EntreContos

Detox Literário.

Um Quilo e Meio de Pão (Cherozo)

Quando parei a picape na bomba de diesel, saiu do posto uma morena grande vestindo um uniforme azul sujo de graxa. Lenta e cerimoniosa, ela dançava dentro da roupa, bem maior que ela; parecia um balão murcho.

Era uma morena bonita cumprindo um plantão noturno no posto, que talvez trabalhasse em outro emprego de merda durante o dia e estivesse ali fazendo um bico duas ou três vezes por semana, enchendo tanques de combustíveis e calibrando pneus de gente sem juízo como eu e meu amigo Santiago.

Santiago não podia sair do carro. Um dos tiros que os guardas dispararam contra nós havia acertado a sua perna, próximo à virilha. A maior parte do sangue que Santiago perdeu ficou pela rua, no caminho entre o banco e o carro de fuga. Com o torniquete que fiz, tudo ficaria bem, mas precisava que não infeccionasse. Mas sabia que cedo ou tarde infeccionaria. Sempre infecciona quando não se tira a bala e se fica sem uns remédios, essas coisas. Eu sabia disso. Santiago também sabia. Tudo dependeria do corpo de Santiago, se ele desejaria morrer ou continuar vivendo. Só o corpo dele tinha essa resposta. O tempo diria, matando ou deixando que Santiago vivesse.

Ele tinha um corpo bom. Havia sobrevivido a desgraças como aquela. Nas prisões que passamos, foram facadas, estocadas, espancamentos. A brutalidade, o fedor insuportável, a comida podre, a náusea de horas que nunca terminavam. Uma solidão na companhia de gente solitária como uma pedra no fundo de um lago. Era assim que tudo funcionava, e Santiago jamais voltaria pra nenhuma daquelas prisões.

Fui esticar as pernas e procurar por algo que pudesse beber e comer. Entrei no mercadinho da morena, que ficou enchendo o tanque quando disse que enchesse o tanque da picape. Ela ficou me olhando, me acompanhando, onde eu ia, o que fazia. Acho que não chegou a ver que Santiago estava deitado no banco de trás da picape.

Santiago era um preto muito grande, que ria quando tudo parecia se esbarrocar, como acontecia naquele momento. Gostava disso nele, ainda que o achasse ele estranho quando fazia isso. Ria de nervoso, mas nunca reclamava quando as coisas davam errado e desabavam sobre nós. E o que havia dado errado no roubo que fizemos foi o tiro que ele levou dos guardas do banco. Eu também atirei de volta, muitas vezes, pá pá pá… mas sempre acima da cabeça deles. Fico pensando na família dos caras, nos filhos, essas coisas, e só atiro de volta pra manter os caras afastados, distantes, rezando pra que eles não me persigam. Isso, não. Aí, vou ter que fazer alguma coisa, mas só atiro pra matar se for pra continuar vivendo.

Agora esperava que Santiago ficasse bom e que seu corpo escolhesse viver. Sabia que os guardas viriam. Passaram o dia perseguindo a gente, dizia o rádio. Eles sempre vêm, é o que fazem, perseguem caras que roubam bancos.

Peguei alguns maços de cigarro no mercadinho da morena, uns pacotes de bolachas e alguns litros de água mineral. A garota bonita enchia o tanque com o pescoço virado pra trás, me acompanhando enquanto eu recolhia coisas das prateleiras. Com certeza a sua experiência dizia que eu a roubaria. Já devia ter passado por aquilo algumas vezes: um cara grande como eu chega num carrão, manda encher o tanque com diesel, pega o que pode nas prateleiras e depois vai embora sem pagar, nem o combustível ele paga, deixando que ela fique feliz por não ser estuprada e morta pelo cara grandão do carro que vai embora com o tanque cheio.

Talvez aquela roupa folgada que usava servisse pra esconder o corpo bonito que havia ali embaixo. Era esperta, se escondia, não dava moleza. Gostava do jeito dela, dessa esperteza: pensava nas consequências de ser uma morena bonita sozinha num buraco como aquele, perdida no meio do nada, na beira de uma estrada comprida e sem ajuda por perto.

Tem gente bizarra nesse mundo e ela sabia disso. Devia achar que eu iria roubar ela, talvez estuprar e depois meter uma bala na cabeça dela e na cabeça de quem estivesse por perto. É verdade, matar ficou muito fácil: pá pá pá. Ah, não sou covarde. Gosto de entrar num banco, gosto da aventura, do risco de saber que estou numa briga justa com uns caras armados vestindo uma fantasia de autoridade. Sei que eles também se borram quando veem caras como a gente, dispostos a tudo, com armas nas mãos, gritando, botando medo, fazendo uma tremenda arruaça e esculachando todo mundo. Mas que risco essa mulata bonita poderia me oferecer? Nenhum, imagino que nenhum.

Ela era esperta, eu sabia, mas que jeito? Talvez ela me apontasse a arma que tinha debaixo daquela roupa enorme que usava. Talvez não, não parecia, talvez estivesse apenas assustada com o que eu poderia fazer com ela. Mas eu não iria roubar nada. Não faria isso. Santiago também não. Ele é um cara que sabe fazer um teatro, meter medo nos guardas, em todo mundo, um preto louco e mau, capaz de aprontar uma desgraça no banco e matar quem se opuser a ele: pá pá pá. Depois que a gente terminava o trabalho, Santiago gostava de lembrar de tudo isso, rir da cara daqueles que se borraram de medo. Era o jeito dele. Gostava de rir de tudo. Mas não gostava de matar ninguém.

Ela era uma morena muito bonita, a mais bonita que eu já tinha visto, mas isso eu acho que já falei. Grande e larga, parecia feita pra ter muitos filhos. Tinha cadeiras grandes ou era só a roupa folgada, não dava pra saber. Ficava olhando pra ela de dentro do mercadinho e ela continuava enchendo o tanque da picape, um tanque tão grande quanto as suas cadeiras. O que ela tanto olhava?

Me dei conta de que precisava de um alívio, era hora. Larguei tudo sobre o balcão e fui ao banheiro. Com a bagunça do assalto e da fuga, nem me dei conta de como as coisas andavam ruins pelas tripas. Era hora.

O banheiro da mulata era limpo e cheirava àquele cheiro ardido de eucalipto que tem os banheiros de postos de combustíveis, pelo menos por meia hora depois de lavado, quando volta a feder como todos fedem, com cheiro ardido de merda velha e urina fresca. Mas o banheiro dela não fedia, dava gosto ficar sentado lá dentro. Então fiquei sentado lá dentro. Pensava no quanto havíamos roubado do banco, mas não fazia ideia. Você vai pegando e enchendo as sacolas. O tempo é curto, ah, e aquela gente nervosa se borrando de medo e você ali, gritando, desesperando todo mundo com uma arma na mão, prometendo fazer uma desgraça se não te obedecerem, com todo mundo alvoroçado, mas pianinho; e a gente ali também, sentindo o mesmo medo que eles, borrando nas calças também.

Todo mundo se borra de medo, é a verdade. Tudo é medo, nosso e do pessoal que está no banco. Todo mundo se borrando, achando que a vida vai acabar, que tudo vai terminar em tiroteio, com sangue escorrendo pra todo lado. É quando um minuto vira dez e dez viram um dia inteiro. Os olhos escurecem junto com o pensamento e o sangue corre na direção da cabeça e parece que engrossa, que fica lento nas veias. Os ouvidos apitam como se um trem corresse entre as orelhas. A única coisa em que a gente pensa é em pegar o dinheiro e escapar o mais rápido possível, correr pra longe, ficar vivo e com o máximo de dinheiro que conseguir.

Alguns caras travam nessas horas e fazem uma grande burrada: matam ou morrem. Eu e Santiago não fazíamos isso. É só afinar o sangue e dominar o medo. É verdade, a gente às vezes até tranquilizava, tinha experiência, mas às vezes não, tinha que aterrorizar quando sentia que os guardas tinham coragem ou queriam mostrar serviço.

Prefiro que tudo caminhe na moral, no ritmo arma-medo-sacola-dinheiro-fuga, sempre nessa ordem. Tudo limpo. Mas essa coisa de dinheiro só se sabe depois. Se foi um bom trabalho ou uma grande perda de tempo. Depois veria quanto rendeu o serviço. Estava tudo na mala da picape, debaixo da lona.

Dava pra ouvir as sirenes ao longe, chegando, e eu ali sentado sem ter o que fazer, sentindo o cheiro ardido do banheiro da morena. Coisa séria. Sentindo aquele cheiro ardido mas bom. Sem poder me levantar.

Os caras ainda estavam distantes, era o que dizia o silêncio da madrugada. Não podia fazer nada além de esperar as tripas se resolverem. Foi quando ouvi o barulho do motor da picape sendo ligado e as rodas pesadas rolando sobre a brita miúda ao contornar a lojinha, na direção do fundo do terreno. Não era Santiago, ele não poderia dirigir a picape no estado em que estava. Era ela, a morena bonita movendo o carro. Esperta. O que ela estaria fazendo? Quando cheguei à porta do mercadinho, a picape havia desaparecido.

Escondido por trás de uma pilastra vi passar na estrada o comboio da polícia com suas sirenes gritando. Toda vez que vejo isso sei do desejo que eles têm de avisar pra gente que estão chegando, dizendo que devemos evitar uma grande confusão. Avisando que em outra hora resolverão tudo sem tiros ou mortes, só com prisões, que poucas vezes acontecem. Ninguém quer morrer defendendo dinheiro alheio. Eu não iria querer, os guardas também não querem. Não é uma ideia ruim. Eles seguiram adiante pela estrada perseguindo inutilmente a picape que a morena bonita havia escondido atrás da loja.

— Está morto.

— O quê?

— Seu amigo. Está morto.

— Santiago?

— Não sabe o nome do seu amigo?

— Sei. É Santiago…

— Então, seu amigo Santiago está morto.

— Mas estava vivo, agorinha…

— Dei uma olhada nele. O tiro acertou a veia grande da perna. Ele sabia que ia morrer. Cortou o torniquete. Perdeu o resto do sangue que tinha no corpo. O coração parou.

Contornei a lojinha e fui até a picape. Santiago continuava deitado no banco de trás, mergulhado no próprio sangue. Morto. Ele havia cortado o torniquete com o canivete que ainda segurava. Sabia que morreria, era uma questão de tempo. Que fosse logo, deve ter pensado, e cortou a corda do torniquete. O diabo era o canivete estar na mão errada, mas não liguei. Olhei pra morena bonita e ela nem piscou. Fiquei vendo aquela cena desgraçada de feia, já sentindo saudades do meu amigo Santiago, pensando como as coisas seriam sem ele por perto.

Foi quando a morena puxou Santiago pelas pernas e o despejou no chão.

— Ele está morto, não se preocupe — ela disse quando a cabeça de Santiago bateu pesada contra o estribo de metal da picape e fez um estrondo afogado, como uma marreta malhando ferro quente.

Depois ela arrastou Santiago por alguns metros, ainda puxando ele pelas pernas, e o largou dentro de um cercado com uma dezena de porcos, que se alvoroçaram com a chegada do sangue fresco e da carne macia. Em poucos minutos os animais começaram a devorar meu amigo Santiago, aos poucos, começando pela ferida aberta, pelo sangue quente que empapava seu corpo.

A estrada longa e reta deixava ver as luzes vermelhas das lanternas dos carros da polícia indo na direção errada.

Eu e Santiago tínhamos planos, e eles não eram tão idiotas quanto sair em disparada e encontrar barreiras de policiais com escopetas esperando a gente pelo caminho. Os policiais esperavam que a gente fosse em direção ao Norte, a Pedro Juan Caballero ou Ponta Porã, mas contornaríamos em Santa Puitã e de lá retornaríamos, na direção Sul, sem entrar no Paraguai. Não era uma má ideia apenas por não ser óbvia. Mas era o que o comboio de policiais acreditava que faríamos, e seguiam em direção ao Norte, na direção da fronteira mais manjada do mundo.

Policiais escolhem agir baseados no óbvio, e na maioria das vezes acertam. Os bandidos normalmente fazem exatamente a cagada que os policiais esperam que eles façam. Mas não naquele dia. Não fosse pelo tiro que acertou Santiago, tudo teria saído perfeito e limpo: arma-medo-sacola-dinheiro-fuga. Mas aí vieram os tiros. Agora aquela desgraça da morte de Santiago.

Ainda ouvindo os guinchos dos porcos disputando pedaços de carne, a morena trouxe uma mangueira e começou a lavar o interior do carro. Abriu as portas traseiras da cabine dupla e um jato duro de água desalojou o sangue de Santiago esparramado no assento traseiro. Falava pouco, mas começou:

— Já olhei — ela disse.

— Olhou o quê?

— O dinheiro embaixo da lona.

Sorri pra ela um pouco envergonhado. Aí, ela continuou:

— Um quilo e meio.

— O quê?

— Um quilo e meio — ela repetiu.

— E…

— Me pagam por noite que fico aqui o equivalente a um quilo e meio de pão. Fico aqui enchendo tanques de combustível e calibrando pneus a madrugada toda. Ganho o equivalente a um quilo e meio de pão por dia…

Então, ela me deu as costas e entrou novamente na lojinha. Eu fiquei olhando aquele sangue, lembrando de Santiago, agora dos porcos que comiam a sua carne. Quando ela retornou, puxava um aspirador industrial, e sem dizer nada, gastou dez minutos retirando a água vermelha que havia ficado dentro da picape.

— Dez milhões — ela falou.

— Dez?

— Deu no rádio. Por aí, arredondei pra dez.

— Tanto assim?

— Nãhh, eles mentem. Não deve ser tanto…

— Uns sete?

— Nãhh, vai saber…

— Sete é bom… — eu disse.

Os porcos no cercado guinchavam e competiam pela carne de Santiago. Ela entrou novamente na lojinha, recolheu as coisas que eu havia tirado das prateleiras e pôs tudo numa sacola, depois sumiu. Foi quando peguei a minha arma. Eu não conhecia aquela morena bonita e fiquei ligado. Ela era cheia de decisão, sabia o que fazia, aí pensei, Nem Deus sabe o que uma mulher é capaz de fazer. Lembrei do canivete na mão errada de Santiago. Ele ia morrer mesmo, então não liguei pro que teria acontecido no escuro entre ela e Santiago.

Quando retornou, ela não vestia mais o uniforme azul folgadão e sujo de graxa. Estava bem arrumada e tinha um corpo bonito, toda faceira. Tinha cadeiras largas como eu havia imaginado. Encheu os lábios de um batom vermelho e quando passou por mim sorriu; estava animada. Sentou-se no assento da frente, no banco do carona da picape. Desceu o espelhinho do para-sol e ajeitou com a mão os cabelos e a gola da blusa de bolinhas bonita que vestia. Tinha no pescoço um colar de búzios, brincos de argola e uma fita de cetim vermelho enfeitando os cabelos penteados. Nas bochechas um rouge, no corpo um cheiro bom de gardênia. Retocou mais uma vez o batom e afinou as sobrancelhas com a ponta dos dedos. Ficou me aguardando.

Então entrei no carro, liguei a ignição e peguei a estrada na direção Sul como havia planejado com Santiago.

— Acredita? Ganhar por dia o equivalente a um quilo e meio de pão… — ela disse.

7 comentários em “Um Quilo e Meio de Pão (Cherozo)

  1. Angelo Rodrigues
    17 de setembro de 2021

    13 – Um Quilo e Meio de Pão

    Conto interessante. Passeia pelas ideias que têm dois assaltantes de banco que se puseram em fuga. Talvez em seu segundo ou terceiro veículo buscando iludir aos policiais.
    Quando param para abastecer num posto de combustíveis, aparece o contraponto da história: a morena bonita.
    Nesse ponto há um corte no drama. Não é mais o assalto que importa. A morena importa.
    Ganhando apenas o equivalente a um quilo e meio de pão por dia, ela vê uma boa oportunidade de mudar de vida. E o faz.
    Seu primeiro ato é eliminar o comparsa, que já está ferido dentro do veículo, o tal Santiago, cara durão mas, naquele momento, bastante vulnerável. Então ela o mata quando corta a corda do torniquete, deixando que ele sangre até morrer.
    O segundo passo é passar ao nosso co-protagonista a ideia de mulher decidida, e o faz levando Santiago aos porcos.
    A partir desse ponto o conto ganha outros contornos. Fala da vontade feminina, da capacidade que uma mulher tem de cometer um crime, de resolver a vida quando a oportunidade lhe parece boa.
    O nosso assaltante vivo gosta dela e seguem ambos formando uma nova dupla, agora com um bom dinheiro na mala da picape. O que virá adiante? Quem pode saber?
    Um conto interessante, que deixa para trás a ideia do crime para chegar a valores sociológicos das personagens.
    Boa sorte no desafio.

  2. Elisa Ribeiro
    16 de setembro de 2021

    Dois sujeitos em fuga após um assalto a um banco, nem tão bem sucedido, encontram uma frentista gostosa que muda o destino da dupla.

    Gostei do enredo do seu conto, que tem uma reviravolta bem urdida e personagens cativantes em seus cinismos tão afeitos ao tema do desafio. Entretanto, algumas de suas escolhas narrativas me desgostaram. A retórica circular do personagem narrador, que nunca vai de um ponto a outro sem se demorar e repetir em um nível cansativo, me incomodou. A sensação foi a de que o autor, de posse de sua boa inspiração para enredo e personagens, se preocupou mais em alcançar o limite de palavras do desafio do que em oferecer a melhor experiência de leitura para os que o lemos. Outro incomodo foram alguns deslizes gramaticais. Durante a leitura pensei “ok, dão verosimilhança ao personagem narrador” mas ao final acabei reputando-os mesmo a falhas de revisão do autor.

    Finalizo sugerindo uma boa revisão do texto, pois a sua história e seus personagens merecem uma segunda chance.

    Parabéns pela participação. Desejo sorte no desafio e em tudo mais. Um abraço

  3. Marcia Dias
    14 de setembro de 2021

    Após o roubo de um banco, o protagonista para num posto para abastecer o carro e relembra o ocorrido, enquanto seu comparsa está baleado e quase morrendo no banco de trás. Depois o foco da narrativa se volta para a frentista que “rouba a cena” e a atenção do leitor. História envolvente, com linguagem e ações bem desenvolvidas e apropriadas para o tema. Há uma certa “bondade” no fora da lei, que não gosta de atirar para matar, apenas para despistar e fugir. Também não quer assaltar o pobre, mas o banco! Quem nunca quis assaltar um banco e enfrentar os agiotas da lei do mercado que a usam para justificar seus juros corruptos e abusivos sobre nós, rs?!

  4. Andre Brizola
    14 de setembro de 2021

    Olá, Cherozo!

    Seu conto narra um episódio de roubo a banco, em que os meliantes, em fuga, param o carro para abastecer. Vou começar a análise por aí. Os caras não abasteceram antes de ir roubar o banco ou viram uma oportunidade para assaltar e não quiseram desperdiçar? Digo isso por que, das duas maneiras, os bandidos são muito incompetentes. E digo isso com algum conhecimento, pois trabalho em banco e lá temos treinamentos constantes para evitar os métodos mais praticados pelos atores de assaltos assim, além de conhecer bem como funcionam os sistemas de segurança exigidos por aqui. Talvez, se seu enredo fosse em outro país, a coisa ficaria mais crível, mas como é aqui, sinto dizer, está bem inverossímil.

    Continuando dentro do enredo, e ignorando o que já apontei antes, trata-se mais da tensão entre o assaltante e a frentista do posto. Ele, de certa forma, interessado pela moça, sem saber se é um misto de atração ou desconfiança, e ela sondando o assaltante, vendo ali uma oportunidade de abandonar a vida atual e entrar de cabeça numa mais adequada ao seu comportamento, já que, aparentemente, ela é fria o suficiente para assassinar um bandido, e jogar o corpo para porcos, o que exige uma enorme falta de humanidade, algo beirando a psicopatia. Acho que o mérito do conto é focar justamente nessa tensão crescente entre os dois personagens. É como se fosse um jogo de xadrez, em que cada ação é analisada pelo adversário.

    Mas, diferente do xadrez, acho que o texto ficou bastante desequilibrado. O enredo está ali, cumpre o seu papel, mas a forma como as informações são colocadas geram um certo cansaço, sobretudo porque há repetição constante de nomes, pronomes e termos (corpo, por exemplo) que prejudicam o ritmo da leitura. Acredito que a ideia é interessante, mas a execução deixou a desejar. Não acho que seja meu papel dizer qual o rumo que seu conto deveria tomar, mas acredito que o enredo, que é interessante, se sairia melhor com outra formatação e, provavelmente, com outra escolha de narrador.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  5. thiagocastrosouza
    1 de setembro de 2021

    Conto imprevisível e, no bom sentido, amoral, como um bom texto sobre foras da lei deve ser. Há dinâmica nos acontecimentos e a voz narrativa nos conduz bem pela cabeça do criminoso, sua forma nada ingênua de enxergar o mundo e a maneira pragmática como toma decisões. Ainda que a mulher tenha matado o amigo para conseguir uma parte no dinheiro, naquelas circunstâncias, o melhor seria manter com ela um trato. O trecho dos porcos comendo Santiago enquanto ela realiza o trabalho sujo é magistral; traz movimento para o texto e é cheio de valor simbólico.

    Um conto sujo, cheio de urgência e cinismo. Parabéns!

  6. antoniosbatista
    30 de agosto de 2021

    Um quilo e meio de pão

    A narrativa é razoável, o enredo é simples; dois assaltantes de banco fogem da polícia, baleado um deles morre a mulher do posto de combustível se oferece como companheiro do assaltante. Mas a narração é o ponto forte, se mantém coesa e não perde o fio condutor. As descrições do banheiro foram muito boas. O autor sabe conduzir bem os personagens, só achei estranho todos eles serem grandes e largos. A mulher é um personagem interessante, é larga e ao mesmo tempo um balão murcho rs. Boa sorte.

  7. Emanuel Maurin
    29 de agosto de 2021

    O conto e bem expressivo e forte e tá bem estruturado. Os diálogos estão razoáveis e a narrativa flui. ” ainda que o achasse ele estranho”, nesse trecho acho deveria tirar o O ou o Ele, mas é um errinho besta, nada que desmereça o talento do autor.

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Informação

Publicado em 29 de agosto de 2021 por em Foras da Lei.