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Detox Literário.

Esporas de Prata (Billy The Kid)

Levada pelo vento, uma touceira de capim seco rolou pela rua de chão batido, precedendo a entrada de um cavaleiro no povoado.

Ele parou em frente ao bar, apeou, amarrou o cavalo no moirão e entrou no estabelecimento. Chegou ao balcão, pediu um copo de água.

Três homens jogando cartas numa mesa, prestaram atenção no homem esguio, de roupas empoeiradas, chapéu cinza ornado com uma fita preta.

 Os três sujeitos cercaram-no. Um deles usava cabelos compridos.

— Bebendo água? O amigo não gosta de cachaça? Conhaque?

— Vim de longe. A garganta tá seca. Melhor água pra matar a sede.

O outro o encarou, examinando as faces.

— Apesar dessas rugas, do cabelo grisalho, dessa barba maranhada, reconhecemos você, Daniel Cavilha. Com essa cicatriz na beira do olho não há quem não reconheça. Traidor do bando. O sujeito que matou Zelão e roubou o malote com dinheiro.

— Vocês estão enganados. Meu nome é Jonas Silvestre. Não conheço vocês.

— Não me conhece? Sou o Milton, aquele é o Soneca e o Tonho.  Eu, você, nós e o Zelão, roubamos o trem pagador. O Zelão inventou da gente se separar por causa da patrulha do delegado Severino. Zelão apareceu morto e o dinheiro sumiu.

— Você também sumiu– acusou Soneca, espetando um dedo no peito de Jonas. — Por longos anos estivemos a tua procura. Tivemos notícias de um tal Daniel Cavilha morador de Mesa Verde. Fomos lá, com sangue nos olhos para te dar uma surra, pegar o nosso dinheiro, mas descobrimos que tinhas morrido. Não, não desistimos, subimos o morro, entramos no cemitério e cavamos a tua sepultura. E o que encontramos dentro do caixão? Sacos de areia.

Tonho puxou uma pistola da cintura e encostou no flanco de Jonas.

— Vamos sair e nada de frescura. Para os olhos dos outros, somos um grupo de amigos que se reencontram para um bate-papo amistoso.

Jonas foi levado para uma casa abandonada. Amarrado a uma pilastra nada pode fazer.

— Vai confessar, ou não? – indagou Milton, arregaçando as mangas da camisa. Soneca pegou um pedaço de pau.

— Acho que quem matou Zelão foi o delegado Severino. Ele é quem ficou com o dinheiro. Eu fui preso em Butiá. Fiquei seis anos na cadeia. Cumpri minha pena e resolvi mudar de vida.

— Mentira! –gritou Milton e lhe deu um soco no rosto. A cabeça de Jonas foi jogada para o lado, um fio de sangue escorreu da boca. Uma paulada no peito quase quebrou uma costela. Ele respirou fundo, precisava resistir.

— O que veio fazer em Estrela? – vociferou Milton.

 — Vim registrar um lote de terras.

— Que você comprou com o dinheiro roubado.

— Não. Ganhei de herança de um tio. O papel tá no bolso da minha calça.

Foi a vez de Tonho dar-lhe um soco no rosto. Uma mancha roxa surgiu abaixo do olho esquerdo. Jonas achou melhor confessar. Eles estavam dispostos a matá-lo a pancadas.

— Chega! Eu falo. O dinheiro está em Mesa Verde.

Milton estava impaciente. — Onde? Que lugar?

— Eu mostro o lugar. Vamos precisar de uma pá.

Milton desamarrou-o da pilastra, mas manteve os pulsos amarrados. Soneca arranjou uma pá, eles montaram em seus cavalos e partiram. Acamparam durante a noite e seguiram viagem logo que amanheceu.

Ao avistarem a cidade, Jonas disse: — Está no cemitério.

— Não acredito que está enterrado no teu túmulo! – exclamou Tonho. — Eu ainda pensei em cavar debaixo do caixão.

— Não, em outro lugar.

Ele seguiu na frente, caminhando entre os sepulcros. Parou por um momento diante de um túmulo, observando a cruz com o nome de Daniel Cavilha, seu verdadeiro nome. Havia simulado a morte, mas nem tudo dá certo. Seguiu adiante, estacando ao lado de um túmulo delineado por tijolos. Na cruz de ferro estava o nome do defunto pintado em letras brancas; Augusto de Borba Canto.

 — Meu tio Agostinho, que Deus lhe tenha. O dinheiro está dentro do caixão.

Milton ordenou: — Tonho, pegue a pá e cave.

— Acho melhor colocar um lenço no rosto. – recomendou Jonas. — O velho morreu faz poucas semanas e deve de tá fedendo e cheio de vermes.

Tonho exclamou, enojado — Eu é que não vou abrir esse caixão!

— Nem eu! – disse Soneca, recuando. — Meu estomago é sensível.

— Me desamarra que eu cavo. – pediu Jonas, estendendo os braços.

Milton pegou a faca e cortou as cordas. Jonas agarrou a pá e começou a cavar. Estava cansado, com dores, fraco, mas precisava fazer aquilo. Tirou toda a terra até aparecer o caixão. Amarrou um lenço no rosto e abriu a tampa. A mochila estava aos pés do defunto. Ele pegou alguns maços amarrados com uma fita adesiva e atirou aos pés dos homens.

Eles ficaram surpresos e ao mesmo tempo maravilhados, a cobiça embotando seus sentidos. Quando voltaram a olhar para a cova, viram Jonas de pé, o caixão entre as pernas e dois revolveres reluzentes nas mãos.

As armas cuspiram fogo, cinco disparos e os três homens caíram mortos.

O som dos tiros sumiu na distância. Lá no alto um gavião guinchou e flutuou no ar ascendente. Jonas voltou a colocar o dinheiro na mochila. Desenrolou um pedaço de couro, pegou um par de esporas de prata e colocou nas botas.

Amarrou a mochila na cela. Jogou os três corpos na cova, cobriu de terra. Deixou a pá ficada na cabeceira do túmulo.

Quatro homens entraram no cemitério, apenas um saiu.

16 comentários em “Esporas de Prata (Billy The Kid)

  1. Jowilton Amaral da Costa
    19 de setembro de 2021

    Ambientação: Achei a ambientação boa, sacamos de imediato que estamos numa história de bang-bang

    Enredo: O enredo é de médio para fraco. Os acontecimentos evoluem muito rapidamente, não deixando que o leitor se envolva com os personagens, que a meu ver, deveriam ser mais desenvolvidos, tinha espaço para isso. A trama é bastante linear, sem muitos atrativos.

    Técnica: Achei a técnica boa, a leitura fluiu sem qualquer tipo de entrave.

    Considerações Gerais: Um conto simples de médio para bom.

  2. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    O conto é bem construído. Começa muito bem, com uma cena de bastante leveza, ambientando bastante bem em um pequeno povoado. Praticamente dá pra ouvir as músicas de bang-bang. O ardil para eliminar os inimigos foi muito bem planejado, surpreendente e verossímil. A frase final, no estilo Django, ficou muito legal. Como essas histórias faziam sucesso na década de 70… John Wayne faz falta. E eu acho que comparar um conto a um roteiro é elogio.
    Conto simples e muito agradável, revelando o talento do escritor.

  3. Priscila Pereira
    15 de setembro de 2021

    E aí, Billy!

    Ambientação: boa, bem no estilo filme de faroeste. Tudo bem visual.

    Enredo: razoável. A história não ficou muito verossímil. Se o cara forjou a própria morte pq voltaria pra cidade onde seus perseguidores moravam? E me diz, o que o título tem a ver com o conto? As esporas de prata são mencionadas de leve no final mas sem ligação lógica com o resto…

    Escrita: boa. Precisa de revisão. Mas funciona muito bem pra contar a história de maneira interessante e fluida, apesar dos clichês do gênero.

    Considerações gerais: um bom conto de faroeste. Mais pra enredo de filme que pra literatura.

    Boa sorte!
    Até mais!

  4. Kelly Hatanaka
    15 de setembro de 2021

    Oi Billy The Kid.

    Um faroeste bem classicão, daqueles que eu gostava de assisitr com meu pai, para desgosto da minha mãe, que achava violento demais para a minha idade rsrsrs.

    Gostei, uma narrativa simples, sem firulas e que conta uma boa história. Por conta dessa simplicidade toda, não há grandes complexidades nos personagens ou no enredo. Mas, é um bom conto e é bem conduzido.

    Num Masterchef, seu conto seria o picadinho bem feito, servido com arroz fresquinho e que dá vontade de sentar o chão e limpar o prato. É o suficiente para vencer a competição e superar os pratos sofisticadíssimos e complicadíssimos e cheios de técnica dos outros participantes? Não sei. Mas é bom e é bem feito e gosto muito.

    A escrita é correta, sem deslizes, fluida e gostosa de ler.

    Parabéns!

  5. Angelo Rodrigues
    13 de setembro de 2021

    4 – Esporas de Prata

    O conto funciona dentro da proposta.
    Um amarrado de clichês de faroestes passados no Brasil. Não ficou mal, ficaria melhor se contasse uma história nova.
    O texto tem algumas fragilidades que poderiam ser sanadas, tal como a rápida transformação do homem comum em ladrão ao tempo em que se transforma em alguém que havia preparado uma armadilha para futuras incursões ao túmulo onde ficara a mochila com o dinheiro.
    O autor trabalhou sobre as necessárias coincidências relativas aos filmes que não carecem de lógica razoável, quando tudo parece ser construído de trás para a frente, gerando necessárias saídas que justifiquem um futuro “explicável”. O nome disso, entre outros, creio, é recurso ao clichê.
    O conto é curto e, assim sendo, poderia ser trabalhado para dar maior verossimilhança aos fatos e amarrar melhor a lógica dos personagens.
    Há necessidade de revisão, o que já foi abordado por outros comentaristas.
    Boa sorte no desafio.

  6. claudiaangst
    13 de setembro de 2021

    O conto aborda o tema proposto pelo desafio.
    Há claramente intenção de explorar uma gama de clichês relacionados ao faroeste.
    A construção da trama torna o conto bastante visual como roteiro de um filme de bang bang. A leitura flui fácil devido ao ritmo preciso e sem pausas desnecessárias.
    Pequenas falhas de revisão:
    nada pode fazer. > nada PÔDE fazer
    dois revolveres > dois REVÓLVERES
    a pá ficada > pá FINCADA
    O desfecho da trama não chega a ser surpreendente, mas funciona.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  7. Luciana Merley
    9 de setembro de 2021

    Esporas de prata

    Olá.
    Um faroeste reproduzindo cenas clássicas dos filmes e tendo como pano de fundo um também conhecido roubo de dinheiro.

    Coesão – O texto é bastante curto, resumido eu diria e, sim, é coeso. Não diverge tanto na trama e mantém um certo conflito pulsante, apesar de não apresentar nenhuma novidade, nem no enredo, nem nas personalidades dos homens, nem no desfecho.

    Ritmo – É bom, apesar de que os diálogos não pareceram tão naturais. Pareceu-me que você tentou dar algumas explicações do enredo por meio das falas e não soou tão bem para mim.

    Impacto – Veja! Narrar histórias contendo elementos muito conhecidos tem dessas coisas, o leitor não vê tanta graça. Não é um texto ruim, precisaria de um enredo um pouco mais inovador, com personagens mais bem trabalhados. Você tinha espaço o bastante para fazer isso, para criar alguma subtrama, mas preferiu ser bastante resumido. Okay.
    Espero ter contribuído um pouco.
    Um abraço.

  8. thiagocastrosouza
    1 de setembro de 2021

    Caro Billy, o conto é um tanto simples e caricato. Todos os clichês conhecidos de filmes de velho oeste estão presentes: o forasteiro, cowboys, bandidos no saloon, tesouros enterrados no cemitério, tiroteios, etc. Contado de forma breve, com poucas reviravoltas ou originalidade, tive a impressão de estar assistindo uma esquete ou curta ilustrando o gênero western nos seus anos de ouro, naquilo que tem de mais comum. O tema do desafio está presente, mas pouco explorado. A frase final, entretanto, é um charme no todo do texto.

    Boa sorte!

  9. antoniosbatista
    30 de agosto de 2021

    Esporas de prata

    Achei um conto razoável, enredo e escrita simples. Não. Não é um comentário efeito manada, só porque os outros disseram uma coisa que eu vou dizer o mesmo. Sou sincero, autêntico tenho minhas próprias opiniões e gostos. Concordo com o colega, seus personagens parecem robôs. Acho que o enredo ficaria melhor num conto de ficção científica do que faroeste. Você disse mas não mostrou. Boa sorte.

  10. Emanuel Maurin
    30 de agosto de 2021

    Júlio Alves eu fiz um comentário, a forma de falar é clara e sincera, odeio gente que faz um festa para o conto e da nota zero. Temos que ser sinceros. Eu respeito o conto da outra pessoa falando o que penso. Desrespeito seria eu dizer que é lindo e não dar um parecer honesto.

  11. A Barbosa de Souzs
    30 de agosto de 2021

    Vou contratar o Jonas para defender as cidades do interior paulistas que estão sendo assaltadas por quadrilhas do crime organizado. Não precisa nem de metralhadora por em revólver de mocinho nunca faltam balas.

  12. Pingback: Esporas de Prata (Billy The Kid) – REBLOGADOR

  13. Emanuel Maurin
    29 de agosto de 2021

    O conto é bem simplista, o autor não mostra a movimentação dos personagens e em apenas dois trechos mostra o que eles sentem. Os diálogos são ruins e quem lê tem de adivinhar quem é quem que tá falando . A estrutura é razoável e o final sem graça. É meio que óbvio que “Quatro homens entraram no cemitério, apenas um saiu.” O leitor já sabia do acontecido na cova.

    • Billy The Kid
      30 de agosto de 2021

      Emanuel Maurin, my brother, tu falou que o conto é simplista. Como, simples? O início do conto é digno de um filme de Sergio Leone, com trilha sonora de Ennio Morricone, se tu não gosta de filmes de faroeste não vai saber quem são, né? Imagina a câmera do Sergio focando a touceira de capim seco rolando pela rua, em seguida ele dá um close nas botas do cavaleiro quando ele apeia do cavalo e coloca os pés no chão.
      Falou que eu não mostro a movimentação dos personagens, como assim, bro? Eles caminham, andam a cavalo, acampam, o bandido dá um soco no Jonas, a cabeça dele salta para o lado, o sangue esguicha. O Sergio Leone daria um close nessa cena, com certeza. Tu falou que os diálogos são ruins que não sabe quem ta falando. Você não prestou atenção, incomodado porque não gosta de faroeste? Se o bandido faz uma pergunta para o Jonas, quem responde é o Jonas. Por que eu iria dizer que o Jonas respondeu, se é obvio que a resposta é dele? Que é obvio que a fala seguinte ao do Milton é dele? Se tu não gosta de faroeste caboclo, não coloque defeitos onde não há.
      Tu falou também que é meio que óbvio que o leitor já sabia o que aconteceu na cova. Tu não percebeu a filosofia semiótica da frase, o significado metafórico transcendental. Nem todos que entram num cemitério, sai, não é verdade? A frase é apenas um rótulo mostrando o final melancólico da figura do Jonas e todo o seu passado conturbado. As esporas que ele coloca nas botas, significa um novo recomeço, uma nova vida. De qualquer forma obrigado pelo comentário.

      • Júlio Alves
        30 de agosto de 2021

        Por mais que eu tenha achado o comentário do colega meio descabido (devido à forma como comentou, não o conteúdo que falou), Sr. The Kid, o conto realmente tende ao lugar-comum e sua resposta falando sobre Leone só provou que não cumpriu sua missão na escrita, pois se Leone faria, você ou não deveria fazer ou já deveria ter feito e não precisado comentar aqui. Só não faço um comentário separado analisando pois 1) não tenho o tempo agora para ler tudo e 2) me perdi pela metade e o começo é Westworld (mecânico) e merecia mais

      • Emanuel Maurin
        30 de agosto de 2021

        O começo é legal, concordo, mas quando chega aqui:
        “Três homens jogando cartas numa mesa, prestaram atenção no homem esguio, de roupas empoeiradas, chapéu cinza ornado com uma fita preta.” SE OS TRES HOMENS ESTAVAM SENTADOS COMO FOI QUE ELES CERCARAM O PERSONAGEM? ” Os três sujeitos cercaram-no. Um deles usava cabelos compridos.”
        Depois entra no diálogo:
        — Bebendo água? O amigo não gosta de cachaça? Conhaque? – QUEM PERGUNTOU ISSO?
        — Vim de longe. A garganta tá seca. Melhor água pra matar a sede. CADE A MOVIMENTAÇÃO DA CENA?
        O outro o encarou, examinando as faces. – QUEM ENCAROU?

        — Apesar dessas rugas, do cabelo grisalho, dessa barba maranhada, reconhecemos você, Daniel Cavilha. Com essa cicatriz na beira do olho não há quem não reconheça. Traidor do bando. O sujeito que matou Zelão e roubou o malote com dinheiro. OLHA O TAMANHO DESSE DIÁLOGO, QUEM CONVERSA DESSE JEITO E CADE A MOVIMENTAÇÃO?

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 29 de agosto de 2021 por em Foras da Lei.