EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Sem Pecados (Claudia Roberta Angst)

Capítulo 1

 

Sofro de bondade. Nasci assim. Minha mãe, dona Helena, fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos. Batizou-me antes mesmo de eu nascer, com a água dos desejos mais íntimos. Predestinado, abençoado, gosto de pensar que recebi graças já no ventre materno. Até hoje não conheci viva alma que negasse tal fato. Sigo, portanto, essa sina sem reclamar. Ou quase.

A infância é um território que revisito com cautela. Muito por cuidado de não macular as memórias tão bem guardadas. Há também a possibilidade de estar recriando situações que só existiram na minha cabeça. Como abomino mentiras, prefiro não me referir ao montante de vida que precede o hoje. Por isso, mantenho qualquer relato no tempo presente, mais próximo da minha realidade atual e, se algum engano cometer, não será por soberba ou vaidade.

Cresci entre as imagens dos santos, e apelo a eles, vez ou outra, quando alguma precisão surge. Foram os meus primeiros amigos de infância. Confio neles de olhos fechados e mãos estendidas. Sempre recebi o que me propõem como graça. Nosso relacionamento continua baseado em total confiança, pelo menos da minha parte. Espero que também acreditem em mim.

Fui sendo criado aos bocados, aqui e ali, como dava para ser. Pobre se arranja como dá. Pois é, eu me saí até bem, acho que foi essa coisa de santo aqui, anjo ali. Nunca quis despertar desgostos por minha causa. E tinha Mamãe, como poderia desapontar aquela santa? Santa? Não, não me entenda mal, é uma boa pessoa, mas santa não é, não.

Tenho três irmãos que me seguem em ordem decrescente: Tadeu, Pedro e Catarina. Falam e fazem bobagens o tempo todo.  É lamentável o comportamento que apresentam, indigno da casa materna. Como sou o mais velho, julgo ser minha obrigação orientá-los no caminho do bem, mas até agora não obtive qualquer resultado favorável. Por ora, resolvi entregar a questão nas mãos de Deus, e assim dispenso meus próprios sermões. Finjo que nada vejo dos desacertos cometidos por aquelas três almas perdidas. Não é abandono. É misericórdia. Sou bom, já disse.

São poucos os que reconhecem o meu valor. Sobretudo meus irmãos, esses desdenham da minha bondade, das asas que não enxergam. Inventam histórias sobre meus passeios na praça. Implicam com hábitos que nada lhes dizem respeito. Já inventaram uma montoeira de calúnias, só mesmo para me desabonar. São terríveis aqueles três.  Tento não me abalar com suas travessuras, mas me é custoso demais enfrentar tanta injustiça. Sinto-me deveras agredido, maculado na minha essência.

Pedro deu pra dizer que tenho um caso com uma vizinha, a viúva do coveiro da cidade. Não é a primeira intriga que tece a meu respeito. Quando se cansa de um enredo, modifica as injúrias com novos detalhes sórdidos. Catarina e Tadeu o auxiliam na orquestração do Mal, espalhando pelas ruas que ora fumo maconha sob a árvore centenária no centro da praça principal; ora tenho ímpetos pedófilos e persigo moleques nas vielas da vizinhança. Como podem ser tão sórdidos? Meu próprio sangue!

Se odeio meus irmãos? Claro que não! Já disse: sou bom. Tenho esperanças de que um dia, eles encontrarão seu manto de boas intenções. De santos, os nomes já têm. Falta-lhes, talvez, essa coisa que chamam de coração.

Mesmo com os entraves com meus irmãos, a casa sempre foi meu casulo e abrigo. Sinto-me acolhido e experimento uma espécie de solidão que muito me agrada. Os outros que habitam a moradia são percebidos quase como vultos, seres que se parecem comigo, mas são mais como intrusos, exceto minha Mãe, claro. Há outras presenças, mais sutis, tênues sombras, percepções intuitivas.  Quem são eles? Anjos, talvez, arcanjos, seres divinos, sem dúvida. Todos me rodeiam de um modo estranho, com uma mistura de curiosidade e espanto. O que veem em mim? Será mesmo que me enxergam?

Meu pai? Nunca vi. Será que tive um? Dizem que todo mundo tem um. Ou dois como o primo Leo. Dois pais, imagina, nunca entendi esse acerto. Eu ficaria confuso, desorientado na hora de preencher documentos e formulários. No fundo, admito, acho errado. Mãe diz que não é da minha conta, eles é que sabem de si e não devo julgar o que não entendo. E não entendo mesmo, viu.

Pai, José Antônio de Moraes Brandão. É o nome que consta na minha certidão de nascimento, mas… pode haver outra versão da história familiar. Não gosto de pensar nesse assunto porque me dá dor de cabeça e me sinto perdido em um grande labirinto de perguntas sem respostas. A saída está logo ali, eu sei, mas tenho evitado chegar perto…Pode ser muito doloroso.

Vivo adiando essa conversa com a Mãe. Sim, estou empurrando para uma data indefinida o questionamento que tanto me angustia. Por quê? Talvez por medo. Admito que nutri a vida inteira a esperança de ter desmentido o abandono paterno. Sigo a percepção do que julgo ter vivido mesmo sem ter a experiência validada. Iludo-me com a possibilidade de ser apresentado a uma realidade ignorada por anos.

Tenho sonhos recorrentes, sempre com o mesmo enredo. Confronto a Mãe com uma só pergunta: cadê meu pai? Antevejo a tragédia nas palavras ainda não ditas. Penso em recuar, deixar meu passado enterrado, pulverizado em cinzas. Mas ele está comigo. O passado é como a sombra que não se descostura dos pés.

Posso ter me enganado na construção da figura paterna. Afinal, só tive acesso a silêncios. Talvez meu pai tenha morrido aos poucos e sua imagem foi se apagando, sem deixar rastro. Adoraria ser capaz de imaginá-lo ao lado de Deus Pai. Mas minha mente criou muitos enredos, alguns tenebrosos, pois até a ideia de ser filho de um monstro é melhor do que essa eterna ausência, a espera por aquele que nunca virá. Assim, ele, meu pai, pode permanecer intacto, envolvido em uma aura de mistério, o herói desaparecido sem qualquer explicação.

Dizem ser um alívio conhecer a verdade, assim está na bíblia: A verdade vos libertará. Receio que, ao invés de me libertar, a verdade possa me matar. Se meu pai fosse bom, ou mesmo alguém apenas fazendo figuração pela casa, já me bastaria como recordação. Melhor ainda seria se ele fosse um ente querido já falecido, pois então eu não precisaria de lembrança alguma, e seria eterna sua presença em mim.

Padre Olavo diz que sou um filho de Deus e devo rezar para a salvação da alma de meu pai. Qual deles? O monstro ou Deus?

E se Deus não existir? Serei então órfão duas vezes.

Mas que tolice! Claro que Deus existe, ou nem eu mesmo existiria. Às vezes, tenho esses pensamentos loucos, percebe? Fico contradizendo minha crença, minha natureza, talvez procurando vestígios de pecados inexistentes

Não tenho pai, não neste mundo. Deus é o meu pastor, meu guia e proteção. Mas daí a tratar o Altíssimo como “papai” acho um pouco ousado demais. Blasfêmia, sabe?

 

Capítulo 2

 

Quando Vó Dolores, Deus a tenha, partiu para o paraíso – pelo menos esse era o destino pretendido por ela –, eu ainda me conservava puro. Ela incentivava a virtude que vislumbrava em mim. Dizia que as chamas do inferno jamais me tocariam se eu me mantivesse virgem até a última gota de sangue. Nem mesmo um beijo haveria de experimentar. Nem dado, recebido ou roubado. Meus lábios deveriam permanecer intocados, meu corpo jamais violado. Achei tão bonita essa imagem que não me pareceu sacrifício algum atender ao pedido de minha querida avó.

Virgem e puro, sou sim. E acho que permanecerei assim até o dia da minha morte. Depois, seguirei os desígnios do Nosso Senhor.

Tudo tem a sua razão de ser. Minha pureza foi protegida pelo andar da vida. Não sei se foi mesmo uma escolha que fiz, ou se me deixei levar pela falta de aptidão por relacionamentos carnais. Minha essência é mais de missa do que de abraços e beijos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Naquele tempo, eu achava que era um menino como todos os outros, nem anjo, nem demônio. Um moleque. Um guri.  Um desavisado dos desvios do mundo. Foi quando sofri minha primeira desilusão. Descobri que a Tia Celina, professora da pré-escola, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um sujeito-marido como meu rival.

— Quando você crescer, Chiquinho, também vai ter alguém assim, de amor contínuo, abençoado por Deus.

Ela falou lá outras palavras, mas registrei o que quis dizer desse jeito. Achei bonito ela me desejar a realização de um amor sacramentado. Mesmo assim, estava perdida para mim. Não era mais minha santa, minha adorada redentora de todo mal, fosse na escola ou fora dela.

Humanidade. Foi isso que impediu a realização daquele primeiro amor, tão singelo quanto o lírio no altar de Nossa Senhora. Percebi que existiam outros a disputar o amor da doce Celina: meus colegas de classe. Diante de tão terrível descoberta de estar amando uma leviana, que a todos se entregava em dedicação, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

De lá pra cá, aceitei viver meu quinhão de mazelas neste mundo de provação. Nunca menti sobre sentimentos, pois sabia que seria uma empreitada inútil e cansativa. Só arrumaria dor de cabeça e canseira quando tivesse de desviar dos cascudos que viriam em seguida. Estes, garanto, nunca mereci.

Minha vida amorosa é, portanto, um grande vazio. Refiro-me ao sentimento que se conhece como amor romântico, essa coisa que se dá entre um homem e uma mulher, ou de dois iguais (ainda acho estranho, mas Jesus orientou a não atirar julgamento algum). Não sei o que é esse amor de novela, essa bobagem de sentir o coração palpitar, o frio na barriga. Tudo uma grande trucagem de cinema, apelo para alavancar as vendas de flores, bombons, joias.

Às vezes, na praça, observo os casais de namorados. Apaixonados. Mas o que é a paixão a não ser uma patologia, uma doença? Não entendo porque se exalta tanto esse estado de espírito. A Sexta-feira da Paixão não deu em boa coisa, mas aquelas dores parecem ser celebradas todos os anos. Eu troco de dores, mas paixões nunca me dominam, eu não viro outro, eu só sei ser Francisco.

Tanto faz se é praga de vizinha ou maldição de família, sou um ser solitário. Não tenho planos de ter filhos, minha vida é seca em todas as raízes e ramificações. Nasci para brotar em momentos específicos, florescer de acordo com a vontade divina.

— Chico, tu é mesmo muito estranho. Nunca te vi com uma mulher, nem mesmo uma namoradinha…

O espanto de Catarina era mais curiosidade de fofoqueira em formação do que interesse pela minha vida amorosa. Queria de mim algum material para maledicência. Tadeu e Pedro não só riem da suposta ingenuidade de nossa irmã, como também testam minha paciência além do suportável.

— Quem disse, Catarina? Esse aí não me engana, não. — Tadeu dá-se ares de sabichão.

— Você acha que ele…?

— É só perguntar para a carola dele… a viuvinha do cemitério. — Pedro se antecipa e fornece o escárnio à conversa tendenciosa.

Nessas horas tenho vontade de socar meu irmão, Pedro é muito desaforado. Tenho ganas de triturar seus dentes no asfalto, mas isso seria contradizer minha natureza. Sou da paz, sou de Deus. Então, deixo escapar a infâmia como se fosse uma nuvem carregada, um obstáculo passageiro a esconder por minutos a luz solar.

— Vocês não têm o que fazer, não? Vão estudar, trabalhar, a Mãe deve estar precisando de ajuda lá na cozinha.

Frustrados em seu diabólico intento, eles dão de ombro e me ignoram totalmente. Nunca hão de me atingir com baixezas e maledicências. Faço o sinal da cruz, olho para cima, satisfeito. Triunfo no meu íntimo, sinto-me forte e digno da benevolência divina. Sou puro.

 

Capítulo 3

 

O mundo parece não aceitar, mas não conheço outra verdade: sou bom, realmente bom. Não perfeito, pois isso seria soberba e dela não me visto. Não sou melhor do que ninguém e nem invejo qualidade alheia. Mas sei que sou bom, sigo o caminho do Bem, sempre orientado pelos mandamentos da Santa Igreja. Afinal, não devemos todos seguir o modelo de Nosso Jesus Cristinho?

— Está indo por um bom caminho esse rapaz.

Sorrio quando lembro das palavras do professor Tobias, que lecionou matemática nos meus primeiros anos de escola. Soaram para mim tal qual uma profecia feliz.

Minha mãe, sempre que me elogiam, reage com os olhos aguados de orgulho. Não a recrimino, quem no seu lugar, não se sentiria vaidosa pela criação de um filho assim como eu? É uma missão e tanto, cumprida com louvor.

Nunca mais encontrei o professor Tobias, talvez já esteja no reino dos céus. Difícil calcular a idade que ele teria hoje, já que para uma criança qualquer adulto é velho. Mesmo assim, procuro honrar daquele que profetizou minha saga nas veredas do Bem.

É uma esperança que tenho: me aproximar a cada dia um pouquinho mais da santidade. Acredito que essa seja mesmo uma abençoada ambição. Considero os muitos obstáculos que enfrentarei, mas nada há de me deter. Levará tempo, eu sei, e tenho consciência que já não sou um menino. Apesar disso, me concedo essa pretensão, me tornar digno de ser um verdadeiro filho de Deus.

Sim, eu sei que disse aquilo antes. Aquela bobagem de às vezes duvidar da existência de Nosso Senhor, o Altíssimo. É a tentação do demônio. Dela, nem mesmo eu, um Francisco sem cisco, estou livre. Tenho meu percurso pelo deserto, onde preciso abdicar de qualquer dúvida e fortalecer meu espírito.

Sempre considerei repulsiva a facilidade de algumas pessoas em se deixarem abater. Isso me faz pensar em gado conformado com o seu destino, ruminando a vida em mágoas acumuladas. Gente ressentida! Nunca fui de cavar nostalgias. Por isso, não tenho pressa alguma. Se houvesse precisão, uma urgência maior do que a própria vida, eu continuaria a agir com calma. Confio no tempo a mim concedido. A eternidade é espaço vasto, infinito.

Não presto, não para viver como todos os outros. Acham que me engano, que deveria experimentar outros caminhos, mas eu sei que não poderia viver para isso que chamam de liberdade. Talvez tenha vocação que só receba incompreensão, mas não há como me desviar do meu destino. Do pecado já fui logo me despedindo assim que me batizaram. Não há linhas suficientes na palma da mão para acolher heresias. Eu não sou esse tipo de pessoa, muito menos seria capaz de fazer pactos com os aliados do Mal. Não empresto minha alma.

Não vendo, não troco, não imponho minha fé. Já nasci assim, proibido de desfazer do que já levava o nome do Altíssimo. Não são só palavras. Não é somente emoção. É o avesso do que muitos vivem sem se questionar. É o começo do que eterno, o caminho não percorrido. É o que nem sei nomear.

Deus existe. E Deus não sou eu. Ou serei parte do Pai?

Não, Francisco, você está embaralhando de novo as ideias. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Francisco é o resto, digo, sou eu. Ser jovem atrapalha nessa hora de definir quem sou, pois transito em território de constante transformação.

Nada é por acaso, tudo obra do Altíssimo. Nasci no dia 6 de agosto, data em que se celebra a transfiguração de Jesus, a glória divina revelada.  No Monte Tabor, o rosto de Nosso Senhor brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz. Deve ter sido um espetáculo belíssimo, impossível de ser descrito de forma a respeitar a grandiosidade da ocasião.

Seria muita pretensão buscar também pela minha transfiguração? Isso só quem pode responder é o meu Pai. Sonho com a intercessão divina a me elevar, me permitindo ouvir o canto dos anjos. E por que não? Essa será a minha verdadeira exaltação. Imagino os obstáculos que enfrentarei. O caminho é longo e não haverá de ser fácil, mas a ele dedicarei toda a minha vida.

Por enquanto sou apenas um Francisco e não me peçam mais do que isso.

 

Capítulo 4

 

Sirvo-me frugalmente da vida e da mesa. Sempre com parcimônia, alimento-me enquanto escuto pacientemente a ladainha de minha velha mãe. O sino dobra ao meio-dia e a igreja matriz parece se aproximar dos meus pensamentos. Ali na cozinha revestida com azulejos datados de uma feiura familiar, sorrio para aquela mulher, imaginando como ela seria com dentes.

— Coma em silêncio, se assim te agrada.

Muito me agrada, o calar enquanto manejo talheres e corto a carne que não é a minha. Por alguns minutos, talvez cinco, não mais do que dez, dona Helena silencia até os pensamentos. Olha-me esperançosa, talvez esperando elogios pela refeição preparada com desvelo e prontidão.  Concedo-lhe um pouco de gabação, não muita, porque a vaidade, todos sabem, é o pecado favorito daquele lá, o dito cujo que não se deve nem pronunciar o nome. E qual denominação eu escolheria se tem tantas?

— A comida tá boa como sempre. Muito obrigado, Mãe.

O meu agradecimento é bem recebido, mas ela dissimula qualquer traço de vaidade.

— Fico feliz em servir minha família com amor e a benção de Nossa Senhora. Santa Clara também me valha nessa missão sem fim.

Ela não há de parar com o desfiadeiro de agradecimentos, que a mim parece mais uma lamentação por uma vida que não era a pretendida por ela. Só desconfio porque marido não há, nem foto, nem paradeiro de um sujeito que com ela tivesse deitado e providenciado a seu mando quatro filhos e mais um tanto de sofrimento.

Talvez por isso, eu perca a aura angelical na presença de minha mãe. São esses pensamentos, esse indagar da minha origem, da filiação mal construída, do nome de um desconhecido nas linhas da certidão de nascimento. Acho impuro, mas não quero pensar sobre isso. Preferia acreditar que nasci de uma virgem tal como Maria, mas não posso. Como poderia me comparar a Nosso Senhor Jesus Cristo?

A ideia de ter nascido de uma relação carnal me enoja. Padre Olavo diz que está tudo bem, que é da natureza humana, um filho sempre será bem-vindo, pois será mais um ser criado pelo Altíssimo.

Tenho essas coisas que me passam pela mente, assim de modo repentino. Não que eu queira o mal de alguém, mas às vezes as pessoas me aborrecem. Acho que dá para entender isso. Todo mundo tem seus limites. Se eu fosse perfeito não estaria neste mundo, não é mesmo?

 

Capítulo 5

 

A falta de vaidade herdei ainda no berço. Poucos espelhos existem em minha casa, apenas os necessários para garantir asseio e compostura. Nariz mirando horizonte, limpeza e ordem. Não mais, não menos.

Mamãe nunca se importou muito com a aparência, e quando precisa verificar se está tudo no lugar pergunta para mim ou pros meus manos. Nem mesmo parece se dar conta dos dentes que foi perdendo ao longo dos anos, parto após parto, ranger sem encontrar atrito na boca. Não fala em beleza, mas vez ou outra elogia o porte e o sorriso de minha irmã. Catarina sim, ostenta a soberba se achando rainha por ter o que chamam de presença.

— Ninguém pode negar, minha filha, que você é bonita por demais.

— A Catarina já é um nojo de tão convencida, e a senhora fica aí incentivando essa garota.

Pedro parece reconhecer o perigo da soberba, da vaidade que pode levar nossa irmã ao caos. O inferno deve estar cheio dessas belezas carnais sem um bocadinho de formosura de alma.

Catarina não ouve as recriminações, muito menos se assusta com qualquer aviso quanto a sua condenação. Olha-se no espelho e sorri. Fica ainda mais bonita assim, não nego. Os agentes do Mal têm mesmo suas artimanhas.

Imagino que essa garota seja parecida com o pai, talvez aquele mesmo homem que responda pela minha aparência jeitosa. Não faço feio. É o que dizem, eu nem me atrevo a buscar no espelho respostas que me afastem da humildade. O asseio e um pente nos cabelos já me fazem apresentável aos olhos de Deus.

— Todos os meus filhos são lindos, inteligentes e fortes. — Mãe afirma com satisfação.

Não posso contrariar as palavras de minha mãe. Nós quatro somos, de fato, bem feitos de corpo e cara. Pedro e Tadeu têm o mesmo olhar molhado de dona Helena, herança hispânica. Os olhos escuros sempre brilhantes parecem sorrir a cada piscar. Os cabelos são como os meus, ondulados e de um castanho acobreado, metal tilintando ao sol. Já nossa irmã ostenta uma vasta cabeleira, lisa e escura como ônix, caindo pelos ombros e costas, chegando à cintura.

Tantos os meus olhos quanto os de Catarina assemelham-se a um azul de catálogo de cores. Dizem que herdamos essa e outras características do nosso pai e que devemos agradecer por carregar dele a sua única qualidade: a beleza.

Talvez Catarina tenha se esmerado mais em cultivar os traços herdados, investindo em roupas que a deixam ainda mais exibida. Convencida da impressão positiva que causa, revela-se uma flor a ser colhida sem cuidado. Temo por ela, mas nada posso fazer se não valoriza o tesouro que tem entre as pernas. Não sei bem do que se trata, mas foi assim mesmo que Mãe falou: tesouro entre as pernas. Acho desnecessário dizer o quanto essas palavras me constrangem, não sei lidar com esse tipo de vulgaridade.

A beleza também me atrai, claro. Desde os tempos do catecismo, meu olhar se desmancha pelos corredores da igreja. Gosto de ficar olhando as imagens de santos e anjos. Cada lado do templo sagrado tem seis esculturas, todas ladeadas de flores. Procuro sempre que possível recolher as pétalas caídas e trocar os vasos. Isso quando não me perco no tempo a observar tamanha boniteza. No altar, a imagem de Nossa Senhora, iluminada pela graça e esplendor dos céus, acompanhada por todos os lados graciosas santinhas. Mesmo desprovidas de qualquer vaidade, aquelas são as feições mais lindas que já vi na vida.

— É pecado admirar a beleza, Padre?

— A beleza foi dada por Deus, não há de ofender aos céus dar graças por ela.

— Mas e a vaidade?

— Ah, o pior dos infladores do ego, o mal que leva a tantos outros pecados.

— Minha tia comentou comigo que viu um filme em que o próprio, sabe aquele, o do Mal, dizia que a vaidade era o seu pecado favorito.

— E deve ser mesmo, já foi responsável pela derrocada de muitos humanos. Só santos e anjos não são contaminados por presunção dessa natureza, meu filho. Já superaram essas mesquinharias.

— A beleza seria um dom?

— E por que não? Tudo o que Deus faz é perfeito. Até mesmo nós, Francisco. Há em cada um a fagulha da perfeição divina.

— Mas ser vaidoso…

— Deve-se temer a vaidade, o Mal espreita à beira de qualquer espelho.

— Não gosto de espelhos.

— Mesmo que se afaste deles, não há como negar, você é um rapaz muito bem apessoado.

Algo congela em mim naquele momento, um mal-estar me invade como alarde. Não gosto do jeito que Padre Olavo me olha. Os olhos se estreitando, a boca quase salivando. Peco, pois imagino que de certa forma ele cobiça o que vê em mim, seja a juventude, seja a suposta beleza que muitos me atribuem.

Faço o sinal da cruz e me despeço do padre. Mal olho para minhas santinhas, todas enfileiradas na nau da igreja. Sinto meus olhos se encherem de muitas águas, sigo de cabeça baixa e punhos cerrados. Ouço ao longe um sussurro.

— Vá com Deus, meu filho.

 

Capítulo 6

 

Sou trabalhador, um profissional muito responsável. Servidor público, recebo à guisa de minha dedicação um bom salário. O suficiente para contribuir com as despesas da casa e ajudar os pobres. Calculo bem a parte que lhes cabe. Sou Francisco, mas não sou santo. Ainda não.

Não guardo muito dinheiro, só um tanto para qualquer emergência. É sensato se precaver contra os tempos de pouca fartura. Tenho pouca despesa, na casa materna se come e se vive bem. Meus irmãos também ajudam com o que conseguem separar das farras e gastos com veleidades. O dinheiro é deles, que usem com bom senso, é o que aconselho.

— Dinheiro não aceita desaforo.

— Mas a avareza é pecado capital, o apego danado às moedas.

Tadeu tem razão, ser sovina não é atitude de um cristão. Não foi isso que quis recomendar, mas sim o comedimento com os gastos. Se me pedirem conselhos, darei. Não pecarei por não oferecer o que tenho de sobra: bondade.

Meu sustento vem do trabalho, aquele que dignifica o homem. Por isso, valorizo o dia a dia no batente. Talvez não seja o emprego dos meus sonhos, mas neste mundo de provações quem é capaz de viver de quimeras?

O trabalho corre bem, do jeito que dá pra levar, como se poderia esperar de um emprego oficial e arranjado. Enquanto caminho pelo corredor, percebo que os colegas estão mais agitados do que o normal. Ora, se houvesse algo normal por lá, o dilema estaria instalado. Não perderia o meu tempo tentando descobrir qual fosse a novidade, tenho mais o que fazer. O intervalo do almoço às sextas-feiras é sagrado. E sepultado.

O cemitério surge como um ambiente bastante arborizado e tranquilo em meio à labuta diária. Traz um frescor aos dias mais quentes, além de uma oportunidade de me cercar de paz e arte. Reunindo mais de quarenta esculturas, segundo a contagem feita e refeita, a necrópole apresenta trabalhos dos poucos artistas da cidade.

Acostumado ao local, gosto de explorar novos ângulos dos monumentos fúnebres. Vez ou outra, penso em fotografar o que me parece mais fascinante: a morte em toda a sua beleza. A maioria dos meus conhecidos desconhece esse meu lado algo místico, talvez sinistro. É o meu prazer mais egoísta, um mergulho em um mundo particular do qual não consigo abrir mão.

Meus irmãos descobriram essas minhas incursões à beira dos túmulos. Claro que virei alvo de chacota entre eles, mas Mãe os proibiu de zombarem de meus hábitos. Tadeu é o mais feroz em suas observações.

— Sei bem o que esse aí procura entre os mortos.

— Deixe de implicar com seu irmão, menino. Mal não faz a ninguém, é só um hábito… peculiar.

Quando o calor começa a incomodar, sem demonstrar qualquer possibilidade de brandura, tento me esquivar entre as sombras de um arbusto. Talvez chova mais tarde, mas é pouco provável receber algum frescor no momento. Eu aceitaria ser aspergido com água benta, sem reclamar. Calor dos infernos! Lembro-me, novamente, do meu sonho e estremeço. Bobagem! Se Vó Dolores não tivesse contado tantas lendas urbanas a fim de inibir minha curiosidade juvenil, eu ficaria mais à vontade entre os mortos.

— Não brinca com essas coisas, menino! O demônio é mais esperto que tu.

Sacudo a cabeça, tentando desembaraçar as ideias com o movimento. Mas todas aquelas histórias estão gravadas em meu inconsciente e, de vez em quando, são rebobinadas como uma fita muito gasta, mas ainda carregada de cenas assustadoras. Lembro do diálogo tecido no sonho, a voz da Vó falecida há anos, a pergunta feita por mim.

— Por quem os sinos dobram?

— Por você, que prometeu mais do que todos os outros.

O que aquilo quer dizer? A voz familiar soa um tanto ameaçadora, feito um eco, rompendo meus tímpanos com dezenas de conselhos a serem evitados.

Penso no pai, não no Eterno, o Altíssimo, mas naquele fruto de imaginações empilhadas em anos de abandono. Visualizo as rugas que devem ter se aprofundado em um rosto similar ao meu, marcas aradas em uma pele cada vez mais sem vida.

Percebendo o pouco movimento ao redor, me esgueiro pelas ruas do labirinto de túmulos. Procuro por uma sombra e me deito sobre a campa mais espaçosa que encontro. O mármore, escurecido pelos muitos dias sob os efeitos do tempo e das chuvas, parece receber o meu corpo sem resistência. Sabe acomodar os ossos sem que eles se amontoem em desconforto. Doem-me as juntas, talvez seja dengue, talvez o acumular do cansaço. Seja como for, estico os músculos no espaço generoso produzindo uma prazerosa sensação de entrega ao nada.

Tenho mais alguns minutos, antes que a obrigação me bata continência. Fecho os olhos e pouco retenho na retina, além dos olhos de meu suposto pai. Os pés pesam primeiro, como agarrados por cipós imaginários, heras cobrem pernas e braços. O corpo todo cede, envolvido pela areia movediça que brota ao meio-dia.

Abro os olhos, primeiro em lenta disposição, temendo não ser mais deste mundo. Meus olhos fitam o céu agitado, prestes a abrigar uma tempestade. Depois, encontram a placa, a lápide que reluz em bronze polido, as letras em relevo ainda mais lustradas José Antônio Salv… As letras caem embaralhadas, e antes que eu possa terminar de ler Salvador, a dor avoluma-se em meu peito, uma angústia sem fim.

Com o susto e a pancada da hora imprevista, o coração cede ao ritmo que se avizinha. O som cresce enquanto o sangue percorre o vazio. Fecho os olhos, sem guardar lembrança alguma. Mais uma vez, escuto a voz. Um último aviso antes da tempestade. O que me aguarda, meu Deus?

Sinos dobram ao longe.

 

Capítulo 7

 

Avisto, a alguma distância, dona Olívia. Os cabelos frouxamente amarrados em um coque que deixa escapar alguns cachos. É quase loira, assim sob o sol, parece mesmo ter um halo dourado sobre a cabeça. Já na sombra, tudo nela parece acinzentado, desbotado como se tivesse enfrentado muitas lavagens.

Nunca reparei nos olhos, mas me parecem de longe, comuns. Nem belos, nem feios. Nem sei de que cor são, se azuis, verdes ou castanhos. Oh, ela levanta agora o rosto. Sim, ao sol se traduzem como verdes ou algo semelhante.

Olhando mais de perto, dona Olívia parece mais velha do que deve ser, mas não lhe falta certa graciosidade. O luto é que pesa no seu andar, tudo perde o brilho de qualquer juventude que possa ainda resistir.

É bonita, admito. Nestes poucos segundos que a vejo se aproximar, posso julgá-la agradável ao olhar. Não como as minhas santinhas, mas há nela algo que chama a atenção, uma beleza disfarçada, talvez mesmo uma armadilha. O Mal tem seus truques. Deus me livre e guarde.

Apesar de vizinhos, nunca nos falamos, poucas vezes nos cumprimentamos, mas de longe, com um leve aceno de cabeça como agora. Ela passa por mim e sorri discretamente, como se custasse desenhar no rosto uma alegria tão falsa quanto pequena. Há um constrangimento quase palpável entre nós.

Somos dois estranhos que nada sabem um do outro. Meu irmão foi que inventou aquela intimidade vergonhosa, uma aproximação maior do que seria permitido. Provavelmente para ocultar o que realmente sabe ser a verdade. Ele sim, Pedro, deve ter trocado com a viuvinha fotos e silêncios constrangedores.

Acredito que dona Olívia seja uma mulher muito gentil, pois está sempre sorrindo, apesar de ainda não haver despido os panos do luto. Uma jovem senhora que me passaria despercebida se não fosse o que aconteceu.

Não posso garantir que as coisas se sucederam como consigo relatar. Tento reproduzir o que me foi dito e reconstruído em minha mente. Se falho com a verdade, que Deus me perdoe, pois não pretendo jurar em vão, nem mesmo por um irmão. Pedro, meu sangue e castigo, é um complexo enigma nessas coisas de amar. Jovem, quase um adolescente, tem mais imaginação do que poder de ação. Duvido que se encaixe entre as possíveis fantasias de uma viúva, por isso a descoberta da improvável relação me espantou tanto.

A vida é cheia de surpresas, algumas mais difíceis de assimilar. Demorei um bocado para compreender a narrativa que me foi imposta. Não fui fuxiqueiro, longe de mim, mas acabei por ouvir mais do que devia das conversas entre Pedro e Tadeu.

Muitos meses depois do passamento do senhor Osias, coveiro municipal e marido exemplar, dona Olívia encantou-se por um quase menino, o inquieto Pedro. Marcaram um encontro na pracinha, foi o que ouvi o jovem enamorado confidenciar a Tadeu. Ali, em frente à velha igreja. Talvez tencionassem se misturar com os outros casais, sem se fazer notar. Acreditavam que os santos e anjos cobririam os olhos e ouvidos de todos. Se fosse afeto de verdade não haveria de ser pecado. Nunca fui capaz de pôr valor em sentimentos.

A tal da paixão estava a reinar naqueles corações e a fama de namorador sobrou para mim. Dona Olívia deve ter quase o dobro da idade do meu irmão, mas quem está a fazer contas? Recorro a Jesus e ele me inspira a nada julgar.

O dia esperado chegou. Era domingo, dia de festa. Ela deve ter espiado o céu pela janela e sorriu. Pôs o cravo vermelho nos cabelos, toda faceira. Não combinava com o vestido, de estampa desconexa, mas quem entende essas modas? Provavelmente ela se sentiu mais feliz do que nunca, com o seu mundo a dançar. Encontraria seu novo amor, na próxima hora, sem mais tardar.

Não sei o que de fato aconteceu, só posso deduzir pelos resultados. Meu irmão com sua roupa mais ajeitada voltou para casa horas depois, semblante carregado. E se pôs na janela a esperar. Não sei quem ou o que fez ele desesperar.

Mas o que Pedro faz plantado nessa janela?

Mãe olhou firme para Catarina, e Tadeu fez sinal para a irmã se calar. Todos entendiam que ali se finalizava algo. Não era momento para graça.

Deixe seu irmão em paz. Cada um sabe das suas tempestades…

Eu me retirei também. Fui buscar no travesseiro alívio para os pensamentos desencontrados. Agradeci aos céus por não ter sido contaminado por sentimentalismo algum. Logo concluí que o amor não devia ser coisa boa mesmo. Fazer meu irmão de pateta, logo o Pedro, tão malandro. Mas a razão me alertava, aquilo não era amor. Paixão é que tem essas cores desesperadas. Doença do coração que pode matar de um golpe só.

Imagino as várias possibilidades daquele encontro, que creio nunca ter se concretizado. Em outra casa, bem próxima das nossas paredes, a viúva acabava de se aprontar. O sorriso, antes tão fácil e leve, deu lugar às lágrimas. De repente se sentiu invadida por um mau presságio. No espelho, conferiu a vida. Não estava certo aquilo, não mesmo. Não era mulher para Pedro. Nem para mais ninguém. Olhou a pá encostada na porta. Enxugou as lágrimas e arrancou o cravo dos cabelos. Vestiu luto novamente.

 

Capítulo 8

 

Tia Cotinha, outro dia mesmo, me chamou de anjo. Assim, no meio de uma conversa qualquer, disse: meu anjo. O elogio, dito entre um sorriso e uma garfada no bolo de aipim, caiu-me mais do que lisonjeiro. Algo estranho aconteceu. Tive a nítida sensação de que alguma coisa crescia nas minhas costas. Apêndices clandestinos, dois calombos dificultavam meu apoio no encosto da cadeira.

— Sente-se bem, meu anjo?

Não soube o que responder. Estava encantado com o chamamento, a delicadeza de um carinho direcionado ao surgimento de minha natureza alada. Tive o bom senso de me conter. Afinal, seria pouco prudente revelar meu desconforto com o brotar da potência angelical. Apesar do meu estado de graça, preferi disfarçar a surpresa e deixar a prosa tomar outro rumo.

— É só aqui uma dorzinha, miúda, sem importância. Mas diga lá, titia, o que a trouxe para esses lados?

E ela se pôs a falar sobre mil assuntos que se perdiam em meio a comentários sem nexo. Desconfiei que a senhorinha começasse a perder a conexão entre a realidade e sua fantasiosa imaginação. Não sei ao certo sua idade, mas é mais idosa do que minha mãe, portanto, pelos meus cálculos, já passou há muito dos anos verdejantes. Gosto da sua aparência, um tanto displicente, um tanto caótica. Tem uma vasta cabeleira, metade tingida de um loiro desbotado, outra metade tomada pela alvura da inegável velhice.

Tia Cotinha tem lá suas esquisitices, mas me chamou de anjo e isso me basta para tomá-la como quase santa. Não vejo maldade em sua fala, nem no seu olhar úmido de uma alegria difícil de definir. Viúva há décadas, dedica-se aos netos e aos afilhados, tantos esses que nunca dá conta de supri-los de pequenas benesses. Faria mais se pudesse, sempre se põe a esclarecer. Seus recursos são parcos, mas a fé nunca a desamparou. É bem filha de Vó Dolores, que Deus a tenha em sua santa paz.

 

Capítulo 9

 

Minhas idas à praça dão-se por uma única razão: falta-me preguiça. Nada a ver com a viúva Olívia ou outra moça qualquer. Preciso apenas me movimentar, dar vazão à energia que a juventude me concede.

Não alimento o ócio, oficina daquele ser das trevas, que me nego a dizer um dos seus múltiplos nomes. Se não estou trabalhando ou auxiliando minha mãe na lida doméstica, encontro sempre um bom motivo para esticar os músculos. O corpo foi feito para isso, estar sempre em movimento, a favor da construção da escada. Que escada? Aquela que me levará aos céus, quando minha hora chegar.

Nunca fui indolente, nem mesmo descansado. Relaxado me parece xingamento dos piores que há. Jamais me apontaram tal falha de caráter. Mais do que isso, a preguiça é pecado, falta de vontade de agir, desinteresse em concluir trabalho espiritual ou físico. Minha cama conhece-me bem pouco. Dedico-lhe as horas necessárias de sono e só. Isso me basta para a manutenção do corpo, das funções vitais que precisam permanecer em equilíbrio.

Na praça, posso dar voltas, esticar as pernas, fazer exercícios nas barras e aparelhos ali dispostos pela prefeitura. Um incentivo para que os habitantes larguem o sedentarismo e cuidem melhor da saúde. Foi mais ou menos esse o slogan usado pelos políticos para enaltecer a contribuição que no fim é mais um pequeno amontoado de ferro e madeira. Poucos idosos se valem do local para alcançarem algum resgate de mobilidade. Crianças costumam utilizar a aparelhagem como palco de suas brincadeiras. Pelo menos, fazem bom uso do material que já apresenta sinais de desgaste e pontos de ferrugem.

O pipoqueiro, como sempre, está ali presente, no seu ponto, na metragem estipulada por alguém com poder de carimbo e alvará. Não falta um só dia, sempre a espalhar o aroma do milho estourado em manteiga. A criançada adora, eu me contenho, pois como disse não me entrego à gula.

Do lado oposto, está um outro vendedor, com seu boné branco e riso fácil. Não sei como se chama, é recém-chegado à cidade. Traz seu carrinho compacto, freezer cheio de sorvete, picolés de vários sabores. Não sei se são gostosos. Nunca provei um que fosse. Comedido permaneço, magro me conservo.

Cumprimento os dois homens com um aceno de cabeça. Não sou muito de falas, nem pretendo estabelecer amizades que não enalteçam meu estado de purificação. A humildade já conheço, a edificação do trabalho também.

— Vai uma pipoquinha hoje, meu jovem?

— Não, obrigado. Talvez outro dia.

O diálogo se repete com o sorveteiro, apenas o produto é trocado. Dia sim, dia não, insistem com o oferecimento. Acho até graça, pois nós três sabemos que é pouco provável que eu gaste meus reais com guloseimas.

Não sou mais criança, o alimento que busco é o espiritual.

 

Capítulo 10

 

Admito que a descoberta da suposta relação entre dona Olívia e meu irmão Pedro acendeu em mim uma curiosidade quase repulsiva. Não me orgulho desse meu deslize, mas padre Olavo disse que está tudo bem.

— Apenas poupe sua mãe desse desgosto.

Com certeza, a viúva já devia ter confessado seus pecados, ou ao menos a intenção de os cometer com meu desajuizado irmão. O segredo de confissão a manteria imune a fofocas de carolas e gente sem misericórdia. Quanto a mim, quem sou eu para julgar alguém? Ainda mais nessas coisas de namoro, das quais, reafirmo: tenho total desconhecimento.

Metade da história nasceu pronta, obtida da conversa ouvida entre meus irmãos. A outra metade foi minha imaginação que delineou a partir da reação de Pedro. Não me atrevi a perguntar sobre detalhes. Mantive a discrição, afinal ele nem desconfia que ouvi suas palavras sussurradas. Tenho bom ouvido, nada posso fazer a respeito.

O problema é que desde que soube do relacionamento do pós-adolescente com a viuvinha, não consigo desviar os pensamentos intrusivos. Talvez seja apenas curiosidade quase infantil. O que faziam? Do que falavam? Que mensagens trocaram? O que a viuvinha tinha visto no meu irmão?

Sei que expus na sombra do confessionário mais do que deveria, mas me senti protegido pelo sacramento religioso. Padre Olavo não se espantou com o que ouviu, nem expressou censura alguma aos envolvidos na trama amorosa. Sabe-se lá quantas fofocas não trazem aos seus ouvidos todos os dias.

Já pensei em mudar de paróquia devido àquele jeito do padre ficar me olhando. Seria mais fácil frequentar missa em outra igreja, mas todos iriam estranhar e aí a corrente de fofocas já se espalharia pelo bairro, talvez até pela cidade. Decidi aceitar a provação como penitência, se não pelos meus pecados, pelos do meu irmão. Devo ser misericordioso, tolerante com as falhas alheias e seguir os mandamentos sagrados.

Não confio no homem Olavo, mas no padre sim. E o padre impedirá que o homem avance por terrenos proibidos. O sagrado sacerdócio o deterá e me livrará de qualquer laço descabido. Vou rezar muito por isso, que a graça do esquecimento me alcance, que me faça invisível aos olhos do Mal.

Mas não quero mais falar sobre isso. Há tanto o que contar antes que possam me entender, portanto, não percamos tempo com os pecados alheios. Cada um que carregue com a sua cruz.

Não sei se é caso de fixação de ideias, se é uma fase de tormentas, se é o outro-lá-com-tantos-nomes a me rondar, mas é fato que não consigo me desprender da curiosidade. Ardo querendo saber que fim levou a história daqueles dois. Por que dona Olívia parece evitar minha casa? Por que sempre passa com os olhos baixos? Será que ela como eu também preferia ser invisível? Todos nós enfrentamos nossos próprios infernos.

— Meu Jesus, meu bom Jesus, que por mim morrestes na cruz, perdoai os meus pecados, já não quero mais pecar.

Escuto Padre Olavo suspirar, quase bufar de enfado.

— Você de novo, meu filho?

E Então? O que achou?

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Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G4, Entre Romances e marcado .