent Van Gogh produziu a maior parte de suas obras, existe a chance de se passar a um outro plano de existência.

Vincent van Gogh, Cipreste em um Céu Estrelado, 1889 

Descrevendo a vida do pintor holandês naquela região, mencionando suas cartas, transcrevendo suas preocupações com as cores, suas aspirações e desejos, De Botton nos conduz por passagens estreitas, coloridas e fascinantes, fazendo-nos mergulhar na arte fantasticamente perturbadora do mestre pós-impressionista.

Vincent van Gogh, Quarto em Arles, 1888

Está tudo ali: as paisagens, os girassóis, os ciprestes, o quarto, a noite estrelada…

Vincent van Gogh, Noite Estrelada sobre o Rhone, 1888

É nesse ponto que De Botton pergunta, com razão, por que nos preocupamos tanto em “possuir” a beleza dos lugares que visitamos? É talvez o capítulo mais interessante do livro. A necessidade que temos de tomar posse é tanta que a primeira coisa que fazemos ao visitar determinado local é registrá-lo em fotos. Muitas fotos. Como se isso garantisse que ele não nos escapará jamais. Que é nosso para quando e onde quisermos. O ato é instantâneo. Um clique e pronto, não há mais razão para perdermos tempo. Um novo local nos espera.

Talvez esse método nos esteja jogando para fora do verdadeiro propósito da viagem. Essa posse, que é legítima, pode ser obtida de maneiras muito mais autênticas e eficazes. Não que se deva deixar de fotografar, mas pode ser que haja espaço para ir além. De Botton sugere que adotemos a filosofia de John Ruskin, desenhando os locais e aspectos mais interessantes, por pior que sejam nossas habilidades nesse quesito.

Dessa maneira nos será possível compreender os detalhes, memorizá-los com mais eficiência e profundidade, guardá-los de modo permanente e não para esquecê-los instantaneamente após alguns cliques de nossas modernas máquinas digitais e celulares. Há que se descrevê-los, imaginá-los em diferentes contextos, criar romances, poemas. Talvez de fato seja a melhor maneira de termos para nós, legitimamente, um pedaço desses locais que nos apaixonam. Mesmo que sejam insignificantes para outros.

Tenho que admitir que o livro de Alain De Botton me surpreendeu e me fez repensar a maneira como se deve viajar. Como procurar novos destinos, novos motivos? Como entender essa necessidade de busca que se espalha por nossas entranhas, que nos traz o desejo de fugir na direção de um encontro com o que realmente importa? O que, afinal, importa?

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4 comentários em ““A Arte de Viajar” – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Vera Lúcia Riediger
    19 de outubro de 2016

    Adorei a resenha…imagina o livro!

  2. Solange Lemos Pinto Paiva
    14 de março de 2016

    Bela resenha! Deu mais vontade de ler o livro!

  3. LPitta
    23 de maio de 2015

    Brilhante livro. Brilhante resenha.

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Publicado às 31 de outubro de 2012 por em Resenhas e marcado , , .