EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Sem Pecados (Claudia Roberta Angst)

Capítulo 1

 

Sofro de bondade. Nasci assim. Minha mãe, dona Helena, fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos. Batizou-me antes mesmo de eu nascer, com a água dos desejos mais íntimos. Predestinado, abençoado, gosto de pensar que recebi graças já no ventre materno. Até hoje não conheci viva alma que negasse tal fato. Sigo, portanto, essa sina sem reclamar. Ou quase.

A infância é um território que revisito com cautela. Muito por cuidado de não macular as memórias tão bem guardadas. Há também a possibilidade de estar recriando situações que só existiram na minha cabeça. Como abomino mentiras, prefiro não me referir ao montante de vida que precede o hoje. Por isso, mantenho qualquer relato no tempo presente, mais próximo da minha realidade atual e, se algum engano cometer, não será por soberba ou vaidade.

Cresci entre as imagens dos santos, e apelo a eles, vez ou outra, quando alguma precisão surge. Foram os meus primeiros amigos de infância. Confio neles de olhos fechados e mãos estendidas. Sempre recebi o que me propõem como graça. Nosso relacionamento continua baseado em total confiança, pelo menos da minha parte. Espero que também acreditem em mim.

Fui sendo criado aos bocados, aqui e ali, como dava para ser. Pobre se arranja como dá. Pois é, eu me saí até bem, acho que foi essa coisa de santo aqui, anjo ali. Nunca quis despertar desgostos por minha causa. E tinha Mamãe, como poderia desapontar aquela santa? Santa? Não, não me entenda mal, é uma boa pessoa, mas santa não é, não.

Tenho três irmãos que me seguem em ordem decrescente: Tadeu, Pedro e Catarina. Falam e fazem bobagens o tempo todo.  É lamentável o comportamento que apresentam, indigno da casa materna. Como sou o mais velho, julgo ser minha obrigação orientá-los no caminho do bem, mas até agora não obtive qualquer resultado favorável. Por ora, resolvi entregar a questão nas mãos de Deus, e assim dispenso meus próprios sermões. Finjo que nada vejo dos desacertos cometidos por aquelas três almas perdidas. Não é abandono. É misericórdia. Sou bom, já disse.

São poucos os que reconhecem o meu valor. Sobretudo meus irmãos, esses desdenham da minha bondade, das asas que não enxergam. Inventam histórias sobre meus passeios na praça. Implicam com hábitos que nada lhes dizem respeito. Já inventaram uma montoeira de calúnias, só mesmo para me desabonar. São terríveis aqueles três.  Tento não me abalar com suas travessuras, mas me é custoso demais enfrentar tanta injustiça. Sinto-me deveras agredido, maculado na minha essência.

Pedro deu pra dizer que tenho um caso com uma vizinha, a viúva do coveiro da cidade. Não é a primeira intriga que tece a meu respeito. Quando se cansa de um enredo, modifica as injúrias com novos detalhes sórdidos. Catarina e Tadeu o auxiliam na orquestração do Mal, espalhando pelas ruas que ora fumo maconha sob a árvore centenária no centro da praça principal; ora tenho ímpetos pedófilos e persigo moleques nas vielas da vizinhança. Como podem ser tão sórdidos? Meu próprio sangue!

Se odeio meus irmãos? Claro que não! Já disse: sou bom. Tenho esperanças de que um dia, eles encontrarão seu manto de boas intenções. De santos, os nomes já têm. Falta-lhes, talvez, essa coisa que chamam de coração.

Mesmo com os entraves com meus irmãos, a casa sempre foi meu casulo e abrigo. Sinto-me acolhido e experimento uma espécie de solidão que muito me agrada. Os outros que habitam a moradia são percebidos quase como vultos, seres que se parecem comigo, mas são mais como intrusos, exceto minha Mãe, claro. Há outras presenças, mais sutis, tênues sombras, percepções intuitivas.  Quem são eles? Anjos, talvez, arcanjos, seres divinos, sem dúvida. Todos me rodeiam de um modo estranho, com uma mistura de curiosidade e espanto. O que veem em mim? Será mesmo que me enxergam?

Meu pai? Nunca vi. Será que tive um? Dizem que todo mundo tem um. Ou dois como o primo Leo. Dois pais, imagina, nunca entendi esse acerto. Eu ficaria confuso, desorientado na hora de preencher documentos e formulários. No fundo, admito, acho errado. Mãe diz que não é da minha conta, eles é que sabem de si e não devo julgar o que não entendo. E não entendo mesmo, viu.

Pai, José Antônio de Moraes Brandão. É o nome que consta na minha certidão de nascimento, mas… pode haver outra versão da história familiar. Não gosto de pensar nesse assunto porque me dá dor de cabeça e me sinto perdido em um grande labirinto de perguntas sem respostas. A saída está logo ali, eu sei, mas tenho evitado chegar perto…Pode ser muito doloroso.

Vivo adiando essa conversa com a Mãe. Sim, estou empurrando para uma data indefinida o questionamento que tanto me angustia. Por quê? Talvez por medo. Admito que nutri a vida inteira a esperança de ter desmentido o abandono paterno. Sigo a percepção do que julgo ter vivido mesmo sem ter a experiência validada. Iludo-me com a possibilidade de ser apresentado a uma realidade ignorada por anos.

Tenho sonhos recorrentes, sempre com o mesmo enredo. Confronto a Mãe com uma só pergunta: cadê meu pai? Antevejo a tragédia nas palavras ainda não ditas. Penso em recuar, deixar meu passado enterrado, pulverizado em cinzas. Mas ele está comigo. O passado é como a sombra que não se descostura dos pés.

Posso ter me enganado na construção da figura paterna. Afinal, só tive acesso a silêncios. Talvez meu pai tenha morrido aos poucos e sua imagem foi se apagando, sem deixar rastro. Adoraria ser capaz de imaginá-lo ao lado de Deus Pai. Mas minha mente criou muitos enredos, alguns tenebrosos, pois até a ideia de ser filho de um monstro é melhor do que essa eterna ausência, a espera por aquele que nunca virá. Assim, ele, meu pai, pode permanecer intacto, envolvido em uma aura de mistério, o herói desaparecido sem qualquer explicação.

Dizem ser um alívio conhecer a verdade, assim está na bíblia: A verdade vos libertará. Receio que, ao invés de me libertar, a verdade possa me matar. Se meu pai fosse bom, ou mesmo alguém apenas fazendo figuração pela casa, já me bastaria como recordação. Melhor ainda seria se ele fosse um ente querido já falecido, pois então eu não precisaria de lembrança alguma, e seria eterna sua presença em mim.

Padre Olavo diz que sou um filho de Deus e devo rezar para a salvação da alma de meu pai. Qual deles? O monstro ou Deus?

E se Deus não existir? Serei então órfão duas vezes.

Mas que tolice! Claro que Deus existe, ou nem eu mesmo existiria. Às vezes, tenho esses pensamentos loucos, percebe? Fico contradizendo minha crença, minha natureza, talvez procurando vestígios de pecados inexistentes

Não tenho pai, não neste mundo. Deus é o meu pastor, meu guia e proteção. Mas daí a tratar o Altíssimo como “papai” acho um pouco ousado demais. Blasfêmia, sabe?

 

Capítulo 2

 

Quando Vó Dolores, Deus a tenha, partiu para o paraíso – pelo menos esse era o destino pretendido por ela –, eu ainda me conservava puro. Ela incentivava a virtude que vislumbrava em mim. Dizia que as chamas do inferno jamais me tocariam se eu me mantivesse virgem até a última gota de sangue. Nem mesmo um beijo haveria de experimentar. Nem dado, recebido ou roubado. Meus lábios deveriam permanecer intocados, meu corpo jamais violado. Achei tão bonita essa imagem que não me pareceu sacrifício algum atender ao pedido de minha querida avó.

Virgem e puro, sou sim. E acho que permanecerei assim até o dia da minha morte. Depois, seguirei os desígnios do Nosso Senhor.

Tudo tem a sua razão de ser. Minha pureza foi protegida pelo andar da vida. Não sei se foi mesmo uma escolha que fiz, ou se me deixei levar pela falta de aptidão por relacionamentos carnais. Minha essência é mais de missa do que de abraços e beijos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Naquele tempo, eu achava que era um menino como todos os outros, nem anjo, nem demônio. Um moleque. Um guri.  Um desavisado dos desvios do mundo. Foi quando sofri minha primeira desilusão. Descobri que a Tia Celina, professora da pré-escola, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um sujeito-marido como meu rival.

— Quando você crescer, Chiquinho, também vai ter alguém assim, de amor contínuo, abençoado por Deus.

Ela falou lá outras palavras, mas registrei o que quis dizer desse jeito. Achei bonito ela me desejar a realização de um amor sacramentado. Mesmo assim, estava perdida para mim. Não era mais minha santa, minha adorada redentora de todo mal, fosse na escola ou fora dela.

Humanidade. Foi isso que impediu a realização daquele primeiro amor, tão singelo quanto o lírio no altar de Nossa Senhora. Percebi que existiam outros a disputar o amor da doce Celina: meus colegas de classe. Diante de tão terrível descoberta de estar amando uma leviana, que a todos se entregava em dedicação, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

De lá pra cá, aceitei viver meu quinhão de mazelas neste mundo de provação. Nunca menti sobre sentimentos, pois sabia que seria uma empreitada inútil e cansativa. Só arrumaria dor de cabeça e canseira quando tivesse de desviar dos cascudos que viriam em seguida. Estes, garanto, nunca mereci.

Minha vida amorosa é, portanto, um grande vazio. Refiro-me ao sentimento que se conhece como amor romântico, essa coisa que se dá entre um homem e uma mulher, ou de dois iguais (ainda acho estranho, mas Jesus orientou a não atirar julgamento algum). Não sei o que é esse amor de novela, essa bobagem de sentir o coração palpitar, o frio na barriga. Tudo uma grande trucagem de cinema, apelo para alavancar as vendas de flores, bombons, joias.

Às vezes, na praça, observo os casais de namorados. Apaixonados. Mas o que é a paixão a não ser uma patologia, uma doença? Não entendo porque se exalta tanto esse estado de espírito. A Sexta-feira da Paixão não deu em boa coisa, mas aquelas dores parecem ser celebradas todos os anos. Eu troco de dores, mas paixões nunca me dominam, eu não viro outro, eu só sei ser Francisco.

Tanto faz se é praga de vizinha ou maldição de família, sou um ser solitário. Não tenho planos de ter filhos, minha vida é seca em todas as raízes e ramificações. Nasci para brotar em momentos específicos, florescer de acordo com a vontade divina.

— Chico, tu é mesmo muito estranho. Nunca te vi com uma mulher, nem mesmo uma namoradinha…

O espanto de Catarina era mais curiosidade de fofoqueira em formação do que interesse pela minha vida amorosa. Queria de mim algum material para maledicência. Tadeu e Pedro não só riem da suposta ingenuidade de nossa irmã, como também testam minha paciência além do suportável.

— Quem disse, Catarina? Esse aí não me engana, não. — Tadeu dá-se ares de sabichão.

— Você acha que ele…?

— É só perguntar para a carola dele… a viuvinha do cemitério. — Pedro se antecipa e fornece o escárnio à conversa tendenciosa.

Nessas horas tenho vontade de socar meu irmão, Pedro é muito desaforado. Tenho ganas de triturar seus dentes no asfalto, mas isso seria contradizer minha natureza. Sou da paz, sou de Deus. Então, deixo escapar a infâmia como se fosse uma nuvem carregada, um obstáculo passageiro a esconder por minutos a luz solar.

— Vocês não têm o que fazer, não? Vão estudar, trabalhar, a Mãe deve estar precisando de ajuda lá na cozinha.

Frustrados em seu diabólico intento, eles dão de ombro e me ignoram totalmente. Nunca hão de me atingir com baixezas e maledicências. Faço o sinal da cruz, olho para cima, satisfeito. Triunfo no meu íntimo, sinto-me forte e digno da benevolência divina. Sou puro.

 

Capítulo 3

 

O mundo parece não aceitar, mas não conheço outra verdade: sou bom, realmente bom. Não perfeito, pois isso seria soberba e dela não me visto. Não sou melhor do que ninguém e nem invejo qualidade alheia. Mas sei que sou bom, sigo o caminho do Bem, sempre orientado pelos mandamentos da Santa Igreja. Afinal, não devemos todos seguir o modelo de Nosso Jesus Cristinho?

— Está indo por um bom caminho esse rapaz.

Sorrio quando lembro das palavras do professor Tobias, que lecionou matemática nos meus primeiros anos de escola. Soaram para mim tal qual uma profecia feliz.

Minha mãe, sempre que me elogiam, reage com os olhos aguados de orgulho. Não a recrimino, quem no seu lugar, não se sentiria vaidosa pela criação de um filho assim como eu? É uma missão e tanto, cumprida com louvor.

Nunca mais encontrei o professor Tobias, talvez já esteja no reino dos céus. Difícil calcular a idade que ele teria hoje, já que para uma criança qualquer adulto é velho. Mesmo assim, procuro honrar daquele que profetizou minha saga nas veredas do Bem.

É uma esperança que tenho: me aproximar a cada dia um pouquinho mais da santidade. Acredito que essa seja mesmo uma abençoada ambição. Considero os muitos obstáculos que enfrentarei, mas nada há de me deter. Levará tempo, eu sei, e tenho consciência que já não sou um menino. Apesar disso, me concedo essa pretensão, me tornar digno de ser um verdadeiro filho de Deus.

Sim, eu sei que disse aquilo antes. Aquela bobagem de às vezes duvidar da existência de Nosso Senhor, o Altíssimo. É a tentação do demônio. Dela, nem mesmo eu, um Francisco sem cisco, estou livre. Tenho meu percurso pelo deserto, onde preciso abdicar de qualquer dúvida e fortalecer meu espírito.

Sempre considerei repulsiva a facilidade de algumas pessoas em se deixarem abater. Isso me faz pensar em gado conformado com o seu destino, ruminando a vida em mágoas acumuladas. Gente ressentida! Nunca fui de cavar nostalgias. Por isso, não tenho pressa alguma. Se houvesse precisão, uma urgência maior do que a própria vida, eu continuaria a agir com calma. Confio no tempo a mim concedido. A eternidade é espaço vasto, infinito.

Não presto, não para viver como todos os outros. Acham que me engano, que deveria experimentar outros caminhos, mas eu sei que não poderia viver para isso que chamam de liberdade. Talvez tenha vocação que só receba incompreensão, mas não há como me desviar do meu destino. Do pecado já fui logo me despedindo assim que me batizaram. Não há linhas suficientes na palma da mão para acolher heresias. Eu não sou esse tipo de pessoa, muito menos seria capaz de fazer pactos com os aliados do Mal. Não empresto minha alma.

Não vendo, não troco, não imponho minha fé. Já nasci assim, proibido de desfazer do que já levava o nome do Altíssimo. Não são só palavras. Não é somente emoção. É o avesso do que muitos vivem sem se questionar. É o começo do que eterno, o caminho não percorrido. É o que nem sei nomear.

Deus existe. E Deus não sou eu. Ou serei parte do Pai?

Não, Francisco, você está embaralhando de novo as ideias. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Francisco é o resto, digo, sou eu. Ser jovem atrapalha nessa hora de definir quem sou, pois transito em território de constante transformação.

Nada é por acaso, tudo obra do Altíssimo. Nasci no dia 6 de agosto, data em que se celebra a transfiguração de Jesus, a glória divina revelada.  No Monte Tabor, o rosto de Nosso Senhor brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz. Deve ter sido um espetáculo belíssimo, impossível de ser descrito de forma a respeitar a grandiosidade da ocasião.

Seria muita pretensão buscar também pela minha transfiguração? Isso só quem pode responder é o meu Pai. Sonho com a intercessão divina a me elevar, me permitindo ouvir o canto dos anjos. E por que não? Essa será a minha verdadeira exaltação. Imagino os obstáculos que enfrentarei. O caminho é longo e não haverá de ser fácil, mas a ele dedicarei toda a minha vida.

Por enquanto sou apenas um Francisco e não me peçam mais do que isso.

 

Capítulo 4

 

Sirvo-me frugalmente da vida e da mesa. Sempre com parcimônia, alimento-me enquanto escuto pacientemente a ladainha de minha velha mãe. O sino dobra ao meio-dia e a igreja matriz parece se aproximar dos meus pensamentos. Ali na cozinha revestida com azulejos datados de uma feiura familiar, sorrio para aquela mulher, imaginando como ela seria com dentes.

— Coma em silêncio, se assim te agrada.

Muito me agrada, o calar enquanto manejo talheres e corto a carne que não é a minha. Por alguns minutos, talvez cinco, não mais do que dez, dona Helena silencia até os pensamentos. Olha-me esperançosa, talvez esperando elogios pela refeição preparada com desvelo e prontidão.  Concedo-lhe um pouco de gabação, não muita, porque a vaidade, todos sabem, é o pecado favorito daquele lá, o dito cujo que não se deve nem pronunciar o nome. E qual denominação eu escolheria se tem tantas?

— A comida tá boa como sempre. Muito obrigado, Mãe.

O meu agradecimento é bem recebido, mas ela dissimula qualquer traço de vaidade.

— Fico feliz em servir minha família com amor e a benção de Nossa Senhora. Santa Clara também me valha nessa missão sem fim.

Ela não há de parar com o desfiadeiro de agradecimentos, que a mim parece mais uma lamentação por uma vida que não era a pretendida por ela. Só desconfio porque marido não há, nem foto, nem paradeiro de um sujeito que com ela tivesse deitado e providenciado a seu mando quatro filhos e mais um tanto de sofrimento.

Talvez por isso, eu perca a aura angelical na presença de minha mãe. São esses pensamentos, esse indagar da minha origem, da filiação mal construída, do nome de um desconhecido nas linhas da certidão de nascimento. Acho impuro, mas não quero pensar sobre isso. Preferia acreditar que nasci de uma virgem tal como Maria, mas não posso. Como poderia me comparar a Nosso Senhor Jesus Cristo?

A ideia de ter nascido de uma relação carnal me enoja. Padre Olavo diz que está tudo bem, que é da natureza humana, um filho sempre será bem-vindo, pois será mais um ser criado pelo Altíssimo.

Tenho essas coisas que me passam pela mente, assim de modo repentino. Não que eu queira o mal de alguém, mas às vezes as pessoas me aborrecem. Acho que dá para entender isso. Todo mundo tem seus limites. Se eu fosse perfeito não estaria neste mundo, não é mesmo?

 

Capítulo 5

 

A falta de vaidade herdei ainda no berço. Poucos espelhos existem em minha casa, apenas os necessários para garantir asseio e compostura. Nariz mirando horizonte, limpeza e ordem. Não mais, não menos.

Mamãe nunca se importou muito com a aparência, e quando precisa verificar se está tudo no lugar pergunta para mim ou pros meus manos. Nem mesmo parece se dar conta dos dentes que foi perdendo ao longo dos anos, parto após parto, ranger sem encontrar atrito na boca. Não fala em beleza, mas vez ou outra elogia o porte e o sorriso de minha irmã. Catarina sim, ostenta a soberba se achando rainha por ter o que chamam de presença.

— Ninguém pode negar, minha filha, que você é bonita por demais.

— A Catarina já é um nojo de tão convencida, e a senhora fica aí incentivando essa garota.

Pedro parece reconhecer o perigo da soberba, da vaidade que pode levar nossa irmã ao caos. O inferno deve estar cheio dessas belezas carnais sem um bocadinho de formosura de alma.

Catarina não ouve as recriminações, muito menos se assusta com qualquer aviso quanto a sua condenação. Olha-se no espelho e sorri. Fica ainda mais bonita assim, não nego. Os agentes do Mal têm mesmo suas artimanhas.

Imagino que essa garota seja parecida com o pai, talvez aquele mesmo homem que responda pela minha aparência jeitosa. Não faço feio. É o que dizem, eu nem me atrevo a buscar no espelho respostas que me afastem da humildade. O asseio e um pente nos cabelos já me fazem apresentável aos olhos de Deus.

— Todos os meus filhos são lindos, inteligentes e fortes. — Mãe afirma com satisfação.

Não posso contrariar as palavras de minha mãe. Nós quatro somos, de fato, bem feitos de corpo e cara. Pedro e Tadeu têm o mesmo olhar molhado de dona Helena, herança hispânica. Os olhos escuros sempre brilhantes parecem sorrir a cada piscar. Os cabelos são como os meus, ondulados e de um castanho acobreado, metal tilintando ao sol. Já nossa irmã ostenta uma vasta cabeleira, lisa e escura como ônix, caindo pelos ombros e costas, chegando à cintura.

Tantos os meus olhos quanto os de Catarina assemelham-se a um azul de catálogo de cores. Dizem que herdamos essa e outras características do nosso pai e que devemos agradecer por carregar dele a sua única qualidade: a beleza.

Talvez Catarina tenha se esmerado mais em cultivar os traços herdados, investindo em roupas que a deixam ainda mais exibida. Convencida da impressão positiva que causa, revela-se uma flor a ser colhida sem cuidado. Temo por ela, mas nada posso fazer se não valoriza o tesouro que tem entre as pernas. Não sei bem do que se trata, mas foi assim mesmo que Mãe falou: tesouro entre as pernas. Acho desnecessário dizer o quanto essas palavras me constrangem, não sei lidar com esse tipo de vulgaridade.

A beleza também me atrai, claro. Desde os tempos do catecismo, meu olhar se desmancha pelos corredores da igreja. Gosto de ficar olhando as imagens de santos e anjos. Cada lado do templo sagrado tem seis esculturas, todas ladeadas de flores. Procuro sempre que possível recolher as pétalas caídas e trocar os vasos. Isso quando não me perco no tempo a observar tamanha boniteza. No altar, a imagem de Nossa Senhora, iluminada pela graça e esplendor dos céus, acompanhada por todos os lados graciosas santinhas. Mesmo desprovidas de qualquer vaidade, aquelas são as feições mais lindas que já vi na vida.

— É pecado admirar a beleza, Padre?

— A beleza foi dada por Deus, não há de ofender aos céus dar graças por ela.

— Mas e a vaidade?

— Ah, o pior dos infladores do ego, o mal que leva a tantos outros pecados.

— Minha tia comentou comigo que viu um filme em que o próprio, sabe aquele, o do Mal, dizia que a vaidade era o seu pecado favorito.

— E deve ser mesmo, já foi responsável pela derrocada de muitos humanos. Só santos e anjos não são contaminados por presunção dessa natureza, meu filho. Já superaram essas mesquinharias.

— A beleza seria um dom?

— E por que não? Tudo o que Deus faz é perfeito. Até mesmo nós, Francisco. Há em cada um a fagulha da perfeição divina.

— Mas ser vaidoso…

— Deve-se temer a vaidade, o Mal espreita à beira de qualquer espelho.

— Não gosto de espelhos.

— Mesmo que se afaste deles, não há como negar, você é um rapaz muito bem apessoado.

Algo congela em mim naquele momento, um mal-estar me invade como alarde. Não gosto do jeito que Padre Olavo me olha. Os olhos se estreitando, a boca quase salivando. Peco, pois imagino que de certa forma ele cobiça o que vê em mim, seja a juventude, seja a suposta beleza que muitos me atribuem.

Faço o sinal da cruz e me despeço do padre. Mal olho para minhas santinhas, todas enfileiradas na nau da igreja. Sinto meus olhos se encherem de muitas águas, sigo de cabeça baixa e punhos cerrados. Ouço ao longe um sussurro.

— Vá com Deus, meu filho.

 

Capítulo 6

 

Sou trabalhador, um profissional muito responsável. Servidor público, recebo à guisa de minha dedicação um bom salário. O suficiente para contribuir com as despesas da casa e ajudar os pobres. Calculo bem a parte que lhes cabe. Sou Francisco, mas não sou santo. Ainda não.

Não guardo muito dinheiro, só um tanto para qualquer emergência. É sensato se precaver contra os tempos de pouca fartura. Tenho pouca despesa, na casa materna se come e se vive bem. Meus irmãos também ajudam com o que conseguem separar das farras e gastos com veleidades. O dinheiro é deles, que usem com bom senso, é o que aconselho.

— Dinheiro não aceita desaforo.

— Mas a avareza é pecado capital, o apego danado às moedas.

Tadeu tem razão, ser sovina não é atitude de um cristão. Não foi isso que quis recomendar, mas sim o comedimento com os gastos. Se me pedirem conselhos, darei. Não pecarei por não oferecer o que tenho de sobra: bondade.

Meu sustento vem do trabalho, aquele que dignifica o homem. Por isso, valorizo o dia a dia no batente. Talvez não seja o emprego dos meus sonhos, mas neste mundo de provações quem é capaz de viver de quimeras?

O trabalho corre bem, do jeito que dá pra levar, como se poderia esperar de um emprego oficial e arranjado. Enquanto caminho pelo corredor, percebo que os colegas estão mais agitados do que o normal. Ora, se houvesse algo normal por lá, o dilema estaria instalado. Não perderia o meu tempo tentando descobrir qual fosse a novidade, tenho mais o que fazer. O intervalo do almoço às sextas-feiras é sagrado. E sepultado.

O cemitério surge como um ambiente bastante arborizado e tranquilo em meio à labuta diária. Traz um frescor aos dias mais quentes, além de uma oportunidade de me cercar de paz e arte. Reunindo mais de quarenta esculturas, segundo a contagem feita e refeita, a necrópole apresenta trabalhos dos poucos artistas da cidade.

Acostumado ao local, gosto de explorar novos ângulos dos monumentos fúnebres. Vez ou outra, penso em fotografar o que me parece mais fascinante: a morte em toda a sua beleza. A maioria dos meus conhecidos desconhece esse meu lado algo místico, talvez sinistro. É o meu prazer mais egoísta, um mergulho em um mundo particular do qual não consigo abrir mão.

Meus irmãos descobriram essas minhas incursões à beira dos túmulos. Claro que virei alvo de chacota entre eles, mas Mãe os proibiu de zombarem de meus hábitos. Tadeu é o mais feroz em suas observações.

— Sei bem o que esse aí procura entre os mortos.

— Deixe de implicar com seu irmão, menino. Mal não faz a ninguém, é só um hábito… peculiar.

Quando o calor começa a incomodar, sem demonstrar qualquer possibilidade de brandura, tento me esquivar entre as sombras de um arbusto. Talvez chova mais tarde, mas é pouco provável receber algum frescor no momento. Eu aceitaria ser aspergido com água benta, sem reclamar. Calor dos infernos! Lembro-me, novamente, do meu sonho e estremeço. Bobagem! Se Vó Dolores não tivesse contado tantas lendas urbanas a fim de inibir minha curiosidade juvenil, eu ficaria mais à vontade entre os mortos.

— Não brinca com essas coisas, menino! O demônio é mais esperto que tu.

Sacudo a cabeça, tentando desembaraçar as ideias com o movimento. Mas todas aquelas histórias estão gravadas em meu inconsciente e, de vez em quando, são rebobinadas como uma fita muito gasta, mas ainda carregada de cenas assustadoras. Lembro do diálogo tecido no sonho, a voz da Vó falecida há anos, a pergunta feita por mim.

— Por quem os sinos dobram?

— Por você, que prometeu mais do que todos os outros.

O que aquilo quer dizer? A voz familiar soa um tanto ameaçadora, feito um eco, rompendo meus tímpanos com dezenas de conselhos a serem evitados.

Penso no pai, não no Eterno, o Altíssimo, mas naquele fruto de imaginações empilhadas em anos de abandono. Visualizo as rugas que devem ter se aprofundado em um rosto similar ao meu, marcas aradas em uma pele cada vez mais sem vida.

Percebendo o pouco movimento ao redor, me esgueiro pelas ruas do labirinto de túmulos. Procuro por uma sombra e me deito sobre a campa mais espaçosa que encontro. O mármore, escurecido pelos muitos dias sob os efeitos do tempo e das chuvas, parece receber o meu corpo sem resistência. Sabe acomodar os ossos sem que eles se amontoem em desconforto. Doem-me as juntas, talvez seja dengue, talvez o acumular do cansaço. Seja como for, estico os músculos no espaço generoso produzindo uma prazerosa sensação de entrega ao nada.

Tenho mais alguns minutos, antes que a obrigação me bata continência. Fecho os olhos e pouco retenho na retina, além dos olhos de meu suposto pai. Os pés pesam primeiro, como agarrados por cipós imaginários, heras cobrem pernas e braços. O corpo todo cede, envolvido pela areia movediça que brota ao meio-dia.

Abro os olhos, primeiro em lenta disposição, temendo não ser mais deste mundo. Meus olhos fitam o céu agitado, prestes a abrigar uma tempestade. Depois, encontram a placa, a lápide que reluz em bronze polido, as letras em relevo ainda mais lustradas José Antônio Salv… As letras caem embaralhadas, e antes que eu possa terminar de ler Salvador, a dor avoluma-se em meu peito, uma angústia sem fim.

Com o susto e a pancada da hora imprevista, o coração cede ao ritmo que se avizinha. O som cresce enquanto o sangue percorre o vazio. Fecho os olhos, sem guardar lembrança alguma. Mais uma vez, escuto a voz. Um último aviso antes da tempestade. O que me aguarda, meu Deus?

Sinos dobram ao longe.

 

Capítulo 7

 

Avisto, a alguma distância, dona Olívia. Os cabelos frouxamente amarrados em um coque que deixa escapar alguns cachos. É quase loira, assim sob o sol, parece mesmo ter um halo dourado sobre a cabeça. Já na sombra, tudo nela parece acinzentado, desbotado como se tivesse enfrentado muitas lavagens.

Nunca reparei nos olhos, mas me parecem de longe, comuns. Nem belos, nem feios. Nem sei de que cor são, se azuis, verdes ou castanhos. Oh, ela levanta agora o rosto. Sim, ao sol se traduzem como verdes ou algo semelhante.

Olhando mais de perto, dona Olívia parece mais velha do que deve ser, mas não lhe falta certa graciosidade. O luto é que pesa no seu andar, tudo perde o brilho de qualquer juventude que possa ainda resistir.

É bonita, admito. Nestes poucos segundos que a vejo se aproximar, posso julgá-la agradável ao olhar. Não como as minhas santinhas, mas há nela algo que chama a atenção, uma beleza disfarçada, talvez mesmo uma armadilha. O Mal tem seus truques. Deus me livre e guarde.

Apesar de vizinhos, nunca nos falamos, poucas vezes nos cumprimentamos, mas de longe, com um leve aceno de cabeça como agora. Ela passa por mim e sorri discretamente, como se custasse desenhar no rosto uma alegria tão falsa quanto pequena. Há um constrangimento quase palpável entre nós.

Somos dois estranhos que nada sabem um do outro. Meu irmão foi que inventou aquela intimidade vergonhosa, uma aproximação maior do que seria permitido. Provavelmente para ocultar o que realmente sabe ser a verdade. Ele sim, Pedro, deve ter trocado com a viuvinha fotos e silêncios constrangedores.

Acredito que dona Olívia seja uma mulher muito gentil, pois está sempre sorrindo, apesar de ainda não haver despido os panos do luto. Uma jovem senhora que me passaria despercebida se não fosse o que aconteceu.

Não posso garantir que as coisas se sucederam como consigo relatar. Tento reproduzir o que me foi dito e reconstruído em minha mente. Se falho com a verdade, que Deus me perdoe, pois não pretendo jurar em vão, nem mesmo por um irmão. Pedro, meu sangue e castigo, é um complexo enigma nessas coisas de amar. Jovem, quase um adolescente, tem mais imaginação do que poder de ação. Duvido que se encaixe entre as possíveis fantasias de uma viúva, por isso a descoberta da improvável relação me espantou tanto.

A vida é cheia de surpresas, algumas mais difíceis de assimilar. Demorei um bocado para compreender a narrativa que me foi imposta. Não fui fuxiqueiro, longe de mim, mas acabei por ouvir mais do que devia das conversas entre Pedro e Tadeu.

Muitos meses depois do passamento do senhor Osias, coveiro municipal e marido exemplar, dona Olívia encantou-se por um quase menino, o inquieto Pedro. Marcaram um encontro na pracinha, foi o que ouvi o jovem enamorado confidenciar a Tadeu. Ali, em frente à velha igreja. Talvez tencionassem se misturar com os outros casais, sem se fazer notar. Acreditavam que os santos e anjos cobririam os olhos e ouvidos de todos. Se fosse afeto de verdade não haveria de ser pecado. Nunca fui capaz de pôr valor em sentimentos.

A tal da paixão estava a reinar naqueles corações e a fama de namorador sobrou para mim. Dona Olívia deve ter quase o dobro da idade do meu irmão, mas quem está a fazer contas? Recorro a Jesus e ele me inspira a nada julgar.

O dia esperado chegou. Era domingo, dia de festa. Ela deve ter espiado o céu pela janela e sorriu. Pôs o cravo vermelho nos cabelos, toda faceira. Não combinava com o vestido, de estampa desconexa, mas quem entende essas modas? Provavelmente ela se sentiu mais feliz do que nunca, com o seu mundo a dançar. Encontraria seu novo amor, na próxima hora, sem mais tardar.

Não sei o que de fato aconteceu, só posso deduzir pelos resultados. Meu irmão com sua roupa mais ajeitada voltou para casa horas depois, semblante carregado. E se pôs na janela a esperar. Não sei quem ou o que fez ele desesperar.

Mas o que Pedro faz plantado nessa janela?

Mãe olhou firme para Catarina, e Tadeu fez sinal para a irmã se calar. Todos entendiam que ali se finalizava algo. Não era momento para graça.

Deixe seu irmão em paz. Cada um sabe das suas tempestades…

Eu me retirei também. Fui buscar no travesseiro alívio para os pensamentos desencontrados. Agradeci aos céus por não ter sido contaminado por sentimentalismo algum. Logo concluí que o amor não devia ser coisa boa mesmo. Fazer meu irmão de pateta, logo o Pedro, tão malandro. Mas a razão me alertava, aquilo não era amor. Paixão é que tem essas cores desesperadas. Doença do coração que pode matar de um golpe só.

Imagino as várias possibilidades daquele encontro, que creio nunca ter se concretizado. Em outra casa, bem próxima das nossas paredes, a viúva acabava de se aprontar. O sorriso, antes tão fácil e leve, deu lugar às lágrimas. De repente se sentiu invadida por um mau presságio. No espelho, conferiu a vida. Não estava certo aquilo, não mesmo. Não era mulher para Pedro. Nem para mais ninguém. Olhou a pá encostada na porta. Enxugou as lágrimas e arrancou o cravo dos cabelos. Vestiu luto novamente.

 

Capítulo 8

 

Tia Cotinha, outro dia mesmo, me chamou de anjo. Assim, no meio de uma conversa qualquer, disse: meu anjo. O elogio, dito entre um sorriso e uma garfada no bolo de aipim, caiu-me mais do que lisonjeiro. Algo estranho aconteceu. Tive a nítida sensação de que alguma coisa crescia nas minhas costas. Apêndices clandestinos, dois calombos dificultavam meu apoio no encosto da cadeira.

— Sente-se bem, meu anjo?

Não soube o que responder. Estava encantado com o chamamento, a delicadeza de um carinho direcionado ao surgimento de minha natureza alada. Tive o bom senso de me conter. Afinal, seria pouco prudente revelar meu desconforto com o brotar da potência angelical. Apesar do meu estado de graça, preferi disfarçar a surpresa e deixar a prosa tomar outro rumo.

— É só aqui uma dorzinha, miúda, sem importância. Mas diga lá, titia, o que a trouxe para esses lados?

E ela se pôs a falar sobre mil assuntos que se perdiam em meio a comentários sem nexo. Desconfiei que a senhorinha começasse a perder a conexão entre a realidade e sua fantasiosa imaginação. Não sei ao certo sua idade, mas é mais idosa do que minha mãe, portanto, pelos meus cálculos, já passou há muito dos anos verdejantes. Gosto da sua aparência, um tanto displicente, um tanto caótica. Tem uma vasta cabeleira, metade tingida de um loiro desbotado, outra metade tomada pela alvura da inegável velhice.

Tia Cotinha tem lá suas esquisitices, mas me chamou de anjo e isso me basta para tomá-la como quase santa. Não vejo maldade em sua fala, nem no seu olhar úmido de uma alegria difícil de definir. Viúva há décadas, dedica-se aos netos e aos afilhados, tantos esses que nunca dá conta de supri-los de pequenas benesses. Faria mais se pudesse, sempre se põe a esclarecer. Seus recursos são parcos, mas a fé nunca a desamparou. É bem filha de Vó Dolores, que Deus a tenha em sua santa paz.

 

Capítulo 9

 

Minhas idas à praça dão-se por uma única razão: falta-me preguiça. Nada a ver com a viúva Olívia ou outra moça qualquer. Preciso apenas me movimentar, dar vazão à energia que a juventude me concede.

Não alimento o ócio, oficina daquele ser das trevas, que me nego a dizer um dos seus múltiplos nomes. Se não estou trabalhando ou auxiliando minha mãe na lida doméstica, encontro sempre um bom motivo para esticar os músculos. O corpo foi feito para isso, estar sempre em movimento, a favor da construção da escada. Que escada? Aquela que me levará aos céus, quando minha hora chegar.

Nunca fui indolente, nem mesmo descansado. Relaxado me parece xingamento dos piores que há. Jamais me apontaram tal falha de caráter. Mais do que isso, a preguiça é pecado, falta de vontade de agir, desinteresse em concluir trabalho espiritual ou físico. Minha cama conhece-me bem pouco. Dedico-lhe as horas necessárias de sono e só. Isso me basta para a manutenção do corpo, das funções vitais que precisam permanecer em equilíbrio.

Na praça, posso dar voltas, esticar as pernas, fazer exercícios nas barras e aparelhos ali dispostos pela prefeitura. Um incentivo para que os habitantes larguem o sedentarismo e cuidem melhor da saúde. Foi mais ou menos esse o slogan usado pelos políticos para enaltecer a contribuição que no fim é mais um pequeno amontoado de ferro e madeira. Poucos idosos se valem do local para alcançarem algum resgate de mobilidade. Crianças costumam utilizar a aparelhagem como palco de suas brincadeiras. Pelo menos, fazem bom uso do material que já apresenta sinais de desgaste e pontos de ferrugem.

O pipoqueiro, como sempre, está ali presente, no seu ponto, na metragem estipulada por alguém com poder de carimbo e alvará. Não falta um só dia, sempre a espalhar o aroma do milho estourado em manteiga. A criançada adora, eu me contenho, pois como disse não me entrego à gula.

Do lado oposto, está um outro vendedor, com seu boné branco e riso fácil. Não sei como se chama, é recém-chegado à cidade. Traz seu carrinho compacto, freezer cheio de sorvete, picolés de vários sabores. Não sei se são gostosos. Nunca provei um que fosse. Comedido permaneço, magro me conservo.

Cumprimento os dois homens com um aceno de cabeça. Não sou muito de falas, nem pretendo estabelecer amizades que não enalteçam meu estado de purificação. A humildade já conheço, a edificação do trabalho também.

— Vai uma pipoquinha hoje, meu jovem?

— Não, obrigado. Talvez outro dia.

O diálogo se repete com o sorveteiro, apenas o produto é trocado. Dia sim, dia não, insistem com o oferecimento. Acho até graça, pois nós três sabemos que é pouco provável que eu gaste meus reais com guloseimas.

Não sou mais criança, o alimento que busco é o espiritual.

 

Capítulo 10

 

Admito que a descoberta da suposta relação entre dona Olívia e meu irmão Pedro acendeu em mim uma curiosidade quase repulsiva. Não me orgulho desse meu deslize, mas padre Olavo disse que está tudo bem.

— Apenas poupe sua mãe desse desgosto.

Com certeza, a viúva já devia ter confessado seus pecados, ou ao menos a intenção de os cometer com meu desajuizado irmão. O segredo de confissão a manteria imune a fofocas de carolas e gente sem misericórdia. Quanto a mim, quem sou eu para julgar alguém? Ainda mais nessas coisas de namoro, das quais, reafirmo: tenho total desconhecimento.

Metade da história nasceu pronta, obtida da conversa ouvida entre meus irmãos. A outra metade foi minha imaginação que delineou a partir da reação de Pedro. Não me atrevi a perguntar sobre detalhes. Mantive a discrição, afinal ele nem desconfia que ouvi suas palavras sussurradas. Tenho bom ouvido, nada posso fazer a respeito.

O problema é que desde que soube do relacionamento do pós-adolescente com a viuvinha, não consigo desviar os pensamentos intrusivos. Talvez seja apenas curiosidade quase infantil. O que faziam? Do que falavam? Que mensagens trocaram? O que a viuvinha tinha visto no meu irmão?

Sei que expus na sombra do confessionário mais do que deveria, mas me senti protegido pelo sacramento religioso. Padre Olavo não se espantou com o que ouviu, nem expressou censura alguma aos envolvidos na trama amorosa. Sabe-se lá quantas fofocas não trazem aos seus ouvidos todos os dias.

Já pensei em mudar de paróquia devido àquele jeito do padre ficar me olhando. Seria mais fácil frequentar missa em outra igreja, mas todos iriam estranhar e aí a corrente de fofocas já se espalharia pelo bairro, talvez até pela cidade. Decidi aceitar a provação como penitência, se não pelos meus pecados, pelos do meu irmão. Devo ser misericordioso, tolerante com as falhas alheias e seguir os mandamentos sagrados.

Não confio no homem Olavo, mas no padre sim. E o padre impedirá que o homem avance por terrenos proibidos. O sagrado sacerdócio o deterá e me livrará de qualquer laço descabido. Vou rezar muito por isso, que a graça do esquecimento me alcance, que me faça invisível aos olhos do Mal.

Mas não quero mais falar sobre isso. Há tanto o que contar antes que possam me entender, portanto, não percamos tempo com os pecados alheios. Cada um que carregue com a sua cruz.

Não sei se é caso de fixação de ideias, se é uma fase de tormentas, se é o outro-lá-com-tantos-nomes a me rondar, mas é fato que não consigo me desprender da curiosidade. Ardo querendo saber que fim levou a história daqueles dois. Por que dona Olívia parece evitar minha casa? Por que sempre passa com os olhos baixos? Será que ela como eu também preferia ser invisível? Todos nós enfrentamos nossos próprios infernos.

— Meu Jesus, meu bom Jesus, que por mim morrestes na cruz, perdoai os meus pecados, já não quero mais pecar.

Escuto Padre Olavo suspirar, quase bufar de enfado.

— Você de novo, meu filho?

36 comentários em “ER 1 – Sem Pecados (Claudia Roberta Angst)

  1. Priscila Pereira
    1 de junho de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Oi, Claudia! Tudo bem?

    Voltei pra terminar de comentar o seu começo de romance!

    Francisco parece ter um entendimento superficial da Bíblia, e nenhum relacionamento com Deus. Quanto mais chegamos perto de Deus, quanto mais o conhecemos, mais somos conscientes das nossas falhas e pecados, percebemos que santo, puro, digno, perfeito é só Ele e que nós não conseguimos nunca sem a ajuda dEle sermos realmente bons. Então o Francisco, pra mim, está bem longe de Deus, e estou muito curiosa para saber o que você tem em mente para ele, será que ele vai perceber que não é o santo que pensa? Ou será que essa distorção de imagem vai ter uma consequência na saúde mental dele? Será que ele vai conseguir a redenção (porque sem a percepção do próprio pecado é impossível se arrepender e buscar a redenção)? São incontáveis possibilidades e estou bem curiosa!

    Não sei o que pretende pras próximas partes, mas como o romance é em primeira pessoa e o narrador é tão chato, você tem tomar bastante cuidado pro romance não ficar chato, arrastado, de fazer raiva no leitor. Mas tenho certeza que você vai conseguir driblar a chatice do Francisco e apresentar um ótimo romance!

    Até a próxima etapa!

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Pri, tudo bem? Obrigada por completar o seu comentário. Não, eu sinto muito, mas não acredito mesmo que você vá gostar do desenrolar do meu romancinho. Terei de decepcioná-la mais uma vez.

      Francisco é jovem, vive em mundo particular, engana-se a si mesmo, e talvez tenha um transtorno psicológico. Mas quem sou eu para julgá-lo?

      A narrativa corre sério risco de se tornar chata, arrastada, pífia e até morna, mas prefiro que provoque raiva no(a) leitor(a). Francisco e os demais personagens não estão aqui para agradar ninguém, viu, muito menos a esta autora que vos fala. Sorte sua que não é obrigada a ler as aventuras e desventuras do protagonista-que-se-acha-santo-mas-não-é. (Mas se puder, leia, tá?)

      Quero deixar claro que não estou tecendo um tratado teológico nem defendendo qualquer posicionamento religioso. É mais uma provocação quanto a mazelas sócio-psicológicas, nada demais.

      E vamos continuar escrevendo porque temos muito chão pela frente.

      Beijos.

  2. Gustavo Araujo
    31 de maio de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Oi, Claudia! Cá estou a ler o seu princípio de romance, com a história de Francisco, o auto-intitulado-pretenso-futuro-santo-isento-de-pensamentos-impuros-e-titular-absoluto-da-virtude.

    Muito bacana como você nos apresenta esse protagonista, por meio de uma narração em primeira pessoa em que se destaca uma quase-obsessão pela pureza de espírito e pelo corpo fechado para o pecado. Isso é repetido à exaustão, de modo a demonstrar que Francisco é alguém ao mesmo tempo assombrado pelas tentações da carne e do espírito e orgulhoso de ser invulnerável a isso.

    É pelas declarações dele, ou melhor é pelas entrelinhas das declarações dele que vislumbramos o mundo que ele habita. A Mãe (sempre com maiúsculas), os irmãos homens (que mais parecem um só), a irmã, enfim, o núcleo familiar fragmentado e pecaminoso e que lhe serve como contraponto na busca pela pureza pessoal.

    Mas não só isso. Há também os vizinhos, a viúva em especial, além do padre, a jogar com a mente dele, de Francisco, levantando questões incômodas, fazendo aflorar pensamentos de que ele pode estar desejando a viúva e, concomitantemente, sendo desejado pelo homem de batina. E tudo isso você faz sem contar, mas mostrando, com muita perícia, através de pensamentos, de dilemas e de anseios.

    Não dá para perceber, ainda, o rumo da história, ainda mais se considerarmos que há três etapas pela frente. Mas ouso imaginar que tanto o padre como a viúva terão papel fundamental no desenvolvimento do nosso jovem narrador, não só colocando sua fé à prova, mas exigindo dele sacrifícios e atitudes. Talvez isso tudo venha a servir para que ele se descubra como pessoa, mas é cedo para bancar a cartomante aqui.

    De qualquer maneira, a prosa, como sempre, está muito agradável de ler. As palavras caem perfeitamente no que se pretende passar. Há, ainda, construções muito bem elaboradas. Por mais de duas vezes me peguei sorrindo enquanto lia. Muito bom ver uma escrita desse nível entre nós.

    Enfim, há algo de loucura na busca de Francisco pela santidade. Ele não percebe, ou parece ignorar que a ambição é um pecado grave, não? E também luta contra os instintos animais que vez ou outra se insinuam pelo corpo. Vai ser interessante quando tudo isso vier à tona.

    Ótimo trabalho, minha amiga. Espero ansioso pela continuação.

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Gustavo, tudo bem?

      Você apontou algo que realmente estava começando a me incomodar: os irmãos que parecem um só. Pedro e Tadeu não se distinguem muito, a não ser pela insinuação do romance entre Olívria e Pedro. Tadeu mal se manifestou, preciso rever isso.

      O grande perigo da ambição de Francisco é de se tornar uma obsessão. Claro que essa pretensão à santidade encombre muitas lacunas da vida do rapaz. Enquanto mantemos o olhar fixo em um só ponto, não conseguimos enxergar o que acontece ao nosso redor, nem a nós mesmos. É uma cegueira que não pode evitar o caos.

      O que acontecerá com Francisco? Não tenho um destino fechado ainda para ele… Tudo pode mudar. Aguarde.

      Abraço.

  3. marco.saraiva
    29 de maio de 2026
    Avatar de marco.saraiva

    Primeiramente, peco perdao pela falta de acentos. Estou usando o teclado do laptop do trabalho, que esta configurado em ingles. Alias, o corretor tambem esta em ingles, entao provavelmente alguns erros de digitacao tambem passarao desapercebidos. Foi mal!

    Gosto da sua escrita por que ela tem muita personalidade. Seu estilo narrativo eh simples e direto, mas nao simplorio. Eh uma leitura redondinha, que segue em tom quase infantil. Na verdade eu diria que o tom eh sim infantil, mas de proposito. A inocencia de Francisco, mesmo na idade adulta, confere a ele um ar de mocidade que me faz ve-lo como um daqueles anjinhos de michelangelo, com asinhas pequenas, sobrevoando a humanidade e observando-os de longe, sem entender os seus caminhos vis.

    A narrativa vem em um formato de diario. Ao inves de cenas e dialogos, temos um narrator sempre-presente, destilando memorias, com o ocasional trecho de conversa. Por um lado gosto de leitura assim por que sai do esperado e quebra um pouco o que se ve por aqui. Por outro lado, sempre achei dificil estabelecer conexoes e peso emocional em narrativas feitas desta forma. Nao eh impossivel, apenas acho mais dificil. Aqui, ainda nao vi muito para estabelecer grandes conexoes com personagem algum, mas com certeza estou curioso para ver onde Francisco vai chegar em sua eterna bondade e pureza, e onde seus irmaos e irma vao terminar, tambem.

    Alias, o livro eh sobre isso: personagens. Apesar de Francisco ser o narrador e protagonista, o que brilha aqui sao as pessoas e a vida que as linhas do texto conferem a elas. Gosto de Tia Cotinha, tenho uma certa pena de Pedro, e fico nervoso quando a narrativa toca no Padre Olavo e suas “tendencias”. A promessa que voce estabeleceu aqui, nesta primeira parte, eh que veremos mais de todos eles nas proximas, e desperta uma curiosidade quanto aos seus desfechos. Isso eh muito bom.

    Se tenho uma nota, eh sobre o vai-e-vem na linha temporal, que me deixou um pouco tonto. Francisco fala da sua infancia e do presente intermitentemente, e por vezes me peguei sem saber onde eu estava. Algumas escolhas de palavra nao ajudaram, como, por exemplo, voce falou que Pedro era “Jovem, quase adolescente”. Um “quase adolescente” para mim eh alguem que ainda nao chegou na adolescencia. Ainda mais quando vem seguido de outra descricao dele como “um quase menino”. Por algum tempo achei que Olivia estava tendo relacoes com uma crianca! Outro exemplo: no incio, vemos Francisco falando da sua infancia e entao ele fala de como os irmaos dele o acusam de pedofiolia, e eu fiquei pensando em “como uma crianca pode ser pedofila?”

    Mas, tirando este detalhe pequeno, o texto eh muito bom, e quero saber do desfecho dado a estes personagens. Terminamos a leitura com esta curiosidade de Francisco que parece beirar a obcessao, e imagino que esta eh uma sementinha para que, nas proximas partes, esta pureza dele comece a falhar.

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Marco, tudo bem?

      Obrigada pela leitura e, principalmente, pelo comentário.

      Não tinha pensado na possibilidade do “quase” criar tanta confusão. Pedro não é mais um adolescente, mas não é também um adulto formado. Está naquele limbo, ainda sem saber quem é e o que quer da vida. Jovem, quase adolescente é diferente de Criança, quase adolescente, né? Talvez eu troque “quase um adolescente” por “praticamente um adolescente”… talvez, mas não garanto. Vou prestar mais atenção à questão da faixa etária dos personagens.

      O tom infantil seria algo naif da parte do narrador?

      Minha intenção é dar um pouco mais de espaço e desenvolvimento aos personagens coadjuvantes. Mesmo que todos fiquem limitados à visão de um narrador nada confiável.

      Pode contar com futuras falhas da pureza de Francisco.

      Abraço.

  4. cyro eduardo fernandes
    28 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Cláudia construiu os primeiros capítulos de um romance através de uma prosa muito bem cuidada, rebuscada, mas sem exageros, e com toques coloquiais.

    O protagonista sofre de uma autoestima inflada e por um autoconhecimento distorcido. Francisco está construído solidamente, com suas reflexões sempre favoráveis a si mesmo, e suas dores pela ausência do pai, os olhares do padre, e os conflitos com os irmãos.

    Há ironia ao longo do texto, entremeadas pelas críticas sociais. O romance de Pedro com a viúva torna-se interessante, principalmente quando as visitas de Francisco ao cemitério despertavam desconfianças infundadas.

    Creio que a ausência do pai pode ser mais bem explorada. Vai acabar ajudando a detalhar um pouco mais a personagem materna.

    Parabéns e perdão pelas minhas observações não serem tão aprofundadas como as que recebi de você (obrigado outra vez!).

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Cyro, tudo bem?

      A ausência paterna ainda será explorada mais adiante na narrativa. É um ponto importante na biografia de Francisco. Uma lacuna que dificilmente será completada apenas com fé e orações. Não no caso do meu protagonista, pelo menos.

      Que bom que percebeu os toques de ironia e crítica social no texto. Não quis exagerar na dose, espero continuar a trama sem perder a linha.

      Muito obrigada pela leitura e, principalmente, pelo comentário.

      Abraço.

  5. rubem cabral
    26 de maio de 2026
    Avatar de rubem cabral

    Olá, Claudia.

    Impressões gerais.

    A melhor abertura de romance que li aqui, até agora: “Sofro de bondade”. É muito legal pq junta a simplicidade de uma frase curta, dá rapidamente o tom do que virá a seguir e já faz crescer a suspeita de um narrador não fiável. A consistência da narração e da “alma” do personagem é muito boa, ele soa sempre num conjunto de notas, num círculo muito bem delimitado. O romance parece insinuar uma primeira quebra do boníssimo e pientíssimo personagem, já perto do final do último capítulo. Toda a construção é muito sólida e parece partir de uma autora com olho muito arguto e com percepção muito fina do que é a natureza humana. Há camadas na personalidade de Francisco, que parece em primeira impressão um narcisista, mas que provavelmente tem mais nuances por mostrar.

    Qualidade da escrita

    Ortografia, pontuação, etc. O texto está muito bem escrito. Tem coisas muito pequeninas a revisar: “bíblia” (substantivo próprio, deveria estar com B), “Não entendo porque se exalta tanto” (por que, é uma pergunta indireta), “É o começo do que eterno” (falta verbo?), “Tantos os meus olhos quanto…” (tanto).

    Diálogos

    Os diálogos são poucos, mas funcionam bem, parecem naturais.

    Personagens

    Francisco é um personagem imenso, que abafa e produz uma grande sombra sobre os demais. A mãe, o padre, os irmãos, a tia, os vizinhos, ainda estão um pouco pálidos diante de um sol tão brilhante. Talvez dar espaço para outros personagens e subtramas possa trazer um pouco de “quebra” (se for sua intenção) nos segmentos por entregar.

    Abraço!

    • claudiaangst
      26 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Olá, Rubem, obrigada pela leitura e comentário.

      Finalmente, alguém se deu ao trabalho de apontar as falhas de revisão. Confesso que não sei revisar meu próprio texto. O olhar de revisora simplesmente ignora os erros e lacunas (acho que tenho algo de Francisco, hein).

      Não vejo o protagonista como um narcisista, apenas tentei retratar um jovem que ainda não descobriu quem é de fato e se esconde sob camadas e camadas de hipocrisia e ideais que herdou. Um impostor de si mesmo.

      Já percebi que preciso mesmo dar mais cor e carne aos outros personagens. O problema é que sendo Francisco o narrador, fica difícil ele conceder espaço aos demais. E se parar de olhar para o próprio umbigo, vai apenas dar a sua versão da vida dos outros. Talvez esse seja o único caminho a seguir (confiando na “bondade” de Francisco).

      Todos os comentários, incluindo o seu, têm me feito pensar em que rumo dar à narrativa. Já tenho o desfecho delineado, mas o caminho até lá dependerá de muitos fatores. No final, são os personagens que mandam em mim e não ao contrário. Doideira? Com certeza!

      Abraço.

  6. André Lima
    24 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DE TUDO PORQUE LI TUDO NUMA TACADA SÓ PORQUE FOI BOA LEITURA

    Bom, eu estava preparado para comentar por capítulos. Li os dois primeiros capítulos ontem, mas tive que interromper a leitura e acabei relendo tudo hoje. Então vai ser um comentário só. Aí vão as impressões:

    A abertura é uma declaração de intenções muito bem executada. Sofro de bondade é uma primeira linha que faz tudo o que uma primeira linha precisa fazer: instala o tom, apresenta o narrador e já planta a ironia que vai sustentar o romance inteiro. Francisco é um narrador não confiável da melhor espécie, aquele que genuinamente acredita em tudo o que diz, o que torna cada afirmação dele simultaneamente hilária e perturbadora. Lembrei um pouco do estilo do nosso conto com o Cyrino (“Filha de Deus”).

    A relação com os irmãos é o melhor motor cômico do capítulo. A forma como Francisco descreve os supostos crimes de Pedro, Tadeu e Catarina com aquela indignação contida e piedosa, para em seguida absolvê-los com misericórdia, é o tipo de voz que o leitor vai querer acompanhar por duzentas páginas. O trecho sobre entregar a questão nas mãos de Deus e dispensar os próprios sermões é perfeito.

    A ausência do pai, introduzida com cuidado no final do capítulo, instala uma tensão emocional que equilibra bem a comicidade. A frase sobre ser órfão duas vezes se Deus não existir é excelente, e o recuo imediato, a autocorreção fervorosa, é o mecanismo central da voz de Francisco funcionando no seu melhor (Aqui é referência total ao nosso continho! haha).

    A memória da Tia Celina e o primeiro desgosto amoroso é um dos trechos mais bem construídos da etapa. A criança que fecha o coração para o amor porque a professora se entregava a todos em dedicação tem uma lógica interna perfeitamente coerente com Francisco, e é ao mesmo tempo genuinamente engraçada e ligeiramente melancólica. Você calibrou bem essa ambiguidade. Engraçado que estou achando sua voz narrativa mais próxima dos contos do que do seu romance (Entrelinhas e Guias).

    O diálogo com os irmãos sobre a viúva do coveiro cumpre duas funções ao mesmo tempo: estabelece a tensão familiar e sugere, nas margens, algo que Francisco não verbaliza e possivelmente não permite que apareça sequer em sua própria consciência. Esse subtexto ainda está muito embrionário, mas é onde o romance pode crescer de forma mais interessante (Sugestão para a segunda etapa).

    Já o capítulo 3 é o mais “interno” dos quatro, quase um monólogo teológico, e funciona como pausa reflexiva na narrativa. Francisco debatendo sua própria natureza, questionando se seria parte do Pai e imediatamente se repreendendo, tem uma qualidade que lembra certas vozes da tradição da literatura de confissão, sem ser pastiche de nenhuma delas.

    6 de Agosto, data da Transfiguração…

    O risco do capítulo, e é pequeno ainda, é que ele circula em torno das mesmas obsessões dos anteriores sem revelar uma camada nova de Francisco. Funciona como aprofundamento do retrato, mas não como avanço. Nos próximos capítulos vai ser importante que algo ou alguém perturbe a serenidade do narrador de uma forma que ele não consiga absorver tão facilmente com uma oração.

    Em minha opinião, o almoço com dona Helena é o melhor momento dos quatro primeiors capítulos.

    O pensamento sobre ter nascido de uma relação carnal com o consequente enojo aprofunda algo que o romance vai precisar desenvolver com cuidado. Há algo em Francisco que excede a religiosidade e toca num território de dissociação mais complexo, e esses momentos são os mais ricos do texto.

    A cena com Padre Olavo é onde o texto dá o salto mais importante de toda a etapa. Até aqui, Francisco era cômico e perturbador de forma equilibrada. Aqui, pela primeira vez, ele experimenta algo que não consegue nomear e que o texto também recusa a nomear, o desconforto diante do olhar do padre, o mal-estar que congela. O sinal da cruz como fuga é perfeito. E a saída com os punhos cerrados e os olhos marejados, sem que Francisco compreenda inteiramente o que sente, é o momento em que o romance mais cresce literariamente. Você deixou a cena funcionar sem explicá-la. Muito bem.

    A descrição da beleza das santinhas como o único objeto estético que Francisco permite a si mesmo contemplar com prazer também está muito bem colocada aqui, especialmente depois do diálogo sobre vaidade com o padre. Há uma erotização sublimada e completamente inconsciente que Francisco aplica às imagens sagradas, e o texto sabe o suficiente para não dizê-lo em voz alta. Novamente, nada de exposição!

    O nono capítulo é, de longe, o mais leve até então, e cumpre sua função de respiro.

    Apanhado Geral

    É um romance extremamente coeso. A voz de Francisco foi estabelecida desde a primeira linha e se manteve consistente pelos dez capítulos sem uma única vez escorregar para fora do personagem.

    O que o romance faz de melhor é o que os melhores narradores não confiáveis sempre fazem: permitir que o leitor veja o que o narrador não consegue ver sobre si mesmo.

    O que posso sugerir como ponto de atenção na segunda etapa é o movimento. Dez capítulos se passaram e Francisco está essencialmente no mesmo lugar emocional em que começou, o que é coerente com o personagem, mas vai precisar de alguma pressão externa que o desloque de verdade, isso em termos de estrutura narrativa. O nome na lápide, o padre, dona Olívia, o pai ausente, são todos fios que enxerg que o texto puxou sem ainda resolver. A segunda etapa vai precisar escolher qual ou quais desses fios vai tensionar de verdade e, sinceramente, me preocupo se você vai conseguir fazer tudo em 50 mil palavras kk.

    Bom, gostei bastante. Parabéns. A grande força do romance, até aqui, é, sem dúvidas, Francisco. Uma criação genuína!

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, André, tudo bem?

      Sim, catei algumas palavrinhas lá do nosso conto Filha de Deus, da minha parte, claro. O tema é pertinente aos dois textos, não acha? Tenho essa mania de contaminar uma nova narrativa com as outras que ficaram pra trás. Ou será preguiça de escrever algo completamente novo? Fica o questionamento.

      Concordo com você: Francisco não consegue enxergar a si mesmo. O objetivo da santidade, um delírio que ele alimenta desde criança, o torna cego para a realidade (a sua e a de todos ao seu redor).

      Na segunda parte pretendo movimentar um pouco mais a narrativa, mas não vá esperando muita ação. Bom, a esta altura, você já sabe como os meus textos são, então…

      Alguma tensão deve haver, mas não sei se vou arrematar todas as pontas soltas. Afinal, na vida, deixamos muitos buracos sem cobrir, não é mesmo?

      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário abrangente.

      Abraço.

  7. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    22 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Sem Pecados | Autor(a): Claudia Roberta Angst

    Fase de Leitura: Capítulos 1 a 10

    Data: 20/05, 21/05 e 22/05/2026 

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    “Sem pecados” é um romance que nos apresenta Francisco, um homem soberbo e religioso, extremamente cheio de si e suas contradições.

    Impacto extremamente positivo!

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]
      • Gostei bastante: capítulos curtos, dinâmicos, voltados para o desenvolvimento da narrativa, mas sem ignorar a necessidade de destrinchar os elementos certos para a história.
      • A história se desenvolve num tempo muito bom; não é nem apressada demais, nem lenta de menos.
      • Não há qualquer brecha para compreender o que vem por aí: eu amo isto!

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Francisco está MUITO BEM desenvolvido. Até o momento, meu personagem favorito. Tem uma nuance psicológica interessantíssima. Mesmo nesse trecho inicial, é perceptível que há diversas camadas nele. Além disso, é terrivelmente humano. Espero ver mais dessas camadas adiante;
      • Acho que todos os personagens estão bem desenvolvidos, cada um ao seu jeito. Claro, será necessário destrinchá-los mais no desenvolvimento.

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Minha chatice com a questão da repetição de palavras/ideias não apareceu aqui. O motivo é simples: faz parte da construção da psiquê da personagem. Talvez irá cansar alguns leitores. Mas ainda assim, é uma repetição sempre atrelada a um fato novo na história. É o foco do personagem. Detalhe sutil, muito bom.
      • Esse texto é um prato cheio; há subtextos, belas construções frasais, figuras de linguagem variadas… Aula de literatura.
      • ótimas frases:
        • “Tenho mais alguns minutos, antes que a obrigação me bata continência.”
        • “Olhando mais de perto, dona Olívia parece mais velha do que deve ser, mas não lhe falta certa graciosidade. O luto é que pesa no seu andar, tudo perde o brilho de qualquer juventude que possa ainda resistir (talvez essa última frase pudesse vir depoisde um ponto final… Arriscado ensinar o padre a rezar a missa.”

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Claudia, que primor de escrita! Quero escrever igual a você quando crescer!

    Francisco me lembrou bastante aquela personagem de “Beijo Roubado”  e também aquela personagem idosa de Gabriela Cravo e Canela, a religiosa que na série chamava todas as mulheres da cidade de quengas! Claro, são histórias com propostas diferentes! Todavia, há em ambos uma aura de caricatura, o que traz um certo humor. 

    Para finalizar esse aspecto, eu diria que Sem Pecados traz o melhor do seu estilo de escrita. Simples, inteligente, muito bem articulada, repleta de subtexto e com boas doses de humor.

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Altíssimo! Claudia, você foi extremamente feliz em construir o ambiente de Sem Pecados. O que é interessante no seu trecho em relação a esse aspecto é que em poucos momentos você trouxe descrições sobre o ambiente em si. Ainda assim, com muita habilidade, você articula bem o texto e a visão de mundo do protagonista e cria, no leitor, o universo de Francisco.

    Além disso, acho o principal: Francisco enquanto personagem tem jeito, tem cheiro, fala, é permanentemente inconsistente e etc, que nem gente como a gente. É um personagem extremamente humano (ainda que caricato)! Parabéns!

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Tem muitas coisas que me fizeram apreciar essa história. Primeiramente, a sua escrita: primorosa, sagaz, sensível e com uma escolha de palavras invejáveis. Por todo o trecho que você nos apresentou, eu fui me cobrindo com suas palavras como quem se enrola num edredom quente num dia frio. Há diversas frases maravilhosas que são possíveis de destacar.

    Além disso, é uma narrativa sem pressa. No seu tempo. Por meio do narrador-personagem, você constrói muito bem o ambiente dele; uma cidade pequena, talvez em tempos mais antigos, com tradições mais conservadoras. Tudo muito bem articulado e explicitado pelo protagonista.

    Francisco, mesmo sendo um chato de galocha, me conquistou (até o momento). A chatice que habita em mim acena desinteressada a chatice que habita nele. É um personagem religioso, soberbo, cheio de si, mas que caminha inseguro diante de sua humanidade. De uma forma muito louca, identifiquei minha ansiedade nesse processo repetitivo de auto-afirmação religiosa do Francisco; a todo o momento, na nossa cabecinha ansiosa, os pensamentos indo e vindo, verificados e justificados. Se errados, são algo a mais além do erro humano. É o tal do perfeccionismo.  

    Por isso, até o momento, é um dos meus personagens favoritos, devido à sua construção.

    No mais, o texto me cativou. Com certeza, será um dos primeiros a ser lido na próxima etapa. 

    PS: Claudia, você precisa urgentemente pedir para sua filha fazer uma capa ilustrando esse romance, por favor! Seus fãs lhe imploram!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Nossa, Givago, como vou conserguir escrever a segunda parte do meu livro agora? Você me deixou sem palavras.

      Claro que adorei o seu comentário e seus elogios. Deu até uma animada para continuar a saga de Francisco, viu? Tão bom quando um texto nosso consegue atingir o leitor!

      Você percebeu questões que eu ainda estou descobrindo, as tais camadas de Francisco. E ele é chato mesmo!

      Espero que o desenrolar da narrativa não te decepcione. Farei o melhor que puder, isso posso garantir.

      Já passei o seu recado para a minha filha. Quem sabe esta aventura não acabe em um lançamento no futuro? Não seria maravilhoso se todos aqui pudessem ter seus romances publicados com sucesso?

      Muito obrigada pelo seu comentário, Givago. Abraço.

  8. Priscila Pereira
    21 de maio de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Oi, Claudia! Tudo bem?

    Li o primeiro capítulo só por enquanto, e tenho algumas ideias pra trocar…

    Bem… Francisco é um pé no saco, desculpa a franqueza, mas imagino que era essa a sua intenção, né?

    Fiz um paralelo dele com a Irene, e acredito que eles sofram do mesmo mal, um é (e só ficará claro nos finais) o completo oposto do outro. Vamos ver se vou acertar.

    Uma coisa que me chamou a atenção é que quando comecei a ler imaginei que o Francisco fosse um velhinho, mas depois, por causa da briga com os irmãos, pareceu um adolescente, então não consegui definir a faixa etária dele, o que prejudicou a imersão.

    Nada a declarar sobre a sua escrita, né… primorosa!

    Depois volto pra ler mais um capítulo!

    Até!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Pri, agradeço pela sua leitura. Sim, Francisco é um chato-chatíssimo, isso ele não reconhece, né?

      Considero que tanto Irene quanto Francisco vivem um conflito interno entre o Mal e o Bem. Afinal, não é o que enfrentamos todos nós?

      Francisco é jovem, é o filho mais velho, mas ele comenta que Pedro mal saiu da adolescência. Então, imagino que Francisco esteja na segunda década de vida. Mas ele tem toda essa postura de velho mesmo, falta uma brisa de juventude. Vou rever esse ponto, para talvez deixar mais claro que se trata de um homem jovem. Ou não.

      E aguardo a continuação da sua leitura e posterior comentário.

      Até.

  9. Kelly Hatanaka
    21 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Afff, Claudia. Que lindeza!

    Já nas primeiras palavras, seu protagonista Francisco se apresenta em dois níveis. O que ele acredita ser, bom, quase santo, e o que ele vai deixando escapar, afinal, quem, em sã consciência, se declara assim, bom, de boca cheia? Francisco nem bem começa sua história e a gente já percebe: ele não é nada disso e aí tem.

    A história começa singela, um rapaz religioso, que sente a ausência de uma figura paterna e que fantasia sobre ela, e que busca aprovação na sua dedicação à palavra de Deus. Ele é diferente de seus irmãos, descritos como maus, pecadores. Quer saber do pai, mas teme o que pode descobrir. Abriga-se na paternidade de Deus, na medida do possível.

    Tem um relacionamento próximo com o padre Olavo, um relacionamento estranho em que ele pressente perigo. Interessante este pressentimento. O quanto desse perigo é real e o quanto é imaginado/idealizado/fantasiado por Francisco?

    E tem a viúva Olivia. O que aconteceu entre ela e Pedro? O que acontece entre ela e Francisco?

    Este começo de romance conta muito através do que não diz e de tudo que nos leva a duvidar a respeito de Francisco. O título, “Sem Pecado” me faz pensar na passagem do Evangelho, em que Jesus diz à multidão que queria apedrejar uma mulher que, aquele que não tivesse pecados, que atirasse a primeira pedra. Será Francisco a apedrejar os pecadores, julgando-se sem pecado?

    É interessante também como você não descreve muito as coisas e lugares, mas a ambientação está lá, impecável. Vejo uma cidade pequena, as casas parecidas, simples, imagino Francisco, um rapaz bonito com roupas antiquadas e muito limpas, o cabelo dividido com exatidão.

    Fico imaginando o que vem por aí. Conheceremos o pai? Saberemos do passado da mãe? Quais são os segredos dessa família?

    Estou gostando muito de sua história!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Calma, Kelly, ainda teremos o desenrolar da história entre Pedro e a viúva. Nada muito explícito, apenas deixando a imaginação do(a) leitor(a) voar. E Francisco com isso? Também será atingido? Quem ler, verá.

      O que você imaginou sobre o protagonista e a cidade bateu com o que eu transmitir. Isso me deixou bem satisfeita.

      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário gentil e abrangente.

  10. Sarah S Nascimento
    17 de maio de 2026
    Avatar de Sarah S Nascimento

    Olá, Cláudia! O seu texto parece muito com aqueles livros clássicos, tipo Machado de Assis, inclusive nas primeiras linhas, quando o personagem conta sobre o nascimento dele, os santos que lhe faziam companhia e toda essa ambientação religiosa, eu pensei no Bentinho lá do Dom Casmurro.

    Achei interessante saber que os irmãos desse protagonista não são como ele, e ele sendo o mais velho fica ainda mais simbólico né? Ele guiando os irmãos e tal e coisa. Gostei dele chamando eles de “almas perdidas”, kkkk, parece devoto mesmo o cara.

    Gente, esses irmãos dele inventando histórias… são cruéis hein? Acho que o mais leve foi inventar que ele fumava maconha, tá louco, esses irmãos dele pegam pesado. kkkkk.

    Um dos únicos momentos onde me identifiquei com o Francisco, se apaixonar pela professora. Mas ele era tão pequeno que acho que se apaixonar nem é a expressão certa aqui. Que fofura ele falando “sujeito marido”, kkkk, parece pensamento de criança inocente mesmo. Muito fofo. Caraca, mas uma desilusão com cinco aninhos, risos, tadinho dele.

    Nossa agora que percebi: Francisco não é o nome do santo casamenteiro? E esse Fransisco aí da história não tem vida amorosa, kkk, que legal a contradição. Curti.

    Ah não, esquece, eu fui pesquisar e falei errado, o santo casamenteiro é o santo Antônio, rs, perdão!

    Maledicência, gostei dessa palavra.

    No trecho que o Francisco citou o professor de matemática eu pensei: “meu Deeus, esse Francisco é muito chaaaaaato!”, risos. Ele só sabe dizer que é bom, que é bom, que é bom.

    Estou no capítulo quatro e começo a sentir que alguma coisa grande vai acontecer, por favor, alguém faz esse Francisco aí se mexer. kkkk.

    Nossa, fiquei triste pela dona Helena, essa descrição de quatro filhos e um monte de sofrimento. É tão triste que isso seja super comum, homens que abandonam a família assim. Sem mais nem menos. Será que descobriremos o que houve com o pai do Francisco?

    Caramba, que bonito o jeito que Francisco descreveu os olhos, cabelos e traços dele e dos irmãos. Um dia quero escrever assim, é tão imercivo e conversa com a história que ele ta contando. Lindo demais, muito bem feito. E olha só, temos mais informação do pai dos quatro: um safado bonitão. kkkkk.

    Eita o padre Olavo olhando e elogiando o rapaz hein? Olha só, seu padre, cuidado!

    Eu adorei esse diálogo sobre vaidade, beleza, espelhos, é aquele tipo de diálogo que diz muito mais nas entrelinhas. Além disso, você faz as falas daquele jeito que sabemos sempre quem tá falando sem precisar ficar dizendo: disse fulano, disse ciclano, ficou perfeito.

    Uau, participar desses desafios sempre me faz conhecer palavras novas, nunca tinhavisto essa: “veleidades”, gostei.

    Gente, esse Francisco vai citar cada um dos pecados? Pera é isso não é? Ele falou da vaidade, agora tá falando de avareza, será que ele vai mostrar uma forma de se esquivar de cada um? Hum, será que é isso? Vamos ver.

    Ai crédo, ele gosta de dar uns passeios no cemitério? ai não, odeio cemitérios. Qual é Francisco, pare de falar em beleza na morte cara! risos. Eu e esse Francisco aí não nos daríamos bem.

    Aaah, ele deitou no mármore, ele deitou no mármore como se fosse uma caminha confortável! Qual é Francisco! Esse moço tá me deixando nervosa. kkkk. Só falta ele cair no sono ali deitadão, todo largado.

    Olha, então o senhor Francisco não é indiferente as belezas femininas! Dona Olívia, risos. Mas falando de olhos verdes, tava pensando, é interessante esse negócio dos olhos das pessoas mudarem de cor quando estão no sol ou na sombra. É difícil pra mim imaginar um castanho que pode virar verde, são cores diferentes, e acho que de tons diferentes. Devo ter essa dificuldade porque vi poucas cores quando era pequena. Até isso é meio difícil de fazer, transferir as cores que eu vi num papel mostradas em olhos, afinal eu já vi verde, mas nunca vi olhos verdes. Ok, me distraí, perdão! kkkk.

    Essa foi boa demais, a tia chamou ele de anjo e o rapaz achou que ia crescer asas nele e sair voando? risos, adorei isso. Mas que mostra de humildade né, senhor Francisco!

    Estou na parte sobre a praça agora. Jesus, esse seu personagem me irrita. kkkk, compra uma pipoca, um sorvetinho rapaz, não mata não! Ai gente, os extremos tornam as pessoas inflexíveis, irredutíveis por nada!

    Terminei o texto agora. Estou morrendo de curiosidade também sobre o que houve entre o Pedro e a dona Olívia. Também queria saber se o pai do Francisco vai aparecer ou ele vai ser essa fonte de dúvidas e imaginações. Francisco já citou alguns pecados ali, mas acho que ta faltando uns dois ou três.

    Como falei no início, a linguagem do seu texto parece com a dos livros clássicos, isso não é crítica não, eu não li tantos clássicos assim, mas acho que eles são muito importantes e a gente aprende bastante sobre linguagem e histórias.

    Eu aprendi umas palavras novas bem legais e parando pra pensar, o Francisco não parece muito com o Bentinho não. O comportamento do Francisco é bem mais religioso, devoto e confortável do que o do Bentinho. Acho que foi só a impressão inicial mesmo, por causa de toda a história de nascimento, religião, promessa para santo e tudo o mais.

    Eu vou ser sincera, os outros personagens me parecem muito mais interessantes do que o Francisco. rs. Ele me exaspera, me irrita um pouco, eu dei umas boas suspiradas aqui ao longo da leitura. kkkk.

    Seu texto é muito bem escrito, ideias claras e interessantes, ambientação maravilhosa, detalhes bem colocados, contexto, pensamentos, tudo se encaixa perfeitamente.

    Eu não tenho nenhum ponto de melhoria pra citar, pelo menos não na questão da escrita. Tá tudo impecável.

    Sobre a história, confesso que em dois ou três trechos minha mente deu uma viajada. Acho que não consegui me conectar ao Francisco, me identifiquei com pouquíssimas coisas. As partes mais divertidas eram ver os irmãos importunando ele. Kkkk. Ah, eu vou fazer o trocadilho, com sua licença viu? Mas acho que é o seguinte: Francisco, nosso santo não bateu. kkkk. Desculpa, eu não podia perder essa chance! Até logo!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Sarah, adorei o seu comentário, tão leve e divertido.

      Ainda bem que o seu santo não bateu com o do Francisco, viu? Eu ficaria preocupada com você, menina.

      Fiquei bem satisfeita em saber que o protagonista te incomodou, te exasperou. Isso é sinal de que atingi o meu objetivo: tocar a leitora.

      Francisco vai continuar correndo atrás da santidade, e fugindo dos pecados… Ele tenta excluir todos da sua vida, mas sei lá, acho que não está tendo muito sucesso. Contamos para ele? Não, né? Deixa que ele descobre sozinho.

      Obrigada pela leitura e pelo comentário tão especial. Abraço.

  11. Mariana
    10 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Comentários capítulos 9 e 10

    • A cena do Chico na praça fazendo ginástica, o pipoqueiro e o sorveiteiro me lembrou demais Nelson Rodrigues. Não sei, a banalidade do cotidiano que esconde turbilhões de sentimentos.
    • É interessante que Francisco faça ginástica, não parece algo da personalidade dele.
    • O interesse dele no possível relacionamento da Olívia com o Pedro também tem muito do Rodrigues.
    • Tá um cheiro de que esse livro vai acabar em tragédia familiar, que vira matéria de programa violento.
    • Medo do interesse maior do Chico ser no irmão do que na viúva.
    • Cláudia, eu quero terminar de ler a história. O que começou como um fluxo de consciência tá se mostrando um drama familiar bastante interessante. E classudo. Parabéns
    • claudiaangst
      10 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Mariana, estou adorando os seus comentários de leitora atenta. Comecei a ler Nelson Rodrigues muito, muito nova, antes do que deveria, mas era fascinada pelos seus textos. Na banalidade do cotidiano nascem muitos dramas familiares. O final já está definido, mas o caminho até lá ainda estou elaborando… Mistério.

  12. Mariana Carolo
    9 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Comentários do capítulo 7 e 8:

    • Olívia foi uma adição interessante ao romance, a ideia de uma disputa entre irmãos. É clássico, mas funciona.
    • O final do 7, como é muito o fluxo do Chico, ficou um pouco confuso. Uma sugestão é de repente separar graficamente.
    • O capítulo 8 é bastante curto, mas interessante.
    • A ideia do Chico enlouquecendo com as asas dá para entrar até no body horror. Imagina, as asas brotando, rasgando a pele…
    • Eu acredito que o Chico tem algum problema psiquátrico.
    • A tia Cotinha, com o seu cabelo meio descolorido, foi um retrato muito crível. Todo mundo conheceu uma Tia Cotinha.
    • Amanhã pretendo terminar a primeira parte, mas tá sendo uma leitura muito prazerosa Claudia.
  13. Mariana Carolo
    9 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Impressões capítulo 6:

    • Tadeu apareceu um pouco mais, mas ainda não entendi a sua persona (na verdade, nem sei se importam muito os manos)
    • O Chico trabalha como burocrata, isso é bastante kafkiano
    • O lance do cemitério me lembrou uma história real, de uma mulher que se apaixonou por uma foto em um túmulo. Admito que todo o passeio tinha um ar de sensualidade – como se o Francisco sentisse uma atração física no ritual
    • Ficou legal o fato do final acabar em um sonho/acordado… A passagem ficou bastante onírica
    • O túmulo é do pai mesmo? Ou de alguém com o mesmo nome? Ou é tudo um sonho?
    • Retorna ao passeio nos próximos capítulos e, concordo com o Chico, artes de cemitérios são bonitas mesmo.

  14. Canibalismo Cultural
    7 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Buenas ami, tudo bom?
    Vou falar só do primeiro capítulo que foi o que eu mãos gostei c:

    Enquanto eu lia esse texto, pensei muito em Carta ao Pai. Não exatamente pela história, mas pela sensação. Tem a mesma angústia de alguém tentando entender a própria vida através de uma ausência. No Kafka, o pai é uma presença enorme. Aqui, o pai nunca esteve ali, mas mesmo assim ocupa tudo.

    O que mais gostei foi essa dúvida constante sobre o narrador. Em vários momentos eu fiquei sem saber se ele é só uma pessoa sensível e machucada ou alguém tentando esconder alguma coisa de si mesmo. Quanto mais ele insiste que é bom, mais triste isso fica. Parece alguém tentando se convencer disso o tempo inteiro.

    Também achei muito forte a forma como a religião aparece. Não parece uma fé tranquila, parece quase um apoio emocional para ele não desabar. Como se Deus e os santos fossem a única forma de preencher o vazio deixado pelo pai. Algo bem comum, muitas das vezes a religião/Deus é a única coisa que uma pessoa tem e que mantêm a sua esperança na vida. Ao se apegar na ideia de que o sofrimento dela não vai durar para sempre e que pelo menos em algum plano da existência ela vai ter pazser amada ou seja la qual for o que a sua alma anseia.

    E o final me pegou muito. Quando ele fala sobre ser órfão duas vezes caso Deus não exista, senti que o texto deixa de ser só sobre abandono e vira um medo quase existencial de não existir ninguém olhando por nós.

  15. Mariana
    6 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Impressões sobre o capítulo 5

    • Até agora o meu preferido, disparado.
    • Você dá elementos para caracterizar os irmãos e faz um contraponto com a mãe. É interessante que a falta de dentes materna não é pensada pelo narrador como a mãe ter se anulado pelos filhos
    • Queria saber mais sobre o Tadeu
    • Eu senti quase uma pontada de ciúme incestuoso no Francisco. Como é a relação dele com a Catarina em níveis mais profundos?
    • O padre Olavo foi nojento, mesmo que em poucas linhas. Parabéns
    • Por que esse homem bonito sumiu?
    • O sentimento de Francisco pelas santas, quase beirando o fetichismo, muito bom.
    • Investir mais nessas ações, Cláudia
  16. Mariana Carolo
    5 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Impressões sobre o capítulo IV:

    • É um capítulo curto, mas bem escrito e o com mais ação até aqui. Refeições podem ser momentos tensos ou carregados, como é aqui.
    • “Corto a carne que não a minha” – baita frase
    • É aqui que o Francisco desenvolve um pouco mais a mágoa sobre a ausência paterna e isso é bom. Como se ocorresse uma rachadura no verniz de santo acima de tudo e todos.
    • Traz mais essa família. Eles são bastante pobres? Pergunto pela questão dos dentes da mãe.
    • A parte que ele se sente enojado por ter nascido de uma relação carnal ficou muito boa também. E acredito que é um aspecto a ser bem explorado.
    • Continuo tendo vontade de ler a tua história, Claudia
  17. Mariana Carolo
    4 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Admito que fiquei curiosa e fui para o capítulo 3

    • Aqui temos Francisco em delírios de grandeza fantasiados de modéstia. É de se desconfiar desse narrador. E ter medo da maldade de gente boa.
    • A escrita em fluxo de consciência se sustenta na poesia e na narrativa fina. Tu está andando em uma navalha, Cláudia e tá conseguindo não cair.
    • Eu quero saber mais sobre essa mãe. Imagino o Francisco uma pessoa com altos problemas, a mãe dele tipo Norma Bates. Mas o texto tá elegante demais para isso.
    • A fala do Francisco sem Cisco dá uma ideia de dualidade interessante. O Cisco é o que ele joga para debaixo do tapete?
    • Cláudia, o teu personagem é interessante. Mas eu quero ação, quero ver o que esse Fran/Cisco vai fazer. Do que ele é capaz.
    • Eu realmente quero conhecer melhor o Pedro e a Catarina. São adolescentes, quem eles são?

    • claudiaangst
      4 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Mariana, agradeço muito os seus comentários, são muito assertivos. E fico envaidecida com a sua curiosidade em continuar a leitura. Francisco é um enigma até para mim. Preciso ficar atenta para não cair do fio da navalha, mas se eu não pular fora vou acabar me cortando, né?

      Cisco pode ser a trava que Francisco tem nos olhos e o impede de enxergar os outros e a si mesmo.

      Pretendo falar mais dos irmãos de Francisco: Pedro, Tadeu e Catarina. Tadeu é o mais ignorado até então.

  18. Mariana Carolo
    4 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Vamos lá, as impressões do capítulo 2:

    • Sim, temos um protagonista narrando a sua própria vida.
    • Ele me lembrou os caras chamados de incels. Toda essa religiosidade serviria para marcar frustração em não ter um relacionamento?
    • Fiquei pensando se Catarina e Pedro existem mesmo ou são criação do puro Francisco. Vai que ele é esquizofrênico.
    • Talvez o preconceito seja meu, mas alguém tão carola seria tão ok com homossexualidade?
    • É um capítulo curto, que apresenta a religiosidade do Chico e a importância da avó para a sua moralidade
    • Achei fofa a decepção amorosa. E um adulto falando daquele jeito é, ao mesmo tempo, um tantinho assustador.
    • Sobre a escrita, a mesma qualidade do primeiro capítulo

  19. Martim Butcher
    3 de maio de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Olá, Claudia,

    Seu narrador tem um gostoso sabor machadiano, já apontado pelos colegas no fato de ele não ser confiável. A todo tempo o que ele pinta de si é desmentido pelos próprios desejos. Em um mundo em que tudo é excesso e pecado, tudo se torna, inversamente, digno de curiosidade e cobiça. Quanto mais Francisco se impõe limites, mais sua sanha em romper os limites se amplia.

    Mas bem, de isso você já deve estar ciente, tanto é que construiu o personagem tendo essa oposição como eixo. Parece-me, no entanto, que, passados alguns capítulos, não seria mais tão necessário que ele nos fizesse lembrar com tanta constância acerca de como vê a si mesmo. Por exemplo, no capítulo 9 (ou seja, já com o romance um tanto avançado) ele não passa praticamente nenhum parágrafo sem atribuir-se alguma característica:

    “Minhas idas à praça dão-se por uma única razão: falta-me preguiça”.

    “Não alimento o ócio”

    “Na praça, posso dar voltas, esticar as pernas, fazer exercícios nas barras e aparelhos ali dispostos pela prefeitura. “

    “[…] eu me contenho, pois como disse não me entrego à gula.”

    “Não sei se são gostosos. Nunca provei um que fosse. Comedido permaneço, magro me conservo.”

    “A humildade já conheço, a edificação do trabalho também.”

    “Acho até graça, pois nós três sabemos que é pouco provável que eu gaste meus reais com guloseimas.”

    “Não sou mais criança, o alimento que busco é o espiritual.”

    Isso só no capítulo 9! E escolhi esse trecho meio ao acaso (como predica o Auerbach!), poderia ser qualquer trecho. Essa sua estratégia dá coesão estilística e unidade ao narrador – isso é ótimo – mas entendo que precisaria de alguma dosagem. Mesmo aquilo que é narrado como cena (o diálogo com o pipoqueiro) não tem o valor circunstancial inerente ao que é propriamente narrativo, senão que está em função da caracterização do personagem, como um eterno presente (não à toa você narra no presente essa cena do pipoqueiro, pois ela parece acontecer todos os dias; não é propriamente uma cena). O texto respira quando vão aparecendo acontecimentos que fogem ao esforço de definir o narrador como sempre igual a si mesmo. Essas cenas, sim, tem valor circunstancial e instauram, ainda que brevemente, alguma crise no olhar que o narrador tem sobre si e sobre os outros. É o caso da linha narrativa que envolve Olívia e Pedro.

    Entendo que aquilo que Elisa apontou (muito bem apontado, por sinal) como falta de “carne” tem um pouco a ver com isso. Eu opino que apenas em conflito com um mundo de acontecimentos não subjugados à força centrípeta de definição da voz narrativa é que essa voz irá encontrar sua carne. Há um lindo achado, lá pelas tantas, em que você brinca com o nome do narrador: ele seria um Francisco sem cisco. Fico aqui pensando: o que resta de Francisco se subtraímos tudo o que ele define de si? É o vazio? É simplesmente Fran? Ou é a partir dali que ele passa a existir efetivamente?

    • claudiaangst
      4 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Obrigada pelo seu comentário detalhado, Martim. Acho que exagerei na dose ao tentar imprimir o caráter dúbio de Francisco. Mas há no personagem um exagero deturpado mesmo, que em algum momento vai extrapolar e chegar a… (sem spoiler). Sabe panela de pressão já detonada pelo tempo? O risco de explodir é grande.

      Francisco não tem um cisco nos olhos, mas sim uma trava que o impede de enxergar a realidade e a si mesmo. Ainda não o decifrei totalmente… será que conseguirei?

      • Martim Butcher
        6 de maio de 2026
        Avatar de Martim Butcher

        Eu espero que você não consiga decifrar o Francisco totalmente, Claudia. Acho que os bons personagens sempre conservam uma opacidade, algo que nos faz retornar a eles sem saber o que eles são. Mas como escritores nosso papel é tentar, né? E isso de ir descobrindo o personagem ao mesmo tempo que o criamos é muito gostoso… Boa sorte na aventura!

  20. Mariana Carolo
    3 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Oi Cláudia. Estou seguindo os colegas, lendo os primeiros capítulos e deixando as minhas impressões:

    • Quando crescer, quero ter o domínio de texto que tu tens. A prosa tá segura e muito fluída.
    • Me pareceu um texto sobre problemas paternos e como o Francisco acaba lidando com isso. Achei interessante
    • O Francisco me pareceu não ser um narrador confiável. Nem uma pessoa boa.
    • Gostaria de ver a perspectiva dos irmãos e da mãe dele.
    • O meu texto também tem a questão dos santos e religiosidade. São assuntos do meu agrado.
    • Francisco vai narrar a sua infância? Enfim, é um texto muito bem escrito e que é a tua cara. Sabe, tu me lembra as grandes escritoras brasileiras tipo a Lygia Fagundes Telles
  21. Maria Elisa Soares Ribeiro
    2 de maio de 2026
    Avatar de Maria Elisa Soares Ribeiro

    O ponto alto do texto é a voz do narrador-personagem.

    Trata-se de um narrador obviamente não confiável, mas que se apresenta como confiável ao expor logo nas primeiras linhas sua escolha ética em narrar o presente para não incorrer em fabulações ou inverdades. Um narrador que “abomina mentiras”, mas mente o tempo todo para si mesmo. Se diz bom, mas deixa escapar o tempo inteiro agressividade, ressentimento, maledicência.

    Esse narrador — radicalmente não confiável — é um grande achado e o motivo pelo qual o romance deve ser enfrentado até o final.

    Outro destaque é a linguagem, que mistura um registro meio conservador, com referências religiosas, com um “acento” meio interiorano. Soa artificial, não um artificialismo da autora, mas da personagem. Como se Francisco quisesse alavancar sua bondade, sua correção, sua ascese em relação ao comum dos mortais, por meio de uma afetação na linguagem, arrisco. Francisco é estranho e sua linguagem reflete isso.

    Penso, entretanto, que ainda há espaço para investir nessa estranheza personalíssima da linguagem da personagem. Talvez aumentar a fricção entre o registro mais alto da língua e eventuais regionalismo, ou o registo mais coloquial, com o dos textos religiosos.

    Por outro lado, senti um pouco de falta de carne no personagem. Ele fala muito do que pensa, do que vê, mas eu como leitora consegui enxerga-lo poucas vezes ao longo do texto. Explicando, vi poucas vezes o corpo do personagem em sintonia com suas emoções e interioridade, salvo na cena do cemitério, mas nessa cena temos uma situação extraordinária. A carne, penso, precisa aparecer mais no ordinário: à mesa, na relação com os outros personagens. Como leitora, uma luz se acende, quando percebo isso que aqui estou chamando de “carne”, num personagem.

    Apenas Francisco é um personagem bem delineado até aqui, os demais surgem e saem de cena apenas para compor as nuances do protagonista. Acho que até aqui está ok, entendo que ganharão corpo com o desenvolvimento da história.

    Como ponto de atenção, sugiro estar atenta a duas coisas que talvez precisem sem um pouco calibradas, a saber: o que parecem ser bordões (“sou bom”) e as perguntas que o personagem se faz.

    É isso por ora, minha amiga querida e revisora maravilhosa de todas as horas. Beijos e boa sorte!

    • claudiaangst
      4 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Antes de mais nada, agradeço imenso o seu comentário, Elisa.

      Francisco ainda é um enigma para mim. Talvez eu esteja exagerando na sua voz e me esquecendo de lhe fornecer carne, estrutura humana. Terei de rever a questão do bordão – sou bom! Sempre achei curioso como as pessoas mais inseguras insistem em repetir que são suas as qualidades que estão longe de possuir.

      Tentarei desenvolver melhor os demais personagens, mesmo que Francisco os despreze. Afinal, só ele tem as asas da bondade e santidade.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G4, Entre Romances e marcado .