EntreContos

Detox Literário.

FIAT LUX (Costela de Eva)

Ela aperta os olhos como se quisesse enxergá-lo melhor. Os hormônios escapando pelos poros, a juventude corroendo qualquer bom senso. Jovens são sempre felizes, não são? Do jeito deles, de um modo que o arrastão da vida não perdoa.

Dez meses mais velha, cinco centímetros mais sóbria, vinte quilos menos perceptível. Ele com um nome que ela não entende direito. Parece estrangeiro, mas sua risada tem sotaque carioca. São muitas consoantes e nenhum sentido. Se o destino tivesse aquele som, teria de ser reescrito linha por linha.

A moça tem pressa. Já teve medo e ainda guarda poemas em gavetas. Esconde seu eu lírico lá no alto de suas expectativas, no espaço entre os seus complexos e dúvidas. Cita Bukowski esperando que ele a admire pela inusitada escolha. Nem ouve. Escuta outros sons, agudos loiros, timbres esguios e decadentes.

─ Me chamo Eva.

─ Ah, tá…

E ele sorri. Tem aparelho nos dentes e cerveja no olhar. Diz que vai embora porque a festa está chata e não tem tempo a perder. E ela pensa “será que esse garoto tá morrendo?”

Mas ele está vivo, de um jeito que até então Eva não se deu conta. Até o conhecer. Aí tudo parece fazer sentido. Diz que se chama Adamastor, mas todos o conhecem por Adam. Ela acha graça da coincidência dos nomes. Não entende porque ele começa a falar de aparições no céu, naves que cruzam órbitas, seres que brilham no escuro. Os amigos em volta riem, dizem que o rapaz não tem jeito, vai acabar sendo internado.

A festa estende-se para as areias mais próximas. Apenas para os dois. Não é o tipo de diversão que ela procura, mas sente-se atraída pela aglomeração de estrelas cadentes que vê no olhar daquele menino. O amanhecer já se insinua no horizonte, ela pensa em tirar a blusa.

Recusa o baseado que o rapaz enrola bem na sua frente. Sentam-se na areia em frente ao mar, só para fazer hora como um agrado à lua que se despede. Sente frio, ele ri dela. Diz que o seu cabelo parece pegar fogo, assim nas primeiras luzes do dia. Mas ela não tem mais certeza se é dia ou se é noite. Faz piada de si mesma e das metáforas ruins que quer dividir com ele.

Então chega o amigo que ela também conhece, aliás, mais do que deveria. Conhece antes daquele nascer do sol. Olham para o rapaz que parece alto demais, e ela se vê querendo que ele vá logo embora. Não lembra nem do nome. Que leve com ele o nome, o cabelo comprido, a tatuagem de tigre no braço direito, o sorriso que esconde segredos, como o breve passado que compartilharam semanas atrás.

Pela primeira vez, vê o rapaz de aparelho nos dentes hesitar. Mergulha o resto da maconha na areia. Será que ele sabe? Há um quê de medo em seu toque, vontade de agarrar o que ainda não existe. Ela está lá ao seu lado, mas ele nem vê por onde avança o seu olhar.

O outro se vai e ela então se lembra do nome. Alexandre, o grande… engano.

Ela quer fingir que estão em outro lugar e apreciam o último nascer do sol do planeta. Eva quase chora. Ele não a quer ali. Tem certeza de que nunca irão se ver. Também deveria preferir assim.

Seis meses depois, esbarram-se em outra festa chata e ela reconhece o estranho encantamento que a puxa para aquele olhar. Trocam cumprimentos confusos, impressões de um encontro que não havia terminado para nenhum dos dois.

─ Achei que você não tinha ido com a minha cara.

Adam ri, e ela vê que o rapaz não usa mais aparelho nos dentes. Seu sorriso sem amarras de aço parece mais feliz. Acha bonito, quer beijar aqueles lábios.

─ Eu estava com raiva.

─ De mim?

─ Do Alexandre… Por que ele e não eu?

Fica corada, tem certeza de que sim. Sorte que ele não percebe, pois baixa a cabeça e risca a areia com os dedos do pé. Se fosse verdade, ela seria a rainha má?

─ Vai ter uma festa lá em casa… Meu aniversário. Pode ir?

─ Quando é?

─ No próximo sábado…

Ela não diz nada. Fica olhando, esperando por algum sinal que justifique aceitar aquele convite. Trocam números de celulares. Ela não liga. Ele também não. Mesmo assim, ela resolve ir.

E aí tudo começa. O princípio de tudo, a criação. O Big Bang do relacionamento.  

A vida desenrola-se como uma narrativa, um memorial herdado, uma tentativa de se fazer ler. Talvez porque os anos seguintes furtem qualquer memória. Debaixo do céu, do pano tingido por cores diversas, percorre-se trilhas por todas as palavras de alguém que talvez muitos chamem de Deus.   

─ Tem certeza?

Ela balança a cabeça de forma afirmativa, embora queira negar.

─ Então, a gente…

Silencia antes de completar qualquer raciocínio. Não reflete de fato, só deixa os pensamentos rebaterem nas paredes do seu crânio. Gosta de surpresas, de novidades, mas tudo é novo demais para ele.  

Não se ouve mais nada. A ausência de sons cobre todas as camadas de perspectivas. Têm todo o futuro pela frente, aliás é só o que têm, tempo.  Cronos determina a ordem dos capítulos. Primeiro, faz-se a luz, e as trevas, que antes orbitavam em volta de um só sol, ganham um novo sentido.  Inaugura-se o princípio das eras, e como não é bom que andem sós e a sós, com nova companhia contarão.

Talvez Eva não caiba nos planos de Adam, e provavelmente jamais se contente em ser um simples apêndice entre costelas. Talvez formem o primeiro casal vivendo em um universo inteiro de indagações, probabilidades de desacertos e traições, tudo fora do padrão.  Ou, talvez, não.

O espaço e o tempo sopram grãos organizados em montes, um ao lado dos outro, dando a impressão de continuidade, de perpetuação de uma espécie. Não há uma singularidade, mas o grande encontro de um universo anterior, a liberdade em colapso, que se abre ao caos como um buraco negro.

Assim, o universo é parte de um multiverso constituído de inúmeros outros, que se afastam, expandem, se chocam e recomeçam. O processo criativo consiste em uma ideia primeira e pulsante, fragmentada em etapas. A luz, primeiro comando que separa tudo da crescente escuridão, traz o preto no branco do papel: positivo.

No momento indeterminado de uma noite de abril, a existência exige regalias. Aqui, os céus e a terra, o nada e o redemoinho das águas procuram alento ao caos.   

─ Mas agora?

─ O que que tem? Não estou querendo nada tão esquisito assim…

─ Empadão de palmito?

Ela arregala os olhos e espera que ele se levante e vá providenciar o sustento das suas entranhas gestoras.  Adam se descobre do lençol e da ilusão de ser dono do seu destino. 

O ultrassom revela o caos produzido por duas células, a vida conduzida ao estado de aglomeração formando uma imagem difusa em tom sépia, algo que se insinua quase humano.  Eva chora, Adam pega sua mão e a beija. Suas lágrimas escorrem por dentro, mas ele está pronto para negar.

O médico olha para o casal. Parecem jovens demais. São jovens demais. Não sabem se devem receber aquela criação com poesia ou prosa. Desconhecem seus próprios gostos e a agudeza do paladar do que virá. Apenas aguardam a surpreendente e intempestiva visita.

A gestação define-se como um substantivo feminino, substância, subjetivo ato ou efeito de criar, de retirar do nada a criação de um mundo. E navega entre as dúvidas de outros seres criados, as maravilhas da imaginação. Aquilo que produzem se tornará algum dia obra concreta. Não há mais espaço para licença poética ou rascunho de um novo invento. E a cada dia, exige-se mais do casal, solicita-se ação de formar, criar, fundar.

E acontece a formação, fundação sem narrativa.

─ E o nome?

─ Valentina se for menina, e Enzo para menino.

─ Enzo?

Ele coça a cabeça, aliviado por não ser Alexandre o nome escolhido. Preocupa-se agora mais com o preço das fraldas do que com a pouca originalidade da escolha de Eva.

Não discutem sobre nada. Nem nomes, nem crenças. Fogem de todo conceito teológico, dos tentáculos religiosos e das correntes filosóficas. Intuição, sentidos mais alertas, apontam para a inevitável questão: que universo será formado a partir da decisão que tomaram de deixar existir a criação?

O Universo continua em constante expansão.

A placenta enche-se de líquidos, protegendo a vida entre as paredes do útero, e assim ocorre a separação entre águas e carnes. Cria-se um esconderijo seguro, o novo lar, onde se pode crescer em paz. Produzem-se novos sintomas e exames se repetem, receitas voam acima da mesa, e os futuros pais procuram manter perspectivas otimistas.   

O ventre só abriga a porção de terra seca quando o esqueleto se forma.  Juntam-se ossos em alinhamento entre as águas que estão por todos os lados. O organismo que gesta impulsiona órgãos, sangue e fluídos a fornecerem alimento reprocessado de ervas, plantas e frutos ─ Eva é vegana convicta. Com a suplementação receitada pelo médico, o corpo produz a terra prometida, o leite que enche os seios, e alterações como pequenos soluços passam a ser bem-vindas.

Para separar a escuridão e marcar dias, meses e estações, surge o calendário na porta da geladeira. Lá contam-se as semanas, e circulado está o dia do provável nascimento. Dois grandes investimentos são criados ─ uma poupança pelos avós maternos e a aquisição do berço por uma tia esquecida, mas abonada. O pai fita as luzes no firmamento do quarto do bebê, e aguarda impaciente que se faça a separação entre os corpos.

De repente, há mais do que simples contrações de treinamento. Agora é mesmo para valer. O útero ainda retém o oceano de fluídos agitados como se um mundo se enchesse de criaturas vivas e pássaros voassem pelos céus. Eva produz sons cada vez mais audíveis que se amplificam como suas dores. O frutificado ventre multiplica espasmos e esvazia-se de mares com a ruptura da placenta.

─ Respira, amor, respira

─ Cala a boca ou juro que te mato!

Adam silencia sua ajuda e prefere apoiar a parceira de forma não verbal, evitando novas ameaças. Eva sente suas carnes se abrirem como águas do Mar Morto sob a regência do cajado de Moisés.

O médico passa a comandar o jogo da vida, instruindo a jovem no trabalho de parto. Há crescente pressão contra o assoalho pélvico da mãe. Eva em nada lembra as mulheres, também tocadas pelo pecado original, que conseguem parir quase em silêncio, como animais domésticos. Transmuta as dores, vira animal selvagem, fera sem comando algum. Cria, então, seus próprios mandos, o ser primata dentro dela reage à própria imagem e semelhança.

─ Anestesia! Agora, já!

O médico pensa em insistir no parto natural, sem o auxílio de drogas, afinal ela é tão jovem e, certamente, dará conta do recado sem problemas. Mas ao olhar para aquele rosto contorcido de dor, cala-se e solicita ao anestesista a aplicação do sedativo. Eva se vê entre peixes no mar, sob nuvens rosadas, ao lado de aves no céu, e observa o tempo arrastar-se como réptil sobre a terra.

Em poucos minutos, sem a relevância de quem ou do que seria o mais adequado, as dores diminuem, e a criação dá sinais claros de estar pronta para a estreia.  A terra mãe, sujeita à turbulenta gestação e às agruras do parto, consegue lidar com corpo e alma, domando tormentos… Ah, bendita anestesia!

Um grito, um empurrão feito explosão, e a vida jorra entre as pernas.  

─ Enzo?

Em lágrimas, Adam batiza o filho.

O médico, satisfeito, descreve a criação como “muito boa”.  Todos concordam.

Minutos depois, a movimentação cessa. Há silêncio e paz. No leito hospitalar, a mãe descansa e abençoa o dia.

É domingo.  

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.