EntreContos

Detox Literário.

O corretor (Lobato das Laranjeiras)

A noite de quinta-feira estava perfeita. O céu, carregado de nuvens, escondia a lua, deixando tudo mais escuro e apropriado. As pessoas estavam fechadas em suas casas, fugindo da garoa, fria e persistente, que perturbava os moradores do bairro Laranjeiras desde o final da tarde. Mensageiros do vento entoavam uma melodia descompassada, que acompanhava os uivos e assovios do ar se deslocando com ferocidade.

Hércules já vestia roupas escuras. Colocou ainda uma blusa preta e puxou o capuz por cima da cabeça. Na mochila levava pouca coisa. Eram três serviços, o primeiro na casa do Seu Manuel, o segundo, no posto de saúde, e o terceiro, que era o mais importante, no colégio. Imaginava que até as três da madrugada todos estariam já concluídos.

Antes de sair de casa, conferiu a avó, que dormia tranquilamente. Saiu pela porta dos fundos e pulou o muro, de forma que os rangidos do portão não denunciassem aquela atividade tão fora do comum. A vizinhança podia ser de uma gentileza desmedida, mas tinha lá seus problemas com a privacidade. Qualquer desvio de hábito já era assunto para conversas pela manhã, enquanto se varria a calçada, ou no balcão da padaria, onde a comunidade invariavelmente se encontrava.

Respirou fundo. Era sua primeira vez e estava tenso. A inexperiência poderia ser um problema, mas mantinha a confiança em seu planejamento. Tudo havia sido repassado mentalmente, e as arestas estavam muito bem aparadas. Precisaria, entretanto, contar com a sorte, aquele fator aleatório, incontrolável, que poderia colocar tudo a perder. Saiu do beco para a rua escura e chuvosa, e encaminhou-se para a primeira parada.

Quando chegou à casa de Seu Manoel, Hércules abriu a mochila e pegou a lata. Pensou que deveria ter se familiarizado com o uso, antes de qualquer coisa. Imaginava que era só apontar e apertar para fazer a tinta sair, mas, ali, diante de seu primeiro trabalho, a dúvida o atormentou. Resignado, então, sacudiu a latinha com cuidado, como já havia visto fazerem na televisão, levantou a mão para o lugar ideal e comprimiu o disparador. A tinta vermelha espirrou na parede, e ele foi movimentando o braço para conseguir o que desejava.

Menos de vinte segundos depois e Hércules já encarava o feito. Sorriu. Foi exatamente da forma como havia idealizado. Chegou perto novamente, concluiu o trabalho com mais um jato, guardou a lata na mochila e caminhou em direção ao posto de saúde. Estava exultante.

*

Seu segundo trabalho também foi extremamente tranquilo. Era um muro baixo, voltado para outro prédio comercial que, àquela hora, estava totalmente vazio. Fez o que precisava e caminhou em direção ao próximo com um misto de euforia e apreensão. Tudo correra bem até ali, mas o serviço no colégio seria muito mais complicado.

Chegou até a rua e vislumbrou o muro ainda distante por entre as gotas da garoa, que já se convertia em chuva. Seguiu a passos decididos e, na calçada do outro lado, analisou o serviço antes de começar a trabalhar. Estava tremendo de frio e medo. Não queria ser visto pelos moradores. Opostas ao muro estavam casas de pessoas que conhecia. Ali vivia Dona Rita, muito amiga de sua avó. Também o Valdemar, seu professor de matemática, e Elvira, sua colega de classe, a garota mais bonita da sala.

Com cuidado, e o coração acelerado, atravessou a rua já abrindo a mochila. As luzes dos postes falhavam, e a brancura do muro gerava um contraste com a figura esbelta e escura, de lata na mão. A chuva só aumentava, então ele não perdeu mais tempo.

O braço foi exigido muito mais desta vez. Diversos jatos vermelhos encontravam a parede, que parecia até satisfeita em recebê-los. A tinta pouco escorria e Hércules ia pintando, da esquerda para a direita, conforme a necessidade. Alguns traços inspirados, e algumas curvas razoáveis, e estava pronto.

Ainda com a latinha na mão, afastou-se aos poucos para conseguir ver o trabalho por completo. E estava perfeito. A sensação de dever cumprido aquecia o corpo, e punha a mente em disparada. Já começava, até, a imaginar que poderia fazer daquilo uma rotina. Seria uma espécie de anti-herói, ajudando a comunidade de uma forma distorcida e irregular.

A euforia, entretanto, foi quebrada pelo brilho vermelho e azul que coloriram muro e poças d’água. Muito silencioso, o carro de polícia foi parando devagar, próximo de Hércules. E não houve reação. Pego com a lata de tinta na mão, diante daquele que havia sido seu trabalho mais amplo e intenso, o anti-herói, de repente, viu-se como vilão. Não precisou que lhe falassem nada. Largou a lata e a mochila e levantou as mãos. Pensou que, de todos os fatores, o único que não podia controlar era a sorte. E ela havia resolvido não lhe favorecer naquela noite.

Os policiais o colocaram no banco de trás e, então, reassumiram suas posições nos da frente. Logo o carro começou a se deslocar. Ali, em uma das casas, uma cortina, segurada aberta em uma fresta, fechou-se num movimento brusco. Poucos minutos depois, impulsos telefônicos invadiram os cabos de cobre dos postes, em uma rede que avançou pela madrugada.

*

O tenente Mendonça chegou à delegacia antes das sete horas. Carregava uma sacolinha plástica com a marmita e um pastel comprado na feira, minutos antes. Passou pela entrada e deu um bom dia geral aos poucos que já haviam chegado. Encheu um copo plástico com café e avançou adentro, em direção à sua sala. Viu num banco afastado, destinado aos detidos ainda não processados, um rosto conhecido. Era Hércules, o Herculinho, neto da Dona Emília. O garoto estava sentado de forma curvada, claramente embaraçado. As mãos juntas, cotovelos apoiados nos joelhos, numa súplica inconsciente. Olhava para baixo, com olhos vermelhos e cansados, de quem não dormiu, e de quem chorou.

– Chefe, bom dia. Aquele ali é o rapaz das pichações. Enfim o pegamos. Parece um bom menino, não resistiu, não xingou, e está ali paradinho desde a madrugada. Já é maior de dezoito, mas precisamos da sua assinatura na papelada antes de prender.

O policial diante de Mendonça segurava um papel preenchido com garranchos de letras duras. Era um bom homem, mas vinha de uma região rígida e violenta, e não tinha a sensibilidade que o bairro das Laranjeiras exigia.

– Sim, claro, claro. Mas quero conversar com o garoto antes. Leve-o para a sala A.

– Tudo bem. Estou terminando de redigir a confissão dele, o senhor pega a assinatura?

– Sim, deixe comigo. Ah, e dê isso a ele, sim? E também um copo de chá. – Mendonça entregou o pastel ao policial. – É só um garoto, não vamos deixá-lo com fome.

O chefe de polícia entrou em seu escritório, viu os recados e guardou suas coisas. Não gostava dessa parte do serviço, confrontar alguém que sabia ser boa pessoa, mas que havia deslizado, e agora estava ali, como um malfeitor. Pichação era um delito pequeno, mas para um menino pobre, negro, e pego em flagrante, o destino invariavelmente seria a prisão. Esperava, entretanto, encontrar uma forma de aliviar a situação do garoto.

Antes de entrar na sala A, pegou a confissão datilografada com o policial da apreensão. Dentro, o garoto, sentado, com um pedaço de pastel na boca, levantou para ele olhos assustados.

– Pode comer em paz. Quando terminar, vamos bater um papo.

Hércules assentiu, engoliu, bebeu do chá e terminou o pastel.

– Doutor Mendonça, sei como funciona. Fui pego cometendo um crime. Sei que fiz errado. Não vou negar nada, não. Poderia pedir desculpas à minha avó, por mim? O senhor sabe, ela não anda, então não vai poder vir aqui antes de me levarem para a prisão.

– Calma. Quero, antes de qualquer coisa, conversar. Tentar entender o que aconteceu. Ouvir o seu lado da história. E não precisa me chamar de doutor. Não sou médico.

Hércules assentiu balançando a cabeça em movimentos curtos e rápidos.

– Certo, estamos nos entendendo. Conte-me o que houve.

– Eu pichei o muro do Seu Manoel, do posto de saúde e do colégio, senhor.

Mendonça conferiu o boletim de ocorrência e não havia relato algum sobre outros lugares, além do colégio.

– E por que você pichou, Herculinho? Qual era o seu objetivo?

– Senhor, eu só queria arrumar as coisas.

– Como assim? Você tinha alguma mensagem a passar? Você se vê como uma espécie de rebelde?

– Não, senhor. É que as coisas estavam erradas, então eu queria corrigi-las.

Mendonça não entendeu a motivação do garoto. Iria levar a conversa para outro caminho quando a linha de raciocínio foi cortada por duas batidas fortes na porta.

– Entre.

Um policial colocou a cabeça pela fresta.

– Senhor, está aí um Manoel, que insiste em falar com o chefe.

Mendonça suspirou. Conhecia Seu Manoel. Um torcedor fanático pelo Corinthians. E dono da casa pichada por Herculinho.

– Peça a ele que aguarde. Logo irei vê-lo.

Voltou-se a Hércules, que ainda estava assustado. Pegou o documento com a confissão e passou os olhos por cima. Colocou-o, então, na mesa, e empurrou-o em direção ao garoto.

– Herculinho, essa aqui é uma confissão. Um documento em que você concorda que os atos descritos foram cometidos por você, entendeu? Leia, por favor, e me diga se vai assinar.

Hércules pegou o papel e começou a ler. Depois o empurrou de volta ao policial.

– Senhor, não posso assinar.

Mendonça não esperava por isso.

– Mas você disse que cometeu esses atos, não disse? Por que não pode assinar?

– Senhor, cometi quase tudo que está no papel, sim. Mas eu só pichei em vermelho, em preto não. Em preto já estava tudo lá. E não posso assinar um papel que diz que eu estava pichando, escrito com X. E os plurais estão todos errados. Tem muito erro. Não posso assinar isso. Tem como corrigir? Aí eu assino, sim.

Mendonça, de boa aberta, permanecia sem entender os motivos do garoto. Mas nem pôde terminar o raciocínio, pois novamente bateram à porta.

– O que é?

O mesmo policial de antes, mas bastante encabulado, apareceu na fresta da porta.

– Chefe, chegou aí também uma senhora bem idosa chamada Margarete. Insistiu para que eu dissesse ao jovem Mendoncinha, exatamente nesses termos, que está aí. Quer falar com o senhor. Parece bem severa.

O chefe de polícia passou a mão na cara, desconsolado. Dona Margarete havia sido sua professora no primário, três décadas atrás. E ainda lecionava, naquele mesmo colégio. No mesmo em que Hércules, à noite, deveria ter aulas. E no mesmo em que foi pego em ação, naquela madrugada.

– Diga, com toda a educação do mundo, que logo irei vê-la.

– Certo.

Mendonça encarou Hércules. Checou o relógio de pulso. Não tinha chegado ainda nas sete e meia da manhã, mas já estava cansado.

– Parece que seu trabalho atingiu a comunidade, garoto. – O policial pegou a confissão. – Vou pedir para corrigirem. – Saiu da sala.

Foi até o balcão de atendimento, onde Seu Manoel e Dona Margarete já estavam acompanhados também pelo pastor Antunes, Valdemar, o professor de matemática, e mais alguns moradores do bairro. Todos, quando viram Mendonça se aproximando, começaram a falar ao mesmo tempo, em volumes, tons, velocidades e afinações diferentes.

– Isso é um absurdo! Prender o Herculinho, com tanto bandido aí na rua!

– Não está certo, não está certo!

– Vocês querem matar a Dona Emília do coração? Solta logo o rapaz!

Mas uma voz, dentre aquelas, sobressaiu-se aos ouvidos de Mendonça. Aquela que o havia acompanhado durante vários anos. Que o pegou como um garotinho e o transformou num jovem correto.

– Mendoncinha, seu cabeça dura, o Herculinho tem aula comigo hoje à noite. Se ele não estiver lá quando eu entrar naquela sala, eu volto aqui com a régua, entendeu? Com a régua!

– Professora, eu sou o chefe de polícia!

– Eu não quero saber! Vocês vão soltar esse menino agora mesmo. Vocês não sabem nem porque o prenderam!

– Professora, ele foi pego em flagrante. E confessou. – Mendonça tentava argumentar com sua voz mais conciliadora. – Ele mesmo disse! Que pichou a casa do Seu Manoel, inclusive!

– Sim, de fato, na minha casa. Mas, mesmo assim, ele só arrumou o que vândalos tinham feito antes. O que o menino fez, fez por bem.

– Vocês não saberiam o que é errado, nem que o errado viesse bater com um pedaço de pau nas suas cabeças. Você foi lá ver o que o menino fez, foi? – A professora tinha uma voz rouca e aguda, que se assemelhava a uma dor de cabeça.

– De fato, ainda não fui. Mas não foi preciso. Dois dos meus melhores policiais viram o dano ao patrimônio público.

– Deixe de ser tapado, Mendoncinha, aquele muro lá é pichado toda semana! O que o Herculinho fez foi só corrigir o que estava errado.

Mais uma vez Mendonça ouvia falar em correção. – De novo isso? Esclareçam, por favor.

– Se me permitem – o professor Valdemar deu um passo à frente do grupo e ficou de frente para o policial –, acho que posso elucidar melhor. Veja bem, senhor Mendonça, as pichações em tinta preta já estavam lá antes, sabe? Mas estavam erradas.

– Como assim?

– O português empregado, senhor, não era o correto. Não era a norma culta. O que o garoto Hércules fez, de forma muito precisa, foi acrescentar acentos, letras faltantes e arrumar os plurais. E o fez com tinta vermelha. Por exemplo, onde estava escrito “Vai Timao!”, acrescentou a vírgula e o til.

– Isso! Foi na minha casa.

– Onde estava escrito “Fe em Deus”, no posto de saúde, ele também acrescentou o acento. E no colégio foram muitas correções, veja só. O “Ninguém vai cuidar dos pobre nao?”, recebeu a vírgula, além do til e do S faltante no “pobre”. Também arrumou o “elvira nós te ama”, transformando o E de “elvira” em letra maiúscula, colocando vírgula, e mudando o “nós te ama” para a forma correta, “nós te amamos”. Todas as outras pichações também foram corrigidas!

– Como um professor faria, seu cabeça de camarão!

Mendonça, então, entendeu. O garoto não era um vândalo. Sua intenção havia sido boa, embora tenha adotado o meio errado para executá-la. Percebeu que ainda segurava a confissão datilografada. Olhou para o papel e depois para o grupo à sua frente. Não queria prender ninguém por aquilo.

– Peço a paciência de vocês. Podem ficar aqui. Tenho que resolver um detalhe urgente.

Mendonça virou, sob protestos e ameaças de reguadas, e avançou adentro. Sua linha de conduta sempre foi a de que o certo seria o certo, mesmo que por linhas tortas. Soltou o papel em uma lata de lixo e foi em direção à sala A. Garantiria que, mais tarde, naquela noite, quando Dona Margarete entrasse para dar aula, Herculinho estaria em sua carteira costumeira.

3 comentários em “O corretor (Lobato das Laranjeiras)

  1. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    Conto bem construído. A intenção de Herculinho era consertar os erros que ele poderia sanar. Sendo apenas um menino, pobre e negro, o que poderia fazer senão corrigir o português das pichações de seu bairro? Uma narrativa simples e direta que me levou automaticamente a refletir sobre questões graves da sociedade em geral, até agora não corrigidas: erros dos governantes, erros dos educadores, erros dos familiares. Como consertá-los? Falta um Herculinho em cada um de nós! Muito bom! Obrigada por me propiciar essa reflexão!

  2. thiagocastrosouza
    15 de setembro de 2021

    Caro Lobato, o conto tem ares de crônica, é bastante cotidiano e divertido, além de abordar o tema do desafio por um por uma perspectiva interessante: a do crime contra o patrimônio público. Acontece que você matou o mistério do texto quando escolheu fazer essa montagem na imagem de capa. A partir dela, já sabemos o que Hércules está fazendo, mal ele tira as latas de tinta vermelha da mochila. Sendo assim, todo o interrogatório e discussão em cima do “crime” do protagonista perde a surpresa e acaba se tornando cansativo, embora seja um texto curto. Além disso, como já sabemos que ele corrigiu os textos, essa demora para revelar o mistério me deixou um pouco impaciente, carente pelo desfecho final que, quando chega, é muito conciliador e confortável.

    Ainda sobre o final, acaba sendo um respiro, pois vemos na figura fragilizada de Hércules (aliás, parabéns pela contradição feliz na escolha do nome) uma boa intenção, embora as motivações para seus atos não sejam tão desenvolvidos, assim como a relação com a avó ( seria apenas uma obsessão com a norma culta?). Enfim, é um conto simpático, mas que não fez as melhores escolhas.

    Claro que, acabando de ler, corri para reassistir o documentário Cidade Cinza, que tanto discute a questão do “pixo” e sua relação com a cidade. Vale à pena!

    Grande abraço!

  3. Antonio Stegues Batista
    14 de setembro de 2021

    Um conto bem escrito, narrativa que nos leva a querer saber o que Hercules fará. Até achei que ele era um serial Kíller, mas não, ele apenas foi corrigir a escrita de uma pichação malfeita. O enredo é simples e meio cômico, sem grandes pretensões para a arte literária. Além de arte retumbante, eu diria que faltou uma grande ideia que pudesse ser original e impressionar o leitor, no caso, eu. Como eu disse, gostei da escrita, mas achei o enredo fraco para o tema.

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Informação

Publicado em 11 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.